quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - Eddington

De: Ari Aster. Com Joaquin Phoenix, Emma Stone, Padro Pascal, Deirdre O'Connell e Austin Butler. Comédia / Drama / Faroeste, EUA / Reino Unido / Finlândia, 2025, 150 minutos.

Há algo que precisa ser dito sobre os filmes do Ari Aster: ninguém passa por eles e sai da mesma forma. Para o bem ou para o mal, as obras do diretor de Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019) e Beau Tem Medo (2022) costumam suscitar horas de debates sobre seus temas - quase sempre psicológicos, contemporâneos, políticos. Ou ao menos parece ser assim pra quem não acompanha suas produções esperando sempre um novo Hereditário (2018). Talvez à exceção do igualmente ótimo Bugonia (2025) - leia a resenha abaixo -, poucos projetos traduzirão tão bem os tempos turbulentos e caóticos, em que todo mundo grita, mas ninguém escuta, como em Eddington. Vendido como uma espécie de faroeste pós-pandêmico, o filme coloca em lados opostos um xerife local e o prefeito de uma minúscula cidade do Novo México. Ambos desejando o poder acima de tudo, com Deus acima de todos. Ou algo do tipo.

Sim, eu já estou tomando consciência de que as obras que não tomam um partido ou que erguem uma bandeira panfletária mais clara, tem se tornado recorrentes. E eu acho isso ótimo para que possamos refletir um pouco melhor e que não seja apenas confirmando aquilo que pensamos ser o certo. Em uma narrativa como a de Eddington eu nem acho que o centro da disputa esteja entre esquerda e direita, progressistas e conservadores, ou, vá lá e em última medida, republicanos e democratas. É isso também, mas mesmo sabendo pra onde apontaria o nosso radar nesse embate, não deixa de ser divertido se deparar com as contradições da província. E de como opera a Síndrome do Pequeno Poder em um município de pouco mais de dois mil habitantes, que é afetado não apenas na esfera local pelo comportamento excêntrico de seus habitantes, mas também em âmbito federal em um contexto de covid que avança e da explosão de movimentos como o Black Lives Matter.

 


E, sinceramente, é tudo muito saboroso e muito atual - e mais ainda, talvez, para os cronicamente online. Na primeira cena do filme, um mendigo meio noiado - aquele doidinho de bairro que toda a cidadezinha do interior tem - cruza o asfalto enquanto, ao fundo, um enorme outdoor anuncia uma obra que deverá movimentar a economia local: no caso a construção de um data center (daqueles que, daqui pra frente, consumirão toneladas de recursos naturais sob a desculpa de não frear a revolução tecnológica). Tentando a reeleição, o prefeito Ted Garcia (Pedro Pascal) é um entusiasta da ideia. Mas, claro, como bom democrata, não ignorando as compensações ambientais, como a implantação de usinas eólicas e outras medidas, e que são solicitadas pelo conselho local. E que deverão ser respeitadas, assim como devem ser respeitadas as medidas que marcaram aquele maio de 2020 que já parece tão distante, como o uso de máscaras em estabelecimentos fechados ou o respeito ao distanciamento social (quase como uma alegoria para o afastamento meio natural em tempos de niilismo e misantropia forçada).

Ainda na primeira hora, o xerife local Joe Cross (Joaquin Phoenix sendo o esquisitão que adoramos, não adianta) trava um embate com Ted em um mercadinho, justamente pela necessidade do uso de máscara. No caso, um idoso, que se recusava a vestir a peça. Assim como Joe também se recusa - e, mais adiante, entenderemos suas motivações, ao conhecer a sua sogra Dawn (Deirdre O'Connell), uma daquelas tias do ZAP que passam as tardes se alimentando de teorias conspiratórias diversas na internet (e que podem variar de clonagem de líderes políticos, até chegar a existência de uma enorme rede de pedófilos ligada aos democratas estadunidenses) -, o que faz com que ele tome uma drástica decisão: se candidatar para enfrentar Ted nas eleições municipais que se aproximam. As suas bandeiras? Aquelas que costumam atrair os extremistas de direita mais desvairados, claro.

 

 

Em paralelo a tudo isso, os locais precisam lidar com a explosão de casos de violência policial - como no caso do chocante assassinato de George Floyd -, e do avanço de grupos contrários a atuação das forças estatais, como os Antifas (que, de acordo com o sonho mais molhado do ditador Donald Trump, deveria ser enquadrado como terrorista). Todas essas questões respingam na cidadela, com jovens brancos e com sentimento de culpa realizando protestos antirracistas. Assim como adentram por aquelas estradas poeirentas à moda A Última Sessão de Cinema (1971) da atualidade podcasts de gosto duvidoso localizados na antessala do fascismo, fóruns de chans e de incels sobre a queda da moralidade e o retorno do sonho americano - com Vernon, o personagem de Austin Butler soando como um Tom Cruise de Magnólia (1999), mas em uma roupagem meio Luciano Cesa das ideias (se ele fosse bonito) -, colidindo com progressismo de boteco que leva loiras jovens à se sentirem como uma Rosa Parks contemporânea. Sim, parece difícil percorrer todos esses temas e ainda dar uma lógica pra tudo. Mas a tentativa de Aster de tratar de paranoia, conspiração, alienação, coincidências, protestos, vidas expostas, campanhas políticas rasas, traições, lavagem cerebral e convulsão social funciona direitinho. E com direito a um dedinho colocado nas nossas feridas, nos fazendo pensar no nosso papel em meio a tudo isso. Ignore a crítica dita especializada. E só vá!

Nota: 8,5 

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