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quarta-feira, 9 de junho de 2021

Novidades no Now/VOD - Amonite (Ammonite)

De: Francis Lee. Com Kate Winslet, Saoirse Ronan, Gemma Jones e Fiona Shaw. Romance / Drama, Reino Unido / Austrália, 2020, 120 minutos.

Amonite (Ammonite) pode até ter perdido força na reta final da temporada de premiações - foi um dos esnobados do Oscar desse ano. Mas este fato não retira a qualidade da obra do diretor Francis Lee, que entrega um filme com aquele estilo classudão, de época, com uma elegância que se estende para além dos aspectos técnicos, chegando às interpretações e até ao roteiro - que foge um pouquinho do óbvio na hora de retratar um romance entre duas mulheres. A trama retorna 200 anos no tempo para nos apresentar à paleontóloga Mary Anning (Kate Winslet), uma profissional sisuda, taciturna, que ocupa seus dias buscando evidências científicas de fósseis marinhos de um tipo bem específico de molusco (no caso o amonite do título original), junto ao Canal da Mancha. A rotina de não muita emoção é quebrada com a chegada da jovem Charlotte Murchison (Saoirse Ronan) ao local que, não demora, se transforma em uma espécie de aprendiz de Mary.

Ou, ao menos na teoria, é isso. Charlotte chega ao local conduzida pelo marido (James McArdle) e com uma recomendação médica a tiracolo: a brisa marinha, a água do mar e um ambiente mais tranquilo podem auxiliar a jovem no tratamento de um quadro de "melancolia". Não é preciso ser nenhum adivinho pra saber que a relação se iniciará às turras: pouco aberta para novidades e bastante pragmática, Mary maltratará a sua hóspede improvisada, não fazendo muita questão de esconder seu descontentamento diante da tarefa meio improvisada que lhe é imposta. E tudo piorará quando, fragilizada, Charlotte for acometida de um resfriado, que ampliará a distância entre a dupla central. Mas esse é um romance, não podemos esquecer, e essas dificuldades iniciais serão apenas o combustível para que, aos poucos, as duas se aproximem, iniciando uma relação as escondidas. A conservadora mãe de Mary (a ótima Gemma Jones) não pode sonhar que a filha deseja outra mulher. O mesmo valendo para o escândalo que envolveria Charlotte, uma moça casada.

Ao cabo, trata-se daquele tipo de filme que utiliza a sua ambientação - bem como seu desenho de produção, sua fotografia e até mesmo seu figurino - para a construção da narrativa que assistimos. A praia que a gente vê é acinzentada, pálida, pouco ensolarada. O frio parece emanar de cada canto, de cada frame - e as pedras coletadas não fogem a este aspecto. Mais, como força de reforçar o clima de desolação, Lee nos entrega, em uma das primeiras sequências, um café da manhã em que um ovo cozido se apresenta choco. Uma massa morta salta da casca. A melancolia está em cada poro. E é claro que tudo isso se modificará conforme avançar a amizade entre Mary e Charlotte: as roupas ganharão outras tonalidades, os sorrisos aparecerão bem como uma fresta de sol, aqui e ali. O amor é capaz desse tipo de transformação. Melhor, é capaz de tornar um ovo cozido em apenas isso mesmo: um ovo cozido. Gostoso. Normal.

É o filme que, também, não foge da estrutura convencional das obras de época, pautada muito mais por olhares e silêncios e por desejos nem sempre compreendidos, ou mesmo escondidos. Uma festa aleatória pode ser motivo de desentendimento. Uma carta endereçada pode representar o choro ou o riso. Um acontecimento prosaico que deixa os envolvidos enternecidos. A incerteza sobre tudo é o que rege a narrativa. Há o trabalho, os desejos profissionais, as ambições pessoais. E há o sonho da relação amorosa ideal, que quebra paradigmas, que confronta a sociedade em que todos se inserem. Em geral não há soluções fáceis e Winslet e Ronan se entregam a seus papeis da melhor forma, com a competência que lhes é habitual, nos emocionando e nos fazendo entender, a cada sutil movimento, cada uma de suas decisões. Sim, a Academia esqueceu completamente: mas nós estamos aqui pra lembrar que vale a pena.

Nota: 8,0

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Novidades no Now/VOD - A Mulher na Janela (The Woman in the Window)

De: Joe Wright. Com Amy Adams, Juliane Moore, Fred Hechinger, Gary Oldman, Jennifer Jason Leigh e Wyatt Russel. Suspense / Drama, EUA, 2021, 101 minutos.

Vamos combinar que, a despeito do hype, o livro do escritor A. J. Finn já não é aquela coisa toda. Então seria necessário que o diretor Joe Wright (de Desejo e Reparação) operasse um pequeno milagre pra que o filme não se tornasse tão constrangedor o que, em partes, ele conseguiu. Eu confesso que esperava algo mais desastroso - e quem leu a obra sabe que algumas escolhas narrativas, especialmente no terço final, chegam a ser quase delirantes. Mas tentei, como sempre faço nesses casos, separar a literatura do cinema - são linguagens diferentes, afinal -, pra não me ver contaminado na hora de escrever esse pequeno texto. Pra quem não conhece a história, ela bebe desavergonhadamente na fonte de clássicos como Janela Indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock. A protagonista Anna Fox (Amy Adams) é uma mulher separada e solitária que sofre de agorafobia, o que a mantém reclusa dentro de casa. Entre medicamentos, taças de vinho, conversas aleatórias pela internet e com o ex-marido e filha, ela passa seus dias assistindo filmes antigos e espionando os vizinhos em uma ampla janela na sua casa.

Ocorre que em um dia de rotina, observando os demais moradores, Anna se vê intrigada com a chegada dos Russels, os novos vizinhos, que passam a ser objeto de seus olhares (e de sua câmera). A protagonista ficará ainda mais desconfiada com o comportamento excêntrico dos integrantes da família - do filho Ethan (Fred Hechinger) aos pais Alistair (Gary Oldman) e Jane (Julianne Moore) -, que lhe visitarão, aleatoriamente, em dias separados. E tudo ficará ainda mais estranho quando Anna tiver a clara impressão de ter visto Jane sendo assassinada dentro de sua própria casa. Alucinação? Efeitos colaterais dos medicamentos? Excesso do vinhos, misturados com clássicos suspenses antigos do cinema? Tudo piorará quando a polícia chegar e todos perceberem que... Jane segue viva! Viva, só que agora aparentando ser outra pessoa. O caso deixará Anna ainda mais cismada, com seu psicológico sendo ainda mais abalado pela presença aleatória de David (Wyatt Russell), o seu inquilino que mora no porão de sua residência.

E admito que, assim como acontece com o livro, o filme faz uma boa costura de todos esses acontecimentos, gerando um certo clima de tensão que é ampliado pela ambientação absurdamente claustrofóbica da casa da protagonista - sempre mergulhada em uma penumbra que só é substituída, eventualmente, por uma opaca iluminação vermelha (e o tom, classicamente, sabemos que em cinema está relacionado à mortes e a tragédias). A câmera que trafega com lentidão pelos ambientes, se aproveita de eventos episódicos para torná-los ainda mais tensos do que poderiam ser, caso do instante em que Anna recebe uma curiosa foto em seu e-mail. E há ainda o fato de que o filme não faz nenhuma questão de esconder suas referências - e achei muito inteligente a inclusão de cenas dos filmes que Anna assiste, que passam a funcionar quase como fragmentos narrativos de sua própria vida (e é claro que não é por acaso que, já na primeira cena, nos deparamos com James Stewart segurando sua clássica câmera fotográfica em um quadro da obra que faz com que A Mulher na Janela exista).

Quando li o livro lembro que tive a mesma sensação: a de ter adorado a primeira metade. Na obra de cerca de 400 páginas há mais espaço para as referências cinematográficas e para as conversas com estranhos em chats na internet (algo que acaba suprimido pelo bem da narrativa, que se torna bastante enxuta). Há também uma sensação maior de abandono, de desalento por parte da protagonista, o que também perturba o leitor. Só o que não se modificou foi o desenrolar, que culmina em um dos desfechos mais estapafúrdios da literatura (e, agora do cinema). O "vilão", suas motivações, o desenrolar dos fatos... nada parece fechar decentemente e, no filme, ao menos tiveram a decência de não se deter demais em algo melodramaticamente grandioso. Era pra ser uma obra possível para o Oscar: diretor de renome, grandes estrelas no elenco, livro hypado. Mas houve apenas o escape de um fiasco maior. Para uma sessão na noite de domingo foi de bom tamanho. E era isso.

Nota: 5,5

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Novidades no Now/VOD - Druk: Mais Uma Rodada (Druk)

De: Thomas Vinterberg. Com Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Magnus Millang e Lars Ranthe. Comédia dramática, Dinamarca, 2020, 117 minutos.

Um grande elogio à importância da bebedeira. Aliás, o subtítulo do indicado ao Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira pela Dinamarca Druk: Mais Uma Rodada (Druk) poderia ser algo do tipo. Ode ao tragoléu, talvez. Que seja. Bom, o caso é que enquanto assistia à obra do sempre ótimo Thomas Vinterberg - dos imperdíveis Festa de Família (1998) e A Caça (2010), era tomado por um sentimento de nostalgia em que rememorava os porres homéricos tomados, especialmente, na juventude. E acabei me dando conta de que eles ocorreram em grandes momentos de celebração: aniversários importantes, formaturas, festas de faculdade, casamentos. Ou até em alguma noite aleatória de jogatina ou de decisão futebolística. Condição que contribuía pra tornar a existência mais leve, ampliando a socialização, a desinibição. Beber, afinal de contas, torna a vida melhor? Mais divertida? Aumenta o "brilho"? Nos tira a chatice e nos faz encarar os problemas do mundo com menos letargia ou opacidade? Bom, a película não responde, em definitivo, essas questões. Mas dá algumas pistas.

Pra começo de conversa, a trama já parte de uma premissa no mínimo inusitada: instigados por uma curiosa teoria do psiquiatra norueguês Finn Skarderud, um grupo de quatro professores de Ensino Médio, que levam uma vida bastante ordinária, resolvem fazer um "experimento social". Skarderud concluiu, em suas pesquisas, que os humanos possuem um déficit permanente de 0,05% de álcool no sangue. E que a receita para a felicidade seria equilibrar essa equação, de alguma forma. Assim, adotando o empirismo como metodologia, os educadores Martin (Mads Mikkelsen), Thommy (Thomas Bo Larsen), Nikolaj (Magnus Millang) e Peter (Lars Ranthe) resolvem testar na prática as ideias do pesquisador. E, de saída, os benefícios são palpáveis, com o quarteto se saindo melhor tanto nas relações familiares, quanto na rotina com os alunos - que antes se apresentava como um grupo amorfo e desinteressado. Só que os problemas começam quando eles resolvem avançar para além dos limites. E, bom, não é preciso ser nenhum adivinho pra imaginar que as coisas sairão do controle.

Vinterberg, como é de praxe em sua filmografia, trata aqui de um tema mais sério, mas com boas doses (com o perdão do trocadilho), de humor. Foi assim quando abordou o fascínio armamentista em Querida Wendy (2005) ou o vazio completo da vida no existencialista Dogma do Amor (2003). Aqui, o diretor que surpreendeu ao ser indicado ao Oscar - desbancando nomes como como o de Aaron Sorkin (que poderia concorrer por Os 7 de Chicago) -, alterna momentos leves, como o da corrida dos jovens em volta do lago (que envolve muita bebedeira), com outros mais introspectivos (e a cena inicial, do jantar dos quatro amigos, é uma das mais comoventes). E, conforme a bebida vai entrando na história - sendo muitas vezes filmada em closes, ou com descrições detalhadas de suas composições, aromas e sabores (resista a tomar uma taça de vinho, que seja, após a experiência!) -, a obra vai descambando para a tragédia que envolve a falta de limites, quando o assunto é a bebida. Ainda que jamais soe excessivamente moralista, já que nunca deixa de reconhecer o "valor" do consumo moderado.

Tomando por base a dinâmica entre alunos e professores para fazer a história evoluir, a obra encontra na celebração alcoólica o ponto de "encontro" que quebra as diferenças geracionais. Não é por acaso que é num nível elevado de álcool no sangue, que Martin faz os estudantes compreenderem melhor aspectos da vida de Churchill, Roosevelt e Hitler. Ou que Tommy comemora um gol de um aluno de seu time, na escolinha, como se fosse uma final de campeonato. "É melhor morrer de vodka do que tédio" já diria o poeta russo Maiakovski e a gloriosa sequência em que líderes políticos completamente bêbados são exibidos (com destaque para Boris Yeltsin e Bill Clinton gargalhando inadiavelmente), talvez seja a prova de que talvez até as relações diplomáticas poderiam ser menos pesadas, se regadas a uma ou outra taça. Não há conclusão definitiva. Apenas a diversão, a inconsequência e a desinibição que faz com que um professor possa dançar livre e, espetacularmente, com os alunos, sem se preocupar com o entorno. E quem já bebeu com algum professor sabe do que estou falando. Aliás, alguém não bebeu com o professor?

Nota: 9,0

terça-feira, 30 de março de 2021

Novidades no Now/VOD - Filhos de Istambul (Kaggitan Hayatlar)

De: Can Ulkay. Com Çağatay Ulusoy, Emir Ali Dogrul e Turgay Tanülkü. Drama, Turquia, 2021, 96 minutos.

Talvez não seja exagero dizer que a Netflix talvez tenha oficializado de vez o movimento que eu, aqui, me atrevo a chamar de Novo Cinema Turco, dada a grande quantidade de obras do País que estreiam na plataforma, muitos deles com um bom apelo de público. Nesse sentido, filmes de caráter meio universal passam só de raspão por questões políticas e sociais locais, o que faz com que os cinéfilos de todo o globo se sintam representados por aquilo que assistem. Em muitos casos trata-se de dramas meio novelescos, com reviravoltas emocionantes, realizados com grande apuro técnico - seja com o uso de uma fotografia viva, ângulos de câmera modernos e desenho de produção elegante. Foi este o caso, por exemplo, dos incensados Milagre na Cela 7 (2019) e Mucize (2015). O expediente se repete agora com o recente Filhos de Istambul (Kaggitan Hayatlar). Sim, o País asiático é desde sempre um polo a ser explorado e a plataforma de streaming sabe disso. Assim como sabe que nem só de Fatih Akin e Nuri Bilge Ceylan - e seus filmes de festivais -, vive o cinéfilo médio.

Só que o problema da grande abundância da oferta de obras meio genéricas deste ou daquele País acaba sendo o caráter meio derivativo destas. Se por um lado o cinema pungente e político do já citado Akin pode afugentar o fã de cinema médio, por outro, obras excessivamente palatáveis e não muito inovadoras podem soar apenas escapistas - ou carentes de "vigor". Vejam bem, não é que a obra do diretor Can Ulkay seja ruim. Bem longe disso. Aliás, ela tem uma série de bons e inspiradores momentos, ainda que um olhar mais atento seja o suficiente para que desvendemos os segredos por trás do catador de papel que decide ajudar um garoto de cerca de oito anos que mora nas ruas. A meu ver, o grande problema de uma obra como esta reside em sua crise de identidade. Ao tentar ser excessivamente global, peca por esquecer as questões locais. E, o pior: em alguns instantes ainda torna tudo mais complicado ao romantizar a pobreza ou a vida de abandono.

Mas, enfim, posso também só estar sendo ranzinza e, ok, quanto a isso. O filme não me pegou tanto e não há problemas, já que cada um viverá a experiência cinematográfica a sua maneira. Sobre a trama em si, eu já pincelei ela ali no segundo parágrafo: o protagonista é Mehmet (Çağatay Ulusoy), um sujeito de trinta e poucos anos que coordena um coletivo de catadores de papelão e que está juntando dinheiro para conseguir um transplante de rim - aliás, ele sofre bastante com isso e seu comportamento meio autodestrutivo não parece ajudar muito. Em uma das rotinas de coletas, quase ao final do expediente, ele percebe que dentro de um carrinho de um de seus catadores, ficou o já citado menino, que recebe o nome de Ali (Emir Ali Dogrul). Com medo de retornar para casa onde apanha do padrasto e tem uma relação conturbada com a mãe, o pequeno acaba sendo "adotado" por Mehmet. E será essa nova vida adaptada que acompanharemos.

Com grande apuro técnico, o filme se vale de ótimos ângulos de câmera, de uma trilha sonora bem pontuada e de uma montagem enérgica para conferir certo dinamismo à narrativa. A paleta de cores bastante florida dos dias - até as cenas de becos com roupas penduradas em meio à metrópole formam uma composição agradável -, confere um caráter meio primaveril ao projeto (mesmo nas cenas tensas em que há fugas ou brigas os tons são quentes, vivos). Só que a narrativa em si é uma repetição de atos em que Ali sente o peso do abandono permanente - e o medo de, novamente, em sua nova "família" ser deixado de lado. E lá pelas tantas o que era uma obra pra comover, vai se tornando um mero aborrecimento. O terço final surge oxigenado, muito mais pelo trabalho de fotografia, edição e trilha sonora (sério, o padrão é quase hollywoodiano) do que pelos acontecimentos em si. O que não tira o mérito dos esforços de produção cinematográfica fora dos grandes polos.

Nota: 5,5

segunda-feira, 29 de março de 2021

Novidades no Now/VOD - Loucura de Amor (Loco Por Ella)

De: Dani de la Orden. Com Álvaro Cervantes, Susana Abaitua, Luis Zahera e Aixa Villagrán. Romance / Comédia. Espanha, 2021, 102 minutos.

“Quem quer dá um jeito, quem não quer, arruma uma desculpa!”
“Não corra atrás das borboletas, cuide do seu jardim e elas virão até você!”
“Foco, força e fé”

Você já deve ter escutado as frases acima de algum amigo, coach ou influenciador. Todo mundo conhece o tipo, pode ser o/a amigo/a good vibes, o day trader que promete um enriquecimento mágico em poucos meses ou algum guru do marketing digital. Todos perfis tão rasos, tão genérico-simplistas e com argumentos tão ficcionais que parecem saídos diretamente das telas do cinema ou do seu serviço de streaming predileto. Quando nos deparamos com essas figuras, geralmente em propagandas ou anúncios indesejados, ato contínuo fechamos o vídeo ou rolamos nossa tela o mais rápido possível. Contudo, às vezes, damos aquela espiadinha, uma breve e desiludida chance para o conteúdo “quântico” ou “estratégico”, afinal, somos curiosos e, também, nem tudo precisa ser tão ruim. Um título apelativo, um bem-apessoado qualquer, uma música interessante e um jogo de luzes já são o suficiente para chamar nossa atenção. É assim que também somos fisgados por grande parte dos trailers cinematográficos de filmes duvidosos. E foi assim, como num rompante otimista, que decidi dar uma chance a Loucura de Amor (Loco por Ella), filme produzido e disponível no catálogo da Netflix.

E é no melhor estilo Fiuk do BBB 21 que ficamos conhecendo Adri (Álvaro Cervantes), o curioso e equivocado protagonista da trama. O jovem adulto, solteirão, bonito e dono daquele papo clichê digno dos melhores esquerdomachos disponíveis, encontra a misteriosa Carla (Susana Abaitua) em um bar e, depois de uma noite intensa, com direito à invasão de casamento alheio e ocupação indevida de quarto de núpcias, é deixado na calçada somente com a roupa do corpo e um coração absolutamente apaixonado pela mulher que acabou de conhecer. A sequência é o que se espera de todo homem preso na adolescência: uma busca implacável e totalmente inconsequente pela moça desconhecida. Adri finalmente encontra Carla em uma situação, digamos, bastante peculiar, em um hospital psiquiátrico, em meio ao tratamento de Transtorno Bipolar. Então, em um acesso de romantismo desmedido, resolve internar- se e acaba paciente do lugar junto com a recém-amada. Há, a partir de então, mais uma sequência de estereótipos. Adri recusa-se a participar da rotina do hospital, jurando aos médicos e enfermeiros não estar com problemas, pois tudo fora apenas uma estratégia maluca para alcançar seus objetivos (que descobrimos não ser somente a busca pelo verdadeiro amor). 


A trama parece seguir para a mais completa repetição de clichês, no melhor estilo dos enlatados americanos, quando somos apresentados aos coadjuvantes da narrativa, todos pacientes do local, cada um com seu drama particular e com suas dificuldades. É bonita e respeitosa a forma como são abordados os problemas que observamos. Conhecemos, por exemplo, Marta (Aixa Villagrá), mulher com Síndrome de Tourette que tenta, de modo muito desajustado, conquistar outro jovem com Transtorno Obsessivo Compulsivo, gerando cenas engraçadas e sensíveis. Nos emocionamos com Saúl (Luis Zahera), que mente à filha, para que ela não saiba que o pai está “louco” e assim possa se orgulhar dele. É difícil não gostar daquelas pessoas. Todas elas nos causam profunda empatia e, aos poucos, a história de Adri e Carla vai ganhando, e por vezes até sendo deixada em segundo plano, cores e tons ora coloridos, ora obscuros, com a percepção do jovem apaixonado que distúrbios psicológicos não são “falta de vontade”, ou “maluquice”, “falta de Deus” ou “fraqueza”.

Este momento de entendimento, de choque de realidade, teria sido hora perfeita para o filme acabar com uma mensagem menos comum. Mas todo conteúdo que tem cara de clichê, jeito de clichê e parece muito com um clichê é, no final das contas, por mais que se esforce para ser diferente, um grande clichê. Apesar da história do romance óbvio, a obra tem ótimos momentos, especialmente com nossos amigos coadjuvantes e seus instantes curiosos, engraçados e sensíveis. O trailer colorido e intenso, o nome apelativo, a trilha marcante só comprovaram que o óbvio também pode ser bom, poderia ser melhor, mas ainda assim permanece agradável e divertido. Vale o otimismo.  

Nota: 5,5


sexta-feira, 26 de março de 2021

Novidades no Now/VOD - O Mistério do Poço (En El Pozo)

De: Bernardo e Rafael Antonaccio. Com Paula Silva, Augusto Gordillo, Luis Pazos e Rafael Beltrán. Drama / Suspense, Uruguai, 2018, 82 minutos.

O Mistério do Poço (En El Pozo) foi a tentativa mais ou menos bem sucedida do Uruguai, de fazer um daqueles filmes em que um grupo aleatório de adolescentes se reúne em algum lugar isolado - muitas vezes o cenário ideal para que coisas estranhas comecem a acontecer. A gente já viu esse tipo de obra milhares de vezes em Hollywood. Aliás, no cinema de terror de baixo orçamento, esse costuma ser um filão que tem seu público cativo e, não quero parecer presunçoso, mas creio que dificilmente seria atraído para um projeto do tipo, se não fosse um filme sul-americano. Afinal de contas, em espanhol, alguns clichês do gênero "drama de suspense juvenil que vai descambar para o terror e para a violência", poderiam ser melhor aceitos. E até acho que é o que acontece aqui, ainda que a empatia pelos personagens que acompanhamos em cena beire mais ou menos a ZERO (o que significa que, lá pelas tantas, pouco importa o caos) e muitas soluções soem estupidamente irreais. Enfim, mas é o que temos.

Quando o filme começa, somos rapidamente apresentados a um coletivo de amigos que não parece assim tão conectado - e é justamente as diferenças que surgirão, aqui e ali, que pontuarão alguns dos melhores momentos da narrativa. Alicia (Paula Silva) é a jovem que está visitando a família no povoado de Suárez, distante da capital, por causa do falecimento da sua avó. Junto dela, o namorado Bruno (Augusto Gordillo) é o deslocado sujeito de classe média de ares elitistas, que se vangloria por poder comer sushi, que não gosta de excesso de barulho, e que mantém um discurso progressista provavelmente meio de fachada. O quarteto é completado pela dupla Tola (Luis Pazos) e Tincho (Rafael Beltrán), este último com algum tipo de interesse em Alicia, que talvez fosse uma namorada de infância. O cenário: uma pedreira desértica abandonada que fica a dez quilômetros da "civilização", que acabou por formar uma espécie de piscina natural, após anos de inatividade.

Como balneário improvisado, o local é o escolhido pelos jovens para um domingo de sol, de churrasco e de cervejada. Mas a vertigem ocasionada pela excêntrica sensação de isolamento, aumentada pelo calor escaldante, pelo zumbido interminável de insetos, pelos cenários rochosos e inóspitos, transformará o que era pra ser um tranquilo encontro em uma trama tensa e trágica, especialmente após algumas verdades entre eles começarem a vir à tona. Como espectador, confesso que me frustrou um pouco o caráter meio oco dos diálogos - não que jovens na faixa de vinte anos tenham muita profundidade. Mas pouco se aproveita entre uma sacanagem de quinta série aqui, uma piada de mal gosto acolá e algumas doses de masculinidade frágil prontinha pra emergirem em forma de ataques e de agressões. Até mesmo um simples jogo de futebol - um bate bola que nem parece saído do País que nos deu Suárez e Cavani -, é motivo de uma esquisitíssima discussão.

De qualquer maneira, esta é a forma que a dupla de diretores Bernardo e Rafael Antonaccio encontrou para ir ampliando a tensão, conforme aquele dia de calor caudalosamente sufocante passa. De alguma forma isso dá certo em alguns momentos. Por exemplo, em certo momento, os amigos pulam de uma barragem para um mergulho em águas mais profundas e se deparam com a presença de ferros de construção sob as águas. E a escolha de um personagem, especificamente neste momento, nos deixa bastante agoniados. No mais a película avança de uma forma que sabemos que as coisas, ali adiante, sairão do controle. Um carro que fica sem bateria. A noite que se avizinha. Uma faca que não deveria existir. É o filme de jovens estúpidos fazendo coisas estúpidas. E que, sinceramente, às vezes nos deixa bastante desesperançosos. Especialmente quando constatamos que aqueles que ali assistimos, poderiam existir de verdade. No mais, vale pelo arrojo uruguaio em sair do cinema crítico/social, que é uma de suas marcas em festivais internacionais. Mal não faz.

Nota: 6,0

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Eu Me Importo (I Care a Lot)

De: J. Blakeson. Com Rosamund Pike, Dianne Wiest, Peter Dinklage, Elza Gonzalez e Alicia Witt. Suspense / Comédia, EUA, 2020, 118 minutos.

A despeito do hype preciso ser sincero: não consegui me conectar com esse Eu Me Importo (I Care a Lot) - uma das novidades da semana na Netflix. Sério, não rolou. Não deu mesmo. Aliás, eu tenho um sério problema com aqueles filmes que parecem querer misturar Guy Ritchie com Irmãos Coen de uma forma meio forçada: eu pego ranço já na origem. Aqui, a história rocambolesca - por mais que a premissa até seja divertida - não emplaca. A farsa soa apenas absurda. As situações se tornam apenas extravagantes. O senso de humor é difuso. E as interpretações de praticamente todo o elenco, de quebra, ainda são constrangedoras, beirando a canastrice. Em linhas gerais a obra é quase uma alucinação que se pretende um suspense de "máfia" com boas doses de humor negro. Só que o problema é que você não se assombra - como seria esperado em um thriller - e muito menos dá risada. Aliás, a obra gera um efeito ainda pior no cinéfilo, que é a indiferença: a gente apenas torce pra que tudo acabe logo.

Quem me acompanha aqui no Picanha sabe que eu dificilmente "pego pesado" nas resenhas: sou apenas um jornalista que gosta de cinema, metido a ter um site pra escrever sobre as obras que assisto. Aliás, não são poucos os textos em que, inclusive, tento fazer algum tipo de defesa àquelas películas não tão bem quistas. Mas o caso é que no filme do diretor J. Blakeson (do fraco A 5ª Onda) não há muita salvação. Pra vocês terem ideia, a trilha sonora é ruim. É invasiva, exagerada. Não parece se comunicar decentemente com a narrativa. Às vezes a impressão é a de estarmos assistindo algum tipo de peça publicitária de alguma empresa da área de tecnologia. Até detalhes como o figurino das personagens parecem pensados à moda "miguelão": sequer há uma lógica no estilo de roupas usado, por exemplo, pela protagonista vivida pela Rosamund Pike, que a meu ver não consegue transmitir o suposto poder que ela deveria emanar TAMBÉM pelas suas vestes.

Na trama, Pike é Marla Grayson, uma espécie de trambiqueira que trabalha como guardiã legal de idosos que não podem se cuidar sozinhos. Na realidade se trata de um golpe que ela aplica com o auxílio da namorada Fran (Elza Gonzalez) e da médica dra. Karen (Alicia Witt), que repassa ao Estado os casos desses pacientes - de preferência velhinhos com bastante dinheiro. Uma vez assumida a condição de cuidadora, a picareta organiza todo um sistema em que se apodera dos bens dos idosos, tudo com o aval jurídico, impedindo inclusive, em muitos casos, os próprios familiares de poderem ver as "vítimas". E quando a aposentada de cerca de 70 anos Jennifer Peterson (Dianne Wiest) surge na mira das trapaceiras, ela parece o alvo perfeito: sem marido, sem filhos e com um caso de demência em estágio inicial. Mas o problema é que Jennifer não é o que aparenta: com um passado nebuloso (e criminoso) a velhinha se tornará a antagonista perfeita nesse cabo de guerra entre as duas, com direito a ligações com a Máfia Russa e com crimes diversos como falsificação, roubo e evasão de divisas.

E eu vou ser sincero novamente com vocês: quando vi a trama e as primeiras resenhas (algumas positivas) para o filme, eu fiquei bastante empolgado. Mas a forçação em tudo me jogou lá pra baixo: a indecisão em ser um filme de comédia ou uma obra policialesca - ainda por cima com ZERO charme e carisma -, ajuda a colocar a experiência a perder. A gente não consegue gargalhar, por exemplo, em uma sequência em que Peter Dinklage surge seminu ouvindo música ambiental enquanto se exercita com argolas. Assim como não nos assombramos quando alguma das personagens é atacada por algum mafioso. Isso sem falar no auge do diálogo caricato, quando Pike vira pra sua antagonista para proferir o indefectível "eu nunca perco" em uma discussão. [ALERTA DE SPOILER]: E é ao adotar um desfecho meio O Pagamento Final (1993) - em que um sujeito aleatório em aparição episódica surge no final para assassinar a protagonista à moda Benny Blanco -, que o sentimento fica ainda menos redentor. Fica parecendo aquela coisa meio Deus Ex-Machina de quem não sabia direito como concluir a história. Pra mim foi a mais completa decepção. Em um filme que eu esperava muito mais.

Nota: 2,5

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Relatos do Mundo (News of the World)

De: Paul Greengrass. Com Tom Hanks, Helena Zengel, Elizabeth Marvel e Bill Camp. Drama / Aventura, EUA, 2020, 118 minutos.

Faroeste dirigido pelo Paul Greengrass, protagonizado pelo Tom Hanks e com uma história sobre uma amizade improvável em meio as planícies poeirentas do Texas: assim é Relatos do Mundo (News of the World), que é aquele típico filme de estrutura clássica, que deve agradar cinéfilos de todos os tipos. Aliás, eu gostei demais. Até mesmo porque há um componente de valorização do jornalismo na narrativa, que me pegou de jeito. Na trama, Hanks é o capitão Jefferson Kyle Kidd, um veterano de guerra que ganha a vida percorrendo pequenas cidades do Sul dos Estados Unidos, onde faz leituras de notícias dos principais periódicos do País. Os tempos são turbulentos naquele 1870 pós Guerra da Secessão e tantos os jornais quanto a alfabetização das pessoas não deixam de ser uma espécie de novidade. Em suas andanças ele se depara com uma jovem de nome Johanna (Helena Zengel) que está perdida, após seu comboio ter sido atacado. 

Criada por índios da tribo Kiowa após ter sido raptada anos antes, a menina de cerca de dez anos não fala nada de inglês, não tem memória de sua família biológica e tem um comportamento inicialmente hostil, sempre reativo. Os documentos que estão com ela dão conta da existência de familiares em um povoado cerca de 650 quilômetros distante de onde Kidd se encontra. Após um começo complicado envolvendo as burocracias do Estado para resolução do caso, o capitão resolve assumir a tarefa de conduzir Johanna até o local onde estão seus tios. No meio do caminho seguirá com o seu ofício, enquanto enfrentará obstáculos em sua jornada. Por obstáculos leia-se homens interessados em comprar ou raptar a jovem, o que possibilitará uma boa dose de cenas de ação, que certamente acertarão em cheio os corações dos saudosos fãs de westerns.


Ainda assim, em linhas gerais o clima é muito mais contemplativo do que movimentado. A quase total ausência de diálogos mais fluídos entre a dupla de protagonistas faz com que a evolução da amizade e a aproximação entre eles se dê de forma pouco apressada, com uma evolução tópica, quase episódica. Nesse sentido, a cada vez que Kidd salva a dupla de algum perigo iminente, Johanna vai se afeiçoando de seu bem-feitor - e confesso que fiquei bastante impressionado com a caracterização de Helena Zengel, ainda mais levando-se em conta o fato de que ela está em tela praticamente o tempo todo em tela com um ator da envergadura de Tom Hanks (que, aliás, empresta o seu habitual carisma para a entrega de mais um personagem executado com competência e elegância, o que deve lhe dar mais uma indicação ao Oscar para a coleção).

Abusando dos planos aéreos e de outros recursos técnicos como a fotografia amarelada e a trilha sonora bem pontuada, Greengrass transforma Relatos do Mundo em uma obra de aparência simples, mas de execução eficiente. Discutindo aqui e ali temas que refletem nos dias atuais - caso da polarização política, da luta por direitos e da importância da literatura (e das artes como um todo) como uma espécie de fuga da alienação -, o diretor ainda acrescenta um componente "místico" em uma das mais belas sequências da narrativa, quando um grupo de índios surge em meio a uma tempestade de areia, para subverter a lógica mocinho x bandido que tanto vimos nos clássicos muitas vezes maniqueístas de John Ford. Sim, porque na modernidade, é simplesmente impossível ignorar os avanços sociais alcançados, mesmo na hora de contar histórias que se passam 150 anos atrás. O que faz com que essa obra tão correta, tão bem executada, tão retilínea, ganhe uns pontinhos a mais.

Nota: 8,0

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Malcolm & Marie

De: Sam Levinson. Com Zendaya e John David Washington. Drama / Romance, EUA, 2020, 106 minutos.

Aqueles que tiverem saco pra uma DR de casal de mais de uma hora e meia têm mais chance de gostar desse Malcolm & Marie - filme que estreou na última sexta-feira (05/02) na Netflix. Por se passar em um único ambiente, a obra do diretor Sam Levinson (de Euphoria) depende quase que exclusivamente da força de seus diálogos. E das interpretações de seus protagonistas - no caso Zendaya e John David Washington. Sim, porque fazer filmes em tempos pandêmicos é recorrer a um recurso já muito utilizado no passado, seja em clássicos como Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? (1966), seja em projetos mais recentes, caso de Deus da Carnificina (2011). Hoje em dia todo o mundo está confinado. Então há uma identificação quase metalinguística com aquilo que acompanhamos: no caso a ruína de um relacionamento já instável e que parece precisar do menor motivo para desmoronar completamente. Em tempos de covid, o número de divórcios aumentou. Malcolm e Marie poderiam facilmente engrossar essa estatística.

Na trama, o casal que dá nome à obra está retornando de uma bem recebida noite de estreia de um filme dirigido por Malcolm. O que deveria ser uma madrugada de celebração, vai se transformando em um vertiginoso drama em que mágoas e ressentimentos vêm à tona conforme as horas avançam. Marie reclama que Malcolm sequer lembrou de seu nome durante os agradecimentos em seu discurso. Especialmente pelo fato de o seu elogiado projeto ter sido inspirado - ao menos em partes - na vida pregressa da companheira (uma ex-usuária de drogas, que luta diariamente para manter a sanidade mental). Ego? Falta de atenção? Toxicidade? Os argumentos de parte a parte nos levam a uma verdadeira montanha russa de emoções em que, a cada instante, somos jogados para um dos lados - e admito que o roteiro é bastante inteligente ao fazer com que não tomemos partido, necessariamente (por mais que as alegações de Marie quase sempre soem convincentes).

Com uma excelente trilha sonora, uma irresistível e bem adequada fotografia em preto e branco e um ótimo uso dos planos-sequência, a obra aproveita a infinita discussão do casal para tecer uma série de comentários sociais relevantes a respeito do racismo na indústria e sobre o vazio da crítica cinematográfica. Em um dos mais histriônicos momentos, Malcolm lê a crítica (favorável) de um jornal de Los Angeles, ao mesmo tempo em que ataca o texto pelo simples fato de a interpretação dada a sua obra não ser aquela pretendida por ele. Nas entrelinhas, a pergunta que fica é sobre se Barry Jenkings (de Moonlight) seria relevante como um William Wyler, se não centrasse tanto a sua câmera para o preconceito estrutural. As pessoas se importariam? Os filmes seriam elogiados? Seriam considerados autênticos? Por que um diretor negro não pode, simplesmente, fazer um filme sobre uma ex-viciada tentando superar seus problemas? E um diretor branco, pode dirigir negros sem ter "lugar de fala"?

Recheando a obra com estas divagações, Levinson acrescenta um pouco de profundidade a uma interminável discussão que poderia soar apenas ególatra e até irritante. Há, aqui e ali, um pouco de exagero e, confesso, acho que muitos dos espectadores teriam abandonado o barco de uma relação - especialmente após sequências devastadoramente agressivas, como a da banheira. Ninguém suporta tanto ataque. Especialmente se a união é frágil ou rasa. Nesse sentido alguns instantes soam apenas artificiais - e me irritou bastante as idas e vindas, intercalando momentos falsamente amorosos (ou de acolhimento) com outros da mais profunda afronta. Ainda assim, parafraseando a escritora brasileira Elvira Vigna, em tempos pandêmicos foi o "que deu para fazer em matéria de história de amor". Especialmente com duas pessoas confinadas. Discutindo a relação. Tentando superar diferenças. E se suportando. Por mais que na vida real a coisa seja diferente. Se é que é tão diferente assim.

Nota: 7,0

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Novidades no Now/VOD - A Escavação (The Dig)

De: Simon Stone. Com Carey Mulligan, Ralph Fiennes, Lily James, Archie Barnes e Ben Chaplin. Drama, Reino Unido, 2021, 112 minutos.

Transformar uma história com ares grandiosos em algo mais íntimo talvez seja a chave para o "sucesso" desse A Escavação (The Dig) - uma das novidades da semana no catálogo da Netflix. É um filme que parte de um grande evento - no caso a descoberta do gigantesco parque arqueológico de Sutton Hoo, na Inglaterra, às vésperas do começo da Segunda Guerra Mundial -, para narrar a trajetória das pessoas envolvidas no episódio. Assim, por mais que o filme se ocupe do esplendor da revelação em si, o que rende ótimas tomadas aéreas e cenas variadas que mostram um barco intacto do Século VI e outros elementos e objetos que compõem a necrópole, interessa muito mais a forma com que escavadores, pesquisadores, museólogos e a família da dona das terras se relacionaram com esse fato. É nos vínculos (afetivos) entre os envolvidos que a obra do diretor Simon Stone ganha força, se tornando uma honesta experiência cinematográfica capaz de amarrar passado, presente e futuro com desenvoltura e elegância.

E eu confesso que não estava esperando muito. Mesmo. Por mais que os nomes de Carey Mulligan e Ralph Fiennes chamassem a atenção, pensava que a sessão pudesse soar meio modorrenta ou excessivamente contemplativa. Mas não. Na trama, Mulligan é a jovem viúva Edith Pretty que, interessada por arqueologia, contrata o experiente escavador Basil Brown (Fiennes) para explorar parte da área localizada em sua propriedade. O que inicia como um descompromissado e modesto trabalho vai se tornando algo maior, conforme as descobertas daquilo que realmente existe no terreno vão se descortinando. Em 1938 o nome da Hitler e os avanços da Alemanha Nazista já eram uma realidade: mas ali, naquele cenário bucólico, idílico, a batalha passa a ser outra quando entram em cena interessados ligados ao Governo, ao Museu Britânico, ao departamento de obras, entre outros. O que resultará em uma série de discussões sobre o destino do material encontrado no sítio arqueológico.

Filmada com grande apuro técnico, a obra faz lembrar um filme do Terrence Mallick sobre arqueologia. E confesso que a "homenagem", com a câmera fazendo idas e vindas em meio ao cenário pastoril, complementada pelas narrações em off, pelas plantações, pelo entardecer, pela chuva e pelo barquinho, com a fotografia da natureza verde-acinzentada sendo palpável - tudo elementos típicos do modus operandi do diretor de Uma Vida Oculta (2020) -, funcionam direitinho. É uma escolha acertada para uma obra que não requer pressa para evoluir, já que as próprias cenas da escavação em si, que sugerem certa delicadeza (observem o uso do pincel, de uma forma quase gentil), não exigem nenhum tipo de urgência. E mesmo os personagens acrescentados à narrativa, vão sendo colocados de forma tópica, orgânica, o que dá fluidez e organiza a obra para que nada pareça desconectado. É, ao cabo, o famoso filme que dá gosto de assistir.

Imprimindo, como já dito, força nos pequenos arcos dramáticos - um grave acidente que ocorre no sítio arqueológico, a severa doença de um dos protagonistas, a relação do filho de Edith com Brown (vivido pelo carismático Archie Barnes) -, a película aproveita o conceito de escavação para estabelecer uma metáfora com a importância da preservação da memória (e da história), cruzando-a com outros temas, como astronomia, fotografia, passagem do tempo e, claro, o absurdo da guerra. Discutindo, aqui e ali, temas como machismo, adultério e homossexualidade, a obra aposta na sutileza para fazer justiça ao nome de Basil Brown, que por muito tempo permaneceu como uma figura abnegada em sua área de conhecimento. Nesse sentido, o filme baseado no livro de John Preston, com toda a sua poesia subjacente, não deixa de ser uma bela homenagem.

Nota: 8,0

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Uma Noite em Miami (One Night In Miami)

De: Regina King. Com Kingsley Ben-Adir, Eli Goore, Leslie Odom Jr. e Aldis Hodge. Drama, EUA, 2020, 113 minutos. 

 "Alguns brancos só querem ter a oportunidade de se parabenizar por não serem crueis conosco, como se devêssemos dar graças por eles terem tido a gentileza de nos tratarem quase como humanos. Eu odeio eles mais do que os racistas escancarados".

Vamos combinar que é a forma com que é a tratada a questão do racismo que torna Uma Noite em Miami (One Night In Miami) um filme ainda melhor do que poderia ter sido. Por que não se trata apenas de quatro homens negros confinados em um apartamento, discorrendo sobre como sofrem o preconceito na pele. Há também um debate sobre como cada um deles encara essa realidade: com mais militância? De forma mais resignada? De maneira silenciosa? Com submissão? Com compromisso com a "causa"? Isto porque os quatro sujeitos em questão são famosos - e talvez por isso pudessem usar a fama em seu favor. O primeiro deles é o boxeador campeão mundial Cassius Clay (Eli Goore). Há também o músico de soul Sam Cooke (Leslie Odom Jr.) e o jogador de futebol americano candidato a astro de Hollywood Jim Brown (Aldis Hodge). Fechando o grupo, o ativista político Malcolm X (Kingsley Ben-Adir) serve como uma espécie de amálgama de todos: o ano é 1964 e a luta pelos direitos civis dos negros na Terra do Tio Sam percorreria praticamente toda a década.

Em si o filme, baseado em uma peça de Kemp Powers, é bastante teatral. E é por isso que centra a sua força na potência dos diálogos e nas interpretações bastante expressivas de seu elenco. Não parece haver, nesse sentido, muito espaço para pontas soltas: ao imaginar como seria esse encontro fictício, a diretora Regina King (em sua promissora estreia) escancara o racismo estrutural que, em muitos casos, sequer é claro para os negros que conseguiram superar um sem fim de barreiras para vencer na vida. E "vencer na vida", lembra Jim Brown em certa altura: é TAMBÉM ter estabilidade financeira. Nesse sentido, o filme é um prodígio na discussão do papel dos próprios negros no combate ao racismo - que poderiam (e deveriam?) utilizar a sua voz nas artes, na música, nos esportes e em outros campos para levantar as suas bandeiras. Está em alta, por exemplo, a discussão sobre se atletas profissionais devem ou não encampar essa luta - se deveriam se manifestar ou mesmo deixar de entrar em quadra ou em campo como forma de protesto a cada episódio de racismo que ocorre no esporte. Por que se ele ocorre no esporte, na música e com os famosos, como não estará acontecendo nas frestas?

E é por isso que a "dança" entre esse quarteto de protagonistas é tão elegante quanto potente. Após a luta que dá a vitória a Clay em uma noite agradável de Miami Beach, os quatro se encontram para celebrar essa conquista. Ao invés de saírem para beberem, curtirem e viverem, Malcolm X sugere uma noite diferente para todos: confinados, debaterão os próximos passos de uma discussão de vida ou morte que está em alta e que visa a combater os preconceitos. O ativista, na realidade, reúne a todos para inquiri-los: como jogadores e artistas eles não estariam sendo apenas "brinquedos de corda que tocam músicas para o entretenimento dos brancos"? Não seriam eles, apenas "negros burgueses que se contentam com migalhas?". Quando se veem confrontados os demais recuam: Cooke, empenhado em propagar o romantismo classudo em suas canções é provocado: "como pode um branquelo como Bob Dylan ser mais ativo nesse tipo de batalha do que você?". Trata-se ao cabo de um filme sobre tomada de consciência e sobre o quão complicado deve ser trafegar em meio a equação que coloca no mesmo lado o sucesso e a necessidade de não baixar a cabeça para um confronto permanente de ideias.

E mesmo que a intenção geral da obra seja a de provocar a reflexão, a mensagem não deixa de ser passada com elegância, inclusive intercalando momentos mais leves e bem humorados - especialmente no que diz respeito as diferenças de personalidade entre os quatro -, com outros mais complexos e cheios de significados. Há, por exemplo uma sequência em que assistimos uma exibição ao vivo de Sam Cooke e que dá conta da verdadeira potência que pode haver por trás de um comportamento que sugere união diante da adversidade. É uma metáfora mais do que perfeita. Em outros, há espaço para reconhecer que a militância exagerada - ainda que discutir uma pauta como o racismo JAMAIS deveria sugerir exagero -, talvez possa incomodar certas alas (e, nesse sentido, é quase curioso perceber como Malcolm X se apresenta quase como um "vilão" tão involuntário quanto pessimista). É um filme completo, afinal de contas: é bem feito, bem orquestrado, entretém, diverte, é atualíssimo e ainda nos faz pensar. Em alguns aspectos guarda semelhança com o contemporâneo A Voz Suprema do Blues (2020). Mas, aqui, acho que há ainda mais intensidade. O que não deixa de ser também uma virtude, que faz com que a obra dialogue exatamente com aquilo a que ela propõe discutir.

Nota: 8,5

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Novidades no Now/VOD - A Assistente (The Assistant)

De: Kitty Green. Com Julia Garner, Makenzie Leigh, Kristine Froseth e Matthew Macfayden. Drama, EUA, 2019, 87 minutos.

Não chega a ser exatamente uma novidade o fato de que o ambiente de trabalho, especialmente para as mulheres mais jovens, pode ser bastante tóxico. Não bastassem os variados tipos de assédio, o machismo e a misoginia, muitas mulheres também convivem com jornadas exaustivas, esgotamento mental, desvios de função e insegurança a respeito do futuro. É um combo que, invariavelmente, ataca a saúde mental, gerando ansiedade, depressão e síndromes como a de Burnout. E, em muitos casos, o assédio em si não chega a ser escancarado, ostensivo. Ele surge nos pequenos detalhes do dia a dia, no acúmulo de situações desgastantes, na sensação de fracasso iminente. Em uma cena do ótimo A Assistente (The Assistant), filme disponível na plataforma de streaming da Amazon, por exemplo, a jovem protagonista Jane (a sempre competente Julia Garner) se confunde na hora de pedir o sabor de sanduíche para um colega de sala. É o suficiente para ouvir contra si uma reação exagerada, pouco amistosa, agressiva. Afinal de contas, hoje em dia parece ser moda ser reativo, intolerante. Ou mal educado mesmo.

Na trama dessa pequena joia que versa, como já falamos, sobre a toxicidade de escritórios mundo afora, acompanhamos um dia inteiro na vida de Jane em um escritório de uma produtora de cinema. "Primeira a chegar e última a sair" como lembra um de seus chefes em certa altura - e é isso mesmo, já que a obra da diretora Kitty Green inicia com a jovem saindo de casa ainda de madrugada, para sair quase ao final da noite do dia seguinte. Em meio a atividades prosaicas da rotina do trabalho - realizar fotocópias, agendar reuniões, distribuir documentos e até fazer pequenas faxinas -, o dia vai se descortinando de forma melancólica, em meio a refeições mal feitas, ligações telefônicas pouco amigáveis e conversas de corredor sobre temas nem tão importantes assim. Em meio a todo o "caos organizado", Jane estranhará a chegada de outra jovem com idade próxima a sua, que pretende uma vaga de assistente - e que marcará uma misteriosa reunião na casa de um dos supervisores.

Como se fosse a personagem de James Stewart em Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcok, Jane terá a impressão de ter se deparado, lá pelas tantas, com um crime. E se no caso da obra-prima do Mestre do Suspense o que o protagonista via era um provável assassinato, aqui a jovem aspirante ao cargo de produtora junta os pontos que lhe levam a conclusão de que ela possa estar se deparando com um caso de assédio sexual a uma colega. E será na tentativa de denunciar esse caso, que ela perceberá a barreira infinita que existe entre ela - uma menina de seus 20 e poucos anos em início de carreira profissional -, e os magnatas da companhia, todos homens brancos, héteros, ricos, casados, machistas e sem nenhum pudor em agir como agem. Chantageando-a, ameaçando-a, a farão lembrar que, para a vaga dela, - essa legítima "vaga arrombada", por sinal - existem pelo menos 400 pessoas na fila, dispostas a ocupar esse cargo. Um cargo, não custa lembrar, de jornada exasperante e um provável salário de fome.

Porque infelizmente o que vivemos, especialmente no Brasil (nos Estados Unidos também tem ocorrido), é um cenário de completa precarização do trabalho, com perdas de direitos, revisões de leis sob a desculpa de uma suposta "modernização" e a informalidade que fragiliza, que desgasta as pessoas. E que faz com que elas se submetam, como Jane, a um ambiente de opressão, tão sufocante quanto os corredores apertados da produtora em que ela trabalha. Aliás, não é demais salientar que o desenho de produção se ocupa em tornar as salas fechadas, os cubículos que Jane percorre - com seus tons amadeirados e escuros -, em ambientes claustrofóbicos, sorumbáticos. A gente quase sufoca junto com a protagonista, tanto que quando ela sai para tomar um ar e comer um bolinho quase ao final do dia, no único momento das últimas 24 horas que ela olha para si, com alguma qualidade de vida, a gente sente um certo alívio. Que vem seguido de uma tristeza, quando percebemos que amanhã o dia segue. Provavelmente como se nada houvesse acontecido.

Nota: 8,0

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Pieces of a Woman

De: Kornél Mundruczó. Com Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn e Molly Parker. Drama, EUA, 2020, 128 minutos.

A premissa de Pieces of a Woman é tão simples quanto dolorosa: um casal prestes a ter o seu primeiro filho opta pelo parto domiciliar, mas as coisas saem do controle durante o procedimento e o bebê morre instantes depois de nascer. Devastados, Martha (Vanessa Kirby) e Sean (Shia LaBeouf) lutam para tentar retomar a "normalidade" em suas vidas - a rotina, o trabalho, a vida a dois -, ao mesmo tempo em que enfrentam um doloroso processo judicial em que a parteira (Molly Parker) é acusada de negligência criminosa. Sim, é pesado. Bastante pesado. E pode ser contraindicado para aqueles cinéfilos que já estão considerando os tempos pandêmicos um fardo por si só. As dúvidas do casal, afinal, são muitas: se o parto tivesse sido realizado no hospital, o filho teria sobrevivido? E se a emergência tivesse sido acionada mais cedo? Há culpados, verdadeiramente? Colocar a parteira na cadeia amenizará, de alguma forma, a dor? Sem tomar partido, a obra do húngaro Kornél Mandruczó não fornece soluções fáceis, ao mesmo tempo em que mergulha o espectador na rotina excruciante da dupla de protagonistas.

Aliás, mergulha MESMO. Os primeiros 30 minutos de projeção, por sinal, são tão aflitivos, quanto tecnicamente bem executados. Em um longo plano sequência, partimos do casal em aparente tranquilidade enquanto aciona a parteira, após a bolsa se romper. Impedida de vir imediatamente, a parteira manda a sua ajudante. A câmera vai para lá e para cá acompanhando as movimentações angustiantes do trio, de um ambiente para o outro, do quarto para o banheiro e para o quarto novamente. Há um clima de tensão no ar, pesado, incômodo. O ambiente parece mal iluminado, macambúzio. As dores do parto soam ainda maiores do que o normal. O procedimento se torna pesaroso, mais longo do que talvez devesse ser. O apoio de Sean está longe do ideal. Os batimentos cardíacos do bebê parecem palpitar de forma incerta, trôpega. Quando a emergência é chamada já é tarde. Choro, dor, perda. Os créditos iniciais sobem. E nós estamos há uns bons minutos prontos para dizer "chega, já entendemos o que vai acontecer aí". E tudo acontece. Sem muito respiro.


E por mais desolador que seja o arco dramático do filme é preciso reconhecer o esforço dos atores em entregar a melhor interpretação possível - especialmente da Vanessa Kirby, que será figurinha certa entre as indicadas no próximo Oscar. É uma caracterização não apenas de gestos, olhares, silêncios e gritos que parecem prontos a vir à tona. É uma concepção de grande exigência física, mas que também mergulha em nuances para explicitar dores - e, nesse sentido vale observar a sequência em que Martha "tateia" uma maçã no setor de frutas do supermercado. Ou mesmo quando tamborila os dedos das mãos que surgem em close, com o esmalte das unhas agora desgastado, o que poderia sugerir uma espécie de esfacelamento da própria rotina pós-luto. Aliás, hábil na concepção de metáforas, o diretor não hesita em tornar simbólicos os próprios objetos cênicos, podendo ser desde uma bola de pilates que agora murcha no meio da sala, passando pelas flores que estão morrendo nos vasos até chegas nas xícaras sujas que se amontoam na pia. O dia a dia se tornou insustentável e ele é refletido nesses pequenos detalhes, que injetam uma boa carga de simbolismo à dualidade que nos faz lembrar o tempo toda da vida e da morte como espectros opostos.

Nesse sentido, o diretor também é hábil ao possibilitar uma série de debates, sem necessariamente tomar partido. O principal deles coloca em espectros opostos os defensores do parto domiciliar - que visa a tornar o procedimento mais acolhedor e confortável à mulher -, em contraponto aos defensores do parto hospitalar normal, em que a garantia de assistência médica compensaria o caráter mais invasivo da "proposta". E confesso que fiquei muito feliz de ver a forma criativa com que é tratada essa discussão, com as dúvidas sobre o destino "jurídico" a ser dado a parteira surgindo dentro do próprio seio familiar - o que também permitiu à veterana Ellen Burstyn a concepção de boas sequências vivendo a mãe da Martha. Outra bela discussão envolve o destino do corpo da bebê: Martha pretende doá-lo à universidade para estudo, ao passo que sua conservadora mãe deseja um enterro nos moldes tradicionais, religiosos. Em outra parte, a controvérsia envolve "apagar" a existência da filha morta da casa. Martha pretende se desfazer de todas as suas coisas. Roupas, brinquedos, móveis do quarto. Sean está insatisfeito em relação a esta decisão. São instantes que enriquecem a narrativa.

E por mais que o filme não evite alguns clichês batidos - após a morte inesperada de seu bebê, não demora a surgir a cena em que Martha se depara com outras mães extremamente felizes com seus filhos -, a inclusão dessas sequências não chega a comprometer o resultado final. Nem mesmo a tão discutida sequência de tribunal do terço final atrapalha. Há um aceno para o otimismo no desfecho, por mais desalentadora que a experiência como um todo seja - e por mais que isso posso destoar um pouco do conjunto, definitivamente é algo que não atrapalha. É uma obra dura, inescapavelmente melancólica - a neve que insiste em cair reforça isso -, repleta de simbolismos, tecnicamente soberba e ainda com excelentes interpretações. É, até o momento, o grande filme desse começo de temporada. Se terá gás para se sustentar e chegar com força a temporada de premiações, o tempo dirá. Se depender de nós aqui do Picanha, já estamos na torcida.

Nota: 9,0

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Pacarrete

De: Allan Deberton. Com Marcélia Cartaxo, João Miguel, Soia Lira e Zezita Matos. Comédia dramática, Brasil, 2019, 97 minutos.

Talvez de forma meio involuntária, Pacarrete acaba sendo uma grande homenagem àquelas figuras pitorescas que habitam as pequenas cidades Brasil afora. Cada qual tem a sua - figuras excêntricas, extravagantes, cheias de idiossincrasias que ajudam a formam o folclore municipal. Quem mora aqui em Lajeado, no Rio Grande do Sul, sabe que também temos as nossas - quem não se recorda do falecido Aldino e seu carrinho de mão? Vivida de forma visceral pela premiada Marcélia Cartaxo, a Pacarrete do título é uma professora de dança aposentada, que mora em um casarão cheio de penduricalhos com a irmã Chiquinha (Zezita Matos) e com a empregada Maria (Soia Lira). Maníaca por limpeza, rigorosa e ranzinza, a protagonista passa os dias às turras com os demais moradores - especialmente as crianças da vizinhança de Russas, Ceará (onde se passa a ação) -, enquanto se empenha em manter a calçada de sua casa asseadíssima e as floreiras bem organizadas. É o tipo de figura da burguesia decadente que mantém hábitos elegantes que, para muitos, podem soas apenas arrogantes ou presunçosos.

Mas mesmo estando em constante briga com a comunidade, Pacarrete pretende presenteá-la com uma apresentação de balé que deverá ocorrer (ou deveria, ao menos), durante a ampla agenda que marca as festividades dos 200 anos de emancipação política do município. Só que para conseguir o aval para que o seu show possa ser incluído na "agenda", Pacarrete entrará em uma verdadeira disputa com a Prefeitura local - e com suas lideranças, muito mais preocupadas em entregar espetáculos populares de forró ao seu público (o que é justíssimo, por sinal) do que alguma extravagância cultural que poderia soar apenas como elitismo. Em meio às angústias que marcam a indefinição sobre a inclusão ou não da apresentação - a população também não parece muito interessada em música clássica ou dança -, a protagonista solicitará a confecção de uma nova roupa de bailarina à costureira local, ao mesmo tempo em que retomará os ensaios visando à grande noite.

E a história é basicamente essa e não deixa de ser fascinante como um fiapo narrativo pode se ocupar de desvendar tantos subtextos - que podem ir da infinita discussão sobre os limites da arte (que colocam ainda em lados opostos o popular e o erudito), passando pela velhice, pela solidão e pela necessidade de encarar a inevitável finitude, até chegar na importância de se valorizar as pequenas ações. Sobre este último item, certamente não será difícil de se emocionar em sequências que envolvem um simples bolo de fubá, a adoção de um cachorro ou mesmo escutar uma música nostálgica na companhia de um familiar. Pacarrete pode passar o filme todo aos berros, angustiada - e as inflexões vocais que reforçam o "azedume", feitas por Cartaxo, não são menos do que soberbas -, mas refletem toda a solidão sentida por ela, em um mundo que não parece lhe compreender. E é por isso que os instantes em que o personagem de João Miguel aparece se tornam tão adoráveis, tão leves.

Com excelente desenho de produção - vale a pena observar os detalhes dos cenários (até quadro das "crianças que choram" aparece perdido em uma parede) -, a película de estreia do diretor Allan Deberton bebe na fonte de clássicos como O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (1962) ao retratar uma figura bastante histriônica e muito carismática, que sonha em reviver os tempos gloriosos de um passado que não retorna mais. E, confesso que as incertezas sobre a personalidade complexa de Pacarrete só tornam a experiência ainda mais satisfatória - o que é complementado pela ausência de flashbacks, o que nos deixa meio no "escuro" em relação a sua verdadeira história. E isso é bom. Com Marcélia Cartaxto dando um verdadeiro show - ela aparece em simplesmente TODAS as cenas -, a obra, grande vencedora do Festival de Gramado de 2019, ainda se vale de sua graciosa trilha sonora como mais um trunfo. O que, inevitavelmente, nos retirará da projeção com lágrimas nos olhos.

Nota: 8,5

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Sou Sua Mulher (I'm Your Woman)

De: Julia Hart. Com Rachel Brosnahan, Bill Heck, Arinze Kane e Marsha Stephan Blake. Drama, EUA, 2020, 121 minutos.

Uma das piadas divertidas que tem corrido a internet é a seguinte: se você tem saco para assistir a um filme em que um bebê aparece dois terços do tempo de projeção CHORANDO haverá a possibilidade de você gostar de Sou Sua Mulher (I'm Your Woman), obra disponível na plataforma da Amazon. Tudo bem, há um certo exagero na história do bebê chorando, só que como a película não tem muita pressa em "acontecer", ela acaba sendo marcada por esse tipo de coisa. Na trama, nos deparamos com um outro lado dos filmes de bandidagem, que é o do que acontece com a família do criminoso quando este simplesmente desaparece sem muita explicação. No caso daqui acompanhamos a via crúcis de Jean (Rachel Brosnahan) e de seu filho (o bebê chorão de nome Harry), que salta de estrada em estrada, de hotel em hotel e de casa em casa, num curioso road movie enquanto tenta descobrir o que efetivamente teria acontecido com o seu marido mafioso Eddie (Bill Heck).

Levada pelo braço direito de Eddie, Cal (Arinze Kane), Jean consegue escapar, se estabelecendo em novas moradias enquanto tenta instituir algum mínimo de normalidade em sua rotina que, nada mais é do que esperar, esperar e esperar - assim como esperavam os soldados do livro O Deserto dos Tártaros de Dino Buzatti. A violência iminente pode estar na simpática vizinha que finge um comportamento amistoso ou mesmo num grupo de invasores que busca se vingar. São acontecimentos aleatórios em meio a bocejos infinitos que se misturam ao tempo de espera, aos choros do bebê (que, sinceramente, nem sei porque foi incluído na narrativa) e as escapadas espetaculares com a ajuda de Cal. Sobre o paradeiro de Eddie? Jean está no escuro. Ninguém sabe, ninguém viu. Não há resposta para essa pergunta. A ela só resta fugir, pra lá e pra cá. Sempre com o bebê a tiracolo.

Aliás, eu volto a dizer, eu não tenho nenhum problema com fluxos mais vagarosos, ou introspectivos, se estes tiverem algum propósito narrativo. Mas esse não parece ser o caso aqui. A lentidão é ocupada com sequências bizarríssimas como aquela em que surge, de forma inesperada, a família de Cal. Não bastasse o comportamento excêntrico de todos - vô, esposa, filho -, sem motivo algum, a trama ainda se ocupa de despejar diálogos constrangedores, como aquele em que Teri (Marsha Stephane Blake) explica a Jean o fato de ela ser a "melhor cozinheira do mundo" mesmo sem saber cozinhar NADA. "Você os alimenta? Se sim, você é a grande chef de cozinha desse planeta". Uma conversa que apenas preenche buraco, que não tem razão de existir e que só aborrece o espectador. O mesmo vale para o instante em que Jean descobre que Teri tinha sido casado com Eddie, momento em que ela resolve participar de uma sessão de treinamento de tiro - por que, né, ela tá muito furiosa com essa informação.

E como se não bastassem todos esses problemas que truncam a narrativa, o filme ainda tem sérios defeitos na parte técnica, sendo que poucas vezes vi figurinos e penteados tão descuidados como nesse filme (a obra se passa nos anos 70 e pouca coisa parece nos fazer lembrar que estamos naquele período). Levando-se a sério demais, a obra ainda relaxa na hora errada - fazendo piadocas à moda "tiozão do pavê" em instantes decisivos, como numa parte em que um dos sequestradores de Jean simplesmente atira na cara de um parceiro de crime porque este estava falando demais (um momento Quentin Tarantino wannabe que não tem muita lógica de acontecer). Com tanta lentidão, tanta falta de propósito e tanto choro aleatório de bebê, quem está aborrecido, triste e choroso no final da experiência é o espectador, que sente que as duas horas gastas pra apreciar o filme da diretora Julia Hart não voltam mais. Uma pena, porque Rachel Brosnahan é absolutamente talentosa - vide seu papel na ótima série The Marvelous Mrs. Maisel. Só que lá na série, ela faz rir. Aqui, a gente chora. Tal qual o bebê.

Nota: 3,5

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Novidades no NOW/VOD - Soul

De: Pete Docter. Com Jamie Foxx, Tina Fey, Phylicia Rashad e Angela Bassett. Animação / Aventura, EUA, 2020, 100 minutos.

Impressionante a capacidade da Pixar em fazer um filme infantil, mas que não deixa de promover profundas reflexões sobre temas relevantes, como, sentido da vida, memória, morte, espiritualidade, importância da arte, entre outros. Espécie de cruzamento entre Divertida Mente (2015) e Viva: A Vida É Uma Festa (2017), Soul parte da história de um modesto professor de música do ensino fundamental que sonha em ser reconhecido como um virtuose do jazz. Quando a oportunidade finalmente surge para o educador - seu nome é Joe Gardner (Jamie Foxx) -, ele sofre um acidente que o transporta para um outro plano, colocando-o entre a vida e a morte. Nessa espécie de limbo etéreo, onírico, ele será uma alma que terá como missão auxiliar uma "criança" (Tina Fey) a encontrar o seu propósito de vida para que ela possa ser encaminhada para a Terra, onde assumirá o seu formato humano. E essa jornada poderá ser a saída para que o próprio Joe retorne para cá e consiga alcançar seu tão sonhado objetivo.

Sim, parece meio complexo e é quase impossível falar de Soul sem entregar um ou outro spoiler e o que sempre fascina nas obras do estúdio está de volta aqui: por mais que os filmes sejam recheados de piadas físicas e humor genuinamente voltado para os pequenos, é inacreditável a complexidade da abordagem de temas mais psicológicos - o que confere à experiência um valor inestimável também para os adultos. Sim, porque é inevitável, enquanto acompanhamos a tortuosa jornada de Joe, nos perguntarmos sobre quais as nossas motivações na vida. Ou se temos uma grande missão na Terra. Ou será que o que valem mesmo são as experiências? Que nos permitem saborear pequenos prazeres mundanos como o canto dos pássaros, o vento que nos acolhe em baixo de uma árvore, um banho quente, vestir uma roupa bonita, saborear uma gostosa fatia de pizza ou a alegria de curtir uma música bem tocada - seja no trombone, no piano ou no sax? O mundo é feito mesmo de pessoas notáveis? Ou são nossas ações que darão significado nessa jornada terrena?

E, para mim, só o fato de passarmos boa parte do filme dirigido por Pete Docter pensando nestas questões, já torna Soul uma das mais valiosas obras produzidas pela Pixar - e que, não por acaso, deverá estar entre as indicadas na categoria Melhor Filme, no próximo Oscar. A gente sabe que os filmes da produtora invariavelmente nos fazem chorar, mas o choro nunca é forçado ou não orgânico, já que geralmente a obra nos gera sentimentos conflitantes o tempo inteiro, nos levando da ternura ao sorriso, passando pela dor, em segundos. Algo que pode ser exemplificado pelas contrastantes sequências que nos fazem rir de piadas que envolvem o comportamento de um gato, ao passo que nos instante seguinte estaremos impactados pelo comportamento afetuoso da mãe de Joe. E é nessa alternância de instantes que vamos sendo jogados pra lá e pra cá, imergindo numa história que, do ponto de vista religioso talvez pudesse gerar uma série de questionamentos - tudo isso seria possível no plano espiritual? -, mas que, no formato animação se estrutura na mais formidável das narrativas.

Tecnicamente impecável, a trilha sonora é uma das grandes forças do filme, como não poderia deixar de ser. E nem é tanto pelas elegantérrimas peças de jazz/soul que surgem nos momentos nova-iorquinos da projeção e sim pelo trabalho realizado por Trent Reznor e Atticus Ross que conseguem alternar melodias mais primaveris - no espaço pré-vida -, com outros mais sobrenaturais ou fantasmagóricos, como aqueles que envolvem a proximidade do pós-vida ou, mais especificamente, as notas hipnóticas que são executadas em uma soberba parte que envolve o conceito de "almas perdidas" (e, aqui, fiquei me perguntando como reagirão as crianças em uma etapa do filme que pode ser muito mais assustadora do que engraçada). Atenta aos detalhes, a animação é inacreditavelmente bem feita - perceba como é possível ver o suor no rosto das personagens em certo momento - e ainda estabelece outras pequenas discussões como produção artística x sucesso financeiro e importância do aspecto mais místico em nossas vidas. É um grande acerto, daqueles que nos arranca aquele sorrisão enquanto sobem os créditos. 

Nota: 9,0

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Novidades no Now/VOD - O Céu da Meia-Noite (The Midnight Sky)

De: George Clooney. Com George Clooney, Felicity Jones, Kyle Chandler, David Oyelowo e Demián Bichir. Ficção científica / Drama, EUA, 2020, 118 minutos.

Confesso que estava com uma expectativa boa pra conferir esse O Céu da Meia-Noite (The Midnight Sky) mas, não rolou tão legal assim. Eu gosto muito de ficção científica mais existencialista e pra mim faltou um tanto de profundidade nas possíveis reflexões sobre temas como solidão, dores, arrependimentos, passagem do tempo, memória, entre outros. Não acho que o adjetivo "arrastado", como muitas pessoas estão qualificando a obra dirigida e estrelada por George Clooney, seja exatamente um problema. Dá pra ter uma fluidez mais lenta, mais reflexiva ou contemplativa, mas que ela tenha uma lógica de existência dentro da narrativa. Vagarosidade em filmes sobre viagens ao espaço é a metáfora perfeita para o tempo que passa em uma outra escala. Mas aqui não há muito disso que não seja o aborrecimento de um filme que, sim, poderia ter alguns minutos a menos se não se perdesse em tantas tramas paralelas que não nos envolvem.

Baseado no livro de Lily Brooks-Dalton, o filme nos joga para o ano de 2049, quando a terra passou por algum tipo de catástrofe global que impedirá que a vida como a conhecemos continue existindo por aqui. Ao mesmo tempo, os avanços tecnológicos já possibilitaram as expedições espaciais para outros planetas com potencial para serem habitados e é de um deles que, justamente, está retornando para casa um grupo de astronautas que não está sabendo que a Terra entrou em colapso. Ao tentarem contato com as bases daqui - não apenas na Nasa, mas em outros locais do globo -, não tem sucesso. A salvação? Um cientista solitário de nome Augustine (Clooney), que trabalha no Ártico e fará todo o esforço para alertar a tripulação dos perigos de retornar à Terra que está inabitável. Com uma doença terminal ele não se escala para fugir do planeta, permanecendo ali enquanto "curte" seus últimos dias em meio a atividades cotidianas prosaicas.


A situação de Augustine se modifica quando uma garotinha de nome Iris (Caoillinn Springall) surge na base espacial meio que de "surpresa". Tentando alertar as expedições que saíram da Terra para o "erro" cometido ao deixar uma criança para trás, o cientista terá que se virar cuidando da pequena em seus derradeiros momentos, ao passo em que se empenha para encontrar a estação espacial ideal, com um sistema de comunicação em funcionamento, que possibilite o contato com os cientistas que ele pretende ajudar. Ao mesmo tempo, a obra se perde em longos momentos em que a tripulação é mostrada - e, sinceramente, eu nunca vi um desperdício tão grande de elenco POTENCIAL, já que David Oyelowo, Kyle Chandler e Demián Bichir quase não tem razão de existir, cabendo a Felicity Jones, o papel mais relevante - e, sinceramente, há uma grande surpresa envolvendo a sua personagem que, com cinco minutos de filme já é possível de sacar. Não é spoiler porque é MUITO ostensivo.

Bom, se o arco narrativo é basicamente esse - Augustine tentando alertar astronautas para que não voltem à Terra -, há muito pouco sobre o que virou o planeta e quais exatamente as alternativas de sobrevivência possíveis. Também não há grandes reflexões comportamentais sobre o nosso papel na total destruição dos recursos naturais e nos avanços tecnológicos desenfreados que poderiam desencadear o colapso - e admito que um pouco mais desses bastidores poderiam dar mais envergadura ao projeto, algo que os pobres flashbacks dificilmente conseguem. Tecnicamente bem executado, o filme tem na fotografia uma de suas forças - e é realmente maravilhoso quando Sully (Jones) é apresentada no ambiente inóspito ou não de um planeta habitável que fica junto a Saturno. No mais o desenho de produção é econômico e a trilha sonora é convencional (pra não dizer irritante mesmo). É lento, mas sem a profundidade que tornam projetos como Interestellar (2014), Ad Astra (2019) ou A Chegada (2016) inesquecíveis.

Nota: 6,0

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Novidades no Now/VOD - A Voz Suprema do Blues (Ma Rayney's Black Bottom)

De: George C. Wolfe. Com Chadwick Boseman, Viola Davis e Michael Potts. Biografia / Drama, EUA, 2020, 94 minutos.

É simplesmente impossível assistir a uma obra como A Voz Suprema do Blues (Ma Raney's Black Bottom) e não ficar ainda mais compadecido pela morte precoce de Chadwick Boseman que, aqui, encarna o seu derradeiro papel. E admito a vocês que o trailer me enganou um tanto, já que esperava um tempo maior de tela da Viola Davis - a Ma Rayney do título, uma das primeiras cantoras de blues de que se tem conhecimento -, sendo que o astro de Pantera Negra é quem tem, na verdade, o melhor arco narrativo, sendo tão protagonista quanto a estrela de How to Get Away With Murder. E, sinceramente, pode separar a estatueta dourada: em um filme baseado em uma peça de teatro e em que as interpretações são tão importantes, acho difícil que Boseman, com sua entrega habitualmente qualificada, tão enérgica quanto contida, não leve o Oscar póstumo. O que provavelmente se consolidará como um dos grandes momentos da cerimônia marcada para abril do ano que vem.

Nesse sentido, quem esperava uma discussão um pouco maior sobre os efeitos causados por uma mulher negra no mundo da música há cerca de um século atrás, poderá sair um pouco decepcionado. E confesso que, em partes, vi a experiência um tanto comprometida, já que Ma Rayney surge em tela como uma artista já empoderada, autossuficiente e consciente de seu "papel" na sociedade norte-americana dos anos 20. A ponto de brigar com os seus empresários por contratos mais justos no que diz respeito aos direitos sobre suas canções e de jamais se censurar diante das eventuais pressões da gravadora que pretende produzir seu primeiro disco - e penso ter havido uma clara romantização da personagem, especialmente em um País tão racista como os Estados Unidos. E não é que a discussão sobre preconceito não esteja lá: ela apenas ficou algumas "camadas" um pouco mais abaixo no combo geral, com outros dramas e narrativas paralelas ocupando mais espaço em tela.

E é justamente esse o caso do arco dramático do personagem de Chadwick Boseman. Quando chegam ao estúdio para a gravação do álbum de Ma Rayney, os músicos expressam seus medos, seus anseios, suas ambições. No caso do trompetista Levee (Boseman) a ideia mais para a frente será a de se "desgarrar" do papel de mero músico de apoio para produzir suas próprias músicas. Mais do que isso: ao repaginar canções antigas da grande estrela do blues para uma roupagem mais moderna - com arranjos mais floreados, mais coloridos -, Levee entra em conflito com os produtores e com a própria Rayney. Aos poucos as motivações de cada um bem como suas histórias de vida se descortinarão, com o roteiro valorizando muito mais os diálogos e as interpretações (cheias de closes e de planos fechados) do que qualquer outro movimento mais expansivo. Assim são raras as externas, com a câmera centrando "fogo" nos ambientes claustrofobicamente fechados, com os músicos debatendo o contexto social, cultural e até político da época em discursos potentes e que seguem relevantes até hoje.

Assim, trata-se ao cabo de uma obra de sutilezas, muito bem montada e que tem no poder da arte - e na música em si - uma de suas fortalezas. Não por acaso, em meio ao truncado processo de gravação, nos deparamos com frases contemplativas como "quanto mais música existe no mundo mais completo ele é". Há nesse sentido uma verdadeira ode aos artistas que quebram paradigmas com seus esforços e anaturalização de Rayney como uma potência virtuosística de sua época é parte disso - o que é complementado pelo charme meio errático de seu comportamento tão ambicioso quanto temperamental. O que também rende sequências engraçadas como aquela em que a estrela "briga" pela oportunidade de poder desfrutar de uma Coca Cola. É um filme que cumpre seu papel e que ainda dá um tapa na cara do espectador com sua sequência final, que mostra que, nesse universo, a música pode ser apenas mais um comércio como qualquer outro - sensação que seria ampliada mais adiante, com apropriações culturais indevidas e mal utilizadas em prol do capital.

Nota: 7,5

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Novidades no Now/VOD - A Festa de Formatura (The Prom)

De: Ryan Murphy. Com Jo Ellen Pellman, Meryl Streeo, James Corden, Nicole Kidman, Kerry Washington e Andrew Rannels. Comédia / Musical, EUA, 2020, 131 minutos.

Acho que esse 2020 tenebroso me tornou mais tolerante aos feel good movies musicais, caso desse A Festa de Formatura (The Prom) - que, nas entrelinhas, parece apenas uma obra bobinha, mas que tem uma poderosa mensagem sobre aceitação e respeito as diferenças. Sobretudo, trata-se de um filme bem humorado e que nos arranca sorrisos fáceis em meio a apresentações musicais bem coreografadas e absurdamente divertidas - algumas letras são um achado! Sim, é eventualmente brega, talvez excessivamente caricato ou feito apenas para agradar o público. Mas, ok, não podemos esquecer que trata-se de uma adaptação de um musical da Broadway que, aparentemente, não se deseja levar tão a sério. A trama é um fiapo: após uma jovem lésbica (Jo Ellen Pellman) ser proibida de levar a sua namorada ao baile de formatura da escola - aliás, o baile é cancelado -, um grupo de celebridades decadentes abraça a causa, com o objetivo de confrontar o conservadorismo e chamar a atenção da mídia de alguma forma.

No grupo de celebridades decadentes está - vejam só a ironia - a Meryl Streep, que encarna a veterana Dee Dee Allen. Respeitada em outrora, com dois Tonys na bagagem, Dee Dee tem de conviver atualmente com uma carreira em declínio, que culmina com a péssima recepção por parte da crítica especializada de sua mais recente peça de teatro. No elenco da mesma peça também está Barry Glickman (James Corden, que parece ter alguma dificuldade em não soar artificial), com a dupla encarnando Franklin e Eleanor Roosevelt no mais recente trabalho. Será afogando as mágoas, após a desastrosa noite de estreia, entre uma bebida e outra, que eles resolverão repaginar as suas imagens entrando de cabeça no ativismo. À dupla se juntarão ainda Angie Dickinson (Nicole Kidman) - outra estrela que anda pouco requisitada -, e o garçom e ex-integrante de uma sitcom de sucesso Trent Oliver (o ótimo Andrew Rannels). Rumo à Indiana, o quarteto se envolverá nas maiores confusões, enquanto adere a causa das adolescentes lésbicas.

E, aqui, não posso deixar de identificar certa irregularidade da narrativa que, vamos combinar, com suas mais de duas horas, se estende demais. O primeiro terço é absurdamente divertido, engraçado, dinâmico, cheio de piadas envolvendo o universo das celebridades, com citações culturais variadas e um certo grau de metalinguagem que procura colocar o dedo na ferida nessa opulenta máquina recicladora de artistas, que parece estar o tempo todo pronta para "fritar" seus astros. Outro componente que gera boas piadas, como não poderia deixar de ser, é conservadorismo dos moradores locais quando confrontado com o progressismo arrogante de Dee Dee, Angie e os demais - e a cena em que Dee Dee tenta dar um carteiraço em um gerente de um pequeno hotel do interior, mostrando seus prêmios, com o objetivo de conseguir uma suíte ou um quarto próximo do spa, é hilária. O mesmo valendo para a canção It's Not About Me entoada por Dee Dee já na chegada do grupo à Indiana (E a menos que esteja no elenco de O Milagre de Anne Sullivan / Não vou fazer papel de cega, surda e burra).

Só que a partir do segundo terço, a película amplia o componente melodramático e o filme se torna arrastado - e até as músicas mais chatas, com algumas raras exceções, caso da ótima Love Thy Neighbor. Consequentemente, a mensagem pretendida também se torna esvaziada e repetitiva: ok, já compreendemos que precisamos respeitar as diferenças, mas, podemos ir para os finalmentes? Ao invés disso, a obra do diretor Ryan Murphy se ocupa com tramas paralelas nem sempre bem costuradas - caso da história da mãe de Barry, por exemplo -, e até meio rasas (qual a função, exatamente, da Nicole Kidman no filme?). Fora personagens como a mãe conservadora vivida por Kerry Washington, que faz uma curva meio difícil de ser compreendida - e até meio direta demais. Ainda assim, não podemos esquecer: como comédia musical que quer passar uma mensagem sobre aceitação, o filme funciona direitinho e ainda brinca com o absurdo de haver pessoas preconceituosas e intolerantes em pleno 2020. Sim, às vezes é preciso esfregar o "óbvio" meio na cara - e isso a narrativa faz com maestria.

Nota: 7,5