De: Tarik Saleh. Com Fares Fares, Zineb Triki, Lyna Khoudri, Amr Waked e Cherien Dabis. Drama / Suspense, Suécia / Dinamarca / Finlândia / França, 2025, 129 minutos.
"Faraó das telas". O apelido pode ser meio brega, mas define bem a condição de George Fahmy (Fares Fares), o protagonista de Águias da República (Republikens Örnar), que foi o enviado da Suécia para a última edição do Oscar e que está disponível na Reserva Imovision. George é um renomado ator egípcio que participa de uma série de produções de gosto meio duvidoso - aqueles tipos de filmes românticos e épicos bastante populares -, mas que consegue ultrapassar com certa tranquilidade o rígido código de regras de censura do País. Aliás, como galã de cinema que trafega em ambientes mais progressistas, o protagonista aparenta ter ideias opostas às do patriotismo nacionalista, religioso e militar que, aqui, são fortemente representados pelo general Abdul Fatah Al-Sisi, que governa o País com mão de ferro, perseguindo opositores, rivais políticos, imprensa e, claro, setores ligados às artes, a educação e a cultura.
Em geral George tenta ficar alheio a isso. Mas não consegue, especialmente após ser constrangido durante um almoço com seu filho, por um misterioso funcionário do governo que o observa à distância - mais tarde descobriremos que se trata de um certo Mansour (Amr Waked), que se comporta como um Robert Walker do clássico Pacto Sinistro (1951), de Alfred Hitchcock, com seu olhar desafiador e enigmático. Com tudo piorando após um encontro com um grupo de atores que se dizem favoráveis ao governo, atuando contra dissidentes que tentam manchar a imagem dos militares, instigando-o a fazer parte do coletivo. O protagonista evita o grupo, por acreditar haver contradições entre ser um artista e um patriota - ou ao menos o que eles imaginam ser um patriota (e, vamos combinar que, nessas horas a gente percebe que só muda o País no que diz respeito a esse aspecto).
Resumo da ópera, George tem seu contrato para um novo filme suspenso, com direito a sumiço do seu trailer que funciona como um camarim. De forma indireta sua família passa a ser ameaçada e até mesmo os amigos, como no caso da companheira de telas Rula (Cherien Dabis), que talvez fique sem contrato de trabalho após defendê-lo em uma entrevista em rede nacional. Já a jovem Donya (Lyna Khoudri), que tenta emplacar uma carreira no meio, também dependerá da decisão do sujeito de se juntar ou não a uma peça de propaganda financiada pelo governo, no sentido de limpar a sua imagem após os eventos decorrentes do golpe de 2013 no País (uma produção meio Dark Horse, o filme do pangaré, egípcio). Diante de tantas pressões ele aceita o papel. Mesmo não tendo nada a ver com Al-Sisi. Aliás, nem fisicamente nem do ponto de vista político, religioso e cultural.
Em meio as filmagens, Goerge se aproxima de Suzanne (Zineb Triki), a elegante e letrada esposa do ministro da defesa - com quem ele se identifica em um jantar, após citações à Shakespeare e indiretas a respeito de homens minúsculos que só sabem falar a língua da guerra. E como as coisas não estão muito bem com Donya que, verdade seja dita, só está com o sujeito pelo glamour e para provocar o pai militar, George passa a ter um caso com Suzanne. E, bom, se a intenção era obter sarna pra se coçar, aqui o sujeito obtém o kit completo. Tensa e com perseguições diversas - como no caso do filho estudante de um vizinho -, mas também divertida - a cena da compra do tadala é ótima -, a trama vai evidenciando como o mergulho nesse ambiente de violência estatal se torna um caminho meio que sem volta depois de certas decisões tomadas. Com chantagens e jogos de poder de parte a parte. Ao cabo, pode haver algo sedutor em aderir às esferas de poder. Mas George aprende, da pior forma possível, que o preço dessa proximidade pode ser alto. E devastador em igual medida.
Nota: 8,0

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