De: Antoine Fuqua. Com Denzel Washington, Ethan Hake, Scott Glenn, Eva Mendes e Tom Berenger. Ação / Policial, EUA, 2001, 122 minutos.
"Me tornei policial pra prender traficantes, criminosos, não para me tornar um deles". Em um dos momentos mais impactantes do clássico moderno Dia de Treinamento (Training Day), que completa 25 anos de lançamento em 2026, o jovem e idealista policial Jake Hoyt (Ethan Hawke) tem um choque de realidade ao perceber que o almejado trabalho na Divisão de Narcóticos da delegacia de Los Angeles, talvez o obrigue a estar com um pé na antessala do crime se ele não "jogar o jogo", ao lado de um bando de policiais corruptos, punitivistas e reacionários. E que tem na figura quase caricata de Alonzo Harris (Denzel Washington), seu principal representante. Ao lado de Alonzo e de um esquadrão de oficiais, Hoyt acompanha a apreensão de US$ 4 milhões em dinheiro escondido na casa do traficante Roger (Scott Glenn), um veterano que parece ter algum tipo de vínculo com Alonzo.
Na ideia de quem possui um código de ética que respeita os ritos jurídicos e a ampla e irrestrita possibilidade de defesa, que parece ser o caso de Hoyt, a sequência deveria envolver grana apreendida, bandido preso, trâmites legais ocorrendo. Enquanto os policiais se regozijam em definir quanto do dinheiro recolhido ficará nas mãos deles - ainda mais no caso de Alonzo, que está enrolado até o pescoço depois de ser prometido de morte por um grupo ligado à máfia russa, após uma confusão em uma boate -, uma pistola é entregue a Hoyt. O objetivo? Assassinar Roger, alegando, posteriormente, legítima defesa. "Só porque usamos distintivos é diferente?", argumenta o bom homem, tentando demover Alonzo e os demais da ideia. "Você vai ser condecorado e subirá rapidamente na carreira", retruca o sujeito, para pasmaceira geral. "Tem gente que não dormiu na aula de ética", debocha um terceiro, enquanto um outro agoniza após levar um tiro forjado, em uma operação que quase dá errado.
Sim, pode parecer complexo, mas a realidade é muito mais simples: quando Hoyt é designado para um dia de trabalho que será fundamental para a sua efetivação na divisão de narcóticos - até ali ele era apenas um burocrata trabalhando pro Estado e sonhando em galgar algumas posições -, ele jamais imaginaria encontrar um sujeito tão poucas ideias, que não faria feio no grupo de milicianos vistos em Tropa de Elite 2 (2010), por exemplo. Aliás, no primeiro encontro da dupla já há certo estranhamento, na medida em que Alonzo consegue ser machista já no diálogo inicial, ao tirar sarro do novato por ele ter sido treinado, anteriormente, por uma mulher. A violência ameaçadora com que o homem trata um grupo de adolescentes usuários de maconha que tá meio que só se divertindo na praça não ajuda, com tudo piorando com uma perseguição envolvendo um cadeirante (papel de Snoop Dog, uma das tantas participações especiais) e o uso de um falso mandado de busca para obter vantagens na casa da família de um traficante preso.
E como se desgraça pouca não fosse bobagem, Alonzo ainda obriga o calouro Hoyt a fumar maconha, sob a desculpa de que um "bom agente precisa ter os narcóticos no sangue", para que mais tarde saibamos que tudo é parte de um bem engendrado plano que pode prejudicar o sujeito. Repleto de cenas tensas típicas de filmes policiais do final da década de 90 e início da de 2000 (o instante em que Hoyt joga pôquer, após ser abandonado por Alonzo em um local boca braba é uma das melhores), a obra trata de um tema que, para nós, brasileiros, parece bastante familiar. Ainda mais se pensarmos no Rio de Janeiro, onde homens da lei e representantes de governo parecem muito mais próximos de operadores do tráfico do que do lado de quem deveria promover a segurança pública. Vencedor do Oscar por seu papel, Washington é fundamental em sua entrega de um sujeito sem nenhuma ética, mas cheio de carisma, enquanto o seu Monte Carlo roda pela fervilhante Los Angeles, sempre cheia de segredos no submundo. Por sinal, o papel é tão marcante que, em uma lista de grandes vilões da história do cinema, organizada pelo American Film Institute (AFI), Alonzo Harris obteve uma honrosa 50ª posição. Tá disponível na HBO Max e vale recordar.

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