"Devemos dançar, celebrar e orar com nossos corpos. Essas são coisas que fazemos a milhares de anos - e são realmente práticas espirituais. Afinal, a pista de dança é um espaço ritualístico. É um lugar onde você se conecta com suas feridas, suas fragilidades. Curtir uma rave é uma arte. É ultrapassar seus limites e se conectar a uma comunidade com a mesma mentalidade". Vamos combinar que o manifesto lançado por Madonna no último mês de abril, já dava o tom: CONFESSIONS II, espécie de continuação natural do clássico moderno Confessions on a Dance Floor (2005), seria novamente, como muitas vezes foi na carreira da maior artista pop de todos os tempos, um veículo de exaltação não apenas da música, mas de corpos, de existências, de vidas. E que serve para lembrar que o ato de dançar, de mexer o corpo, não tem nada de superficial. Ao contrário, é uma espécie de transe capaz de alterar nossa consciência, modificar nossas personas. De, em meio à sombra, sermos quem desejamos de verdade, no nosso íntimo.
Nesse sentido, o décimo quinto registro de inéditas da artista, que chega seis anos depois do mediano Madame X (2019) - que meio que atirava para muitos lados, mas sem coesão ou mesmo alguma lógica -, opera como se fosse uma longa e meio que única faixa dançante, capaz de conferir à pista de dança esse caráter ao mesmo tempo idílico e espiritual, vibrante e caloroso. Ao cabo não se trata de reinventar a roda - há muita coisa no disco que a própria Madonna já exercitou artisticamente no passado -, mas de reafirmar esse senso de coletividade e da música como experiência universal. Especialmente em um momento de avanço do reacionarismo na sociedade e de preconceitos que parecem ganhar certo verniz de legitimidade na boca de políticos e líderes de extrema direita. Esse conceito existiria se não fossem os tempos brutos de perseguições à minorias? Difícil saber. O fato é que o disco pode até não ser perfeito do início ao fim - há, aqui e ali, uma outra faixa que incha a audição. Mas, verdade seja dita, é meio difícil ficar alheio a um lançamento tão cheio de personalidade como esse e que vai para além do hype. E com músicas tão gigantes como a etérea Good for the Soul, a quente One Step Away, a incendiária Danceteria, a pulsante (e linda) Bizarre e a comovente Fragile (a minha favorita do álbum).
Nota: 8,5

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