De: Richard Linklater. Com Ethan Hawke, Andrew Scott, Margaret Qualley e Bobby Cannavale. Drama / Biografia, EUA, 2025, 100 minutos.
"Ele era alerta, dinâmico e divertido". "O homem mais triste que já conheci". Vistas nos letreiros iniciais do ótimo (e verborrágico) Blue Moon: Música e Solidão (Blue Moon), que está disponível pra aluguel nas plataformas da Amazon e da Apple TV, as frases acima podem passar meio despercebidas pra quem acaba de dar o play no mais recente filme do diretor Richard Linklater. Ditas, respectivamente, pelo diretor e produtor de teatro Oscar Hammerstein e pela cantora de cabaré Mabel Mercer, as contraditórias sentenças referem-se a mesma pessoa - no caso o letrista e compositor da Broadway Lorenz Hart que, aqui, ganha vida em interpretação marcante de Ethan Hawke, que foi indicado ao Oscar pelo papel. Hawke encarna Hart como a figura ao mesmo tempo amargurada e ressentida, genial e debochada - o que o coloca como um sujeito ao mesmo tempo carente e sem autoestima, mas também confiante e irônico.
Hart por muito tempo foi parceiro do compositor Richard Rogers, com quem escreveu, entre os anos 30 e 40, uma série de peças musicais de sucesso, como The Lady Is a Tramp, My Funny Valentine, Babes In Arms e a canção que dá título à obra de Linklater - aliás, a melodia tristíssima da composição, somada a letra melancólica sobre solidão, parecem ser bastante significativas. Não por acaso, a produção começa pelo final - e até onde se pode depreender do filme, a morte trágica de Hart, após complicações decorrentes de uma severa pneumonia, ainda é envolta em certo mistério. Alcoolista e com forte propensão à depressão, Hart tinha comportamento errático. Sumia por semanas sem dar notícias, o que deixa Rogers (Andrew Scott) exasperado. Tendo de buscar outras alternativas de parceiros criativos, como o jã citado Hammerstein (Simon Delaney).
Aliás, a madrugada em que toda a ação de Blue Moon se passa é justamente a da noite de estreia de Oklahoma! - uma peça nostálgica (de um tempo que supostamente nunca existiu), agridoce e ingênua que, nos anos posteriores à depressão estadunidense parece pronta pra cair nas graças do público. E até da crítica. Só que Hart está irritado. Esse é o primeiro material entregue por Hart e Hammerstein, o que deixa o homem amargurado. Melindrado. E até rancoroso. O que não o impede de ir até o Sardi's, restaurante de Manhattan famoso por receber figuras ilustres ligadas ao cinema e ao teatro, onde haverá uma celebração por conta da noite de abertura. Hart chega antes de todo o mundo e, familiarizado com o local, troca figurinhas com o carismático barman Eddie (Bobby Canavalle), alternando assuntos aleatórios sobre a sua própria (e difusa) sexualidade - "sou um omnisexual" -, a respeito de sua nova musa inspiradora, uma estudante de teatro de nome Elizabeth (Margaret Qualley), que tem um rosto "etéreo" (de acordo com sua descrição) e sobre o seu próprio futuro no mundo das artes.
Não é por acaso que esse preâmbulo que antecede a chegada de Rogers, Elizabeth, Hammerstein e os demais - que converterão aquela madrugada em uma espécie de noite da festa de aniversário de A Malvada (1950) - seja tão saboroso. A coisa quase beira ao cringismo, com Hart colocando a jovem Elizabeth em um pedestal, ao alegar que tem uma relação extrassensorial com a jovem, que bem podia ser sua filha. "É o prelúdio de uma transa", argumenta, enquanto se comporta de forma desajeitada frente aos encantos de sua mais nova amada. Com 1,50m de altura, uma semicalvície e uma arrogância que denuncia certa ausência de dignidade, o protagonista ocupa basicamente todos os frames, indo e vindo pelo ambiente, conversando com outras figuras conhecidas e contemporâneas, como no caso do escritor E. B. White (Patrick Kennedy) ou o futuro diretor de cinema George Roy Hill (David Rawle) - e não deixa de ser interessante descobrir os easter eggs que podem estar presentes nos diálogos descompromissados deles. Aliás, o diálogo é o forte aqui. É ele, basicamente, que faz a coisa escalar. E quase fugir do controle. É ele que inicia e termina. Mais ou menos como foi a vida de Hart. Que tinha na palavra o seu maior trunfo.
Nota: 8,0

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