terça-feira, 21 de julho de 2026

Pitaquinho Musical - Iceage (For Love of Grace & the Hereafter)

Quem acompanha a carreira do Iceage sabe que, melodicamente, conforme os discos iam sendo entregues ao público, pouco restaria da crueza punk e urgente dos inaugurais New Brigade (2011) e You're Nothing (2013), que comoveriam a crítica do começo da década passada, alçando-os ao cargo de mais nova salvação do rock, com elogios da Pitchfork e um certo encantamento frente a atitude um tanto anarquista do vocalista Elias Rønnenfelt e seus asseclas. E, bom, não é novidade que todos nós amadurecemos e o polimento percebido a cada novo registro talvez tenha também a ver com isso - ainda que parte do público esteja saudando For Love of Grace & the Hereafter, o sexto álbum de inéditas dos dinamarqueses, como uma espécie de retorno às origens. E, sinceramente, não é, dadas as diferenças entre o caráter sombrio, sujo e soturno de inferninho garageiro dos primeiros trabalhos, em comparação com a energia primaveril e até mesmo comercial dos últimos. 

 


Em suma, o que antes era peso, caos e estranhamento, agora é refino, esmero e melodia. Sim, segue sendo a mesma banda de sempre, mas se canções como White Rune ou Rotting Heights, do primeiro álbum, pareciam saídas de alguma catacumba, músicas como Star ou Lifetime, de For Love... são tão palatáveis, que não fariam feio em algum disco de alguma banda hardcore comercial dos anos 90, como, sei lá, o Rancid. Repleto de ótimas canções em que divagações existenciais se alternam com temas sobre a complexidade dos relacionamentos e mesmo dilemas dos tempos modernos, o disco consegue ser sedutor e cheio de personalidade, com sua mescla de pós punk, indie e jangle pop alcançando seu auge nas ótimas Ember e The Weak - esta última a respeito do sentimento de resignação e até de desconexão que vivemos, em tempos em que a impressão que dá é a de que gastamos energia à toa (Sabes que esta cidade é uma guilhotina / Toda uma cidade de esperanças e sonhos decepados). Canetada!

Nota: 8,5 

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