De: Ryan White. Com Andrea Gibson e Megan Falley. Documentário, EUA, 2025, 105 minutos.
"Pessoas que dizem não entender poesia talvez nunca tenham tido que dar uma notícia devastadora a alguém que amam". É quase no final do documentário Embaixo da Luz Neon (Come See Me in the Good Light), que a poeta e ativista Andrea Gibson lê um trecho do comovente Guardian Angel Fish, poema de onde se extrai o fragmento acima. Ao cabo, trata-se de um momento de vulnerabilidade e até de tentativa de suavizar a sua própria condição já que, com um câncer terminal, aquela provavelmente será sua última apresentação a um grande público. Aliás, plateia que lhe admira não apenas pela crueza e pela franqueza de sua arte, mas também pela simplicidade de seus versos - sempre diretos, descomplicados, mundanos. "A minha ideia sempre foi fazer poesia em que as pessoas não precisariam de diploma para compreender", reflete Andrea em outro ponto. O que ela alcança sem dificuldade, dada a onipresença de seu público.
Em uma obra sobre uma pessoa que recebe uma sentença de morte e precisa meio que lidar com a situação, são meio que inevitáveis alguns clichês do gênero - como no caso das seguidas idas ao hospital para a discussão de possíveis tratamentos, efeitos colaterais dilacerantes e até o exame existencial da própria existência. Mas nada disso compromete a apreciação do projeto do diretor Ryan White - de Boa Noite, Oppy (2022) -, que está indicado ao Oscar na categoria Documentário. O que se tem aqui é uma experiência dolorida, mas também um elogio ao poder das artes, da potência de existir e da importância do cuidado e do amor, o que é simbolizado, aqui, pela onipresença da também poeta e professora Megan Falley, sua namorada e companheira de vida. Pessoa que, por sinal, jamais a abandona mesmo que, em flashbacks, Andrea tenha aberto essa possibilidade à parceira.
Na trama, imagens antigas mostram como Andrea se tornaria uma espécie de celebridade da poesia - um tipo de James Dean Gay (dada a sua beleza e força no meio) -, a forma como ela e Megan se conhecem e como a descoberta do câncer, em meio à pandemia, transforma a vida de ambas. E, por mais pesado que o filme, que está disponível na Apple TV, possa parecer em meio à discussões sobre memória, finitude e luto, não são poucos os instantes em que o casal central trata a situação com deboche, como no momento em que Megan comenta com uma amiga que "daria uma dedada tão profunda em Andrea, que arrancaria o câncer naquela noite", gerando gargalhadas durante um jantar. "E vou fazer isso ao mesmo tempo em que rezo", brinca, de forma provocativa, trazendo a presença (ou ausência) de Deus para o debate, em uma espécie de ironia que alude a luta por sobrevivência de qualquer forma.
Entrecortado por várias das poesias de Andrea - como as famosas Tinture, The Little Things, Boomerang Valentine e Your Life (este último sobre a descoberta da sexualidade e de como foi a vivência queer em uma pequena e conservadora cidade dos Estados Unidos) -, o documentário é absurdamente naturalista ao mostrar a relação de ambas com seus amigos e familiares, de forma honesta, sem nunca soar condescendente. Claro que em um filme sobre uma pessoa tão relevante em seu meio e que sofre um grande impacto não apenas pela severa doença - um câncer no ovário que se alastra de forma dilacerante -, mas também pelos preconceitos sofridos desde jovem, há uma tendência maior ao elogio ou a exaltação das virtudes. O que talvez se explique pela ausência de grandes polêmicas em sua vida particular para além das óbvias questões de gênero e políticas. Para quem está fazendo o check list de filmes para o Oscar, vale conferir.

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