De: Mounia Akl. Com Nadine Labaki, Saleh Bakri e Nadia Charbel. Drama, Líbano / Catar / França / Espanha / Suécia / Dinamarca / Noruega / EUA, 2021, 106 minutos.
Talvez não possa haver metáfora mais adequada para a podridão do capitalismo tardio, que costuma colocar seus tentáculos em basicamente todos os aspectos de nossas vidas, do que um depósito de lixo emergindo na porta de nossas casas. E é mais ou menos isso o que ocorre com os protagonistas de Costa Brava, Líbano (Costa Brava, Lebanon) que, do dia para a noite, passam a conviver com uma estranha movimentação na propriedade vizinha, quando uma equipe do governo chega com maquinário pesado e uma estátua simbolicamente tosca do presidente, anunciando que construirão ali um novo aterro sanitário. Até aquele momento o casal Soraya (Nadine Labaki) e Walid (Saleh Bakri) vivia uma existência idílica em meio a natureza exuberante, junto às montanhas - sempre acompanhados das filhas Reem (Ceana e Geana Restom) e Tala (Nadia Charbel), além da avó Zeina (Liliane Khouri) -, até que a paz é interrompida.
O caso é que a distopia da diretora Mounia Akl - que foi a enviada do Líbano para o Oscar de 2022 e está disponível na Reserva Imovision - parte de um caso real envolvendo a dificuldade do País de dar conta do destino dos próprios resíduos em meio a um cenário de corrupção, para imaginar um futuro próximo em que viver na capital Beirute é praticamente impossível. É esse desejo de se refugiar e de meio que se afastar de tudo - quem nunca, né? -, que faz com que a família Badri vá para longe, habitando uma simpática casa de campo, com piscina e cultivos próprios de animais, frutas e hortaliças. Quando um grupo de funcionários do governo chega ao limite da propriedade e inicia a movimentação, um dos representantes explica: a área, que pertencia à irmã de Walid, foi vendida à administração pública e, depois de levantamentos ambientais de viabilidade, decide-se implantar ali um lixão. Com um sistema de reciclagem que reaproveitaria oitenta porcento dos resíduos.
Evidentemente que Walid, um ativista que conheceu Soraya - uma cantora precocemente aposentada aparentemente também pelos problemas ambientais do País - durante um protesto em que é agredido pela polícia, fica desgostoso com a situação. Ainda mais porque aquela nova conformação alterará profundamente a rotina da família - não apenas com os barulhos das escavadeiras e da música alta que ecoa da vizinhança, mas também pelo caráter invasivo dos operários, que parecem empenhados em espionar pelas frestas, especialmente quando a jovem Tala rodeia a piscina. Espécie de porta-voz do canteiro de obras, o engenheiro Tarek (François Nour) se aproxima dos habitantes dos vizinhos, estabelecendo vínculos variados entre o encantamento e a amizade, especialmente com Tala, que está tendo seu despertar sexual aflorado, além da idosa Zeina, que faz aquela linha da avó engraçada, ousada e até meio desbocada, estilo a Copélia da Artele Salles, no eterno Toma Lá da Cá.
Só que quanto mais o tempo passa, mais a rotina do quinteto vai sendo mudada: incêndios de difícil controle, água fétida saindo da torneira (em um tom sugestivamente vermelho de sangue) e mesmo a impossibilidade de ter privacidade, vão contribuindo para que a tensão geral também avance, ainda que Walid não acredite na consolidação do projeto, que poderia ser só mais um esforço de governo às vésperas da eleição. Aludindo a outras obras sobre pessoas ou grupos enfrentando forças financeiras e institucionais ou mesmo tentando preservar um estilo de vida mais simples e que funcionam quase como um subgênero atual - como no caso de Eu, Daniel Blake (2018), O Preço da Verdade (2019) ou o nacional Aquarius (2016) -, a produção discute temas ligados à degradação ambiental e a conflitos familiares mediados pelo capital. E ainda que nunca nos forneça uma solução mágica, nos faz refletir sobre o mundo não apenas que vivemos, de como nos adequamos a ele e o que queremos deixar para o futuro. Não por acaso, a diretora explicou que a família funciona como uma alegoria do País. E que fugir dos problemas, mesmo que simbolicamente eles sejam representados por enormes sacos de lixos azuis ameaçadores, não fará com que eles sumam.
Nota: 8,0
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