quarta-feira, 29 de julho de 2026

Tesouros Cinéfilos - O Abrigo (Take Shelter)

De: Jeff Nichols. Com Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart e Shea Whigham. Drama / Suspense, EUA, 2011, 121 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

"Amor, não há tempestade lá fora. Eu não mentiria pra você. Nós te amamos". Em uma das mais assombrosas sequências do maravilhoso O Abrigo (Take Shelter), que retorna à Netflix e que vale ser revisitado, Samantha (Jessica Chastain) argumenta de forma calma, calorosa e empática com seu marido Curtis (Michael Shannon), que está passando por mais uma severa crise de esquizofrenia paranoica. A tempestade, naquele caso, tem boas chances de ser simbólica - uma alegoria forte, potente, para as angústias do homem, que passou basicamente as duas horas da produção formidavelmente conduzida por Jeff Nichols, construindo um abrigo subterrâneo que protegeria a ele e a sua família de algum tipo de mal que poderia vir dos céus. E que em sua cabeça é simbolizado por uma severa tempestade em que a chuva se apresenta viscosa, oleosa. É necessário proteger aqueles que se ama. A qualquer custo.

E vamos combinar que, se hoje em dia o suspense psicológico - aquele que trata muito menos de fantasmas ou de assombrações gratuitas e mais dos distúrbios da mente e de como eles afetam não apenas aqueles que sofrem das doenças, mas as pessoas do entorno - está em alta, vide excelentes produções como Backrooms: Um Não-Lugar (2026), há quinze anos filmes como esse ensaiavam debates não apenas sobre comportamentos obsessivos e compulsivos, mas também sobre como lidar com eles. Afinal de contas, uma pessoa com crises de ansiedade, transtornos obsessivos compulsivos, depressão ou bipolaridade podem estar ao nosso lado. Ou, muitas vezes, sermos nós mesmos, por óbvio. Nesse sentido, a produção de Nichols parece ser também sobre compreensão. Solidariedade. O que faz com que Samantha permaneça até o fim com Curtis. Sem jamais abandoná-lo, num gesto de amor.

 


Claro, não significa ser ONG de ninguém, mas saber reconhecer o problema e buscar uma solução. E há algo que nem todo mundo percebe, num primeiro momento, quando a "loucura" (no melhor sentido da palavra) de Curtis, aliás, na ótima interpretação de Shannon, tem início: ele não tem uma psiquiatra próxima, ao alcance. E que possa lhe conduzir para uma terapia efetiva, restando às conversas com uma psicóloga local - mais uma conselheira de saúde do que qualquer outra coisa. Em linhas gerais Curtis tem uma vida classe média normal, com um trabalho na construção civil que lhe garante um bom salário e um plano de saúde, uma boa casa com jardim nos arredores de Ohio, uma esposa carinhosa e uma filha pequena que, a despeito de um severo problema de audição, encontra nos pais o amor necessário para enfrentar um mundo que nem sempre foi feito para os ouvintes.

Só que tudo isso não impede Curtis de ter uma série de visões de eventos estranhos - nuvens negras e pássaros pretos ameaçadores nos céus -, além de sonhos em que violências em sequência ocorrem, provocadas por homens desconhecidos e até por seu amistoso cachorro (o que faz com que ele prenda o animal na rua). Como forma de canalizar o mal-estar generalizado, o protagonista resolve fazer uma ampla reforma numa casa de equipamentos mantida pela família, gastando um dinheiro que eles não possuem e ainda utilizando, de forma indevida, o maquinário da empresa em que ele atua. O que resultará em um afastamento gradual das pessoas - familiares como o irmão, ou amigos. A revelação de que a mãe de Curtis foi diagnosticada com esquizofrenia em sua juventude, adiciona um componente a respeito da herança genética dos transtornos, o que poderia explicar, em partes, o comportamento obsessivo do homem. Repleta de metáforas e de alegorias que aludem à sobrecarga dos tempos modernos, ao capitalismo tardio, às crises climáticas e a ansiedade generalizada como um todo, essa é uma experiência que deixa o final em aberto, ambíguo, e que respeita a inteligência do fã de cinema. Não há solução fácil. Mas talvez juntos, seja possível superar a dor.

 

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