Ao assistir o curta metragem Os Cantores (The Singers), indicado ao Oscar em sua categoria neste ano e que está disponível na Netflix, fiquei com a sensação curiosa de estar diante de algo ao mesmo tempo simples, mas cheio de camadas. A obra, dirigida por Sam A. Davis a partir de texto escrito pelo russo Ivan Turguêniev, em 1850, parte de um recorte aparentemente modesto - o de vozes de trabalhadores cansados que se unem em um isolado boteco para uma disputa musical -, revelando aos poucos que cantar é muito mais do que alcançar a nota certa. É conexão, identidade e busca de permanência. Há uma delicadeza na forma como a câmera se aproxima dos personagens - esses sujeitos meio xucros, eventualmente incômodos -, quase pedindo licença, que contrasta com a potência emocional que explode quando a música finalmente ocupa o espaço.
O que mais chama a atenção é como o filme entende o silêncio tanto quanto entende o som. Entre uma apresentação e outra nessa espécie de competição improvisada, em meio a olhares concentrados e suspiros nervosos, está o verdadeiro coração da narrativa. Não se trata apenas de se expor publicamente, mas do que antecede esse gesto. E do que fica. Existe vulnerabilidade - e o curta não tenta polir isso. Pelo contrário: abraça as imperfeições como parte essencial da harmonia e da experiência coletiva. Se o curta com seus minúsculos 18 minutos de duração poderia mergulhar ainda mais fundo nas histórias individuais? Talvez. Fica aquela vontade de conhecer melhor cada trajetória, cada conflito íntimo. Ainda assim, Os Cantores funciona justamente por não exagerar na dose. É um filme que entende o poder da arte: vozes diferentes em disputa que, juntas, criam algo maior do que a soma das partes. Ficando aquela sensação boa de que, às vezes, a arte consegue organizar o caos do mundo nem que seja com uma boa canção. Vale conferir.

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