segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - A Garota Canhota (左撇子女孩)

De: Shih-Ching Tsou. Com Nina Ye, Ma Shih-Yuan e Janel Tsai. Drama, Taiwan / EUA / França / Reino Unido, 2025, 108 minutos.

Em uma das tantas cenas comoventes do tocante A Garota Canhota (左撇子女孩) - obra enviada por Taiwan para a próxima edição do Oscar e que está na short list -, a pequena I-Jing (Nina Ye) fica exasperada após a morte de seu suricato de estimação. O animalzinho cai da sacada do prédio em que sua família reside, colidindo com um motoqueiro - em uma tragédia que poderia ser maior, mas que ganha tintas cômicas da produção de Shih-Ching Tsou. I-Jing se sente responsável pelo ocorrido. É ela, afinal, que arremessa uma bolinha de plástico para o bichinho que, tentando ir atrás do objeto, despenca das alturas. Mais do que isso, ela atira a bolinha com a mão esquerda - a "mão do diabo", como havia alertado o seu severo avô, algumas vezes. Aludindo a uma tradição antiquada de certas religiões, em que a mão esquerda (e seu uso), seria sinônimo de impureza, de azar ou de outros estigmas.

Claro que as motivações das dores vividas pela pequena protagonista nada tem a ver com isso - por mais que seu conservador avô brigue com ela para que ela coma ou escreva com a mão direita. De qualquer maneira, a vida de I-Jing, de sua irmã I-Ann (Ma Shih-Yuan) e de sua mãe Shu-Fen (Janel Tsai) não é nada fácil. Perambulando por uma Taipei fervilhante e caótica - cheia de luzes e de brilho, mas também de pobreza e de urbanidade -, o trio se instala na capital taiwanesa abrindo uma barraquinha para comercialização de macarrão instantâneo. A ideia parece envolver algum tipo de recomeço, já que o patriarca da família padece em um hospital, tendo as custas do tratamento mantidas por Shu-Fen - o que, aliás, torna difícil ela honrar os próprios compromissos financeiros. Para obter uma renda extra, I-Ann trabalha também em uma pequena loja de periferia que comercializa nozes de areca, espécie de estimulante local. Ah, I-Ann transa com o chefe e mantém uma disputa com uma colega de trabalho.

 


Nesse cenário frenético, I-Jing opera como uma espécie de elo, a unir certa ingenuidade infantil que envolve seu universo ainda minúsculo, com a aspereza da vida adulta. Se em um instante ela está brincando ou tentando se divertir naquele cenário neon esmaecido - resultado, inclusive, do estilo de filmagem à Sean Baker (que produz) -, em outros ela tá ouvindo esporros diversos de sua ansiosa mãe, ou ajudando um carismático vendedor de uma barraca vizinha, a tentar empurrar as suas quinquilharias goela abaixo de qualquer cliente que passe pelo local. Quando a mão esquerda se torna uma "ameaça", I-Jing passa a operar pequenos furtos - talvez de forma inconsciente, ou com algum propósito mais nobre. Em outro momento mais tenso, ela chega a pegar uma faca gigante de cortar carne, com uma intenção que quase não combina com seus olhos doces. O avô lhe vendeu as ideias erradas. Aliás, o que é um problema em sociedades patriarcais, machistas, preconceituosas e cheias de ideias torpes e retrógradas.

Em linhas gerais esse é um daqueles filmes tipicamente asiáticos - em que a aspereza da cidade, com seus barulhos e movimentos incessantes, contrasta com instantes afetuosos de um microcosmo familiar que luta para sobreviver, que briga, mas também se une na dor. De forma despretensiosa a obra, que está disponível para a Netflix, ainda reserva para os minutos finais uma das maiores surpresas da temporada, escancarando ainda a hipocrisia da suposta perfeição doméstica e a complexidade que envolve ser mãe solo. Vergonhas, traumas, memórias doloridas, esperança por um futuro melhor, uma scooter que roda entre a liberdade e certa adrenalina, tudo é descortinado com impacto e leveza em igual medida, com a mão esquerda de uma criança sendo apenas uma desculpa cômoda para os esqueletos que estão no armário de adultos.

Nota: 8,0 

 

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