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segunda-feira, 14 de abril de 2025

Novidades em Streaming - O Quarto ao Lado (The Room Next Door)

De: Pedro Almodóvar. Com Juliane Moore, Tilda Swinton, John Turturro e Alessandro Nivola. Drama, Espanha / EUA, 2024, 107 minutos.

Vamos combinar que não é de hoje que Pedro Almodóvar vem numa toada mais melancólica em suas obras. Talvez seja a experiência. Ou o senso de finitude. O que faz com que suas produções mais recentes venham banhadas em momentos mais introspectivos - ou menos caricatos. Claro que os temas ligados à morte (e ao medo dela), à memória (coletiva ou não) e a busca por uma certa paz de espírito para seguir adiante, nunca deixaram de fazer parte dos seus filmes. Em meio às cores quentes e saturadas e aos dramas novelescos, essa consciência de que somos seres complexos, cheios de medos, desejos e traumas nem sempre bem resolvidos, sempre esteve presente. Mas é preciso que se diga que nos recentes Dor e Glória (2019) e Mães Paralelas (2021) parece haver um tipo de silêncio mais reinante. Que preenche espaços que, anteriormente, talvez fossem ocupados por barulhos histriônicos. Vai saber.

O caso é que essa impressão, proposital ou não, combina bastante com O Quarto ao Lado (The Room Next Door), que, baseado em obra de Sigrid Nunez, chega agora em diversas plataformas de streaming. Em entrevistas, o diretor chegou a mencionar a dificuldade que temos, como seres humanos, de falar a respeito da morte, por mais inevitável que ela seja "Não é natural que algo que esteja vivo deva morrer", comenta ainda na narração em off do início da projeção, a personagem Ingrid (Juliane Moore) uma escritora de best sellers que está em uma livraria, para a sessão de lançamento de sua nova publicação. Essa parece ser a deixa ideal para que, ali, naquele ambiente movimentado por fãs, uma antiga conhecida lhe dê uma notícia um tanto trágica: sua amiga Martha (Tilda Swinton), uma antiga colega de trabalho de quem ela meio que perdeu o contato, está com um câncer terminal.

 


Ingrid resolve visitar Martha. E é desse reencontro provocado por uma situação adversa que se estabelecerá um vínculo que determinará o futuro de ambas as mulheres. Sim, falando assim pode não soar tão interessante. Mas o que o diretor espanhol faz aqui é um pequeno tratado sobre estoicismo, esperança e autopiedade nos tempos atuais. Tempos, aliás, de avanço da extrema direita e de uma agenda antiambientalista que, de uma maneira bastante curiosa, se encaixará mais adiante na história. Especialmente após a aparição de Damian (John Turturro), um escritor que já teve algum tipo de relacionamento amoroso com ambas as mulheres no passado. Em suas recordações, em meio a momentos tristes e de euforia, Martha contará a Ingrid sobre como ficou grávida, no passado, de um jovem que foi para o Vietnã e que voltou traumatizado pela guerra - e com quem ela teve uma filha, Michelle, com quem ela perde contato após uma tragédia familiar.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Já Ingrid se apresenta como a figura onipresente em um momento delicado para Martha que, desesperada em meio a tratamentos experimentais que dão errado e o receio generalizado de ter uma morte excessivamente dolorosa, faz uma proposta extravagante para a amiga: a de que ela lhe auxilie na condução de um processo de eutanásia, com pílulas que ela adquire na deep web. Para além de toda a complexidade ética ou os questionamentos morais que decorrem do fato, o caso é que Almodóvar coloca uma pulguinha atrás da orelha do público, em mais um tema considerado tabu em vários países do mundo: as pessoas deveriam ter o direito de simplesmente morrer, de forma confortável e assistida, se assim desejassem? Como se fossem criminosas, ambas alugam uma casa de campo meio escondida no Airbnb, para que a ideia amadureça. E claro que tudo isso será uma boa desculpa para mais uma experiência soturna, de humor torto e absolutamente cativante do espanhol. 

Nota: 8,0


quinta-feira, 4 de maio de 2023

Cine Baú - Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios)

De: Pedro Almodóvar. Com Carmen Maura, Antonio Banderas, María Barranco, Rossy de Palma e Julieta Serrano. Comédia dramática, Espanha, 1988, 89 minutos.

O estilo multicolorido, histriônico e farsesco de Pedro Almodóvar talvez tenha tido o seu primeiro grande ato com o clássico moderno Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios). A obra, afinal, com sua narrativa novelesca e verborrágica, pendendo para o absurdo, daria fama internacional ao espanhol - especialmente após a indicação ao Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira, na cerimônia de 1989. Ok, o filme até não faturaria a estatueta dourada - naquele ano havia um certo Pelle, O Conquistador (1988), melodrama que estava cativando o mundo -, mas pavimentaria o caminho para que Almodóvar se estabelecesse como um dos mais originais realizadores do cinema. Suas produções, atualmente, são aguardadas, comentadas. Atraem fãs no mundo todo. Costumam ser pontos altos em festivais. Aqui no Picanha mesmo esse já é o sexto texto sobre um filme do diretor. Um dos favoritos da vida, enfim.

Mulheres... é baseada, como não poderia deixar de ser, em uma peça de teatro - no caso, A Voz Humana, de Jean Cocteau. E isso explica também os motivos de grande parte da ação se passar no espaço imenso da luxuosa cobertura onde reside Pepa (Carmen Maura, que trabalharia um sem fim de vezes com Almodóvar). Na obra, Pepa atua como dubladora de filmes estrangeiros - é mais ou menos famosa no seu meio, a ponto de ser reconhecida nas ruas. Ainda no começo do filme, ela recebe um recado por telefone do seu amante Ivan (Fernando Guillén), que é seu colega de trabalho. Ele a está abandonando, pede para que ela arrume as malas dele, sem muita explicação. O que fará com que ela se desespere e tente, de todas as maneiras, descobrir os motivos disso. O que envolverá um sem fim de esforços entre ligações telefônicas, andanças pela cidade, recados e outras tentativas. Todas elas frustradas, em alguma medida.

E como se já não bastasse a tragédia particular que envolve a vida de Pepa, ela ainda receberá em sua casa a visita de sua amiga Candela (María Barranco), que está em fuga após ter descoberto que seu namorado teria ligações com grupos terroristas xiitas. Temendo ser presa ela pede asilo. Só que Pepa está colocando o apartamento à venda. Sendo que um dos interessados é justamente Carlos (um jovem Antônio Banderas), filho de Ivan, que aparece acompanhado de Marisa (Rossy de Palma, outra colaboradora habitual do diretor). O rebu todo se torna ainda maior quando a protagonista descobre a existência de uma terceira mulher na vida de Ivan, no caso a advogada Paulina (Kiti Manver), sendo que é com ela que o sujeito pretende fugir para Estocolmo. Com o caos sendo completo com o surgimento de Lucía (Julieta Serrano), ex-mulher de Ivan que está em um hospital psiquiátrico e, bem, aparentemente planeja matá-lo.

Bom, é claro que todos esse contexto bizarro de idas e vindas e de uma profusão imensa de personagens e de personalidades são apenas uma boa desculpa pra um sem fim de situações bizarras, excêntricas e engraçadas envolvendo todos ali. Apostando em coincidências como forma de unir os pontos - pessoas que se conhecem, eventos aleatórios que aproximam uns aos outros -, Almodóvar converte a obra em uma experiência tão anárquica quanto humana. De uma entediada Marisa que descobre um gaspacho na geladeira e resolve beber o produto - sem saber que ele está "batizado" com soníferos -, chegando ao instante em que um técnico que conserta telefones e um policial se confrontam, nada parece apenas jogado no roteiro, sem que haja um propósito. E é justamente esse senso de organização da narrativa que a torna tão única, bem ao estilo intenso que marcaria a obra do diretor. Pra quem ainda não está tão familiarizado com a filmografia do espanhol, esta pode ser uma bela porta de entrada. Só que se prepare: uma vez acessada essa porta, não haverá mais volta!


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Novidades em Streaming - Mães Paralelas (Madres Paralelas)

De: Pedro Almodóvar. Com Penélope Cruz, Milena Smit, Isreal Elejalde e Aitana Sánchez-Gijón. Drama, Espanha, 2021, 121 minutos.

Vamos combinar que se tem um diretor que sabe olhar para o íntimo dos personagens (e bota íntimo nisso), mas sem ignorar o contexto - social, político, cultural - este é o Pedro Almodóvar. Sim, suas obras podem ser novelescas, anárquicas, ousadas, debochadas e até eventualmente histriônicas. Mas também sabem ser comoventes, sutis, humanas. Almodóvar é, ao cabo, o diretor completo - e não foi por acaso que muitas de suas produções já passaram aqui pelo Picanha, como nos casos de Carne Trêmula (1998), Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e o recente (e soberbo) projeto Dor e Glória (2019). Aliás, assim como outros realizadores - casos de Wes Anderson, Quentin Tarantino e Tim Burton, só pra citar alguns -, o espanhol é mais daqueles que possuem uma assinatura própria, um estilo inconfundível, sendo praticamente impossível olhar para a paleta normalmente quente de cores, para os cenários cheios de elementos e para os figurinos vibrantes sem pensar "bom, está aí um Almodóvar raiz".

E talvez seja a soma desses ingredientes - a história que emerge do microcosmo, a estética que vai no limite da ambiguidade, o olhar carinhoso para o passado - justamente aquilo que torna possível a existência de pequenas joias como este Mães Paralelas (Madres Paralelas), que está disponível na Netflix. Aliás, o "assunto" das mães - das mulheres em geral - costuma se repetir nos filmes de Almodóvar, como uma espécie de metáfora geradora do todo, da continuidade da vida, da persistência em meio às dificuldades, da superação em uma sociedade machista, misógina, patriarcal. E provavelmente seja essa cumplicidade que faça com que Janis (Penélope Cruz) e Ana (Milena Smit) se aproximem na maternidade - aliás, elas darão à luz no mesmo dia. De personalidades opostas, Janis é a fotógrafa bem estabelecida e independente que, próxima dos 40 anos, sonha com a maternidade. Está eufórica com a ideia. Já Ana, uma adolescente, engravidou por "acidente" e está arrependida, traumatizada, morrendo de medo de tudo.


E as circunstâncias que as tornarão mães podem até parecer desimportantes num primeiro momento, mas funcionarão também como fio condutor que engendra a narrativa muito bem costurada. Janis, por exemplo, engravida de um arqueólogo ligado ao Governo - seu nome é Arturo (Israel Elejalde) -, após um trabalho conjunto que executam. Janis tem interesse no tema das escavações pois alguns de seus parentes podem estar enterrados em um sítio em uma antiga vila onde viveram seus antepassados, tendo sido assassinados durante o regime do ditador Francisco Franco. Detalhe: Arturo é casado. Já Ana, aparentemente, foi estuprada e é meio assombroso constatar o fato de que ela talvez sequer tenha se dado conta disso. E é justamente esse emaranhado que faz com que Janis e Ana se aproximem ainda mais, se fortaleçam em suas dores, se apoiem diante do sofrimento, especialmente quando a ligação entre ambas dá sinais de que, muito provavelmente, se quebrará. Há algo maior que une as mães da nação. E que conecta passado, presente e futuro.

E acompanhar tudo isso é se emocionar sem que para isso sejam necessárias muitas lágrimas. Há uma série de subtextos que envolvem escolhas profissionais x maternidade (e aqui entra o papel conturbado e ambíguo de Aitana Sánchez-Gijón que interpreta Teresa, a mãe de Ana), incertezas diante do futuro, superação do luto, solidão e outros. Com os atores, especialmente Penélope Cruz, dando um verdadeiro show de interpretação - e as formas com que a sua expressão se modifica tão naturalmente diante de uma ou outra notícia reveladora, dão conta da grande atriz que, afinal de contas, ela viria a se tornar (e, nesse sentido, a indicação ao Oscar não é por acaso). Aliás, a propósito do "carecão dourado" (como diz o Otávio Ugá, do Canal Super Oito), Alberto Iglesias, colaborador de longa data do diretor, também foi lembrado na categoria Trilha Sonora (e com justiça, já que as suas cordas cortantes contribuem para o clima de suspense e drama da narrativa). Resumo da ópera: Almodóvar está na melhor forma possível. E quem ganha é o espectador.

Nota: 9,0


terça-feira, 14 de setembro de 2021

Tesouros Cinéfilos - Carne Trêmula (Carne Trémula)

De: Pedro Almodóvar. Com Liberto Rabal, Francesca Neri, Javier Bardem, Penélope Cruz e Pepe Sancho. Suspense / Drama, Espanha, 1998, 98 minutos.

Não é tarefa fácil apontar o ápice do estilo bastante gráfico e um tanto quixotesco da obra de Pedro Almodóvar. Mas eu afirmaria sem medo de errar que o clássico moderno Carne Trêmula (Carne Trémula) é um dos candidatos a esse título "simbólico". Nessa história novelesca, afinal, encontramos uma série de elementos que marcam a filmografia do espanhol. Pra começar há um romance meio torto, de ares quase patológicos, que vai avançar para algum tipo de violência inesperada (mas nem tanto assim). Aliás, a tragédia humana, bem como suas coincidências desastrosas também é uma das marcas do realizador. Há uma sensualidade latente, que se sobressai em cada frame que, não necessariamente, precisa ser sexual. A profusão de cores, com a prevalência do vermelho, quase sempre transformam a fotografia em um elemento de ambiguidade, que faz a narrativa trafegar no limite entre a paixão intensa e morte iminente. E há por fim as figuras humanas demasiado humanas - que sorriem, choram, sofrem, amam, sentem medo, frustração e dor. Tudo ao mesmo tempo.

E há, como de praxe, o elenco irretocável que confere a tudo uma aura quase mágica. Na trama a gente volta no tempo, para o começo dos anos 70 num contexto em que os muros pichados e as reivindicações televisionadas dão conta dos reflexos da ditadura promovida pelo General Franco. Em meio as tensões é que a prostituta Isabel (Penélope Cruz) dá à luz o pequeno Victor (Liberto Rabal) - o parto ocorre em um ônibus em movimento, em mais uma daquelas sequências com um toque Almodóvar. O filme avança 20 anos no tempo para a Madri dos anos 90. Victor, agora, é um entregador de pizza que se vê apaixonado pela jovem descompromissada Elena (a bela Francesa Neri), que não quer nada com ele. Uma confusão no apartamento da moça resulta em um chamado à polícia, o que faz com que os agentes David (Javier Bardem) e Sancho (Pepe Sancho) sejam destacados para investigar. A ação resulta em tragédia: um tiro acidental torna David paraplégico. Já Victor amargará sete anos na cadeia.


E nesse tempo em que se mantém preso Victor acompanha à distância os acontecimentos que levam David a uma vida feliz - mesmo na condição de cadeirante, conseguiu se casar com Elena e ainda se tornou uma estrela da modalidade de basquete em cadeira de rodas (com direito a medalha olímpica nos jogos de Barcelona 92). A ideia do rapaz é se vingar e, bom, talvez seja melhor nem avançar demais na narrativa que reserva ótimas surpresas e reviravoltas tão desconfortáveis quanto inesperadas. Apostando no estilo novelesco - a obra é adaptada de um romance escrito por Ruth Rendel -, Almodóvar nos conduz por uma Madri em permanente construção em que a casa distopicamente destruída herdade por Victor de sua falecida mãe, contrasta com a construção de prédios em cores vivas do entorno. A metáfora parece óbvia: é hora de juntar os cacos. Mas será possível? O método escolhido não poderá resultar em uma trilha em que tudo (e todos) sairá ainda mais devastado?

Nesse sentido, o diretor não nos poupa de apresentar uma série de figuras ressentidas, desejosas de vingança e que buscam a redenção de uma forma bastante torta. Aliás, é quase difícil se afeiçoar de qualquer um que acompanhamos - todas figuras complexas, ambíguas, que possuem uma moral duvidosa, que dificilmente reconhece seus erros. Ao desejar tanto algum tipo de desforra, a situação se tornará insustentável - ainda mais quando, como parte do plano, Victor se aproximará de Clara (Ángela Molina), mulher do temperamental Sancho. É uma trama engenhosa, tensa, cheia de idas e vindas, que conta com uma trilha sonora envolvente (repleta de canções típicas espanholas), com tomadas de câmera inesperadas (a que nos leva ao ônibus no começo da obra é espetacular) e uma fotografia, como já dito, de cores vivas, quase saturadas. O resultado é um dos grandes filmes de Almodóvar que, não por acaso, pavimentaria o caminho para Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e Fale com Ela (2002), duas de suas maiores obras.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Tesouros Cinéfilos - Dor e Glória (Dolor y Gloria)

De: Pedro Almodóvar. Com Antonio Banderas, Asier Etxeandia, Penélope Cruz e Leonardo Sbaraglia. Drama, Espanha, 2019, 103 minutos.

Vamos dizer que Dor e Glória (Dolor y Gloria) talvez seja um filme muito mais bonito do que profundo. Mais sensível, mais leve. Menos impactante ou provocativo - como eventualmente ocorre na carreira de Pedro Almodóvar. Mas isso não é nenhum demérito. Olhar com carinho para o passado, fazer um filme com ares autobiográficos, que homenageia o cinema e outras artes, também é afagar o espectador. De vez em quando a gente quer uma película que nos envolva, sem necessariamente nos intrigar de maneira comovente. E esta obra parece fazer isso sem forçar a barra, na base da gentileza, da graça. Continua sendo um legítimo Almodóvar - estão lá o uso de cores vivas e a fotografia saturada, Antonio Banderas e Penélope Cruz interpretando, um roteiro com algum grau de mistério cheio de idas e vindas e, claro, as paixões que não olham cor, gênero, tipo físico ou idade. O tipo de obra perfumada pela experiência, talvez. E que por isso tão bela, tão introspectiva.

Na trama, Banderas é Salvador, um decadente diretor de cinema cheio de ideias nunca postas em prática que seguem guardadas em seu computador e que, agora, a convite da cinemateca espanhola, revisitará uma de suas primeiras obras, de nome Sabor, que está para completar 30 anos de seu lançamento. Viajar até o passado para reencontrar esse filme, também será confrontar com um antigo ator que trabalhou com ele em tal película e que, por ter modificado completamente a personalidade do personagem que Salvador havia escrito, se tornou seu desafeto. O ator em questão é Alberto Crespo (Asier Etxeandia), sujeito recluso, intenso usuário de drogas e que anda afastado do mundo das artes. Do reencontro entre ambos os homens surge uma curiosa amizade. E também uma oportunidade para que Alberto "renasça": ele se convida para levar aos palcos uma das tantas ideias deixadas de lado por Salvador em seu notebook - uma peça que lhe comove profundamente.


Muito mais do que homenagear o meio em que vivem estes homens, Dor e Glória também é uma ode ao passado, às escolhas que fazemos e sobre como elas definem quem seremos no futuro. Com  muitas idas e vindas no tempo, conheceremos um Salvador ainda menino (o ótimo Asier Flores), sua relação com a mãe Jacinta (Penelope Cruz) e seu esforço na direção transformadora do aprendizado - sendo particularmente comovente o instante em que o garoto de apenas oito anos passa a ser o professor de Albanil (César Vicente), pintor e instalador que trabalha na "casa" do jovem - e que lhe permitirá descobrir a homossexualidade. Nas sequências que mostram Salvador adulto, vemos um sujeito fragilizado, adoecido e hipocondríaco, que esconde suas vivências em textos nunca revelados, mas que tem uma grata surpresa quando reaparece um antigo amigo/namorado do passado, um certo Federico (Leonardo Sbaraglia). Aliás, difícil não se emocionar com a sequência em que ambos contracenam: uma cena profunda, dolorosa, comovente. Ainda que eventualmente otimista, à sua maneira.

Em linhas gerais o filme não possuirá uma reviravolta ou algum tipo de arco dramático bem estruturado entre começo meio e fim. Alberto levará a peça aos palcos, Salvador recordará do passado. Confrontará este mesmo passado no presente. Perdoará, mais de uma vez. Seguirá adiante, curando as feridas não apenas da alma, mas também físicas. Mestre em utilizar gráficos, montagens e outras trucagens visuais em seus filmes, Almodóvar transforma a sequência em que Salvador fala de todos os males que lhe afligem em um curioso tour de force das dores do mundo - o que se desenvolve de maneira curiosamente divertida. Assim como é divertida a "descoberta" tardia da heroína, como uma alternativa para aplacar essas mesmas dores vividas pelo protagonista. Em uma obra que utiliza as cores não com um propósito específico, mas para salientar a importância delas nas artes, na vida, no redescobrir do mundo, o que fica docruzamento entre passado e presente são as experiências, afinal. E, assim como um belo desenho impregnado em nossa memória, elas jamais podem ser apagadas.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Cinema - Julieta (Julieta)

De: Pedro Almodóvar. Com Emma Suárez, Adriana Ugarte, Daniel Grao, Blanca Parés e Rossy De Palma. Drama, Espanha, 2016, 99 minutos.

Sou um grande fã do estilo transgressor de Pedro Almodóvar e de seu olhar todo especial para as pessoas à margem da sociedade - sejam elas os gays, as transexuais, as prostitutas ou os drogados que costumam compor o universo de suas histórias. Em muitos casos, especialmente em sua filmografia mais antiga, esses personagens vêm acompanhados de uma caracterização um tanto expansiva fazendo com que o resultado beire o teatral ou o farsesco - no melhor sentido de ambas as palavras. Assim sendo, não deixa de surpreender o clima de "novelão mexicano", estilo que o espanhol abraça de vez em Julieta (Julieta), seu mais recente trabalho - drama que fala de escolhas (e de perdas) no que diz respeito ao relacionamento familiar. E, esse contexto, é preciso que se diga, de forma alguma se constitui em um demérito, já que o estilo elegante do formato certamente cairá no gosto até mesmo daquela fatia do público que costuma ser mais conservadora - e portanto avessa aos acontecimentos vistos em obras essenciais como Má Educação (2003) ou A Pele Que Habito (2011).

Existe um lugar-comum que diz que "família não se escolhe, simplesmente acontece", e, num sentido mais amplo, pode-se dizer que a frase combina bem com o que se vê no filme. No começo da película, somos apresentadas a uma Julieta (Emma Suárez) já na meia-idade, disposta a abandonar Madri para morar em Portugal ao lado do namorado Lorenzo (Dario Grandinetti). Em sua expressão ao mesmo tempo doce e melancólica parece haver também um tanto de amargura, que aflorará ainda mais após um encontro fortuito com a jovem Bea (Michelle Jenner), uma antiga amiga de sua filha. Pois esse encontro de poucos segundos e de, aparentemente, inexpressivas trocas de palavras, será o suficiente para que Julieta mude de ideia, não apenas permanecendo na capital espanhola, como se mudando para o antigo apartamento em que morava. O encontro com o passado recheado de pendências e de casos mal resolvidos, será feito por meio de uma carta, destinada a sua filha Antía (Bianca Parés).



Revelar mais do que isto seria estragar algumas das boas surpresas que o diretor - que toma por base textos da canadense Alice Munro, vencedora do Nobel de Literatura em 2013 - entrega ao espectador, com toda a calma do mundo, aludindo ainda a um clima de suspense à Hitchcock, visto também em outras obras, casos de Volver (2005) e Abraços Partidos (2009). Na carta de Julieta, agora jovem (e vivida por Adriana Ugarte), há, entre outras, as memórias relacionadas ao seu primeiro marido, o pescador Xoan (Daniel Grao), que ela conhece em uma viagem de trem. Ainda que o primeiro encontro, com o rapaz ainda casado, represente o início de uma paixão tórrida, parece haver mistério em cada curva que fazemos no acompanhamento da obra. Sentimento acentuado pela trilha sonora propositalmente sufocante de Alberto Iglesias ou mesmo por acontecimentos curiosos, como o aparente suicídio de um excêntrico sujeito de meia-idade que estava no mesmo trem de Julieta e Xoan e que, anteriormente, tentara puxar conversa com ela.

O sentimento de tensão - não apenas sexual (com a presença da sexy artista plástica Ava, amiga de Xoan), mas também em relação a rotina do casal - comporão um quadro em que tragédias familiares serão praticamente inevitáveis. O que fará com que a jovem Antía tome uma decisão que modificará para sempre o relacionamento com a sua mãe. Como se fosse um artesão das imagens, Almodóvar esquadrinha cada sequência utilizando-se de cores primárias fortes e saturadas (o vermelho já é um clássico), que, aparecendo de maneira contrastante, funcionam como metáfora perfeita para o relacionamento daqueles que vemos na tela. Da mesma forma, o espanhol filma objetos - como as esculturas compostas por Ava, muitas delas em formato de homens "despedaçados" - como forma de tornar palpável aquilo que está apenas no ar ou no campo das ideias.


Utilizando-se ainda de uma fotografia que ilustra de maneira inteligente (cortesia do diretor Jean Claude Larrieu) as variações de sentimento das personagens - repare como a paleta de cores é muito mais viva nas cenas da juventude de Julieta, por exemplo - o diretor ainda possibilita a atriz e amiga de longa data Rossy De Palma um dos mais instigantes, curiosos e divertidos papeis da obra - uma espécie de governanta de Xoan, que se mete em tudo que diz respeito a sua vida. É muito provável que Julieta não seja o melhor filme do espanhol. Mas sua melancolia sutil, sua sincera elegância, a grande quantidade de mulheres fortes e o arrebatador argumento, certamente apagam a má impressão deixada pelo inexplicável Os Amantes Passageiros (2013), seu trabalho anterior. E se serve como dica, levem a caixa de lenços junto. Ela pode ser necessária.

Nota: 8,3