De: Oliver Laxe. Com Sergi López e Bruno Nunez Ariona. Drama / Aventura, Espanha / França, 2025, 115 minutos.
Foi no clássico Assim Falou Zaratustra, que Nietzche sentenciou: "eu só poderia acreditar em um Deus que soubesse dançar". E, em alguma medida, as ideias subversivas de dança, de riso e de excesso parecem estar diretamente relacionadas à rave no deserto - um conceito que pode soar meio estranho se dissociado de algum ponto de reflexão -, vista ainda no começo de Sirāt, o enviado da Espanha para a categoria Filme Internacional no Oscar e que está em cartaz nas salas do País. Há algo de perturbador e hipnótico naquele universo em que somos inseridos, em que pessoas comuns movimentam o corpo freneticamente ao som de música eletrônica evocativa, que se repete como um mantra. "Não se escuta nada" lamenta alguém a certa altura, dada a altura elevada do barulho que sai das caixas de som. "Não é para escutar, é para dançar", retruca outra pessoa, enquanto um mundo meio apocalíptico se despedaça ao redor.
Em linhas gerais a obra dirigida por Oliver Laxe não é aquele projeto com começo, meio e fim bem desenhados ou que segue uma lógica de cartilha hollywoodiana. Em alguns fóruns online alguns espectadores ficaram descontentes com o tom excessivamente melancólico de saída de lugar nenhum para nenhum lugar. A ação como um todo se passa no Sul do Marrocos, no que parece ser a divisa com a Mauritânia. Um espaço em que tudo o que se enxerga é areia e poeira até onde a vista alcança. Enquanto um grupo de seres que parecem saídos de Mad Max movimenta o corpo como uma fuga alienante em um tempo de desesperança, Luis (Sergi López) procura desesperadamente a sua filha Mar, que teria se perdido (ou talvez até fugido) em uma dessas misteriosas raves do deserto. Ao lado do filho Esteban (Bruno Nunez Arjona) o homem faz uma investigação particular sem muito sucesso, mostrando fotos da garota, enquanto ouvem negativas sobre o paradeiro.
E como se tudo não fosse incômodo o suficiente, surge lá pelas tantas um grupo de militares que obriga a festa a parar - nenhuma surpresa quando se tratam dos maiores inimigos das artes ou da música, o que reforça a ideia da festa como uma forma de subverter a ordem dominante. De se libertar. Só que um grupo de jovens - seus nomes são Stef (Stefania Gadda), Jade (Jade Oukid), Tonin (Tonin Janvier), Bigui (Richard Bellamy) e Josh (Joshua Handerson) - consegue fugir do comboio militar, desviando a rota para tentar alcançar uma outra rave, em local ainda mais distante. O que faz com que as esperanças de Luis e Esteban se renovem. No rádio, uma série de transmissões fala sobre a iminência de uma Terceira Guerra Mundial, o que explicaria os conflitos armados, ao passo em que o coletivo tenta se apoiar em meio a um sem fim de percalços em sua cruzada pelo deserto, com a gasolina ficando escassa, veículos atolados e tragédias inimagináveis.
Para além desse contexto de fluxo de vida em meio a conflitos há ainda um outro sentido, este relacionado ao título da obra, já que a palavra Sirāt significa caminho ou estrada. Aliás, mais do que isso, a via em que todas as almas devem atravessar no dia do Juízo Final. Se há aí uma explicação bíblica, divina ou religiosa que só será percebida conforme a narrativa avança - e certas barreiras são cruzadas - caberá a cada espectador interpretar. Não dá pra negar que, naquele estado de coisas todos ali parecem em um elo meio perdido entre a ruína e a salvação - o que é reforçado pelo fato de várias das pessoas que vemos terem braços e pernas amputados, ou outras deficiências que poderiam sugerir provações e mesmo a superação destas. Nada fica exatamente claro e esse é um projeto repleto de simbolismos ou alegorias sobre os nossos tempos. Sobre a busca por redenção. O que aqui envolve superar limites imprevisíveis do ponto de vista geográfico, em um tipo de purgatório particular que leva ao extremo o conceito de civilização como o conhecemos.
Nota: 8,5

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