De: Eva Libertad. Com Miriam Garlo, Álvaro Cervantes, Elena Irureta e Joaquín Notário. Drama, Espanha, 2025, 99 minutos.
Um ótimo filme sobre empatia em relação aos deficientes auditivos, mas que jamais trata a sua protagonista com condescendência. Assim é Surda (Sorda), drama espanhol escrito e dirigido por Eva Libertad e que está disponível para aluguel na Amazon Prime e da Apple TV. Aqui temos, assim como ocorre em outras produções - como no caso de O Som do Silêncio (2019) e No Ritmo do Coração (2021) -, a experiência de uma mulher surda de nome Ángela (Miriam Garlo, irmã da diretora e que é, de fato, deficiente auditiva), em uma busca permanente por adaptação em um mundo de ouvintes. Por mais que seu amoroso marido Héctor (Álvaro Cervantes) e o seu grupo de amigos surdos se empenhem em tornar a sua existência o mais inclusiva possível - e não por acaso, grande parte dos diálogos da produção, transcorrem com o uso da língua de sinais.
Só que a rotina mais ou menos pacífica de Ángela e Héctor - ela uma respeitada ceramista e ele um agricultor familiar -, é alterada quando a protagonista descobre estar grávida. E não é que o casal não esteja feliz, a despeito do bem humorado diálogo com os amigas surdas assim que a notícia chega, que não se furtam em verbalizar a complexidade de se criar crianças e adolescentes nesse mundo (a dificuldade de comunicação, afinal, parece independer da deficiência), mas será nesse momento em que Ángela se deparará com o preconceito estrutural que ainda rege a nossa sociedade. Os próprios pais da protagonista Elvira (Elena Irureta) e Fede (Joaquín Notário), a despeito da gentileza permanente, não deixam de cometer deslizes ao se mostrarem incomodados com o anúncio da gravidez, especialmente diante da possibilidade de haver a possibilidade de o bebê também ser surdo, por questões genéticas.
As idas e vindas de Ángela e Hector entre hospitais e lojas de equipamentos especializados não ajudam em nada, dada a frieza dos atendentes e da total falta de capacidade do ser humano em geral - aliás, todos nós podemos nos incluir nessa - em saber lidar com PCDs. Em linhas gerais Ángela consegue executar a leitura labial e entender muito do que é dito, o que não evita instantes incômodos - "por quê ela está falando só com você e não comigo?", reclama ela diante da médica ginecologista, que lhe passa detalhes a respeito das possibilidades de uma mãe surda gerar um filho com a mesma condição. Aliás, o auge dessa complexidade envolve justamente o momento do parto, quando Héctor é levado junto à sala de cirurgia para tentar traduzir em tempo real as instruções da equipe hospitalar, em uma sequência que se estende bastante na aparente intenção de fazer com que o público perceba que a dor nesse instante é tão emocional quanto física.
Só que diferente do que poderia ocorrer com outras obras, o roteiro de Libertad evita o "coitadismo" na hora de caracterizar Ángela. Claro, ela se sente preterida em rodas de conversa, com tudo piorando quando ela descobre que a filha não será surda - sendo muito hábil em evidenciar a sua insatisfação sobre a sina da própria filha não ser a mesma dela (e não deixa de ser interessante notar como ela caracteriza esse desapontamento com o mero olhar ou leves inflexões de expressão). Longe de ser uma mãe amorosa, ela entre numa espécie de rota de disputa com Héctor, que se acentua com a depressão pós-parto, com a incomunicabilidade recorrente se tornando uma alegoria para um casal que começa a ver a deterioração de sua relação com a chegada de um filho (o que também pode ocorrer com ouvintes, por óbvio). Bonito, carismático e com ótima reflexões sobre empatia e respeito às diferenças, esse é um projeto que ainda usa o aparato técnico - especialmente a edição de som -, para fortalecer as suas ideias. Não por acaso, a obra recebeu uma série de premiações, podendo agora encontrar o carinho do público.
Nota: 8,0

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