terça-feira, 3 de dezembro de 2024

30 Melhores Discos Internacionais de 2024

Tenho a impressão de que, por vezes, me torno repetitivo. Mas o caso é que tem sido cada vez mais difícil elaborar a nossa lista com os 30 Melhores Discos Internacionais do ano. Dado o volume impressionante de grandes lançamentos - seja de novos artistas ou de veteranos. E, vamos combinar que se aventurar a fazer esse tipo de levantamento é sempre fazer escolhas. E concessões. Com muita coisa boa sendo incluída. E outras ficando de fora. Ok, essa é só uma relação como a de muitos outros sites e que, vá lá, no começo do ano, muita gente já esqueceu. Mas pra quem gosta de música essa é uma época divertida, de recuperar aquilo que não se deu muita atenção, de redescobrir álbuns que passaram batido e de escutar, escutar e escutar. 

 

 


 

No nosso caso, acredite, de Vampire Weekend a Beyoncé, foram quase 200 registros internacionais atentamente ouvidos neste 2024 que se aproxima do fim. Uns de mais impacto, outros menos. Às vezes a gente concorda muito com a crítica especializada, noutras nem tanto - e já pedimos desculpas, de antemão, aos fãs da Charli XCX pela ausência de Brat por aqui (que é um álbum espetacular, mas que conectou menos). A pandemia passou, mas os avanços tecnológicos, o extremismo de direita, as crises ambientais, a xenofobia e um sem fim de outros temas, não. Para muitas bandas é a oportunidade de converter a arte em veículo de protesto, de manifestação ideológica, de luta. Para outros, o projeto musical visa o escapismo, a diversão, a dança. Independente de sua escolha, com política ou sem, a arte alimenta a alma. E faz bem demais. E aqui estão os nossos favoritos do ano.

 

 

30) Iron & Wine (Light Verse): Desde que surgiu para o mundo há mais de vinte anos com o álbum The Creek Drank the Cradle (2002), o cantor e compositor Sam Beam cativou uma legião de fãs com o seu estilo "estou aqui tocando um violãozinho na varanda, enquanto observo o final de tarde bucólico na cidadezinha do interior da Carolina do Sul". Os versos simples mas poderosos, cheios de ruminações simbólicas sobre o ambiente rural - suas famílias, comunidades, natureza, costumes e crenças -, sempre representaram uma fortaleza, o que seria reforçado por obras-primas do folk pop como The Shepherd's Dog (2007). De lá para cá a música de Beam adquiriu mais elementos e até mais complexidade. Mas quem acompanha a carreira da banda sabe que a sua música é daquelas que acalma a alma. Que flui sem pressa em meio a emanações etéreas e uma musicalidade descomplicada, que apaixona já nas primeiras audições. E, em tempos de tanta coisa acontecendo não dá pra negar que canções como Taken By Surprise, Tears That Don't Matter, You Never Know e All In Good Time acalentam, envolvem, amparam. Às vezes tudo o que precisamos é um passo atrás para reconfigurar a rota. Fazendo o que já fazia e de uma forma ainda melhor, Beam nos permite isso.

 

 

29) Rosali (Bite Down): Aqui temos um daqueles casos famosos de "melhores discos do ano que ninguém ouviu" - e tá tudo bem, já que foi um ano tão absurdamente bom do ponto de vista musical, que é óbvio que vai escapar alguma coisa. Fugindo um pouquinho da energia good vibes e meio caminho andado pro gospel, que costuma rondar o folk americano, a artista adiciona aqui um pouco de esquisitice - o que já pode ser percebido pela excêntrica capa. Meio Cassandra Jenkins encontra o Waxahatchee, o disco é uma coletânea despretensiosa de boas canções, que se equilibram no violão e nas instrumentações simples, mas eficientes - o que resulta em melodias acessíveis e refrãos grudentos. Já as letras, poéticas e anarquistas em igual medida, condensam dores e incertezas da maturidade, com senso de humor, acidez e ironia - como no caso da envolvente faixa-título (Eu continuo andando e colocando pedras no meu bolso / Eu sou atraído para a areia escura). Estranho, charmoso, empoeirado e primaveril, esse é um álbum que se equilibra com excelência entre o refinamento melódico do indie e a aspereza ruidosa country rock, como pode ser visto nas ótimas On Tonight, Rewind e Hills On Fire (talvez a melhor trinca inicial de canções do ano).


 

28) English Teacher (This Could Be Texas): Não são necessárias muitas audições do aguardado álbum de estreia dos britânicos do English Teacher, para que percebamos como se sobressai nele uma certa "poética do drama" - um tipo de estética que envolve desde vocais pungentes e sôfregos, passando pela repetição de versos como mantras, até chegar as letras sobre questões sociais, econômicas e políticas. Tudo salpicado por citações culturais e por melodias que parecem nadar entre o pós-punk, a psicodelia e o dreampop. Sim, a gente admite que dá um certo cansaço saber que temos novamente a melhor banda de todos os tempos da última semana, mas o caso é que é difícil ficar alheio à canções tão especialmente brilhantes, como, por exemplo, You Blister My Paint. Nela tudo é tão perfeito, desde o vocal ao mesmo tempo etéreo e espacial de Lily Fontaine, até chegar à letra enigmática e alegórica sobre a sensação de se sentir ofuscado por alguém que se ama. Mas há outros belos momentos, caso de The World's Biggest Paving Slab, que não faria feio no mesmo bloco musical noventista em que estivessem o Veruca Salt ou o Sleater Kinney, ou Mastermind Specialism, que parece trilha sonora de filme alternativo saído do Festival de Sundance. Uma joia.


 

27) Tyler, The Creator (CHROMAKOPIA): Não havia nenhum indicativo de que pudesse haver um novo disco do Tyler, the Creator - ainda mais às portas de novembro. Mas, não apenas houve, como este sétimo trabalho é robusto, cheio de camadas e que olha para o microcosmo - as ruas da cidade, os ambientes comuns e as relações  -, para uma reflexão mais ampla do todo. Muitas vezes os discos de rap costumam ser essa coletânea de fragmentos cotidianos - por mais que o artista já nos tenha acostumado à ideia de um conceito ou de um alterego (aqui, a figura central que une cada ato parece inspirada em Chroma the Great, personagem retirado de um livro de Norton Juster). Neste registro, temas como aborto (Hey Jane), uma trágica doença terminal que impede a continuidade de uma tórrida paixão (Judge Judy), a paranoia e sentimento de perseguição (Noid) e a aceitação das diferenças (Sticky), se alternam entre momentos enérgicos e suaves, caóticos e doces. No passado, Tyler já foi cancelado - seus primeiros álbuns exageravam na misoginia, no machismo. Ao se reinventar, desde o ótimo Flower Boy (2017), ele parece ter uma nova chance. Com direito até a uma autocrítica ferina que examina a hipocrisia alheia, mas também a própria (Take Your Mask Off).

 

 

26) The Decemberists (As It Ever Was, So It Will Be Again): Quem acompanha a carreira dos Decemberists, sabe que a banda andava devendo um álbum realmente bom desde, ao menos, o ótimo The King Is Dead (2011). Claro que a peteca nunca caiu, mas o aceno para um pop mais convencional nos trabalhos recentes, parece ter decepcionado os fãs mais antigos, que estavam acostumados àquele folk barroco que mais parecia saído da trilha sonora de alguma peça de teatro épica, em que narrativas grandiosas e melancólicas em igual medida pareciam o ponto de encontro perfeito entre florestas, cavaleiros, criaturas mágicas, fantasmas e caramanchões, com os aspectos mais mundanos da existência humana. Aliás, um tipo de união meio rara que sempre fez o som do coletivo soar único, quase no limite entre as melodias ensolaradas dos Beach Boys e os temas sombrios de um REM fase Automatic for the People (1992). Aqui, esse expediente luminoso mas soturno, carnal mas abstrato, pode ser percebido já na abertura, com Burial Ground - uma canção com o DNA dos americanos, de construção onírica e refrão pra cantar junto - e também em outros momentos, como na irresistível Long White Veil - uma alegoria sobre luto e morte mas que, ironicamente, preserva uma essência festiva.


 

25) Alfie Templeman (Radiosoul): A trilha multicolorida que sai da caixa de som, passa pelos ouvidos de Alfie Templeman e se espalha pelas paredes do ambiente que ilustra a capa do terceiro registro de inéditas do artista inglês, parece dar a dica: estamos diante de um disco ensolarado, vívido. E basta a primeira audição do registro para que essa impressão mais, digamos, semiótica do projeto gráfico, seja confirmada. Com apenas 21 anos, o compositor chegou com força durante a pandemia e, mesmo em tempos sombrios como os de covid, conseguiu entregar um registro de essência festiva - o ótimo Mellow Moon. Apostando novamente na mistura de art pop, com rock psicodélico, funk, R&B e disco music, o músico amplia o caráter maximalista de sua obra, tornando tudo ainda mais enérgico. Nesse sentido, é simplesmente impossível ficar alheio a canções como Eyes Wide Shut, com seu refrão grudento, que parece algo que o Scissor Scisters faria no começo do milênio. Já a magnética Just a Dance, tem participação de Nile Rogers em uma música de melodia primaveril e letra simples. Não significa que não haja momentos sombrios. Ainda assim, o artista explicou no material de divulgação que este é um "registro de verão, que tem a energia espontânea que vem de estar no sol".

 

 

24) Childish Gambino (Bando Stone and the New World): Muito provavelmente não haverá um disco tão eclético em 2024 quanto este anunciado último trabalho de Donald Glover sob o nome de Childish Gambino. Para o bem ou para o mal o artista atira para muitos lados e gêneros, alcançando um resultado meio caótico e que vai para além dos elementos mais óbvios do hip hop. Pode ser apenas uma provocação final em um cenário em que tudo parece tão previsível e estéril, mas o caso é que a crítica "especializada" torceu o nariz. Já os fãs - ou mesmo quem aprecia música de uma forma mais descompromissada -, gostaram. Especialmente dos singles, caso de Lithonia, um rock branquelo de refrão pegajoso e guitarras grudentas. Gambino, que já foi o responsável pela impactante This Is America e que também escreveu, dirigiu e atuou na série Atlanta, ambas tendo bastante impacto na indústria cultural como veículos de crítica ao racismo estrutural dos últimos anos, agora com Bando... parece ir para o lado oposto, sendo capaz de escrever uma música adocicada e alto astral como Real Love, outra litorânea e sofisticada como Steps Beach e até um power pop de piscina que parece trilha sonora de filme dos anos 80, Running Around. Só relaxa e vai.

 

 

23) The Smile (Wall of Eyes): Vamos combinar que existem discos que a gente escuta, cantarola o refrão, decora as letras e consome instantaneamente. E há, por outro lado, aqueles álbuns nem sempre fáceis - e que exigem do ouvinte uma atenção a mais, uma persistência e que vai para além da absorção imediata. Que o Thom Yorke é uma espécie de elo de resistência a esses modelos mais óbvios, mais comerciais, não chega a ser exatamente uma novidade. Era assim no Radiohead, com sua música cósmica, etérea, enevoada e alienígena funcionando como uma metáfora pra tempos tecnológicos, urgentes e um tanto caóticos que antecipariam a virada do milênio. É assim também com o The Smile. Mais uma vez trabalhando ao lado do parceiro Jonny Greenwood, e de Tom Skinner - o baterista do Sons of Kemet - Yorke volta novamente seu olhar para questões contemporâneas e fatalistas, em discussões pandêmicas (Friend of a Friend) e políticas (Teleharmonic). Tudo por meio das letras enigmáticas, ambíguas, que se somam às melodias caleidoscópicas, que nos levam de lá para cá em uma mistura de jazz, eletrônica minimalista e algo que se aproxima do rock. São músicas harmoniosas mas conflitantes, que se comprimem e se expandem, criando um universo próprio.

 

 

22) Bill Ryder-Jones (Iechid-Ya): Uma mistura de Arcade Fire com Mercury Rev, adicionada de um tequinho de MPB, e muito provavelmente teremos o resultado, em termos de sonoridade, do que é o quinto disco de Bill Ryder-Jones em carreira solo. Ex-integrante do The Coral, o artista inglês elabora, aqui, uma coleção de canções que evoluem para além do folk mais simplificado visto em trabalhos anteriores, para adicionar uma série de outros ingredientes. O resultado são canções que vão no limite entre o onírico e o agridoce, o nostálgico e o encantador - o que pode ser percebido já na inaugural I Know That It's Like This (Baby), uma música que homenageia a ex-namorada, a brasileira Christinha (o que também explica a presença do sampler de Baby, entoado por uma Gal Costa que parece diluída no mundo dos sonhos). Em linhas gerais esta também é uma obra de contrastes. Se por um lado as letras podem pender pra certo existencialismo, como no caso do single If Tomorrow Starts Without Me  (Valeu a pena esperar? / Quanto isso vale para você? / E parece bom estar de passagem), por outro o coralzinho infantil que surge na ótima We Don't Need Them insere um componente meio lúdico à coisa toda. Mas o brilho mesmo vem de composições angustiadas, meio empoeiradas e que dialogam com o melhor da psicodelia noventista, caso de Thankfully for Anthony (uma das músicas do ano).


 

21) Raveena (Where the Butterflies Go In the Rain): "As borboletas são tão delicadas, que têm que se esconder debaixo de folhas e flores até que a chuva passe para que suas asas não sejam esmagadas. Eu senti que isso era uma espécie de metáfora para onde eu estava na minha vida". Não é necessário finalizar Pluto, primeira música do disco de estreia de Raveena, para que nos sintamos conectados a esse universo afetuoso, onírico e etéreo sugerido no material de apresentação - e que explica o conceito por trás do álbum. Sim, esse é um disco tradicional de R&B sofisticado, com vocal macio e melodias suaves que, nas palavras da artista, que tem ascendência indiana, é um projeto de "cura". Que aborda as perdas, as vulnerabilidades e as dores essencialmente mundanas, mas com a janela aberta, deixando a luz solar entrar e o ar circular. O resultado é um conjunto de canções doces, melódicas e refinadas que soam nostálgicas do ponto de vista do pop - mas sem perder a personalidade. Experimente, por exemplo, Rise (atualíssima em sua discussão sobre a liberdade ao povo palestino) ou Junebug, sobre amores de verão e a efemeridade das paixões sazonais (e que tem participação do rapper JPEGMAFIA). As pessoas ignorarem solenemente esse disco beira a afronta.

 

 

20) Waxahatchee (Tigers Blood): Muitas vezes eu já me peguei me perguntando "qual a magia do Waxahatchee?". Por quê a gente escuta essa músicas tão ligadas ao Sul dos Estados Unidos e, mesmo assim, consegue se identificar? Talvez seja a sonoridade simples baseada em guitarras e banjos ensolarados. Ou vai ver é o estilo de cantar meio triste e nostálgico de Katie Crutchfield, que nos arremessa pra essa espécie de universalidade da vida na pequena cidade - com suas rodovias ladeadas por lavouras de milho, açudes cheios de tilápias e propriedades de jardins vistosos, em que a varanda funciona como espaço ideal para um fim de tarde com o violão. Há algo sorridente ali. Mas melancólico. Uma curva que nos leva do desalento à esperança sem muita pressa - o que é reforçado pelas melodias sibilantes e pelas letras poéticas e, essencialmente, diretas. Tomemos como exemplo o single Right Back to It, que conta com a participação de MJ Lenderman (que também lançou um elogiado álbum neste ano) e que versa sobre a potência de um relacionamento duradouro, o que envolve fotografias, memórias, estabilidade emocional e o compartilhamento de momentos importantes (Seu amor escrito em um cheque em branco / Use-o ao redor do pescoço). É só uma das tantas joias. Mas há muitas outras.


 

19) Griff (Vertigo): "Todas as músicas foram escritas a partir de uma sensação emocional de vertigem e de rotação". A explicação dada pela britânica Griff para o pequeno conceito por trás do seu ótimo disco de estreia, não poderia estar mais adequada para alguém de 23 anos. De quebra, a sensação de que as paixões torrenciais se intercalam com instantes de coração partido sem muita linearidade, parece combinar com a música pop dançante, de sintetizadores catárticos, apresentada pela artista em Vertigo. Sim, esse é um é um álbum que pode ter passado meio batido em meio a um batalhão de coisas lançadas nesse ótimo ano musical. Só que o caso é que, aqui, vale prestar atenção. Em alguma medida, talvez seja isso o que se espera de um artista pop. Que seja capaz de fazer com que nos identifiquemos de forma descomplicada. Toda e qualquer pessoa adulta já passou pelas suas quando o assunto é o amor, as decepções, os arrependimentos e Griff canta sobre tudo isso com ares de veterana. O que sempre culmina em um refrão caudaloso ou em uma ponte que fará o seu público cativo cantar com gosto - como no caso das excelentes Astronaut, Cycles, Tears for Fun e Hole In My Pocket, esta última utilizando a metáfora do bolso furado em que se perde tudo, pra falar da solidão.


 

18) Christopher Owens (I Wanna Run Barefoot Through Your Hair): "Eu sei que é difícil não sentir que você está devastado / Quando tanto amor está faltando desde o início". Vamos combinar que os versos da singela This Is My Guitar quase funcionam como uma carta de apresentação para o quarto disco do ex-Girls, em carreira solo. Afinal, com tanta tragédia ocorrida na vida do músico - do fatídico falecimento do seu ex-colega de banda Chet JR White, em 2020, a um grave acidente de motocicleta que o deixou impossibilitado de caminhar (e de pagar por seus cuidados médicos), é quase um milagre o acontecimento desse registro. Foi nesse contexto que sua noiva o abandonou. Seu emprego em uma cafeteria foi pro saco. E o aluguel se tornou impraticável, o levando a uma vida nômade como sem teto, morando em seu carro. Assim, dá pra compreender perfeitamente esse retorno pós pandêmico em um estilo poético e contemplativo, borbulhante e atmosférico - em que as letras surgem reflexivas, funcionando como uma espécie de veículo para expiar as dores, com suas ranhuras e incertezas. É diferente do açucarado e agora longínquo Chrissibaby Forever (2015), o trabalho anterior. E tão bom quanto.

 

 

17) Cigarettes After Sex (X's): Enquanto a imprensa musical (supostamente) especializada bate cabeça na busca por formas de deslegitimar a música feita pela banda capitaneada por Greg Gonzalez, esta segue firme no seu propósito de fazer com maestria a sua especialidade - no caso, canções sussurrantes, sensuais, de fim de madrugada à meia luz, que servem como a trilha sonora perfeita em meio a vinhos cheios de taninos e lençois de cetim com milhares de fios. Não, não há nada de diferente nesse terceiro registro de inéditas do trio, muito menos na música em si que segue sofisticada, classuda, sensual. Exatamente como aprendemos a amar. Aliás, o número de streamings nas plataformas de áudio não mentem. O coletivo é um fenômeno de reproduções digitais - por mais monocórdico ou introspectivo que o grupo possa soar. Isso não significa que não haja intensidade, emoção, ou algo mais poderoso nos versos. Mas o vocalista explica que o seu canto vem de um "lugar de vulnerabilidade".. O resultado é uma coleção de canções sobre a complexidade dos relacionamentos, românticas mas profundas, cheias de idas e vindas e bons refrãos, como comprovam as ótimas Silver Sable, Hideaway e Dark Vacay - esta última uma das melhores do ano.


 

16) Tyla (Tyla): Quando lançou o single Water, em julho do ano passado, Tyla meio que surgiu para o mundo como uma enxurrada, uma torrente - pra ficar na metáfora aquosa que alude à canção. A música viralizaria no Tik Tok. Alcançaria, com sua energia absurdamente sexy, melodia envolvente e refrão grudento, milhões de visualizações de seu clipe no Youtube - um tipo de trajetória que, em alguma medida, é a de muitas jovens que despontam nesse universo. Só que Tyla ainda tinha o componente adicional de ser alguém de fora dos grandes centros. Desse eixo que parece centralizar tudo nos Estados Unidos e na Europa. Aliás, nativa da África do Sul, trazia para junto de seu hit instantâneo uma série de referências e de elementos de gêneros locais, como o afrobeat e o amapiano - um estilo que mistura jazz, lounge music e deep house. Mas aí, passado todo esse furor, ficou aquela pontinha de dúvida: Tyla seria capaz de sustentar um álbum? De entregar mais do que um single único? Bom, a chegada de seu disco homônimo comprova que sim. Mesclando pop e R&B com os já citados gêneros sul africanos, a jovem artista apresenta algo que foge do óbvio, em alguma medida, em um combo geral abusadamente saboroso, como comprovam outras ótimas canções Truth or Dare, ART e Jump.

 

 

15) Fontaines D.C. (Romance): Quem imaginou que o Fontaines D.C. pudesse distensionar o seu som denso, enevoado - talvez tornando-o mais acessível ou comercial em seu quarto registro -, errou o pulo. Seguindo no terreno do pós-punk lúgubre, que mescla guitarras cheias de fuzz com as linhas de baixo palpitantes, o coletivo irlandês não mudou uma vírgula do seu estilo - para alegria dos fãs. O que mudou, desde a estreia com Dogrel (2019), foi o mundo, que parece ainda mais acelerado, tecnológico, turbulento e distópico - contexto que, para quem tem aderência a um rock mais direto e reflexivo, que mescla divagações políticas e sociais amplas com o intimismo das pequenas coisas, se torna um prato cheio. Nesse sentido, é preciso que se diga que esse não é um trabalho de fácil absorção, já que as ideias surgem espalhadas em canções nunca óbvias, de poucos refrãos e que por vezes parecem saídas de um filme alternativo de baixo orçamento. No material de divulgação, o vocalista Grian Chatten destacou que o álbum funciona como uma distopia futurista inspirada no clássico japonês Akira e em filmes como A Grande Beleza (2013) de Paolo Sorrentino. O que explica esse clima meio de submundo urbano e de glamour desbotado de canções como In the Modern World, Favourite e Death Kink

 

 

14) Jessica Pratt (Here in the Pitch): Uma bossa nova enevoada, cantada em um filme cult dos anos 80. Um folk espacial que emerge em uma série de TV distópica e existencialista. Uma melodia que martela sutilmente em um bar enfumaçado, ocupado por figuras niilistas e silenciosas. Tentar converter em "imagens" a música feita por Jessica Pratt pode não ser tarefa tão fácil - uma vez que ela parece trafegar com facilidade entre a nostalgia onírica e a modernidade borbulhante. Em alguma medida é possível afirmar que as possibilidades são muitas e mesmo um disco pequeno (de 27 minutos e nove músicas) permite ao ouvinte uma viagem pop psicodélica por ambientes tão variados, que tudo parece ser maior do que é. Lúdico, sensorial, evocativo, esse é daqueles trabalhos que ressoam de forma hipnotizante em uma rota intimista e agridoce. Um bom exemplo disso tudo pode ser percebido no single World on a String - com sua musicalidade flutuante e elevada. Pratt tem um estilo de cantar que consegue soar ao mesmo tempo doloroso e acolhedor e, por causa disso, versos como "E você ganhou tudo, mas seu sorriso vai embora / Quando, ao final, você é notícia de ontem" (na bossa nova Better Hate) soam ousados e irônicos.  É o tipo de combinação que faz com que retornemos várias vezes para o disco.


 

13) Real Estate (Daniel): O Real Estate é a prova viva de que a música pode ser fácil, descomplicada, sonhadora, doce. Sim, a gente já ouviu esse estilo de jangle pop antes - seja em bandas como o Teenage Fanclub ou, mais antigamente, com o The Byrds. Já se vão quinze anos de carreira e, no sexto disco do grupo, a coisa não mudou muito. Há um apelo nostálgico permanente na guitarrinha primaveril, que combina perfeitamente com os versos flutuantes de Martin Courtney. São canções que aconchegam e que acolhem o ouvinte, mesmo quando eventualmente soam mais complexas do que parecem. É o caso, por exemplo, do single Water Underground, que mergulha nas profundezas da mente, ao usar a imagem da água como uma metáfora para o inconsciente. O expediente se repete em outros momentos simples e belos. Say No More se inspira no clássico Harvest Moon, de Neil Young, em um tipo de canção grudenta, que poderia muito bem estar no álbum Days (2011). A estrutura de verso, ponte e refrão é replicada de forma persistente, e não dá pra negar que o grupo já possui uma personalidade própria, que permite fácil identificação. Pode parecer apenas banal, talvez cotidiano demais. Mas encontrar magnitude no ordinário também tem seu charme. 


 

12) Kali Uchis (Orquídeas): Vamos combinar que não pode haver nada mais contemporâneo em matéria de música, do que a mescla de estilos fluindo de forma orgânica, com personalidade. E se tem uma artista na atualidade que mistura gêneros como R&B e hip hop, rearranjando-os com boas doses de reggaeton, merengue, bolero, salsa e outras sonoridades latinas, esta é a Kali Uchis. Funcionando quase como peça complementar do sofisticado e etéreo anterior Red Moon In Venus, a cantora investe em uma coleção de canções que promove uma vibrante infusão, que explora justamente a diversidade da música latina. São canções como Igual Que Un Ángel, feita em parceria com o mexicano Peso Pluma, que fogem do óbvio estereotipado, ao possibilitar variações de batidas que adicionam camadas eletrônicas oníricas e sintetizadores que, aqui e ali, quase arremessam a música para o campo da psicodelia à Tame Impala. Já Te Mata, um bolero imprevisível, parece ter nascido pra ser hit com seu refrão grudento (e brega) e letra potente sobre amor próprio em um contexto de relacionamentos tóxicos. Há outras joias imperdíveis aqui, casos de Me Pongo Loca, Tu Corazón Es Mío, Labios Mordidos e Muñekita, nesse álbum que foi lançado cedo. E que segue reverberando.


 

11) Vince Staples (Dark Times): "A maneira como eu olho pra música - especialmente a música urbana, das pessoas negras ou como queira chamar - é que estamos todos no zoológico e os ouvintes são as pessoas fora da gaiola". Quem acompanha a carreira do rapper Vince Staples sabe que sua produção sempre foi marcada por uma crueza que não romantiza os seus temas. Em mais de uma entrevista ele mencionou haver alguma desconexão entre certos artistas e quem os consome, especialmente na ânsia de dar um polimento, um certo brilho glamourizante aos problemas da periferia, numa espécie de glorificação do rap (o que se vê muito nos videoclipes, por exemplo). Violência policial, racismo estrutural, tráfico de drogas e crise da masculinidade são assuntos que, aqui e ali, surgem sempre pontuados por um estilo minimalista, sem floreios, com batidas no limite da monotonia, efeitos econômicos e um vocal muito mais falado do que gritado. Sim, Staples pode ser engraçado nas redes sociais ou totalmente debochado nas entrevistas. Só que na hora de fazer música de qualidade ele segue imbatível. Agradável, fluída, com refrãos diretos, como no caso da ótima Étouffée e da e tensa Government Cheese, Dark Times é uma obra sólida, melodiosa e rica em camadas.


 

10) Beth Gibbons (Lives Outgrown): Quem ouve o estilo soturno, quase fantasmagórico que emana das canções do primeiro disco solo - sim, acredite - de Beth Gibbons, dificilmente encontrará algum rastro do trip hop sofisticado, que marcou a sua antiga banda, o Portishead. Sim, porque diferentemente do que ocorria nas músicas do grupo - muitas vezes arranjadas em instrumentações que misturavam o onírico com o lúdico -, aqui há uma severidade no todo. Uma beleza rústica, de trovoada, talvez meio bucólica, sensação reforçada pelos tambores potentes, pelas cordas grandiosas e pelo canto montanhoso, comovente. Sim, Gibbons já não é mais uma jovem que canta sobre amores de cafofo e outros devaneios sentimentais, como no clássico noventista Glory Box. A artista agora está ás portas dos 60 anos. E com outras preocupações. E talvez seja justamente essa capacidade de autoexame a respeito da própria trajetória, da maturidade e das experiências de vida que faça com que ela se sinta tão à vontade para experimentar, para fugir do óbvio. O resultado é um registro que cresce a cada nova audição e que discute de forma madura temas como envelhecimento (Love Changes) e menopausa (Oceans). Para absorver com calma.


 

9) Yaya Bey (Ten Fold): Sedutor, sofisticado, aconchegante, hipnótico, vívido. Vamos combinar que não serão poucos os adjetivos na hora de definir o quinto registro de inéditas de Yaya Bey. Assim como já ocorrera no anterior Remember Your North Star (2022), aqui a artista investe novamente na mistura contemporânea de R&B, pop, funk e soul, com algumas pitadinhas de trip hop - algo como um encontro entre FKA Twigs e Mary J. Blige. Como se o sussurro fosse um estado de espírito, Bey investe no minimalismo e na potência dos versos como o caminho para estabelecer suas vulnerabilidades, anseios, dores e incertezas - ainda mais após a perda do pai Ayub Bey. De quebra, Bey sempre foi uma consumidora de cultura negra - de livros de Toni Morrison, passando pelos programas de humor de Richard Pryor e pelos discos incendiários de Chaka Khan e Tina Turner. E para além da tentativa pessoal de superar o luto, a cantora utiliza a sua arte como veículo para discussões mais amplas sobre racismo, igualdade entre gêneros, problemas ambientais, falta de dinheiro e direitos das minorias. Só que os temas mais sérios não significam sisudez, como comprovam as movimentadas e divertidas Eric Adams in the Club, Slow Dancing in the Kitchen e Sir Princess Bad Bitch.

 

 

8) The Last Dinner Party (Prelude to Ecstasy): Uma união da música clássica com a alternativa, com orquestrações épicas se intercalando com o indie moderno. Digamos que essa é uma tentativa bem pequena de resumir o tipo de som que fazem essas britânicas que foram uma das sensações da temporada. Com ecos de artistas distintos que vão de Kate Bush e Florence + The Machine, passando por Weyes Blood e Abba, o coletivo converte esse disco de estreia em uma coleção de canções divertidas, cinematográficas, poéticas e sacras - tudo com uma personalidade comovente. Em alguma medida, trata-se de uma mistura interessante que, por vezes, faz com que nos sintamos em uma espécie de filme de época dirigido pela Sofia Coppola ou em algum livro da Jane Austen. Ou em uma exposição de arte renascentista. Sobre as canções, elas transitam em vários gêneros, explorando temas, como, masculinidade frágil (Caesar on a TV Screen), perda da inocência (Sinner), paixões adolescentes (My Lady of Mercy), privilégio masculino (Beautiful Boy) e relacionamentos tóxicos (On Your Side). E há ainda o single Nothing Matters que, com seu refrão grudento, melodia otimista e letra descarada, faz todo mundo cantar junto. Ouça. Pra ontem.

 

 

7) Adrianne Lenker (Bright Future): Quem acompanha o trabalho de Adrianne Lenker, seja à frente do Big Thief ou em carreira solo, sabe que suas obras não são daquelas que nos apaixonam de primeira. Sim, porque a despeito da simplicidade evocativa do violão e da voz enfumaçada, pincelada aqui e ali por um violino ou um efeito eletrônico econômico, o que temos são registros que requerem uma atenção maior. Nem sempre há refrãos fáceis ou as curvas óbvias previstas no pop plastificado da atualidade. O caminho, ao cabo, pode ser imprevisível mas sofisticado, instável mas arguto. Em linhas gerais tudo é muito íntimo e cheio de vulnerabilidade. É como se Lenker simplesmente pegasse seu violão, entrasse em um quartinho fechado de uma casa isolada no meio do mato, e dedilhasse qualquer coisa tão sofrida quanto aleatória. Ainda assim é interessante notar como há certo encantamento nessa banalidade - um brilho meio mágico, onírico, a cada nota vocal mais alta ou a cada melodia entortada, que se equilibra em perfeita harmonia com o silêncio das brechas. Libélulas, varandas perfumadas, nuvens que passam, framboesas silvestres e macieiras, passeios com o cachorro, lareiras acesas, ventos que arrepiam - há uma felicidade boba no agora, e é a ele que Lenker recorre. Lindo demais.


 

6) Empress Of (For Your Consideration): Se tem uma coisa que não é difícil apontar no quarto trabalho de estúdio de Lorely Rodriguez como Empress Of, é o caráter cinematográfico do registro. Da capa hollywoodiana - com a artista montada em uma estrela cadente dourada -, ao título do disco, tudo parece remeter ao universo habitado por astros da capital mundial do cinema. Elementos que, aliás, se estendem à música - como não poderia deixar de ser. Em entrevistas de divulgação a cantora, que reside em Los Angeles, explicou que havia se apaixonado por um diretor de cinema - mas que o relacionamento era impossível, por conta de sua indisponibilidade emocional. Como nas melhores comédias românticas, Rodriguez resolveu converter a frustração, a dor e a volta por cima na matéria-prima ideal para uma coleção de onze canções cintilantes, sensuais, anárquicas e classudas, que misturam o melhor da eletrônica, do pop e do R&B, com ritmos latinos e até com música clássica. Alternando entre o espanhol e o inglês, a artista intercala momentos de maior vulnerabilidade (What's Love), com outros em que ela exala confiança (como no ótimo single Kiss Me, que tem a participação da Rina Sawayama). Digno de Oscar.


 

5) Beyoncé (Cowboy Carter): Vamos combinar que hoje em dia já é bastante conhecida a história que envolve a apresentação de Beyoncé, ao lado do grupo The Chicks durante o Country Music Awards de 2016 - e que resultou em um sem fim de reações racistas, misóginas, sexistas. Texana de nascimento, a maior rainha do pop estaria portanto impedida de cantar um estilo normalmente ligado, ao menos na atualidade, aos rednecks sulistas? Não mesmo. Ainda que Texas Hold'Em possa ter sido um forte aceno ao gênero - como já havia ocorrido no passado em Daddy Lessons, presente em Lemonade (2016) -, o caso é que Cowboy Carter é muito mais do que o disco de country music. Pode ser o ponto de partida. Mas há muito mais do que Willie Nelson e Dolly Parton avalizando, ou banjos respingados aqui e ali. Sequência da trilogia que se iniciou com Renaissance (2022), aqui temos uma artista afiada no exame de sua terra natal em todos os seus preconceitos, mas sem deixar de expressar seu amor por ela. Do hip hop ao gospel, passando pelo R&B e pelos ritmos africanos -, Beyoncé constroi uma epopeia revisionista provocativa, que escava o justo espaço histórico das mulheres negras, em um ambiente normalmente dominado por homens brancos, conservadores. É um feito e tanto.


 

4) Jamie xx (In Waves): Nove anos separam o primaveril In Colour desse segundo trabalho do produtor britânico. E a realidade é que muita coisa aconteceu de lá para cá - de pandemia à guerras, passando por avanços tecnológico e crises políticas globais. E em meio a isso as pessoas ficando meio paralisadas, doentes e solitárias - mas também em busca de alguma válvula de escape. E é aí que entra a música e seu poder. De possibilitar a dança, mas também a imersão. A conexão com algo. Com pessoas. Com ideias. Com imagens mentais. E penso que Jamie xx faz essa ponte como poucos. É meio curioso notar como as suas canções emergem ideais para a turbulência das pistas, com seus sintetizadores urbanos e polidez vítrea -, ao mesmo tempo que também parecem funcionar bem para o consumo solitário, em meio a alguma madrugada quente, que avança rumo ao raiar de um novo dia. É uma música ao mesmo tempo minimalista, que é quase um mantra aveludado e levemente tenso (como na abertura Wanna), mas também elaborada, como no single Waited All Night, que tem a parceira de The xx Romy nos vocais. O resultado desse conjunto parece todo depositado aqui: enérgico e quente (Baddy on the Floor), mas também delicado e suave (The Feeling I Get From You). Difícil ficar alheio.

 

 

3) Rachel Chinouriri (What a Devastating Turn of Events): Quem ouve o pop sofisticado, muitas vezes agridoce, e cantado com a voz aveludada da britânica Rachel Chinouriri em sua estreia, talvez não imagine a densidade de suas letras e mesmo a relevância de seus temas. Em linhas gerais há uma leveza nostálgica que conduz o ouvinte entre palminhas, assobios e uma sonoridade que se equilibra bem entre o R&B, o soul e o indie rock, que fazem tudo soar acessível. É aquele disco gostoso, com pontes e refrãos que flanam com facilidade. Basta uma ou outra audição pra memorizar as canções. Como no caso, por exemplo, de Robber, balada sombria que tem como pano de fundo a história de um casal que perde um bebê. Nascida em Londres, a artista de apenas 26 anos é filha de pais emigrados do Zimbábue. E ainda que pudesse ser convidativo em termos de "mercado" tornar sua música apenas uma excentricidade para um público médio e branco ávido por sons de fora dos grandes centros, Rachel cresceu ouvindo Kings of Leon, Phoenix e Coldplay - bandas que aparecem como influência pouco óbvias em canções sobre sensação de não pertencimento (o ótimo single The Hills), amores não correspondidos (All I Ever Asked) e crise de imagem e aceitação (I Hate Myself).

 

 

2) Vampire Weekend (Only God Was Above Us): Preciso ser honesto com vocês: toda vez que o Vampire Weekend anuncia um novo disco, eu penso que a coisa vai desandar, já que não deve ser fácil manter a qualidade do trabalho por um período tão longo. Só que sem pressa e dando tempo ao tempo, o coletivo parece sempre entregar o seu melhor. Seja na sonoridade - estridente, amplificada, complexa mas agradável e sofisticada do ponto de vista instrumental -, ou nas letras alegóricas e profundas, que emergem de cenários domésticos e de dilemas mundanos para uma análise do todo. Exemplo disso, o single Capricorn talvez seja uma das melhores canções do grupo, com seus versos prosaicos que envolvem uma ruminação curiosa sobre passado e futuro, passagem do tempo e a dicotomia entre juventude e maturidade. Tudo tendo como base uma melodia esganiçada, sibilante, quase industrial, mas também delicada e nunca cansativa. Pianos que se espalham com graça (Hope), guitarrinhas adocicadas (Pravda), rockões modernos e pegajosos (Classical) que se alternam com instantes mais comedidos (Mary Boone), enfim, uma construção moderna, riquíssima e com uma fluidez própria. É álbum pra dar play repetidamente. E descobrir algo novo a cada nova audição.


 

1) Magdalena Bay (Imaginal Disk): Celestial, mágico, hipnótico, sofisticado. E, acima de tudo, essencialmente pop. Resumir o tipo de som feito pela dupla californiana Mica Tenenbaum e Matthew Lewin, em seu segundo álbum de estúdio, talvez não seja uma tarefa tão simples. Os adjetivos podem ser diversos e o caso é que eles nunca conseguirão abarcar o todo. Sim, há todo um conceito por trás do registro que envolve terapias alternativas e a busca por uma espécie de bem-estar (ou de cura) que percorre cada curva do projeto e que retira as músicas do óbvio meio pasteurizado que reina na música sintética dos dias de hoje. É como se o conjunto fosse ao mesmo tempo estranho e experimental, mas acessível e comercial - e experimente não ficar com Killing Time grudada na mente após umas duas audições. A canção, por sinal, é aquele tipo que se repete a todo o momento no trabalho - e que vai no limite entre o retrô setentista enfumaçado e o brilho polido de uma eletrônica mais maximalista. O que não apenas confere personalidade, mas também expande os limites sonoros. O que pode ser comprovado em pequenas joias que amaciam os ouvidos, como Death & Romance, Image e Love Is Everywhere. Para colocar no repeat e ouvir infinitamente.


Como comentei no começo do texto, esse foi um dos melhores anos das últimas décadas em matéria de grandes lançamentos e, preciso ser honesto e dizer que, até o fechamento da lista, havia no mínimo mais uns 20 discos que poderiam figurar nessa relação. Como destaques e como uma espécie de menção honrosa, cito os casos de Nobody Loves You More, a surpreendentemente boa estreia da ex-Breeders da Kim Deal; Patterns In Repeat, da Laura Marling (que saiu da lista final no último segundo); Mahashmashana, do sempre ótimo Father John Misty; All Born Screaming, da St. Vincent, que também senti de deixar de fora; Hit me Hard and Soft, da Billie Eilish (que talvez tenha uma das músicas do ano, Birds of Feather), GNX do Kendrick Lamar, que dispensa comentários e o No Name, do Jack White, que é, sim, um discaço. Isso só pra ficar em alguns. Talvez se fizesse essa lista na semana que vem, alguns dos nomes já mudassem. E assim a gente segue. Vivendo ano a ano esse prazeroso exercício.

E pra vocês, quais os registros fundamentais do ano? O que não poderia faltar jamais em uma lista? Falem conosco!

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Novidades em Streaming - Touch

De: Baltasar Kormákur. Com Egill Ólafsson, Koki e Masahiro Motoki. Drama / Romance, Islândia / Reino Unido, 2024, 121 minutos.

Devo confessar a vocês que não tenho muita paciência com filmes que tratam seus personagens como figuras absolutamente perfeitas, incorruptíveis e que permanecem de maneira ininterrupta em um pedestal moral. Ninguém age assim o tempo todo e obras desse tipo, além de parecerem excessivamente infantilizadas, ainda se convertem em experiências cansativas e pouco envolventes. Mesmo quando o assunto é um melodrama. É preciso, afinal, alguma pimenta. Um temperinho a mais. O que, de forma irônica, falta justamente a Touch - o candidato da Islândia à categoria Filme em Língua Estrangeira para o Oscar desse ano. Dirigida por Baltasar Kormákur, a produção se passa, em boa parte, no interior de uma cozinha. Mas uma cozinha em que, por mais bonita que seja a receita e por melhor que seja o seu preparo, ela sempre parecerá deficiente em sal. Em sódio.

Ao cabo, Touch é um filme chato. Que faz com que acompanhemos a jornada de um idoso de mais de setenta anos que, por mais incrível que possa parecer, ainda não superou um romance da juventude. Eu não sei bem em que tempo esse povo tá vivendo ou o tipo de solidão que tem percorrido suas almas, mas, o protagonista Kristófer (Egill Ólafsson), como se fosse uma espécie de Florentizo Ariza dos tempos pandêmicos (sai o cólera do livro de Gabriel Garcia Marquez e entra a covid-19), resolve ir atrás de um antigo amor - seu nome é Miko (Yôko Naharashi). Para colocar seu plano em prática ele fecha o restaurante da qual é proprietário, na gelada Islândia, para tentar localizar o amor pós-adolescente, ocorrido no final dos anos 60, em Londres. Sua esposa morreu e esse reencontro poderá aplacar, talvez, um tipo de ausência. Ainda mais em um mundo tão doente, individualista e pouco empático.

 

 

Em linhas gerais Kristófer é o sujeito de fala mansa e sempre ponderado - um idealista (ou comunista) com um passado universitário regado a cabelos compridos, ideologia pacifista e fitas K7 de John e Yoko a tiracolo. Em 1969 o mundo também passava por uma espécie de transformação e, meio cansado da militância universitária (com seus longos e pouco produtivos debates), o protagonista resolve tentar uma vaga de trabalho em um restaurante japonês, no coração de Londres. A pequena desconfiança inicial do dono do estabelecimento, o carismático Takahashi-San (Masahiro Motoki), logo da lugar a uma relação de amizade e de intimidade. Aliás, o conjunto ficará ainda mais próximo quando o estudante universitário Kristófer (Pálmi Kormákur Baltasarsson) se apaixonar pela jovem Miko (Koki). Uma relação sem muita química, meio forçada e até insípida, mas que, aparentemente, se tornará inesquecível pra ambos.

Evidente que o filme tem algumas boas intenções. Primeira delas é de denunciar o absurdo da guerra - que respinga nos antepassados e na própria Miko, já que sua família era de Hiroshima. O tom paz e amor pode ser interessante, ainda que, aqui e ali, soe meio artificial - e quase não consegui esconder a irritação no instante em que Miko compara um Kristófer de óculos, ao John Lennon. Como disse no começo é tudo muito certinho. As idas e vindas no tempo são comoventes. A trilha é grandiosa e parece subir na hora adequada na intenção de arrancar lágrimas à fórceps do espectador. Com tudo piorando no terço final, quando a forçação de barra do encontro dos idosos atinge o auge da manipulação, ao tentar nos fazer crer que ambos aguardaram uma vida inteira por aquele momento. Por isso que gosto tanto do Vidas Passadas (2023), que foi um dos indicados ao Oscar do ano passado. As paixões juvenis, em geral, ficam resguardadas pra juventude. A gente cresce, amadurece, muda. Adquire bagagem, se transforma. Que um amor infantil e perfeitinho possa existir, definitivamente é coisa de filme. Que esse filme seja islandês, um País tão pródigo em boas produções, é quase trágico. Uma pena.

Nota: 2,0


terça-feira, 19 de novembro de 2024

Cinema - Ainda Estou Aqui

De: Walter Salles. Com Fernanda Torres, Selton Mello, Valentina Herszage, Maeve Jinkins e Fernanda Montenegro. Drama, Brasil / França, 2024, 137 minutos.

Vamos combinar que, por si só, Ainda Estou Aqui já seria mais um filmaço a nos lembrar os horrores da Ditadura Militar e a importância de conhecer a história para, nesse caso, não repeti-la. Mas o timing é realmente impressionante. Em sua segunda semana em cartaz e batendo recordes de bilheteria, a obra de Walter Salles (de Central do Brasil, 1998), estrelada por Fernanda Torres ocorre em uma linha paralela em que o golpismo fica ainda mais escancarado. Na mesma semana em que um plano para assassinar Lula, Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes é revelado pela Polícia Federal - isso logo após um extremista de direita se autoexplodir em frente ao STF tamanho o delírio e a alienação desse campo -, a população brasileira tem a oportunidade de, com uma obra de arte, se recordar dos horrores de um regime que não hesitava em torturar, violentar e matar supostos adversários políticos. A quem atribuíam a pecha de subversivos.

Nesse caso não dá nem pra dizer que é a vida imitando a arte porque na realidade é a vida imitando a vida mesmo. Quando a gente vê que o próprio Bolsonaro autorizou tentativa de golpe até o final de 2022, com o documento que descrevia a operação sendo redigido e impresso no próprio Palácio do Planalto, percebemos que estivemos por um fio de ver a nossa Pátria novamente mergulhada nos horrores de um regime tirânico. Foi por um detalhe que essa coisa cinzenta, funesta e sombria de tanques do exército, militares perambulando pelas ruas com armas em punho e um medo onipresente não se tornaram o novo normal. Nesse sentido, não é difícil sentir um calafrio ao acompanhar a história de Eunice Paiva (Torres), mãe de cinco filhos - entre eles o escritor Marcelo Rubens Paiva, que escreve a obra em que a trama é baseada - e que precisa tentar tocar a vida após o seu carismático e amoroso marido, o ex-deputado e engenheiro Rubens Paiva (Selton Mello), simplesmente desaparecer, após ser levado de sua casa por integrantes do regime.

 

 

Nesse sentido, Ainda Estou Aqui se assemelha a um filme de terror. Mas não um filme de terror sobrenatural ou de fantasmas que aparecem pra atormentar os moradores. Os fantasmas até existem, mas esses usam farda, bota, falam grosso e não aceitam uma democracia em que exista o dissonante. O diferente. "Vamos fuzilar a petralhada do Acre", afirmou o ex-presidente certa feita. Em outra, bradou que o "erro da ditadura foi torturar e não matar". No caso de Rubens Paiva, ele certamente foi torturado. E morto. Pelas mãos do Estado. No filme de Salles o público sente certo alívio em não precisar se deparar com cenas de violência excessivamente gráfica que poderiam emergir das agressões. Não é que elas não ocorram e não deixa de ser torturante ouvir os gritos e o choro de quem, por trás dos corredores, clama por algum tipo de clemência - e certamente são extremamente doloridos os instantes em que a própria Eunice é levada pelos militares, sem nem saber o que eles farão com ela. E muito menos ter conhecimento do paradeiro do seu marido.

Após ser torturada e solta, Eunice volta para os seus filhos. E precisa tentar recolher os cacos de uma experiência traumática, que parece longe de ter um fim. E talvez um dos maiores impactos gerados pela obra de Paiva (e de Salles) seja justamente o de dedicar a sua atenção a quem fica. Mães, esposas, filhos daqueles que desapareceram. Uma violência moral e psicológica sem medida - contra intelectuais, professores, estudantes, artistas. Pessoas que, por escreverem cartas, ou trabalharem com cultura eram incluídos entre os rebeldes, os revolucionários, os insurgentes. Não por acaso, sequências como aquela em que os jovens - fumando, rindo, se divertindo - são parados em uma blitz, geram tanto medo. Nunca se sabe do que uma polícia violenta é capaz de fazer. Seu código de conduta desviante torna tudo imprevisível. O que contribui para um clima de tensão permanente mesmo diante dos belos cenários do Rio de Janeiro, com suas praias bonitas que parecem ainda mais magnéticas por conta das cores em tons pasteis, pela trilha sonora cheia de grandes canções setentistas e pelo figurino acertadíssimo.


 

Aliás, não bastasse ser uma grande história - ainda que de classe média e de uma família que, dado o seu privilégio, tem condições de contá-la (diferentemente de muitos, que certamente foram apagados em todos os sentidos) -, cheia de grandes interpretações (exigimos Fernanda Torres no Oscar já!), a produção como um todo é um primor técnico. As idas e vindas no tempo milimetricamente calculadas, o desenho de produção perfeito - com os carros, os objetos cênicos, a decoração tudo de acordo - e um sentimento de nostalgia torto por uma vida que poderia ter sido e não foi (fortalecido pela fotografia granulada e levemente dessaturada) formam um conjunto bonito onde, muito provavelmente não deveria haver beleza. Tanto é que, em meio a tantos horrores, há uma pontinha de otimismo ao cabo - especialmente nessa olhadela para o futuro, que vêm com uma foto sorridente e com a obtenção de um documento importante. Talvez ao tentar envenenar Lula e enforcar Alexandre de Moraes os truculentos golpistas tenham dado um baita tirambaço no pé. E talvez não haja chance maior para que jamais esqueçamos que anistia é o CACETE.

Nota: 9,5

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Tesouros Cinéfilos - Sing Sing

De: Greg Kwedar. Com Colman Domingo, Clarence 'Divine Eye' Maclin e Paul Raci. Comédia / Drama, EUA, 2024, 102 minutos.

Mais um filme sobre o poder transformador da arte - inclusive como política de ressocialização de presos. Assim é Sing Sing, drama dirigido pelo ainda desconhecido Greg Kwedar, que conta a história inspirada em eventos reais sobre um grupo de encarcerados de uma prisão de segurança máxima de Nova York, que participa de um programa de Reabilitação Através das Artes (RTA). E devo confessar que dei o play com certa desconfiança, até mesmo por soar meio batido esse subgênero de pessoas buscando algum tipo de redenção em um contexto que, em alguma medida, parece não lhes pertencer. Sim, em séries recentes como Barry, a gente já experienciou assistir a um assassino em série que entra em um grupo de teatro como parte de seu próximo "trabalho" - e começa a repensar suas decisões na vida ao ingressar no universo dos palcos. Só que diferentemente da comédia da HBO, aqui o componente realista é o que nos pega. E nos conduz em uma jornada tão edificante quanto surpreendente.

Porque uma coisa que só fui descobrir fazendo uma pequena pesquisa pra essa resenha é que muitos atores coadjuvantes que vemos em cena integraram, de fato, o programa. Que, aliás foi um sucesso, já que estudos mostram que a taxa de reincidência criminal (e de retorno para a prisão) em até três anos após a libertação é inferior a 3% para os integrantes do projeto (contra 60% de média nacional). O que dá conta, também, do poder das oportunidades - que, claramente, conseguimos perceber que não é a mesma para grande parte das pessoas, especialmente aquelas que emergem das camadas sociais mais vulneráveis. O que dá uma dimensão da importância de projetos sociais de música, de cultura, de cinema, de esportes e de educação em comunidades mais pobres. O filme mostra um sem fim de talentos artísticos desperdiçados por motivos de "vida real". Com a entrada para o crime sendo, muitas vezes, o caminho natural para quem terá menos acesso a tudo.

 

 

De forma deliberada, o filme não centra sua narrativa nos crimes cometidos ou nos esforços de advogados em conseguir acordos ou reduzir penas. Ou mesmo na violência do Estado ou no racismo estrutural como componente - talvez na intenção de não forçar a barra na busca pela empatia (e todos certamente têm suas histórias). O protagonista, Divine G é vivido com entusiasmo apaixonado por Colman Domingo - e não será nenhuma surpresa ele ser lembrado na temporada de premiações (inclusive no Oscar). É ele que conduz a narrativa por dentro dos corredores da prisão - como um participante ativo do programa (ele é um dos fundadores e um dos principais atores). Após o fim de uma temporada de apresentação shakespereana, os presos realizam um brainstorm - e um dos outros encarcerados, o temperamental Clarence 'Divine Eye' Maclin (como ele mesmo), sugere uma comédia. Até mesmo para amenizar as dores da vida real. Dá discussão sai uma ideia estrambótica: fazer uma peça cômica chamada Breaking the Mummy's Code, que mistura Banzé do Oeste, Gladiador, De Volta Para o Futuro e A Hora do Pesadelo, com boas pitadas de Hamlet.

Em muitas medidas é extremamente divertido ver um grupo de pessoas não acostumadas à atuação, em um esforço para colocar uma peça de teatro nos palcos - com os presos sendo conduzidos pelo levemente excêntrico diretor Brent Buell (Paul Raci, que vimos recentemente em O Som do Silêncio (2019). Entre idas e vindas, dilemas, rivalidades e incertezas (inclusive sobre o teatro em si, seu propósito e suposto falseamento da realidade), esse é aquele tipo de projeto que brilha nos instantes mínimos - como a pequena conquista de conseguir realizar uma cena, ou mesmo a obtenção de um aporte financeiro obtido junto a executivos, que possibilitará a continuidade do programa. E, claro, existe a vida real e o desejo de liberdade que perpassa todos que estão ali - e é justamente ao encarar a complexidade do sistema jurídico, que Domingo ilumina ainda mais sua atuação, sendo praticamente impossível não se comover. Aliás, é um paradoxo interessante que, em certa altura, alguém bastante importante pergunte a ele se ele "está atuando". Todos ali estão. E muito bem.


segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Novidades em Streaming - Motel Destino

De: Karim Aïnouz. Com Iago Xavier, Nataly Rocha, Fábio Assunção e Fabíola Líper. Suspense / Drama, Brasil, 2024, 115 minutos.

Um noir tropical que mistura mato com neon, sensualidade com rigor, violência com fragilidade. Assim podemos resumir, em alguma medida, a experiência com Motel Destino, mais recente trabalho do diretor Karim Aïnouz (A Vida Invisível, 2019), que acaba de ser disponibilizado para aluguel nas plataformas de streaming. Exibido no Festival de Cannes desse ano, o longa acompanha o jovem Heraldo (Iago Xavier), um rapaz de 21 anos que sonha com uma vida melhor em São Paulo - longe, portanto, da costa nordestina -, mas que se vê envolto em uma tentativa de golpe que dá errado e que resulta na morte de seu irmão. Perseguido pelo bando da chefona Bambina (a ótima Fabíola Líper), após perder uma grana para uma prostituta, Heraldo encontra refúgio justamente no motel que dá nome ao filme e que é administrado pelo casal Dayana (Nataly Rocha) e Elias (Fábio Assunção).

A chegada é conturbada. Em fuga e sem ter muito pra onde ir, o protagonista aceita um trabalho temporário no local, como uma espécie de faz tudo - que faz pequenos reparos na estrutura, arruma os quartos, organiza os ambientes. O clima é meio caótico, em meio a gritos sexuais onipresentes e orgasmos constantes nunca abafados pelo sistema de isolamento acústico (que, na realidade, inexiste). Dia após dia, jovem vai ficando no local, passando a participar da vida do casal anfitrião: seus momentos de lazer, sua rotina, tudo envolve os três, que estão permanentemente com roupas mínimas (o calor é palpável) - e não demorará para que desejos até certo ponto controlados, explodam. E, bom, não é preciso ser nenhum expert para saber que, dado o temperamento imprevisível de Elias, as coisas podem sair do prumo rapidamente.


 

E, em linhas gerais, se esse é um thriller erótico que não chega a apresentar alguma grande novidade em sua narrativa - que flui com uma densidade meio enevoada, reforçada pelas cores vivas dos quartos temáticos do motel (com seus tons intrusivos e bastante saturados) -, por outro lado, esse é um projeto que nos propõe um mergulho em um universo pouco visto, como o dos bastidores de espaços procurados pelas pessoas exclusivamente para o sexo. Por trás de portas e janelas a libido constante gera uma sensação de calor que, alegoricamente, sufoca, causa estranhamento - um tipo de claustrofobia tensa, ansiosa, que vai no limite entre o tesão, o torpor e a violência. Não é por acaso que sequências com os animais domésticos (por assim dizer) mantidos por Elias, com sua sua selvageria prática e escancarada, funcionam como uma metáfora para os seres que ali habitam, com seu exagero ignóbil e sensualidade febril.

Nesse sentido, em alguma medida, a fuga de Heraldo para um lugar fechado em que ele, novamente, se verá preso, não deixa de ser uma ironia curiosa do roteiro. Envolto na rotina de sexo descompromissado e consertos de ar condicionado e de cerca elétrica, o protagonista vai levando a vida, desviando por corredores, em meio a prazeres fugazes de vermelho vívido - proporcionados pela experiente Dayana -, enquanto planeja algum tipo de fuga que nunca acontece. Os perigos rondam - inclusive com a presença inesperada de figuras ligadas ao bando de Bambina que veem no motel também um refúgio. Só que talvez o que Heraldo não perceba é que a liberdade suposta nesse local idílico e adequado para a putaria é que as portas poderão se fechar, inesperadamente. É tenso mas letárgico, potente mas cauteloso. Assim como costumam ser os bons filmes nacionais.

Nota: 8,5


segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Novidades em Streaming - O Melhor Está por Vir (Il Sol Dell'avenire)

De: Nanni Moretti. Com Nanni Moretti, Margherita Buy, Jasmine Trinca e Mathieu Amalric. Comédia / Drama, França / Itália, 2023, 94 minutos.

Não sei se é apenas impressão, mas estaria o Nanni Moretti se convertendo em um véio amargurado, daqueles que é incapaz de perceber que os tempos mudaram e que as transformações - políticas, sociais, culturais - ocorrem mais ou menos na velocidade da luz? Sim, porque só dessa forma parece ser possível explicar a existência de um filme tão autoindulgente como O Melhor Está Por Vir (Il Sol Dell'avenire) - o mais recente projeto do premiado realizador, que venceu a Palma de Ouro do Festival de Cannes, com o inesquecível O Quarto do Filho (2001). Aqui, Moretti encarna Giovanni, um diretor de cinema que parece já meio distante dos seus dias de glória e que perambula pra lá e pra cá de forma claudicante entre o set de sua nova produção para as telonas - uma obra com pano de fundo histórico sobre conflitos internos envolvendo integrantes do Partido Comunista Italiano em meados dos anos 50 - e a vida doméstica, com uma separação que se avizinha.

Importante que se diga que não há problema algum em uma produção ser caótica, estranha e metalinguística. Só que esse aqui quase pende pro aborrecimento ao tentar abarcar um monte de coisas ao mesmo tempo e de forma esparsa. Ok, sabemos das posições políticas de Moretti e um filme dentro de um filme sobre comunistas do pós-guerra insatisfeitos com a invasão russa à Hungria, que recebem uma trupe circense de Budapeste, e de como essa controvérsia poderia manchar a imagem do partido, é só uma das alegorias para o desgosto geral em relação aos rumos da própria existência do protagonista. Imaginando-se um sujeito de grande virtude, ele simplesmente não aceita que seu casamento está ruindo. Mais do que isso, fica incomodado de este ser o primeiro projeto que não será produzido por sua esposa e parceira de negócios Paola (Margherita Buy), que está envolvida em uma obra genérica de gângsteres, com violência estilizada e comando de um jovem diretor. Com quebras de andamento, elipses e outras trucagens, Giovanni rumina aqui e ali. Sem se fixar em parte alguma.

 

 

Em alguma medida essa mescla de cinema, política moderna e dramas íntimos e familiares não chega a ser uma novidade na filmografia do italiano, como no caso do ainda recente Minha Mãe (2015). Só que tudo que soava inspirador, denso e metafórico naquele, soa vazio, teatral e repetitivo em O Melhor Está Por Vir. Até a estrutura parece semelhante, com os bastidores das filmagens se colocando como veículo para a verbalização de angústias, medos, frustrações e incertezas. Em uma longa e curiosa sequência, por exemplo, Moretti vai até o set de filmagem da obra produzida por Paola para, simplesmente, interromper a ação de um homem apontando uma pistola para a cabeça de outro, sob a alegação de a violência estilizada ser algo sem propósito (e que poderia gerar o efeito inverso na audiência). É um instante que era pra ser engraçado, com direito até a uma "participação" de Martin Scorsese. Mas tudo soa apenas caricato.

Tudo bem que Moretti não precisa mais provar nada pra ninguém. É um dos grandes diretores vivos, dono de uma verve sempre provocativa e autoirônica, que, em alguns casos, pende pra subversão. Mas ao dar voltas em torno de si para reclamar sobre como a Netflix vai dominar o mercado com seus produtos genéricos (exibidos em 190 países), sobre como a pureza da arte e o cinema de autor podem estar com os dias contados - o que é evidenciado pela falta de financiamento -, ou de como o fantasma do comunismo inexistente segue rondando o espectro político de uma Itália governada pela extrema direita, o diretor parece aquele idoso ranzinza, que não encontra o próprio óculos e que fica colocando a culpa nos outros (até perceber que o aparato tá diante do próprio nariz). Essa comiseração, ali pelos 60 minutos cansa. Justo no momento que deveria ser o do what a fuck. Nessa hora a gente só quer que o filme acabe. E fica na torcida para que o próximo, o do amanhã, seja melhor.

Nota: 4,0


sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Pitaquinho Musical - Christopher Owens (I Wanna Run Barefoot Through Your Hair)

"Eu sei que é difícil não sentir que você está devastado / Quando tanto amor está faltando desde o início". Vamos combinar que os versos da singela This Is My Guitar quase funcionam como uma carta de apresentação para o recém-lançado I Wanna Run Barefoot Through Your Hair, o quarto disco de Christopher Owens, em carreira solo. Porque vamos combinar que, com tanta tragédia ocorrida na vida do ex-Girls é quase um milagre o acontecimento de um novo registro. Afinal, como se não bastasse o trágico falecimento do seu ex-colega de banda Chet JR White, em 2020, justo quando o Girls ensaiava um retorno, o artista ainda sofreu um grave acidente de motocicleta três anos antes, que o deixou impossibilitado não apenas de caminhar, mas de pagar por seus cuidados médicos. Foi nesse contexto que sua noiva o abandonou. Seu emprego em uma cafeteria foi pro saco. E o aluguel se tornou impraticável, o levando a uma vida nômade como sem teto, morando em seu carro.

 

 

Até a guitarra e o gato foram roubados na estrada, então dá pra compreender perfeitamente esse retorno pós pandêmico em um estilo poético e contemplativo, mas borbulhante e atmosférico - em que as letras surgem reflexivas, funcionando como uma espécie de veículo para expiar as dores, com suas ranhuras e incertezas. Algo bem diferente daquilo que encontramos em Chrissibaby Forever (2015), o agora longínquo registro anterior, com suas canções açucaradas, nostálgicas e emocionais (quase como uma extensão daquilo que víamos em sua antiga banda). Um bom exemplo desse caráter mais meditativo de suas músicas pode ser percebida no single I Think About Heaven em que a guitarrinha primaveril do compositor, contrasta com a letra sobre romances tortos e o relacionamento complexo com a religião (Minhas lágrimas foram o meu dia e a minha noite / Até eu te ver, de que serve a minha visão?). É um disco cheio de personalidade, e que cresce a cada audição. Vale conferir.

Nota: 8,5


Novidades em Streaming - A Substância (The Substance)

De: Coralie Fargeat. Com Demi Moore, Margaret Qualley e Dennis Quaid. Ficção Científica / Horror, EUA / França / Reino Unido, 2024, 141 minutos.

Ficou mais ou menos famoso o caso recente de uma jovem influencer de pouco mais de 30 anos que, na busca de melhorar sua aparência, perdeu parte do lábio e teve o rosto deformado após a aplicação de um produto que não era recomendado em cirurgias de harmonização facial. E basta uma pesquisa rápida no Google, com as palavras-chave adequadas, para sermos inundados com um sem fim de notícias de procedimentos estéticos que deram errado, que saíram do controle e que, se não levaram a pessoa à morte, prejudicaram (e muito) a saúde dos envolvidos. A busca por padrões estéticos inalcançáveis, que se somam ao etarismo como um fardo moderno, especialmente para as mulheres, certamente rende horas de discussões, de teses e de estudos. E que um filme como A Substância (The Substance) contribua para esse debate de forma tão eficiente, chocante e sem concessões, é algo não menos do que notável.

Sim, as pessoas saíram das salas de cinema aterrorizadas com o body horror dirigido pela francesa Coralie Fargeat, que agora está disponível na Mubi (e segue em cartaz nos cinemas). Sim, a obra leva à busca pela perfeição estética e pela juventude como sinônimo de beleza ao limite do aceitável, ao nos apresentar à Elisabeth Sparkle (Demi Moore) - uma antiga estrela de Hollywood (com direito à nome na Calçada da Fama e tudo) que, hoje, próxima dos 60 anos, sobrevive com um programa matinal de ginástica para a terceira idade (daqueles bastante populares nos Estados Unidos). Só que Elisabeth tem percebido um movimento nos bastidores envolvendo acionistas e diretores - sempre aquele grupo de idosos decrépitos que, sem parecer ter espelho em casa, vivem de criticar a aparência alheia com um sem fim de comentários sexistas -, que pretendem substituí-la por alguém mais jovem. Que dê mais audiência. Que gere mais interesse do que uma senhora com sua "malhação jurássica".

 

 

Ao invés de se resignar e tentar lutar por seu espaço como uma Margo Channing - a personagem de Bette Davis no clássico A Malvada (1950) -, Elisabeth faz o que, infelizmente, muitas mulheres do ano de 2024 fariam: adquire um kit para um tratamento experimental com um produto injetável, que lhe possibilitará ter acesso a uma versão "melhor de si mesma". Mais jovem. Mais vivaz. Tudo começa quando, desalentada, Elisabeth sofre um acidente justamente após ver um outdoor com o seu rosto sendo removido. É no hospital que ela conhece um excêntrico enfermeiro de pele plastificada (Robin Greer), que lhe entrega um pendrive com instruções. O que envolve a ida a um local meio Quero Ser John Malkovich (2000) das ideias, com cores contrastantes, espaços apertados e algo tipo uma gaveta séptica onde ela retirará o aparato, que conta com um produto de cor amarela esverdeada radioativa (só faltou a caveirinha), que deve ser aplicado com uma seringa gigantesca para a obtenção do efeito desejado.

Sem pestanejar e, diante das reprimendas do seu chefe no canal de TV, o executivo Harvey (Dennis Quaid, no modo misógino de alta performance), Elisabeth executa as instruções, "libertando" de si própria a sua versão jovial e magnética, que leva o nome de Sue (Margaret Qualley). O manual do produto é claro: é preciso manter o equilíbrio entre os corpos, o que envolve idas e vindas entre um e outro, com um sistema de estabilização que desafia as leis da física (mas que para uma ficção científica que se mescla ao horror estilo David Cronenberg turbinado, funciona direitinho). E é óbvio que não é preciso ser nenhum expert para saber que Elisabeth/Sue ficará obcecada por sua versão idealizada de juventude. O que fará a coisa toda desandar. Gerando uma insatisfação que só aumenta - assim como aumentará o gore - e eu confesso a vocês que suporto muitas coisas no cinema, mas aqui me vi virando a cabeça em alguns momentos, de tão angustiado (e isso é um elogio).


 

Fargeat pode até exagerar na dose ao tentar reforçar seu ponto ou a sua bandeira - e a mensagem sobre a necessidade de autoaceitação em tempos de redes sociais, de filtros, de aparências perfeitas e de procedimentos estéticos dispensáveis e totalmente invasivos é mais do que óbvia. Mas essa é daquelas obras bacanas para a discussão pós sessão, justamente por inserir uma série de elementos que vão para além das questões ligadas aos padrões de beleza inalcançáveis. Há um subtexto, por exemplo, sobre a dificuldade de obtenção de certos papeis no cinema e na TV por mulheres mais velhas (e olha quanto tempo a gente não via a própria Demi Moore, que foi uma das musas dos anos 90, em um papel de destaque, sendo que, ela segue talentosíssima e linda como nunca). Outro aspecto envolve as mudanças brutais em nossos corpos, que, quase nos transmutam em outras pessoas, irreconhecíveis por vezes. Fantástico, repulsivo, delirante, estiloso, cruel e visceral, esse é daqueles filmes que ficam colados com a gente após a subida dos créditos. Assim como colam os rostos, os sons, os gostos, os cheiros e os fluídos do que assistimos. Filmaço, que merece toda a sorte do mundo no próximo Oscar.

Nota: 9,5