De: Kaouther Ben Hania. Com Motaz Malhees, Saja Kilani, Clara Khouri e Amer Hlehel. Drama, Tunísia / França / EUA, 2025, 89 minutos.
"Vocês acham mesmo que a voz desesperada de uma criança vai despertar a empatia deles?". Vamos combinar que a pergunta feita pelo socorrista Omar (Motaz Malhees), perto do terço final de A Voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab), é de uma franqueza excruciante. Àquela altura, tanto Omar quanto Rana (Saja Kilani) e a terapeuta Nisreen (Clara Khouri) parecem já exaustos, incomodados, desesperançosos. Gritam entre si em meio a um estresse alarmante - e não poderia ser diferente, como integrantes do movimento internacional humanitário Crescente Vermelho que, ali, atua junto à Faixa de Gaza. O período é o início daquela que ficaria marcada como uma das mais violentas e desmedidas ações militares de nossos tempos - a do genocídio perpetrado pelo exército de Israel contra o povo palestino. Milhares de pessoas morreram. Milhares de CRIANÇAS morreram. E seguem morrendo. A voz desesperada de uma criança é só mais uma, tentando despertar empatia entre sionistas que pregam a barbárie.
Só que há uma diferença no ótimo filme de Kaouther Ben Hania - dos excelentes A Bela e Os Cães (2017) e O Homem Que Vendeu Sua Pele (2020) -, que é o enviado da Tunísia à categoria Filme Estrangeiro no Oscar desse ano e que está em cartaz nos cinemas. Aqui, a voz abafada, chorosa e suplicante que ouvimos do outro lado de telefone não é a de alguém interpretando. De uma criança fazendo de conta. A voz é a da Hind Rajab real, uma criança de seis anos que implora por ajuda durante horas, após um ataque das forças militares de Israel dizimar os corpos dos tios e dos primos da pequena (que estava em um carro em um espaço ocupado). Do outro lado da linha, Omar e Rana se revezam ao telefone para, na medida do possível tentar tranquilizar a menina, em meio a um cenário em que não há nada tranquilo. Bombas seguem explodindo no entorno. Os barulhos de tiros emergem do nada. Hind tenta se esconder ao mesmo tempo em que suplica aos socorristas: "por favor venham me buscar. Estou com medo. Eu imploro".
E, sinceramente, um filme como esse é um tapão na cara da nossa sociedade, que segue assistindo passivamente os atos violentos de Netanyahu e sua gangue, sob a desculpa de estar em busca de integrantes do movimento de resistência Hamas. Aliás, não é preciso ir muito longe para saber que os repetidos cessar fogo ou qualquer outro tipo de movimento no sentido de encerrar a guerra - como no caso da bizarra criação do tal Conselho de Paz, perpetrado pelo ditador dos Estados Unidos Donald Trump -, não passam de fachada. As mortes de civis seguem a rodo. Com dados como os da organização Save The Children revelando o pior: que talvez 20 mil crianças tenham sido assassinadas nos últimos anos. Muitos bebês. Não há distinção para quem propõe limpeza étnica. O desespero de Omar, relatado no começo dessa resenha não é por acaso. Ninguém se sensibilizará com uma criança aos prantos, pedindo clemência em meio aos destroços do que resta de um veículo. Ou do que resta da geografia de um País.
E como se esse conjunto todo não fosse absolutamente horroroso, o trio central de socorristas - Nisreen tenta equilibrar as coisas como a voz plácida de uma terapeuta - ainda precisa lidar com as burocracias simbolizadas em tela por Mahdi (Amer Hlehel), que é o responsável por enviar as ambulâncias aos locais dos chamados. O que só será possível após um longo período de negociações em que entidades como a Cruz Vermelha, secretarias de saúde e os governos dos países cheguem a algum acordo que autorize a ação. O angustiante mapa que insiste em ser exibido na tela, mostra que há uma ambulância a apenas oito minutos de distância de onde está Hind - junto a um posto de gasolina. Mas há os protocolos. As decisões não podem ser intempestivas, sob risco de os próprios socorristas serem bombardeados. Mesmo em uma ambulância identificada. A situação é tensa - com a angústia crescente parecendo longe do fim. Infelizmente a gente meio que já sabe como essa história acaba. E obras como essa podem ajudar a dar visibilidade para o tema - que segue urgentíssimo.
Nota: 8,5

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