segunda-feira, 16 de março de 2026

10 Considerações Sobre a Cerimônia do Oscar 2026

Finalmente o Oscar aconteceu e passamos a régua oficialmente na temporada de premiações - e, aqui, algumas considerações sobre a cerimônia ocorrida na noite de ontem.

 


1) Bom, antes de mais nada parece até papo de perdedor o fato de termos tido quatro indicações (ou cinco, se somarmos o fotógrafo Adolpho Veloso por Sonhos de Trem), mas o caso é que a grande maioria das projeções indicava meio que exatamente o que aconteceu. Em nenhuma das categorias éramos, de fato, favoritos, por mais que mantivéssemos a torcida e o sonho de pé, Timothée Chalamet perdeu espaço, mas o Michael B. Jordan tinha crescido na reta final. Valor Sentimental nunca deixou de estar um passo a frente com suas nove indicações e uma campanha sólida para conceder o primeiro Oscar da história à Noruega. Sobre o elenco, o nosso é lindo e talvez merecesse o reconhecimento. Mas vocês acham mesmo que na primeira vez na história o prêmio iria para algum filme que não fosse de Hollywood? No mais, valeu a festa, a torcida e, principalmente, a visibilidade para o nosso cinema, que alcança muitos públicos, se consolidando como um polo forte de cinema, como sempre fomos na verdade. Ah, e não dá pra esquecer que temos o molho. E quem tem o molho NUNCA PERDE!

2) Não sei se vocês ficaram com essa impressão, mas por mais que estivéssemos torcendo alucinadamente por O Agente Secreto, me pareceu como um todo uma cerimônia meio morna do ponto de vista do impacto mesmo. Por gosto pessoal, não acho que o Conan tenha a acidez na medida certa de um Jimmy Kimmel - tanto que, quando ele entrou no palco, fez uma das melhores piadas da noite. Não é que precisasse ser um show de fundo político, mas os Estados Unidos vive meio que um caos permanente desde a entrada do laranjão para o segundo governo e, onde estavam os nossos astros protestando? Tirando uma onda? Batendo de frente? Sim, sei que teve brochezinho fuck ICE e, aqui e ali, alguma piada sobre, mas eu achei foi pouco. Menos mal que os vencedores de categorias menores fizeram o trabalho de lembrar que uma premiação com tanta visibilidade, também é oportunidade para colocar o dedo na ferida.

3) Também foi uma cerimônia meio que sem grandes surpresas. Nas categorias de atuação, por exemplo, as bolsas de apostas meio que acertaram a respeito dos vencedores. O mesmo valendo para roteiro, direção, filme em língua estrangeira, animação e diversas técnicas. Nesse sentido, os bolões podem ter sido meio sem emoção, já que todo mundo votou meio igual. Pra não dizer que foi tudo previsível, a vitória de Mr. Nobody Against Putin em Documentário não era esperada. Ainda que essa seja uma das categorias mais estranhas do planeta, com ausências inacreditáveis e vitórias historicamente improváveis.

4) Ainda sobre as categorias de atuação, entre os bons momentos da noite acho que dá pra incluir a vitória da carismática Amy Madigan, por A Hora do Mal. Eu até não morro de amores por esse filme, mas é sempre legal quando uma obra meio que quebra a lógica e vai ganhando força no transcorrer da temporada - desbancando outras que teriam mais força ou mais apelo. Ok, ela parecia meio atrapalhadinha na hora dos agradecimentos, mas ficou a impressão de que a própria Academia deu a ela um tempinho a mais pra se organizar nas falas.

5) Ponto altíssimo da noite, a apresentação da canção I Lied to You, de Pecadores, com todo o aparato musical de uma grande apresentação. O filme de Ryan Coogler, aliás, venceu quatro estatuetas, contra seis de Uma Batalha Após a Outra, que pode ser considerado o grande campeão da noite.

6) Sinceramente, uma coisa que não simpatizo muito na premiação, é essa coisa de que tudo meio que tem de virar um teaser, um produto ou uma propaganda para algo que está por vir. É Anna Wintour no palco pra lembrar o público sobre O Diabo Veste Prada, é os atores da Marvel fazendo teatrinho sem graça, aludindo aos filmes ainda mais sem graça. Eu sei que tudo ali não passa de um negócio, no fundo, mas acho que seria mais orgânico sem esse tipo de coisa. Já as piadinhas sobre uso de IA e outras tecnologias, especialmente aquela parte em que houve um deboche com as irritantes interrupções do Youtube, que deve transmitir a premiação a partir do ano que vem (ou isso também era piada?), gostei demais!

7) Todo o mundo falou dos esquecimentos bizarros do In Memorian, mas verdade seja dita: a forma como essa parte transcorreu desta vez foi bem bonita, com ex-companheiros lembrando de algumas personalidades que se se foram (sendo o destaque os 17 atores que trabalharam com Rob Reiner). Aliás, foi um ano de perdas de grandes astros, como Catherine O'Hara e Robert Redford, então é justo que essa parte tenha sido mais "engordada". 

8) Importantíssimo momento da noite: a vitória de Autumn Arkapaw, que se tornou a primeira mulher negra a vencer o Oscar na categoria Fotografia (e foi comovente ver ela pedindo para as mulheres da sala se levantarem). Seu discurso foi poderoso, assim como o de outras vencedoras, como Jessie Buckley.  

9) Continua sendo absolutamente estranho o hábito da Academia de subir o som para que as pessoas se retirem do palco em meio aos discursos, especialmente nas categorias menores. Foi constrangedor o que rolou com a galera de Two People Exchanging Saliva, que praticamente foi expulsa do palco à força. 

10) O lance de um novo meme do DiCaprio? Ok, legalzinho. Que é o saldo dessa premiação. Apenas legalzinha. E ano que vem tem mais! 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Quem Ganha o Oscar 2026?

Verdade seja dita que a safra não parece estar das melhores, com muitos filmes apenas médios na disputa das estatuetas do Oscar 2026 e um favoritismo meio generalizado para Uma Batalha Após a Outra e Pecadores nas categorias centrais. Como brasileiros, inevitavelmente o nosso foco estará nas categorias em que O Agente Secreto está indicado - ainda que muitos dos nossos especialistas estejam pouco otimistas em relação a alguma vitória. Por mais que uma coisa seja as previsões e as premiações prévias e a outra seja a vida real - e não dá pra negar que a nossa campanha, capitaneada por Kléber Mendonça Filho e Wagner Moura foi um show de carisma. No mais, consegui assistir a grande maioria das obras indicadas desse ano, o que permite aquela análise racional, sem ignorar o coração, já que uma coisa é jogar no bolão e outra é apontar aquele que amamos de verdade. Enfim, o Oscar é domingo, a Globo mudou toda a grande de programação para a exibir a maior premiação do cinema, e o TNT e a HBO Max também transmitem, como de costume (fora as tantas lives País afora envolvendo influenciadores e entendidos da área). Enfim, será uma experiência legal e estaremos atentos.

 


 

 

FILME

Uma Batalha Após a Outra passou o rodo nas premiações prévias, levando inclusive as prestigiadíssimas estatuetas do PGA (Produtores), do DGA (Diretores), do WGA (Roteiro Adaptado) e do ACE (Editores em Comédia) - o que o coloca como amplo favorito. Só que de uns dias pra cá teve início um burburinho sobre uma possível virada de Pecadores pra cima da obra de Paul Thomas Anderson, o que é reforçado pelas conquistas no SAG (Atores), no WGA (Roteiro Original) e no Bafta (Roteiro Original) e o ACE (Editores em Drama). Ainda assim, o peso de uma possível vitória pende pro lado de Uma Batalha..., já que outras conquistas, como o Critics Choice e o Bafta - ambas na categoria central - reforçam essa tese. Eu queria poder dizer que O Agente Secreto tem chance? Queria. Mas é um sonho bem distante e se configuraria como uma zebra histórica. Ainda que no Gold Derby sejamos o quarto colocado entre os possíveis favoritos (vai Brasil!).

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: O Agente Secreto (mas vou adoras se Pecadores faturar) 

 

DIRETOR

Nessa categoria quase dá pra cravar, sem medo de errar, que finalmente chegou a vez de Paul Thomas Anderson vencer - e as prévias, especialmente com a conquista no DGA, reforçam essa tese. O fato de Uma Batalha Após a Outra ter força como um todo nas premiações anteriores também contribui para essa percepção. O único que poderia desbancar Anderson seria Ryan Coogler, de Pecadores, mas no Gold Derby há uma percepção de que isso dificilmente vai ocorrer. Em termos de torcida eu estaria com o segundo, até porque os demais indicados não me empolgam.

Ganha: Paul Thomas Anderson, por Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Ryan Coogler, por Pecadores 

 

ATOR

Até umas duas semanas atrás, tudo indicava que o Timothée Chalamet iria levar a estatueta pelo seu papel no insosso Marty Supreme - o que era reforçado pelas vitórias no Critics Choice, no Globo de Ouro e em outras prévias. Mas aí o Michael B. Jordan venceu o SAG, surpreendendo geral. E o Chalamet foi cancelado após falar merda. Será que vem aí uma virada histórica? No nosso caso, evidentemente estamos torcendo pelo Wagner Moura, o que é considerado uma zebra, por mais que algumas publicações estrangeiras apontem para essa possibilidade - e o Globo de Ouro em Drama, verdade seja dita, nos deixou cheios de esperança. Talvez o sistema de votação possa auxiliar no sonho - lembrando que os votantes escolhem do quinto ao primeiro os seus preferidos, sendo feita uma média. Mas até lá é só um sonho mesmo. Meio distante.

Ganha:  Michael B. Jordan por Pecadores

Na torcida: Wagner Moura, por O Agente Secreto 

 

ATRIZ 

Aqui parece estar uma das barbadas da noite em matéria de bolão, já que a Jessie Buckley com cara de choro em modo permanente em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, passou o rodo nas prévias, com vitórias no SAG, no Bafta, no Critics e em outras premiações importante. Como eu sou um Emma Stoner de carteirinha, a minha torcida secreta é por ela e por seu ótimo papel no subestimado Bugonia. Mas é só pra brincar de torcer mesmo, já que a única que poderia desbancar Buckley seria a Rose Byrne por sua caracterização no ótimo Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria.

Ganha: Jessie Buckley, por Hamnet

Na torcida: Emma Stone, por Bugonia 

 

ATOR COADJUVANTE

Nessa categoria ao que tudo indica a estatueta vai pro Sean Penn por Uma Batalha Após a Outra porque, inclusive, é merecido, já que ele está absolutamente irritante e nojento como um oficial de tendências fascistas (e misóginas). Aliás, o ator rapou as premiações prévias vencendo o SAG, o Bafta, o Globo de Ouro e outras. Claro que nesse bolo todo poooode pesar um componente afetivo em favor do Stelan Skarsgard por Valor Sentimental, já que o veterano, além de ter mais de cinquenta anos de carreira, ainda fez um grande esforço de interpretação devido aos problemas de saúde. Seria uma zebrinha mas nem tanto. E correndo por fora ainda tem o Jacob Elordi, por Frankenstein, que faturou o Critics da categoria.

Ganha: Sean Penn, por Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Sean Penn, por Uma Batalha Após a Outra

 

ATRIZ COADJUVANTE

Aparentemente o mundo comprou a ideia de que a Amy Madigan merece a estatueta pelo excêntrico papel no mediano A Hora do Mal. Vá lá, o cinema de terror quase nunca é prestigiado, então seria uma forma de valorizar o gênero. As prévias, com as vitórias no SAG e no Critics dão certo favoritismo. Ainda que Wunni Mosaku tenha embaralhado um pouco a bolsa de apostas ao faturar o Bafta. E tem ainda a Teyana Taylor, que conquistou o Globo de Ouro correndo por fora e aposta na força de Uma Batalha Após a Outra pra tentar uma ultrapassagem na reta final. Em resumo, categoria que tem uma favorita, mas nada definido (o que dificulta o bolão).

Ganha: Amy Madigan, por A Hora do Mal

Na torcida: Teyana Taylor, por Uma Batalha Após a Outra

 

ROTEIRO ADAPTADO

Aqui não parece haver dúvida de que é Uma Batalha Após a Outra na cabeça, ate mesmo por ter faturado praticamente todas as prévias relevantes, incluindo aí o WGA (Roteiristas), o Bafta e o Critics. E o próprio favoritismo à categoria central ajuda a fortalecer essa ideia, já que, em muitos casos, o vencedor em Roteiro, costuma chegar com força para as cabeças. Hamnet corre por fora, mas parece já saber que perdeu com umas doze rodadas de antecipação. A minha torcida? Bugonia, óbvio!

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Bugonia 

 

ROTEIRO ORIGINAL

Vale a mesma lógica do Adaptado aqui, já que Pecadores fez a limpa nas prévias, levando WGA, Bafta, Critics e Globo de Ouro, entre outras premiações. No Gold Derby a percepção de chance de vitória é de quase 97%, então, podem ir sem erro no bolão. E como amo esse filme, vou adorar apreciar essa vitória.

Ganha: Pecadores

Na torcida: Pecadores 

 

ANIMAÇÃO

Aqui temos uma das maiores barbadas da noite, já que o ótimo Guerreiras do KPop chega com tudo, com vitórias nas prévias - como o Annie (Animação, que costuma ser um ótimo termômetro pra categoria), o Critics e o Globo de Ouro -, além de fortíssima campanha da Netflix. E isso sem falar no carinho do público, que simplesmente amou a produção. No Annie, aliás, a obra fez história ao faturar inacreditáveis dez estatuetas. Resumidamente, só um maluco pra não apostar nas meninas no bolão!

Ganha: Guerreiras do KPop

Na torcida: Guerreiras do KPop 

 

FILME INTERNACIONAL

Sim, a gente está obcecado e sonhando com a vitória de O Agente Secreto, mas, de forma racional, é preciso estarmos preparados pra uma eventual derrota, já que Valor Sentimental chega com mais força à reta final (sensação ampliada pelas outras indicações, como em categorias de atuação, por exemplo, além de conquistas no circuito europeu, como os prêmios no Gran Prix e no Júri Ecumênico de Cannes, e a vitória no Bafta). Ainda assim, não custa sonhar: O Globo de Ouro e o Critics ampliaram a visibilidade e a Academia parece já estar sabendo que não existe nada como o carinho da torcida brasileira - pro bem ou pro mal. Então, bora!

Ganha: O Agente Secreto (aqui foi difícil não votar com o coração)

Na torcida: O Agente Secreto

 

DOCUMENTÁRIO 

Mr. Nobody Against Putin até venceu o Bafta da categoria, o que poderia dar uma embaralhada na disputa já que, A Vizinha Perfeita, com toda a campanha e o aparato da Netflix por trás chega como franco favorito, o que inclui a vitória no Critics. No bolão, a disputa não deve fugir desses dois. Já o meu preferido na categoria - Alabama: Presos do Sistema - deve se contentar com o burburinho provocado pela exibição na HBO Max.

Ganha: A Vizinha Perfeita

Na torcida: Alabama: Presos do Sistema 

 

DIREÇÃO DE ELENCO

A categoria é novidade no Oscar, mas uma tradição em outras premiações, como o SAG e o Critics, com ambos tendo sido vencidos por Pecadores, o que o coloca como o favorito. Qualquer coisa diferente disso vai ser surpresa - inclusive a vitória de O Agente Secreto (e, nesse caso, só a indicação já pode ser considerada uma vitória). 

Ganha: Pecadores

Na torcida: O Agente Secreto

 

FOTOGRAFIA

Nessa categoria, o indicativo mais confiável de vitória costuma vir do prêmio ASC (Cinematografia) que, neste ano, concedeu a distinção à Uma Batalha Após a Outra, o que talvez o coloque à frente na corrida - ainda mais se incluirmos outras prévias importantes, como o Bafta, Correndo por fora, Pecadores conta com a primeira indicação para uma mulher negra na categoria (e apenas a quarta mulher na história), com a Autumn Durald Arkapaw. Sobre o brasileiro Adolpho Veloso por Sonhos de Trem, não custa sonhar: ele faturou o Bafta da categoria e pode ser uma boa surpresa (estamos na torcida!).

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Sonhos de Trem 

 

FIGURINO

Por ter vencido o CDG, um dos melhores termômetros para a categoria, Frankenstein larga na frente - e verdade seja dita, se tem algo realmente bom na produção de Guillermo Del Toro é o aparato técnico. O CDG, é preciso que se diga, se divide em duas distinções centrais - filmes de Época e Contemporâneo - tendo Uma Batalha Após a Outra faturado a segunda. Só que Frankenstein também ganhou o Critics e o Bafta e aí ele parece mesmo com o caminho pavimentado para a estatueta.

Ganha: Frankenstein

Na torcida: Pecadores 

 

EDIÇÃO

Aqui um bom termômetro costuma ser o ACE Eddie Awards que concedeu às estatuetas na prévias para Pecadores (Drama) e Uma Batalha Após a Outra (Comédia ou Musical), tendo este último vencido também o Bafta. Já o frenético F1: O Filme faturou o Critics, o que também o coloca como um bom competidor (e é um filme que também se vale muito do aparato técnico). Aliás, como uma das categorias que abre a noite ela pode servir para pavimentar o caminho do que virá pela frente, durante a premiação.

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Pecadores 

 

MAQUIAGEM E PENTEADO.

Frankenstein venceu o Bafta e o Critics e deve ser o grande ganhador da categoria levadas em conta as prévias. E até onde entendi, o Jacob Elordi ficava dez horas na cadeira de maquiagem até ficar apto a interpretar a criatura (nem tão) grotesca. Se for levado em conta esse combo, tá mais do que merecido. E o filme nem é a bomba que as pessoas estão dizendo ser.

Ganha: Frankenstein

Na torcida: A Meia-Irmã Feia (porque adorei esse filme) 

 

DESENHO DE PRODUÇÃO

Aparentemente Frankenstein deve passar o rodo em certas categorias técnicas, o que inclui a vitória em Desenho de Produção. A conquista do prêmio específico do setor (o ADG) na categoria Fantasia, nas prévias, somadas às estatuetas no Critics e no Bafta reforçam essa como uma escolha certeira. Uma Batalha Após a Outra até faturou o ADG em Filme de Época, mas deve ficar pelo caminho. E minha torcida, como não poderia deixar de ser, vai pra Pecadores.

Ganha: Frankenstein

Na torcida: Pecadores 

 

TRILHA SONORA

No Bafta e no Critics deu Pecadores e, levando-se em conta estas e outras prévias, o filme de Ryan Coogler deve vencer a categoria. Aliás, o compositor Ludwig Göransson já venceu anteriormente por Pantera Negra e Oppenheimer, o que também é uma ótima credencial. Ah, e tem uma coisa meio bizarra sobre essa categoria: das últimas 26 edições do Oscar, em 23 quem a venceu, faturou também Melhor Filme. É aguardar!

Ganha: Pecadores

Na torcida: Pecadores 

 

SOM

F1: O Filme faturou o Critics e o Bafta, além de ter ganhado o CAS (Cinema Audio Society). E os especialistas costumam lembrar que esses filmes barulhentos, e que necessitam uma engenharia a mais no setor, sempre saltam na frente. 

Ganha: F1: O Filme

Na torcida: Pecadores

 

EFEITOS VISUAIS

O prêmio de consolação para Avatar: Fogo e Cinzas deve vir nesta categoria, o que é reforçado pelas vitórias no Bafta e no Critics - com o favoritismo ampliado pelo VES Awards. Qualquer coisa diferente disso é meio que uma zebra.

Ganha: Avatar: Fogo e Cinzas

Na torcida: Pecadores 

 

CURTA ANIMAÇÃO

Nas categorias que costumam desempatar bolão é tudo meio imprevisível, ainda que o belíssimo Butterfly pareça estar um passo à frente não apenas pela temática - sobre um nadador que enfrenta o nazismo -, mas também pelo tipo de animação, que mais parece uma pintura que sai da tela. Particularmente o meu preferido é o tocante The Girl Who Cried Pearls que, se for direto ao coração dos votantes, deve ser o vencedor.

Ganha: Butterfly

Na torcida: The Girl Who Cried Pearls 

 

CANÇÃO ORIGINAL

Pelo visto não tem pra ninguém e vai dar Golden, o megahit de Guerreiras do KPop - especialmente após passarem o rodo nas prévias. E, verdade seja dita, eu posso até amar Pecadores, mas essa música é tão grudenta quanto imbatível.

Ganha: Golden, de Guerreiras do KPop

Na torcida: Golden, de Guerreiras do KPop 

 

CURTA DOCUMENTÁRIO

Esse tipo de categoria é outra que costuma pegar o votante pelo impacto e é meio difícil ficar alheio ao poder de All the Empty Rooms (sobre os quartos agora vazios, de crianças assassinadas em escolas dos Estados Unidos). É algo de forte impacto emocional. O meu preferido, ainda assim, é The Devil Is Busy, que fiz até uma pequena resenha abaixo.

Ganha: All the Empty Rooms

Na torcida: The Devil Is Busy 

 

CURTA LIVE ACTION

Nesse ano consegui assistir quatro dos cinco indicados e devo confessar a vocês que amei todos - desde o deboche de Jane Austen's Period Drama, até a tensão provocada por Two People Exchanging Saliva. The Singers tem o aparato da Natflix por trás, ao passo que A Friend os Dorothy é o mais tocante. Quem leva? Arremessa pra cima e sorteia um!

Ganha: Two People Exchanging Saliva

Na torcida: Jane Austen's Period Drama

 

E que venha o Oscar! 

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Curta Um Curta - Duas Pessoas Trocando Saliva (Deux Personnes Échangeant de la Salive)

De: Alexandre Singh e Natalie Musteata. Com Zar Amir Ebrahimi, Luàna Bajrami e Aurélie Boquien. Drama / Ficção Científica, França / EUA, 2024, 36 minutos.

Em um mundo cada vez mais frio e individualista e sobretudo pautado pelo consumo e pelo capital, o curta metragem francês indicado ao Oscar Duas Pessoas Trocando Saliva (Deux Personnes Échangeant de la Salive) imagina um cenário em que beijar na boca é considerado um crime em que a punição é a morte. Um ato subversivo, a ponto de as pessoas mastigarem alho deliberadamente como forma de afastar qualquer fagulha que seja de desejo. Escovas e mesmo as pastas de dente são adquiridas no mercado negro, com contrabandistas, que é exatamente o que a protagonista Malaise (Luàna Bajrami) faz depois de começar a trabalhar em uma chiquérrima loja de departamentos, onde passa a atender a elegante Angine (Zar Amir Ebrahimi), com quem faz uma curiosa amizade. Aliás, mais do que amizade, uma paixão que, nesse contexto distópico, jamais poderá se concretizar. Mais ainda aos olhos do público.

 


E tudo piora com o fato da ressentida Pétulante (Aurélie Boquien) ficar extremamente enciumada com a aproximação entre as duas mulheres. Angine, afinal, era sua cliente cativa e o fato de ser simplesmente trocada pela jovem a deixa devastada. Com a oportunidade de vingança surgindo após esta ouvir Malaise escovando os dentes no banheiro da loja. Filmado em um vigoroso preto e branco, o curta trágico mas envolvente parece simples em sua temática, sendo profundo no exame da repressão à intimidade como uma das ferramentas centrais de regimes autoritários. Com o domínio do corpo e, consequentemente, do desejo, se convertendo em forma de punição. Ainda mais quando o assunto são os casais homoafetivos ou que fujam do padrão esperado na sociedade regida pelo "cidadão de bem". Enfim, uma experiência potente em que os tapas dão lugar aos beijos, em um universo de conservadorismo atroz. 

 

Novidades em Streaming - Coração de Lutador (The Smashing Machine)

De: Benny Safdie. Com Dwayne Johnson, Emily Blunt e Mark Coleman. Drama / Biografia, EUA, 2025, 123 minutos. 

"Você perdeu uma luta, grande coisa, supera!". É em um momento de puro desespero diante do marido - uma montanha de músculos de 120 quilos - que desaba, que Dawn Staples (Emily Blunt) tenta argumentar apelando para uma coisa quase básica. Daquelas que a gente fala para as crianças pequenas: a de que perder faz parte da vida e que é preciso levantar a cabeça e partir para a próxima. Especialmente se você é um atleta de alto nível, como no caso do lutador de MMA Mark Kerr (Dwayne Johnson), um dos pioneiros em estilos de lutas mistas. Só que naquela altura de Coração de Lutador (The Smashing Machine), que está disponível na Amazon Prime, tanto Dawn quanto o espectador já perceberam que Mark está perdendo uma outra batalha pessoal: a do vício em medicamentos analgésicos potentes (os opióides) que arruinarão sua carreira. A sequência seguinte é a de um Mark caído no chão da cozinha, após uma overdose.

Em linhas gerais eu tendo a me perguntar, especialmente em filmes de certos subgêneros - como esse, que se enquadra no drama esportivo biográfico -, se há material suficiente para sustentar um longa metragem de duas horas. E no caso da obra de Benny Safdie há um pequeno milagre na tentativa de fazer um fiapinho de história em um material com mais envergadura. Isso significa produção de qualidade? Não necessariamente. Talvez pra quem goste o esporte seja um prato cheio ver um bando de sujeitos gigantescos se esmurrando - sempre na camaradagem, claro -, conhecendo também um pouco das origens de certos torneios que, atualmente, inclusive no Brasil, são muito populares. Mas o resumo do resumo da ópera desse filme vencedor do Leão de Prata de Berlim, é que temos a história de um atleta promissor, talvez um dos melhores de sua geração, que, entre os anos de 1997 e 2000 atinge rapidamente o auge e o declínio.

 


Ok, nos momentos em que Mark não está esmurrando portas e paredes em discussões com a esposa - algo que meio que assusta em um cenário atual de tanta violência contra as mulheres e casos de feminicídio -, ele é apresentado como um sujeito afetuoso, um gigante gentil mais ou menos carismático e talvez oprimido pela fama repentina (ainda que em suas entrevistas se apresente como alguém autoconfiante, truculento e arrogante). Na primeira sequência com Dawn já é possível perceber a sua toxicidade, ao vermos ele se mostrar contrariado a respeito da receita de uma vitamina de banana (ocasião em que ela parece mais a empregada do que a companheira). Talvez fossem outros tempos e o caso é que Dawn não arreda pé de seu lado, mesmo quando as coisas começam a desandar. Mais do que isso, o protagonista talvez só permaneça vivo por causa dela - é ela que o encontra na cozinha, ligando desesperada para o grande amigo e parceiro de lutas Mark Coleman (Ryan Bader).

Após as derrotas impostas pela vida, Mark vai para um centro de reabilitação - o que é uma perda dupla pra quem é atleta. E precisa do corpo para trabalhar. Como na jornada do heroi típica, o homem retorna amoroso para os braços da esposa, que estranha algumas de suas atitudes dispersas ("sem remédio você vira um escroto", ela chega a esbravejar). Ao mesmo tempo em que ele treina com Bas Rutten (o veterano interpreta ele mesmo) para um retorno épico em uma competição no Japão - mas, aqui, como na volta de Rocky Balboa em 2006, a conquista maior está na trajetória e na superação. E não dá pra negar que Safdie - em sua primeira incursão longe do irmão Josh, com quem fez Joias Brutas (2019) - se empenha em entregar um projeto com início meio e fim, ainda que não deixe de ser gritante a completa falta de profundidade de todos que acompanhamos ali. Sinceramente, a gente meio que entra e sai da experiência sem conhecer ninguém direito. É tudo raso. Como um pires. Ou uma pancadaria de octógono. Quando vê tu já tá apanhando. Sem se livrar da apatia. Uma pena.

Nota: 4,5 

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Cinema - Marty Supreme (Marty Supreme)

De: Josh Safdie. Com Timothée Chalamet, Gwyneth Palthrow, Odessa A'Zion e Fran Drescer. Drama / Comédia, EUA, 2025, 150 minutos.

Galera, eu não sei como tem sido pra vocês a experiência com cinema e talvez eu esteja mesmo ficando velho, chato, cansado de alguns padrões - e eu quero evitar a palavra exigente pra não soar presunçoso. Mas lá pela oitava tentativa de golpe perpetrado pelo personagem central do histriônico Marty Supreme (Marty Supreme), eu já tava com os olhos na nuca de tão revirados. Olha só, eu não tenho nenhum problema com personagens amorais, odiosos ou arrogantes desde que isso não fique martelando meio que o tempo todo na nossa cara. Até porque não ficamos naquelas de "uau, como ele é ousado", após assistir ao protagonista vivido por Timothée Chalamet participar de uma série de jogos amadores de tênis de mesa em um boteco repleto de machinhos de meia idade apostando merrecas, só pra levantar uma grana depois de se ferrar mais uma vez. Afinal, em filmes como A Cor do Dinheiro (1986), obra menor de Scorsese, essa estratégia já era usada com muito mais charme.

O caso é que muita coisa que deveria soar como bacana na produção de Josh Safdie - que meio que repete o modus operandi de Joias Brutas (2019) -, lá pelas tantas começa a irritar. Essa tentativa, por exemplo, de soar engraçadinha a todo o custo, faz com que uma obra de duas horas e meia de duração soe como uma coletânea aleatória de esquetes de humor desajeitadas - e basta pensar na abertura com a batida cena dos espermatozoides indo até o óvulo (totalmente desconectada), passando pela sequência da queda da banheira em uma espelunca em formato de hotel, ou mesmo o instante em que Marty tenta contrabandear uma joia que, na realidade, não passa de uma bijuteria, para que constatemos o fato de tudo soar exagerado mas não orgânico, caótico e pouco sutil. É um filme que tenta ser anárquico o tempo todo e que talvez agrade o homem médio que acredita que a vida no capitalismo tardio é pautada pelo individualismo atroz, pela gritaria, pelas perseguições, pelos tiros e pela selvageria do cada um por si a cada frame. Para quem conseguir evitar os bocejos, talvez cole.

 


E, ok, pra não dizer que tudo é desastre, o pano de fundo do tênis de mesa - um esporte que nós, brasileiros, estamos aprendendo a amar depois de Hugo Calderano -, é excelente. As imagens das partidas são críveis e as disputas bem divertidas. Com o empenho de Marty - vagamente inspirado na história real de Marty Reisman, que escreveu um livro de memórias (que ninguém nunca nem viu), nos anos 70 - em ser um esportista nos Estados Unidos dos anos 50, só sendo possível com um tipo de alpinismo social que envolve a aproximação com uma veterana estrela de Hollywood de nome Kay Stone (Gwyneth Paltrow) e seu marido Milton Rockwell (Kevin O'Leary), um magnata da indústria da produção de canetas, que faz algumas propostas meio indecentes para Marty subir na vida (que ele nega, mas depois se arrepende). No entorno do protagonista outras figuras entram e saem dando movimento a narrativa, enquanto o jovem tenta a todo o custo obter uma grana para participar de um torneio no Japão, após ele ser humilhado pelo temido Koto Endo (Koto Kawaguchi).

Outras pequenas subversões também soam descoladas da realidade, por mais que, por exemplo, a trilha sonora se empenhe na nostalgia aleatória, com músicas como Forever Young, do Alphaville, ou Everybody Wants to Change the World, do Tears for Fears aparecendo aqui e ali. A trama se passa nos anos 50, não é demais lembrar. Já o pano de fundo político soa excessivamente discreto e não é que todo o filme precise ser um panfleto ambulante, mas as subtramas envolvendo um ex-jogador que esteve um campo de concentração na Segunda Guerra ou mesmo os trambiques funcionando como denúncia do declínio do sonho americano no período, nunca alcançam qualquer profundidade. Já que tudo retorna para a figura do protagonista e seu exibicionismo deturpado, seu ímpeto trapaceiro e sua obstinação por prestígio a qualquer preço - tudo embalado pelo carisma de uma bolinha de tênis laranja (e que me desculpem os fãs, mas o não consigo comprar o Chalamet com bigodinho cafajeste). Que este seja um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme, talvez seja um indicativo de safra fraca. Ou, como já disse, eu que tô sem saco mesmo e esperava mais depois de tanto falatório.

Nota: 5,0 

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

Cinema - Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (Song Sung Blue)

De: Craig Brewer. Com Kate Hudson, Hugh Jackman, Michael Imperioli e Jim Belushi. Drama / Música, EUA, 2025, 132 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

Vamos combinar que, não fosse a indicação de Kate Hudson à Melhor Atriz no Oscar desse ano - e a campanha deve ter sido pesada com certeza - e talvez Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (Song Sung Blue) passasse meio batido. Ao cabo temos aqui aquele romance musical meio genérico - um subgênero famoso por filmes como Nasce Uma Estrela (2018) ou La La Land: Cantando Estações (2017) -, com uma pitadinha a mais de tragédia e a diferença de ser uma obra inspirada em eventos reais. Como de praxe em experiências do tipo, a obra se ancora não apenas no carisma de seus personagens, tentando enlaçar o público em uma narrativa de superação a partir do poder da arte. Sim, pode ter aquela carinha de mais do mesmo mas, vá lá, a energia é meio Sessão da Tarde. E, importante comentar, se você não conhece a história verdadeira de Mike (Hugh Jackman) e Claire Sardina (Kate Hudson) talvez valha a pena evitar os spoilers.

O começo do filme dirigido por Craig Brewer - de carreira discreta e que talvez tenha em Meu Nome É Dolemite (2019) um dos seus melhores momentos -, é bem interessante. Discursando como se estivesse diante de uma plateia, com câmera no rosto e um ar de estrela do rock, não demora para que percebamos que Mike é, na realidade, um sujeito de meia idade que frequenta há vinte anos um grupo de alcoolistas anônimos. É seu "aniversário" de duas décadas sem beber e, como músico amador que se apresenta em feiras, eventos e outros, ele tem uma exibição marcada em uma casa de shows de Wisconsin onde ele deveria, a contragosto, fazer um tipo de performance onde imitaria o cantor pop Don Ho (famoso pelo hit Tiny Bubbles). Na mesma noite, ele conhece e se encanta por Claire, que encarna a cantora country Patsy Cline com personalidade e vigor. E, bom, não demora para que eles se aproximem e, mais do que parceiros artísticos, se convertam em um casal.

 


 

E, como já comentei, a história é real e remonta ao final da década de 80 e o começo dos anos 90, ocasião em que Mike e Claire passam a ensaiar músicas de Neil Diamond, se apresentando com o nome de Lightning and Thunder - dupla que faria sucesso localmente naquela região. Polvilhado por instantes cômicos - em um deles eles são contratados para cantar para um público não tão adequado de motoqueiros estilo Harley Davidson (que tem apreço não só pela extrema direita, mas também pelo rock farofão de ZZ Top, Lynyrd Skynyrd e Steppenwolf), em uma noite que termina entre risadas e um pedido de casamento - e trágicos, como aquele do acidente sofrido por Claire, o filme se desenvolve em meio a conflitos familiares, incertezas sobre o futuro e a tentativa de uma vida melhor não apenas para a dupla, mas também para seus filhos.

Fazendo um aceno para os fãs dos anos 90, a obra inclui uma performance clássica em que o duo abriu um show do Pearl Jam, com a presença de Eddie Vedder (John Beckwith) e tudo no palco, sendo também divertidos os momentos em que outros artistas são citados, como no caso do Michael Imperioli encarnando um Buddy Holly que, mais tarde, entrará para o grupo de apoio de Mike e Claire. Espalhando algumas das canções de Diamond em situações chave para dar andamento à narrativa - seja nos problemas de saúde ou nos casos de superação -, a produção brinca sobre o fato de o público meio que só conhecer o clássico Sweet Caroline, ou o fato de Diamond não ser um dos artistas mais expressivos que se conheça. O que não impediu o sucesso da banda. Doce e amargo, como uma música triste de melodia feliz, esse é o tipo de projeto melodramático e inspirador que, em tempos de turbulência, parece recuperar, em partes, os ideais do sonho americano. Por mais triste que seja, importantíssimo lembrar, um País sem saúde pública.

Nota: 6,5

 

Curta Um Curta - O Diabo Não Tem Descanso (The Devil Is Busy)

De: Geeta Gandbhir e Christalyn Hampton. Documentário, EUA, 2024, 31 minutos.

"Nunca pensei que eu teria mais direitos há 25 anos do que a minha filha tem agora". A frase dita por uma das personagens do curta documental O Diabo Não Tem Descanso (The Devil Is Busy) - que está disponível na HBO Max e que é um dos indicados ao Oscar em sua categoria -, pode até chocar, mas nunca surpreender. Estamos, afinal, falando de aborto em um País (os Estados Unidos), a cada dia mais reacionário ou avesso a qualquer medida de avanço civilizatório. O que só piora com governos como o de Donald Trump - ocupadíssimo com a guerra, qualquer que seja, enquanto a população padece. Na trama acompanhamos a rotina de Tracii, a chefe de segurança de uma clínica feminina de Atlanta que, frente a uma série de restrições resultantes de medidas retrógradas votadas pelo Congresso, precisa lidar ainda com um grupo de doidinhos de bairro que protestam em frente ao local (normalmente aquele tipo de desocupado que se considera moralmente superior, mesmo sendo uma das piores pessoas possíveis para a sociedade).

 


Em um período de um dia, o curta dirigido por Geeta Gandbhir e Christalyn Hampton - aliás, Geeta também é o nome por trás do excelente documentário A Vizinha Perfeita (2025), um dos favoritos em sua categoria para o Oscar -, acompanha o dia a dia de Tracii, desde a recepção de pacientes (que, em muitos casos, chegam ao local escondidas ou envergonhadas), lhe possibilitando o acesso a serviços médicos, exames de rotina e cuidados preventivos. Os abortos em si, a causa de toda a polêmica que emerge do cidadão de bem que acha que as decisões políticas do País devem ser feitas com a Bíblia debaixo do braço, só podem ser realizados até o limite de seis semanas de gestação - momento em que muitas das jovens sequer percebem que estão grávidas. Do receio das profissionais em serem presas por realizarem seu ofício, passando por discussões sobre os limites da autonomia da mulher em uma sociedade em que homens engravatados em gabinetes tomam as decisões, a obra propõe a reflexão em um cenário de retrocessos.

 

terça-feira, 3 de março de 2026

Cinema - Arco (Arco)

De: Ugo Bienvenu. Com Oscar Tresanini, Margot Oldra e Ugo Bienvenu. Animação / Fantasia / Ficção científica, França / EUA / Reino Unido, 2025, 89 minutos.

"Você não me contou qual o seu pedido. Eu queria que as coisas... mudassem". É possível ter esperança em relação ao futuro? Em relação ao mundo que habitamos? Vamos combinar que, às portas de uma nova guerra mundial, em um contexto de crises políticas, sociais e ambientais, uma obra mais ou menos otimista como a singela animação Arco (Arco) parece quase excessivamente ingênua. Utópica, em alguma medida. As mudanças sonhadas pela pequena Íris (Margot Oldra) podem sugerir certa ambiguidade de quem é apenas uma pré-adolescente cheia de dúvidas, medos e incertezas. Mas ela também funciona como uma ideia mais ampla, naquele cenário - o ano é 2075 e o mundo parece em direção a um colapso inevitável. Aliás, no universo habitado por Íris e seus familiares, as casas são equipadas com reforçadas e enormes redomas de vidro, que as protegem de queimadas, tornados e outras catástrofes climáticas. Um processo que chegou a um ponto de não retorno.

Mas a parte em que Íris surge na história dirigida por Ugo Bienvenu - e que é uma das indicadas ao Oscar na categoria Animação - é a segunda. Porque no começo de tudo estamos no ano de 2932, em um mundo em que a devastação climática fez com que a Terra ficasse alagada de forma permanente, com as residências sendo construídas sobre altas palafitas. Em cada habitação há toda uma energia de sustentabilidade, o que é reforçado pela ampla biodiversidade que rodeia cada casa - e não demora para que compreendamos os motivos desse ambiente ecologicamente favorável: às portas do terceiro milênio as viagens no tempo já são uma realidade, o que faz com que os pais do protagonista Arco (Oscar Tresanini), retornem ao passado sempre voltando com alguma variedade de planta a tiracolo, que será propagada após plantada. Sim, aparentemente o mundo aprendeu algum tipo de lição de que sem florestas, árvores, fotossíntese e todo o resto, não há vida.

 


Só que nem tudo são flores para Arco, que se ressente com uma medida de Governo que impede que crianças viajem no tempo - o que só é permitido a partir dos 12 anos. Insatisfeito, o menino resolve furtar a capa mágica de sua irmã, bem como o diamante de refração que permite a conclusão da jornada, na ideia de voltar ao tempo dos dinossauros (o garoto parece ser fã da turma do Jurassic Park). Só que, claro, as coisas saem errado e Arco acaba caindo justamente em 2075, sendo encontrado no meio do mato por Íris. A mesma que fará de tudo para proteger o visitante inesperado, principalmente de um trio meio maluquete de conspiradores - seus nomes são Dougie (Vicente Macaigna), Stewie (Luís Garrel) e Frankie (William Lebghil) - que querem capturar o menino de todas as formas, por acreditarem já terem visto aparições do tipo duas décadas antes. Desesperado, como se fosse um ET de Spielberg, Arco fará de tudo para tentar voltar para casa. Tendo como barreira o fato de ter perdido a sua pedra preciosa em meio à queda.

E como se as coisas não fossem excessivamente complicadas, Arco e Íris precisam lidar com outras preocupações - os pais da menina, por exemplo, nunca estão em casa (aparecem apenas como hologramas que trabalham, pelo visto, em escala 7x0). Já o carismático robô Mikki (o próprio Ugo Bienvenu), a despeito dos seus esforços em ser uma espécie de babá que é pau pra toda obra, acaba pifando em certa altura, o que atrairá a atenção de outros robôs. E tudo piora quando um enorme incêndio florestal se inicia, sendo que uma das únicas chances de Arco poder voltar envolve a possibilidade de um dia com sol e chuva ao mesmo tempo. Discutindo temas relacionados à importância das amizades, memória e infância a obra, que está em cartaz no cinemas, equilibra bem instantes singelos, divertidos, tensos e reflexivos. Nos fazendo pensar sobre futuro, especialmente no que diz respeito aos impactos da tecnologia e do clima para as próximas gerações.

Nota: 8,0

 

Pitaquinho Musical - Marta Del Grandi (Dream Life)

Vamos combinar que existem discos que soam tão pequenos, tão minimalistas, mas que parecem se expandir a cada nova audição, como se preenchessem todos os espaços. E é exatamente esse o sentimentos com Dream Life, o novo registro de inéditas da italiana Marta Del Grandi. De atmosfera simples, mas emocionalmente amplo, o álbum propositalmente gira em torno da ideia dos sonhos - mas não apenas evocando imagens oníricas, mas como uma metáfora para expectativas, memórias, desejos e a forma como nos relacionamos com o presente. A própria artista, em entrevistas, revelou que as coincidências e encontros que teve durante a concepção do registro, a levavam sempre de volta a esse contexto em que o real e o irreal, ou o concreto e o abstrato, se misturam. "As canções refletem isso, equilibrando momentos mais introspectivos e partes mais surreais e extravagantes", apontou a cantora.

 


 E um bom exemplo desse expediente pode ser percebido na evocativa 20 Days of Summer que, com seus efeitos eletrônicos minúsculos, refrão pegajoso e estilo vocal rarefeito soa ao mesmo tempo nostálgica, mas contemporânea, altamente pop e sensual, mas de tintas experimentais e econômicas - o que é reforçado pela letra de espírito transitório sobre expectativas, memórias e desejos (Como me perdi numa nuvem? / Vinte dias de verão é tudo o que me resta / Para continuar e tentar respirar). Em outras, como na magnética Shoe Shaped Cloud, o pano de fundo político se entrecruza com ideais de identidade, de consciência e de tempo presente, com a figura da nuvem funcionando como uma alegoria visual que se conecta com emoções e experiências internas (Há uma nuvem em forma de sapato / Bloqueia o céu acima de nós).

Nota: 8,5

segunda-feira, 2 de março de 2026

Novidades em Streaming - O Ônibus Perdido (The Lost Bus)

De: Paul Greengrass. Com Matthew McCounaghey e America Ferrera. Drama / Suspense, EUA, 2025, 129 minutos.

Praticamente duas horas ininterruptas de um ônibus cheio de crianças em idade escolar, tentando se livrar a qualquer custo de um incêndio de proporções devastadoras. Bom, digamos que se você é masoquista o suficiente, bem-vindo à O Ônibus Perdido (The Lost Bus), obra do diretor Paul Greengrass - de Relatos do Mundo (2020) - e que só dei play por causa da maratona Oscar 2026 (a produção tem uma única e merecida indicação na categoria Efeitos Visuais). Por que eu preciso dizer a vocês que, com mais de três décadas como fã de cinema e sem soar presunçoso, a gente meio que fica com o faro apurado na hora de detectar filme ruim. Sabe aquela coisa que hoje em dia a gente tem de identificar bolsonarista só de olhar pra estampa do sujeito? Pois é, é meio que uma habilidade desenvolvida e, vamos combinar que filme catástrofe talvez combinasse mais com meados dos anos 90. Ou talvez, vá lá, fosse melhor se não fosse tão focado no heroísmo do sujeito taciturno que resolve salvar o dia por conta própria.

E por mais que as queimadas - e as tempestades, as nevascas, os tornados e outros problemas climáticos - estejam se intensificando a cada ano, a gente não vai ver uma linha a mais sobre como o aquecimento global e as crises do setor podem ser decisivas a cada nova catástrofe. Ainda no começo do filme, enquanto o motorista de ônibus Kevin Mckay (Matthew McConaughey) leva as crianças em segurança para as suas casas - em meio a avisos sobre colocarem o cinto, não chegarem perto da janela ou não bagunçarem -, o rádio alerta para os mais de 210 dias sem chuvas no norte da Califórnia. Com a tendência de a situação se agravar nos próximos dias. Some-se a isso as instalações precárias das torres de transmissão da concessionária Pacific Gas & Eletric (PGE), que fornece luz e gás natural para a região, e tá feito o estrago. Uma fagulha que seja de um equipamento mal ajustado e o resultado pode ser fatal.

 


Aliás, como foi nesse caso - o evento ocorreu em novembro de 2018, destruindo 13.500 casas e deixando 85 mortos. Fora a devastação ambiental, com seus danos incalculáveis. Poderia ser este um filme de denúncia sobre o absurdo de deixar nas mãos de empresas preocupadas apenas com o lucro, o destino de milhares de pessoas? Poderia. Mas esse não é um projeto sobre a tragédia do capitalismo tardio e sobre como muita gente queimará meio que praticamente viva se práticas mais sustentáveis não forem adotadas meio que pra ontem - o que só piora com o governo Trump. Aqui, em meio a bandeiras estadunidenses que se espalham a cada gabinete ou fachada de prédio, e bombeiros com caras de poucos amigos sem saber muito bem que rumo tomar diante do caos, emerge o destemido Kevin, um ferrado que afundou em meio a decadência do sonho americano.

E como nesse tipo de projeto clichê pouco é bobagem é claro que o protagonista é aquele sujeito poucas ideias, que adia o conserto do próprio ônibus colocando todo mundo em risco, ao mesmo tempo em que precisa lidar com traumas pessoais como a superação do luto pela morte do pai, com quem ele não teve contato por mais de duas décadas, enquanto tenta se aproximar do filho, que não o tolera. Nesse contexto há ainda a mãe de Kevin, Sherry (Mary Kathlene McCabe), uma idosa dependente. Ah, ele é separado. E odeia seu emprego. Mas claro que, mesmo sendo alguém meio intragável, será ele o recrutado para salvar um grupo de alunos que está isolado em uma escola próxima a uma zona de evacuação de Paradise, aos cuidados da carismática professora Mary (America Ferrera). Ali pelos vinte e poucos minutos ele chega no local, recolhe todo mundo iniciando a interminável tentativa de escapada. Tudo em meio a embates de bastidores envolvendo burocratas sem graça alguma e o caos total no trânsito. E boa sorte pra quem aguentar o suplício até a conclusão.

Nota: 2,5

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Curta Um Curta - Os Cantores (The Singers)

Ao assistir o curta metragem Os Cantores (The Singers), indicado ao Oscar em sua categoria neste ano e que está disponível na Netflix, fiquei com a sensação curiosa de estar diante de algo ao mesmo tempo simples, mas cheio de camadas. A obra, dirigida por Sam A. Davis a partir de texto escrito pelo russo Ivan Turguêniev, em 1850, parte de um recorte aparentemente modesto - o de vozes de trabalhadores cansados que se unem em um isolado boteco para uma disputa musical -, revelando aos poucos que cantar é muito mais do que alcançar a nota certa. É conexão, identidade e busca de permanência. Há uma delicadeza na forma como a câmera se aproxima dos personagens - esses sujeitos meio xucros, eventualmente incômodos -, quase pedindo licença, que contrasta com a potência emocional que explode quando a música finalmente ocupa o espaço.

 


O que mais chama a atenção é como o filme entende o silêncio tanto quanto entende o som. Entre uma apresentação e outra nessa espécie de competição improvisada, em meio a olhares concentrados e suspiros nervosos, está o verdadeiro coração da narrativa. Não se trata apenas de se expor publicamente, mas do que antecede esse gesto. E do que fica. Existe vulnerabilidade - e o curta não tenta polir isso. Pelo contrário: abraça as imperfeições como parte essencial da harmonia e da experiência coletiva. Se o curta com seus minúsculos 18 minutos de duração poderia mergulhar ainda mais fundo nas histórias individuais? Talvez. Fica aquela vontade de conhecer melhor cada trajetória, cada conflito íntimo. Ainda assim, Os Cantores funciona justamente por não exagerar na dose. É um filme que entende o poder da arte: vozes diferentes em disputa que, juntas, criam algo maior do que a soma das partes. Ficando aquela sensação boa de que, às vezes, a arte consegue organizar o caos do mundo nem que seja com uma boa canção. Vale conferir.

 

Cinema - Sirāt

De: Oliver Laxe. Com Sergi López e Bruno Nunez Ariona. Drama / Aventura, Espanha / França, 2025, 115 minutos.

Foi no clássico Assim Falou Zaratustra, que Nietzche sentenciou: "eu só poderia acreditar em um Deus que soubesse dançar". E, em alguma medida, as ideias subversivas de dança, de riso e de excesso parecem estar diretamente relacionadas à rave no deserto - um conceito que pode soar meio estranho se dissociado de algum ponto de reflexão -, vista ainda no começo de Sirāt, o enviado da Espanha para a categoria Filme Internacional no Oscar e que está em cartaz nas salas do País. Há algo de perturbador e hipnótico naquele universo em que somos inseridos, em que pessoas comuns movimentam o corpo freneticamente ao som de música eletrônica evocativa, que se repete como um mantra. "Não se escuta nada" lamenta alguém a certa altura, dada a altura elevada do barulho que sai das caixas de som. "Não é para escutar, é para dançar", retruca outra pessoa, enquanto um mundo meio apocalíptico se despedaça ao redor.

Em linhas gerais a obra dirigida por Oliver Laxe não é aquele projeto com começo, meio e fim bem desenhados ou que segue uma lógica de cartilha hollywoodiana. Em alguns fóruns online alguns espectadores ficaram descontentes com o tom excessivamente melancólico de saída de lugar nenhum para nenhum lugar. A ação como um todo se passa no Sul do Marrocos, no que parece ser a divisa com a Mauritânia. Um espaço em que tudo o que se enxerga é areia e poeira até onde a vista alcança. Enquanto um grupo de seres que parecem saídos de Mad Max movimenta o corpo como uma fuga alienante em um tempo de desesperança, Luis (Sergi López) procura desesperadamente a sua filha Mar, que teria se perdido (ou talvez até fugido) em uma dessas misteriosas raves do deserto. Ao lado do filho Esteban (Bruno Nunez Arjona) o homem faz uma investigação particular sem muito sucesso, mostrando fotos da garota, enquanto ouvem negativas sobre o paradeiro.

 


E como se tudo não fosse incômodo o suficiente, surge lá pelas tantas um grupo de militares que obriga a festa a parar - nenhuma surpresa quando se tratam dos maiores inimigos das artes ou da música, o que reforça a ideia da festa como uma forma de subverter a ordem dominante. De se libertar. Só que um grupo de jovens - seus nomes são Stef (Stefania Gadda), Jade (Jade Oukid), Tonin (Tonin Janvier), Bigui (Richard Bellamy) e Josh (Joshua Handerson) - consegue fugir do comboio militar, desviando a rota para tentar alcançar uma outra rave, em local ainda mais distante. O que faz com que as esperanças de Luis e Esteban se renovem. No rádio, uma série de transmissões fala sobre a iminência de uma Terceira Guerra Mundial, o que explicaria os conflitos armados, ao passo em que o coletivo tenta se apoiar em meio a um sem fim de percalços em sua cruzada pelo deserto, com a gasolina ficando escassa, veículos atolados e tragédias inimagináveis. 

Para além desse contexto de fluxo de vida em meio a conflitos há ainda um outro sentido, este relacionado ao título da obra, já que a palavra Sirāt significa caminho ou estrada. Aliás, mais do que isso, a via em que todas as almas devem atravessar no dia do Juízo Final. Se há aí uma explicação bíblica, divina ou religiosa que só será percebida conforme a narrativa avança - e certas barreiras são cruzadas - caberá a cada espectador interpretar. Não dá pra negar que, naquele estado de coisas todos ali parecem em um elo meio perdido entre a ruína e a salvação - o que é reforçado pelo fato de várias das pessoas que vemos terem braços e pernas amputados, ou outras deficiências que poderiam sugerir provações e mesmo a superação destas. Nada fica exatamente claro e esse é um projeto repleto de simbolismos ou alegorias sobre os nossos tempos. Sobre a busca por redenção. O que aqui envolve superar limites imprevisíveis do ponto de vista geográfico, em um tipo de purgatório particular que leva ao extremo o conceito de civilização como o conhecemos.

Nota: 8,5 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Picanha.doc - Embaixo da Luz Neon (Come See Me in the Good Light)

De: Ryan White. Com Andrea Gibson e Megan Falley. Documentário, EUA, 2025, 105 minutos

"Pessoas que dizem não entender poesia talvez nunca tenham tido que dar uma notícia devastadora a alguém que amam". É quase no final do documentário Embaixo da Luz Neon (Come See Me in the Good Light), que a poeta e ativista Andrea Gibson lê um trecho do comovente Guardian Angel Fish, poema de onde se extrai o fragmento acima. Ao cabo, trata-se de um momento de vulnerabilidade e até de tentativa de suavizar a sua própria condição já que, com um câncer terminal, aquela provavelmente será sua última apresentação a um grande público. Aliás, plateia que lhe admira não apenas pela crueza e pela franqueza de sua arte, mas também pela simplicidade de seus versos - sempre diretos, descomplicados, mundanos. "A minha ideia sempre foi fazer poesia em que as pessoas não precisariam de diploma para compreender", reflete Andrea em outro ponto. O que ela alcança sem dificuldade, dada a onipresença de seu público.

Em uma obra sobre uma pessoa que recebe uma sentença de morte e precisa meio que lidar com a situação, são meio que inevitáveis alguns clichês do gênero - como no caso das seguidas idas ao hospital para a discussão de possíveis tratamentos, efeitos colaterais dilacerantes e até o exame existencial da própria existência. Mas nada disso compromete a apreciação do projeto do diretor Ryan White - de Boa Noite, Oppy (2022) -, que está indicado ao Oscar na categoria Documentário. O que se tem aqui é uma experiência dolorida, mas também um elogio ao poder das artes, da potência de existir e da importância do cuidado e do amor, o que é simbolizado, aqui, pela onipresença da também poeta e professora Megan Falley, sua namorada e companheira de vida. Pessoa que, por sinal, jamais a abandona mesmo que, em flashbacks, Andrea tenha aberto essa possibilidade à parceira.

 


Na trama, imagens antigas mostram como Andrea se tornaria uma espécie de celebridade da poesia - um tipo de James Dean Gay (dada a sua beleza e força no meio) -, a forma como ela e Megan se conhecem e como a descoberta do câncer, em meio à pandemia, transforma a vida de ambas. E, por mais pesado que o filme, que está disponível na Apple TV, possa parecer em meio à discussões sobre memória, finitude e luto, não são poucos os instantes em que o casal central trata a situação com deboche, como no momento em que Megan comenta com uma amiga que "daria uma dedada tão profunda em Andrea, que arrancaria o câncer naquela noite", gerando gargalhadas durante um jantar. "E vou fazer isso ao mesmo tempo em que rezo", brinca, de forma provocativa, trazendo a presença (ou ausência) de Deus para o debate, em uma espécie de ironia que alude a luta por sobrevivência de qualquer forma.

Entrecortado por várias das poesias de Andrea - como as famosas Tinture, The Little Things, Boomerang Valentine e Your Life (este último sobre a descoberta da sexualidade e de como foi a vivência queer em uma pequena e conservadora cidade dos Estados Unidos) -, o documentário é absurdamente naturalista ao mostrar a relação de ambas com seus amigos e familiares, de forma honesta, sem nunca soar condescendente. Claro que em um filme sobre uma pessoa tão relevante em seu meio e que sofre um grande impacto não apenas pela severa doença - um câncer no ovário que se alastra de forma dilacerante -, mas também pelos preconceitos sofridos desde jovem, há uma tendência maior ao elogio ou a exaltação das virtudes. O que talvez se explique pela ausência de grandes polêmicas em sua vida particular para além das óbvias questões de gênero e políticas. Para quem está fazendo o check list de filmes para o Oscar, vale conferir.

 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Cinema - Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet)

De: Chloé Zhao. Com Jessie Buckley, Paul Mescal, Jacobi Jupe e Emily Watson. Drama / Romance, Reino Unido, 2025, 125 minutos. 

Aquele tipo de filme feito sob medida para a temporada de premiações, tanto em termos técnicos, quanto nos exageros melodramáticos da narrativa. Assim é Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet), filme mais recente de Chloé Zhao - de Nomadland (2020) - e que está indicado em várias categorias no Oscar. E, vamos lá, nem tanto ao céu nem tanto ao inferno na hora de analisar a obra, que é baseada em um romance de Maggie O'Farrell, que dramatiza parte da trágica vida do escritor William Shakespeare (Paul Mescal) e da esposa Agnes Hathaway (Jessie Buckley). Especialmente a parte em que precisam lidar com a morte do pequeno Hamnet (Jacobi Jipe). E, como manda a tradição do melodrama de época, não são poucos os momentos, nesse conjunto de acontecimentos, que tentam fazer com que o espectador verta lágrimas a qualquer custo. Quase na marra. E, confesso que lá pela sexta tentativa em que Agnes aparecia urrando de dor por algum motivo qualquer, começou a dar uma cansada.

E, a bem da verdade, essa tem sido uma das críticas de parte da imprensa especializada - a de uma certa forçação de barra no estilo "ok, aqui vocês precisam chorar de qualquer forma", como no momento em que o falecimento de Hamnet é confirmado. Só que, ainda assim, essa é uma experiência bonita, até pelo pano de fundo artístico, com uma série de sequências teatrais de ensaio (especialmente quando Shakespeare migra para Londres para tentar a vida como autor), ainda que a produção seja muito mais centrada em Agnes. E na sua persistência como mãe solo que fica na província, tornando possível o brilho do marido candidato a escritor. É ela, afinal, que meio que abre mão daquilo que alimenta a sua alma - e que tem a ver quase com uma existência quase mística, junto aos seres da floresta, o que faz com que ela faça amizade com um falcão e que tenha profundo conhecimento das ervas medicinais e de seus poderes (algo que vem de sua família).

 


Aliás, esse é justamente o componente mais interessante do roteiro - que é aquele que torna Agnes uma espécie de renegada que vive à margem, quase como uma bruxa excêntrica conectada a esse mundo divino e onírico. Por outro lado, Shakespeare é retratado como um sujeito de grande sensibilidade, que conhece a protagonista justamente quando chega ao vilarejo para dar aulas de latim para as crianças do local (para desespero de seu pai, um fabricante de luvas de lã que acredita que o futuro financeiro deve estar ligado aos negócios) - e não é por acaso que o começo do filme de Zhao chama tanto a atenção, que é quando essas duas almas marginalizadas se encontram e se amam. Ainda que esse contexto envolva instantes meio constrangedores, como aquele em que o escritor narra à sua pretendente um trecho de Orfeu e Eurídice, que pode até parecer conveniente à trama, ainda que não tenha nada a ver com ela.  

E aqui precisamos falar sobre as interpretações e, por vezes eu tenho a impressão que a Academia tem uma predileção por pegar aqueles papeis meio que mais ou menos da carreira desta ou daquela atriz, como forma de premiar o conjunto da obra. E quem acompanha a carreira da Jessie Buckley sabe que, para além das caras e bocas de sofrida geradas em Hamnet, ela costuma ser uma presença magnética em seus projetos sem que haja qualquer exagero mais caricato e até em filmes pequenos como Entre Mulheres (2022) ela parece mais crível - e nem vou citar o excelente Estou Pensando em Acabar com Tudo (2020), que aí é covardia. E a minha opinião polêmica talvez seja a de que a Emma Stone dá de relho em entrega no injustamente subestimado Bugonia (2025). Elegante, com bom desenho de produção, fotografia e figurinos, e discutindo temas ligados ao luto, morte e memória, o projeto ainda peca pela trilha sonora exagerada, que parece subir na hora errada, nos lembrando novamente do momento em que devemos lacrimejar. Só que, isso, infelizmente, soa um tanto artificial. E faz com que nos desconectemos, de alguma forma.

Nota: 6,0 

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Pitaquinho Musical - Ratboys (Singin' to an Empty Chair)

Vamos combinar que algumas bandas demoram um pouco pra "acontecer" pra um público mais amplo e, por mais contraditório que isso possa ser, é também uma oportunidade para que esses artistas depurem seu som ao máximo para que a entrega seja a melhor a cada novo lançamento. E esse parece ser exatamente o caso do Ratboys, grupo de Chicago que chega ao seu sexto - e disparadamente o melhor - registro de inéditas. Cada vez mais distante do lo-fi um tiquinho mais intimista que marcaria os primeiros registros da carreira de mais de dez anos de existência, o coletivo parece expandir a sua sonoridade para além do indie de cafofo (que sempre foi ótimo, ressalte-se), com a chegada do excelente Singin' to an Empty Chair. Mais polido, por vezes ensolarado e com um aceno ainda mais acentuado para o comercial, o álbum é um primor de produção, equilibrando de forma perfeita as guitarrinhas rock que dão sustentação às melodias primaveris - por mais que os temas do disco possam ser cabeçudos.

 


Aliás, há um conceito - o da "conversa com uma cadeira vazia" - que meio que une a coisa toda. E que fica mais evidente em Just Want You to Know the Truth, peça central do registro e um épico de mais de oito minutos, em que emergem temas ligados à vulnerabilidades e traumas familiares. "Meu terapeuta me deu essa ideia não apenas para a composição, mas para o meu próprio processamento da vida e de todas essas grandes mudanças que minha família está passando", enfatizou em entrevistas. Em outros instantes, assuntos como distanciamento emocional (Open Up), falta de conexão em relacionamentos (Anywhere), aceitação e passagem do tempo (Penny in the Lake) e frustração e desejo de transformação (Burn it Down), formam esse clima meio generalizado de terapia, quase como um monólogo interior. Ainda assim é importante que se diga: o disco nunca soa triste ou sorumbático, e um bom exemplo é a grudenta Know You Then, uma das melhores canções desse início de ano. Vale a atenção.

Nota: 8,5 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Tesouros Cinéfilos - Guerreiras do K-Pop (KPop Demon Hunters)

De: Chris Appelhans e Maggie Kang. Com Arden Cho, May Hong, Ji-young Yoo, Ahn Hyo-seop e Lee Byung-hun. Comédia / Fantasia / Musical, EUA / Canadá, 2025, 95 minutos.

Vamos combinar que não é difícil compreender a verdadeira comoção gerada por Guerreiras do K-Pop (KPop Demon Hunters), obra disponível na Netflix e que está indicada ao Oscar 2026 na categoria Animação. Primeiro de tudo que é um filme esteticamente lindo. Depois tem as personagens cheios de carisma e extremamente bem desenhadas - com personalidades distintas. Aí entra o senso de humor e as ótimas piadas, que se intercalam com algumas das melhores canções pop da última temporada. É tudo tão legal que a gente até meio que ignora a historinha lugar-comum sobre autoaceitação e respeito às diferenças - algo que se tornou meio que um padrão no gênero - mas que, ainda assim, é super bem construída, trazendo o tema com leveza. Os adolescentes certamente adoram. E a geração 30+ inevitavelmente se divertirá, principalmente pelo fato de alguns dos vilões serem integrantes de uma boy band antiquada, que certamente faria sucesso na segunda metade dos anos 90.

Ah, e vale comentar uma coisa que me preocupou desnecessariamente, antes de conferir o filme dirigido pela dupla Chris Appelhans e Maggie Kang: não é necessário ser um grande fã de KPop para apreciar a produção, já que, música pop de qualidade é música pop de qualidade em qualquer parte do globo. Bom, a trama não poderia ser mais graciosa, por mais que envolva uma espécie de maldição em que demônios atacam vítimas humanas, para levar suas almas que servirão de alimento a um líder macabro - seu nome é Gwi-ma (Lee Byung-hun) e ele se assemelha a uma grande fogueira de tonalidades preta e violeta (a cor costuma ter associação com a morte). A forma de barrar essa entidade macabra envolve simplesmente a música. O canto. Algo que, através dos tempos uniria a população, criando uma espécie de barreira protetora dourada, chamada de Honmoon. Capaz de isolar o mundo que vivemos, da dimensão sombria.

 


É é aí que entra o nosso trio de heroínas integrantes do grupo Huntrix, sendo elas Rumi (Arden Cho), que vem de uma verdadeira dinastia de cantoras, Zooey (Ji-young Yoo), habilidosa rapper e letrista e Mira (May Hong), espécie de ovelha negra da família, que é iconoclasta a ponto de ter usado um saco de dormir na mais recente edição do Met Gala (em mais um aceno ao público adulto). São elas que seguem uma linhagem de jovens cantoras que, anos a fio, mantém o Gwi-ma nos submundos, não sendo capaz de levar seu plano maldito a cabo. Bom, ao menos até agora e dois são os motivos principais que complicarão as coisas: o primeiro é o fato de Rumi não apenas ter um segredo de infância que pode colocar tudo a perder, mas também ver a sua voz falhar justamente alguns dias antes da decisiva apresentação no Idol Awards (sendo a vitória fundamental para a consolidação do Honmoon). Já o segundo é que Gwi-ma resolve dar uma cartada um tanto ousada: criar no submundo uma boy band, seu nome é Saja Boys, que possa atrair a atenção dos fãs - e de suas almas, que lhe servirão de alimento.

E é muito bonito e engraçado ver como tudo se desenrola, principalmente quando entra em cena o enigmático Jinu (Ahn Hyo-seop), o líder dos Saja que estabelece uma relação muito próxima de Rumi. Jinu também preserva um dolorido segredo do passado, que fez com que ele abandonasse a família para se aproximar de Gwi-ma, sob a promessa de uma vida melhor através da música. Algo que nunca se consolida para além dos planos maquiavélicos do tal ser - e é absurdamente lindo ver as trocas entre esse casal central, que se aproxima e se afasta de acordo com os ventos da narrativa e que, todo o mundo já sabe, precisará unir forças para que o mal maior seja confrontado. Que músicas como Golden, Free (a minha preferida), What Ir Sounds Like, How It's Done e, inclusive Soda Pop (dos Saja) sejam tão monumentais, grudentas e performáticas, ajudando ainda a narrativa a andar, com suas letras cheias de significados, metáforas e ambiguidades, é só a cereja do bolo. É um filme pra todo mundo e acho difícil que alguma animação mereça mais o Oscar. 

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Cinema - A Única Saída (Eojjeolsuga Eobsda)

De: Park Chan-wook. Com Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park Hee-soon e Lee Sung-min. Comédia / Drama / Policial, Coréia do Sul, 2025, 139 minutos.

De Tempos Modernos (1936) à Parasita (2019) não foram poucos os filmes que nos mostraram ser possível fazer a crítica ao capitalismo - e sua sanha devorada -, mas sem abrir mão do tom ácido, debochado. Aliás, talvez essa seja uma escolha bastante certeira na hora de abordar o tema - com todo o respeito às obras sisudas. A gente ri de nervoso frente ao absurdo. Mas também compreende bem as metáforas - mesmo que o ato de superar candidatos a uma vaga de emprego, se torne uma luta meio que literal demais pela sobrevivência. E esse é justamente o caso de A Única Saída (Eojjeolsuga Eobsda), obra do diretor Park Chan-wook - do recente e ótimo Decisão de Partir (2022) -, que está em cartaz nos cinemas e que, em alguma medida, repete as ideias apresentadas no excelente O Corte (2005) do grego Costa-Gavras. As duas produções, aliás, foram inspiradas em um romance do escritor Donald Edwin Westlake, de 1997.

Na trama, Man-soo (Lee Byung-hun) vive uma vida de comercial de margarina. É feliz ao lado da esposa e dos dois filhos, tem uma casa ajardinada que lhe permite fazer aquele churrasco gostoso no final de semana a ponto de ele sussurrar, que tem "tudo", após um abraço coletivo em família. Bom, isso até a fábrica de papel que ele trabalha ser vendida para um grupo de investidores estrangeiros que pretendem fazer um corte de 20 por cento da força de trabalho. Pouco importa o fato de Man-soo, com seus 25 anos de dedicação à firma, ser um dos mais experientes - ele tenta argumentar com os novos diretores. "Eles não te deram a enguia, te deram?", pergunta um colega, dando a entender que o peixe em formato de cobra é não apenas um sinal de que ele está prestes a ser demitido, como também a alegoria sexual inevitável, que alude à ponta mais fraca dessa equação. O operário padrão, o chão de fábrica, é sempre quem se ferra nesses casos. Sem muita margem pra negociar com o patrão.

 


Desesperado, Man-soo entra pra uma espécie de mentoria ridícula dessas que, ao invés de ajudar, parece gerar mais pressão. A ideia é que ele volte ao mercado de trabalho em três meses - e as dolorosas entrevistas de emprego, com salas cheias de sujeitos arrogantes de terno e gravata, parecem piorar tudo (e a cena em que o protagonista tenta simplesmente ver o rosto de um de seus interlocutores, sendo atrapalhado por uma luz estourada do sol que vem da rua, é só mais uma metáfora para o sofrimento do homem). Em família, a ideia é cortar todos os gastos supostamente excessivos - aulas de dança, a conta da Netflix -, e começar a pensar na venda da casa e do carro como forma de evitar dívidas. A esposa Mi-ri (Son Ye-jin) volta a trabalhar em um consultório odontológico. Até os cachorros têm de ser doados momentaneamente, para desespero das crianças. Tudo parece complicado até Man-soo enxergar uma luz no fim do túnel. O que lhe exigirá uma tomada de decisão extrema.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Em meio a tantas humilhações, o sujeito decide que quer a vaga de um gerente da empresa concorrente Moon Paper - o que envolve dar cabo de um certo Seon-chul (Park Hee-soon), que é o detentor do posto. Só que não basta apenas isso: para ficar com o cargo, ele precisa provar que é o melhor em sua área - que é o momento em que ele leva a noção de capitalismo tardio e de selvageria do mercado de trabalho ao limite, atraindo os outros postulantes para uma vaga fictícia, criada por ele. O que lhe permitirá colocar em prática um plano diabólico de... assassinato! Repleto de sequências excêntricas que evidenciam a completa inaptidão do sujeito para o seu propósito - tentativas falhas, fugas aleatórias, emboscadas que não funcionam a contento -, o filme avança como uma experiência desalentadora e pessimista, mas também hilária e ácida sobre o absurdo de, em tempos de automação de tudo, ainda estarmos disputando um espaço que nos garanta o mínimo de dignidade. Que ele seja em uma fábrica de papel, talvez seja só mais uma das ironias.

Nota: 8,5

 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Curta Um Curta - Armado Com Uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud (Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud)

Ao concluir o documentário em curta-metragem Armado Com Uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud (Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud), fiquei com a impressão de que o homenageado no filme merecia mais. Assim como a história parece carecer de um pouco mais de profundidade - especialmente sobre os horrores da guerra e sobre quem, na maioria dos casos, a patrocina. Sim, porque assistir a um bando de militares homenageando o cineasta e documentarista Brent Renaud - assassinado em 13 de março de 2022 por tropas russas, enquanto documentava a Guerra da Ucrânia -, é pouco. Famoso por coberturas de conflitos e atentados diversos em países como Iraque, Somália, Haiti, Afeganistão e Honduras, o profissional deixou um amplo legado, que documenta o custo humano e o absurdo como um todo das guerras. O que fez com que pagasse com a própria vida - assim como centenas de jornalistas que atuam em locais do tipo. 

 


"O jeito que você segura essa câmera, dá pra ver que você faz isso com o coração", resume um homem em uma maca, gravemente ferido, após os atentados com caminhões-bomba na cidade de Mogadíscio, a capital de Somália - um dos tantos momentos de impacto. Essa humanidade do homem que está armado apenas com uma câmera se espalha por outros fragmentos, como na relação com o irmão autista Craig, pelos animais e na paixão pelo seu próprio ofício. Que o curta disponível na HBO Max - e que é um dos indicados ao Oscar em sua categoria na premiação desse ano - poderia ser um longa, com mais ângulos, mais vozes e mais política (especialmente em tempos de avanço da extrema direita nos próprios Estados Unidos), não resta dúvida. De qualquer forma fica o registro deste projeto que funciona mais como uma desalentadora (e pequena) homenagem, do que como uma produção com mais estofo. 

 

Novidades em Streaming - Morra, Amor (Die My Love)

De: Lynne Ramsay. Com Jennifer Lawrende, Robert Pattinson, Lakeith Stanfield, Sissy Spacek e Nick Nolte. Drama, EUA / Reino Unido, 2025, 119 minutos.

Quem se aventurou a ler Morra, Amor (Die My Love), obra de Ariana Harwicz na qual o filme de Lynne Ramsay - de Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011) e Você Nunca Esteve Realmente Aqui (2017) - se inspira, encontrou um livro curto, mas denso, caudaloso, quase intransponível em alguns momentos. Como uma alegoria que busca desfazer a romantização da maternidade, o próprio texto árido e direto de Harcwicz se apresenta como uma experiência catártica, incômoda e cheia de ambiguidades, que converte à chegada de um filho a um tipo de cárcere socialmente imposto. Presa em casa com um bebê que provavelmente ela não desejava e que apenas serve para legitimar o que se espera em termos de papeis de gênero, a protagonista Grace (Jennifer Lawrence), embarca em uma espiral de loucura, medo e violência. E de contradições - entre ser a mamãe idealizada, tradicional e plena e ser uma mulher com desejos, anseios e sonhos (muitos deles suprimidos).

Sim, pode ser meio desafiador pra quem está acostumado a narrativas um pouco mais convencionais - especialmente aquelas que glorificam o núcleo familiar como um conjunto invariavelmente harmônico e perfeito. Mas quem se aventurar a olhar para além dessa camada mais superficial, encontrará uma obra incômoda, que nunca julga sua protagonista - uma mulher, aliás, que parece em luta interior constante. E não deixa de ser interessante notar como tanto no livro, quanto no filme, os protagonistas parecem mergulhados em uma espécie de sonho psicótico, enevoado e bucólico, em que a beleza da natureza frondosa do entorno da propriedade em que moram, colide com a escuridão interior da casa. Uma casa, aliás, que Grace e Jackson (Rober Pattinson) "herdam" de um tio que teria se suicidado no local. O que serve como reforço desse cenário de tensão e de perturbação crescentes.

 


Aliás, em uma das primeiras sequências, Grace avança por meio do capinzal como se fosse uma felina, observando as suas presas. No alpendre da casa, Jackson e o bebê chamam a mamãe que, estranhamente, se aproxima com uma faca grande na mão, daquelas de cortar carne. Em nenhum momento ela faz insinuação de que irá ferir o próprio filho - mas não deixa de ser curioso notar como bastam alguns minutos de filme para que já sejamos catapultados para o senso de desorientação que guiará a protagonista pelas próximas duas horas. Diferente de outras mães ela não tem saco para a paparicação de outras mulheres, quando vai de carrinho de bebê à tiracolo ao mercadinho da região. Também se irrita com o cachorro recém adotado, que não para de latir por nada nesse mundo. O marido distante, que muitas vezes ela sequer sabe direito onde está - só pra cumprir o padrão do homem médio que sobrecarrega a mulher -, também a deixa inquieta. "Minhas mãos estão em minha buceta porque você come todo mundo menos eu", esbraveja ela durante uma discussão. É só mais um tópico.

O prazer suprimido também fica evidente em seu desalento como escritora que precisa adiar projetos - sendo igualmente potente um instante em que a tinta de sua caneta se mescla com o leite que verte de seus seios. Os universos colidem. Paixão e fúria, tesão e ternura, agitação e calmaria. Não por acaso, como forma de quebrar essa lógica de uma existência padronizada, o surgimento de um misterioso motoqueiro da vizinhança (Lakeith Stanfield) funciona como projeção de desejo (inclusive erótico), de pulsão de fuga e de violência que nunca se concretiza (o que talvez explique o pedido de Grace para que o sujeito corte o próprio lábio). Como afirmei antes, tanto livro como filme, que está disponível na Mubi, permitem uma série de interpretações, ainda que nunca fujam da ideia de ruptura das tradições, que colocam frente a frente uma certa vida domesticada e uma alucinação guiada pelo desejo. Cortante, instável, sensual e magnética, essa é aquela produção que nos deixa pensando depois que os créditos sobem. O que não deixa de ser um mérito.

Nota: 8,0