terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Grandes Cenas do Cinema - O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet)

Filme: O Sétimo Selo
Cena: Jogando xadrez com a morte

No cinema existem cenas icônicas, existem cenas muito icônicas, existem cenas super-ultra-icônicas e existe a sequência em que um cruzado joga xadrez com a morte, no clássico O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet), de Ingmar Bergman. Bom, talvez não seja para tanto, já que certamente existem filmes de Hollywood com cenas tão ou mais inesquecíveis do que essa. Mas o caso é que, mesmo para quem não está tão familiarizado assim com a cinematografia do sueco - nunca óbvia, muitas vezes existencialista e hermética e ainda recheada de códigos e signos que simbolizam o medo da morte ou os questionamentos acerca da existência de Deus -, a sequência é muitas vezes lembrada. Seja pelo seu espírito iconoclasta ou mesmo pelas dezenas de paródias que se sucederam e que emulavam aquilo que se via, mas nesse caso em tom de brincadeira.


O filme se passa na Idade Média e narra a história de um cavaleiro de nome Antonius Block (Max Von Sydow), que, não bastasse o retorno das sangrentas Cruzadas - que, por si só já poderiam abalar sua fé - ainda encontra o seu povoado em ruínas por causa de um terrível surto de Peste Negra. Quando a Morte em pessoa lhe aparece, não parece haver outro destino para o cruzado que não o de bater as botas. Mas, com o objetivo de tentar salvar a sua pele, o homem propõe um desafio a dama da foice: uma partida de xadrez decidirá se Block parte definitivamente desta para uma melhor ou se ele continua no mundo dos vivos. A sequência é vista logo no início da obra-prima e é carregada de boas doses de ironia, como na cena em que, escolhidas as cores das peças de cada jogador, a Morte brinca com o fato de ter ficado com as pretas. "Bem apropriado, não acha?", pergunta.

Por mais incrível que isso possa soar, parece haver um tom de brincadeira durante toda a película. Bergman questiona os dogmas religiosos - uma tradição em seus filmes. E faz com que Block e seu "braço direito" (Gunnar Björnstrand) encontrem, por exemplo, um grupo de artistas itinerantes, que parecem simbolizar um contraponto terreno, ou mais humano, em meio a tanta descrença - especialmente para quem parece buscar algum tipo de remição. Ou mesmo para quem só encontra a desgraça e o desencanto, por ontem quer que passem os fiéis e seus cantos. A temática do medo de ver a vida chegar ao fim é outra que surge com frequência. Aliás, com tanta frequência que, no mesmo ano em que lançou O Sétimo Selo, Bergman também filmou o clássico Morangos Silvestres. Mas, poucas vezes em sua longa filmografia, esse temor ficou tão afixado na mente dos cinéfilos, como nas diversas sequências em que Block e a Morte movimentam peões, cavalos e bispos. Com a sensação de tensão ampliada pelo uso de uma fotografia levemente superexposta e que enquadra os protagonistas em uma espécie de contraplano em que os tons escuros "colidem" com os claros. O que garante, inclusive, um certo tom expressionista para a película - claramente inspirada em obras alemãs dos anos 20.

Lançamento de Videoclipe - Tegan and Sara (Dying To Know)

Com, o ótimo Love You To Death, a dupla Tegan and Sara lançou um dos discos mais legais desse ano, recheado de músicas acessíveis, divertidas e potencialmente radiofônicas - um tanto semelhantes ao modelo empregado por coletivos como o Chvrches ou o Purity Ring. E não é por acaso que a dupla canadense - que, "na vida real", são irmãs - já começa a figurar em algumas recém lançadas listas de melhores registros de 2016. O álbum tem sido intensamente divulgado, com a disponibilização de uma média de uma videoclipe por mês. A música mais recente a receber a sua versão visual foi a efervescente Dying To Know. No vídeo, dirigido por Nathan Boey, a dupla é transformada em bonecas de pano, sendo transportadas para um mundo alternativo e cheio de referências aos anos 80 - bem de acordo com sua música, por sinal. Bora clicar pra ver?


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Cine Baú - O Homem Elefante (The Elephant Man)

De: David Lynch. Com Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft e Freddie Jones. Drama / Biografia, EUA, 1980, 125 minutos.

Triste constatar o fato de que vivemos em uma época em que a intolerância, o ódio e a falta de empatia - especialmente por aqueles que não conhecemos ou que são considerados diferentes - são disseminados diariamente, seja em fóruns online ou mesmo em calorosos debates no espaço público. Nesse sentido, um filme como O Homem Elefante (The Elephant Man), clássico de David Lynch, indicado a oito prêmios Oscar, permanece mais do que atual uma vez que reafirma, ainda que em formato de alegoria, a nossa total incapacidade de lidar aquilo que nos é estranho. Ou mesmo com sujeitos a margem da sociedade ou em vulnerabilidade social. E, no filme de Lynch, não estamos falando dos pretos, dos pobres, dos homossexuais, dos dependentes químicos ou de tantos outros grupos ignorados e agredidos pelas "famílias de bem". Aqui, a vítima do preconceito é um homem chamado John Merrick (Hurt), que sofre de uma grave doença: a neurofibromatose múltipla.

Por causa da doença, Merrick tem 90% do seu corpo deformado. Incapaz de trabalhar e de conviver socialmente, dada a sua aparência, o desafortunado sujeito recebe o apelido de "homem elefante", sendo exibido em apresentações itinerantes que o vendem como um monstro. Só que Merrick não possui nenhum tipo de deficiência mental - a despeito das naturais dificuldades de fala. Ao contrário, tem consciência de sua condição e sofre a cada vez que as cortinas do circo são abertas para que grupos de curiosos se regozijem com a dor alheia. Aliás, aparentemente nada mudou nesse sentido da Inglaterra vitoriana - época em que se passa a história, que é baseada em fatos reais - paras os dias de hoje, já que a curiosidade por aquilo que esse tipo de curiosidade mórbida, segue sendo parte da natureza humana. (e é só ver a voracidade com que foram disseminados fotos e vídeos do acidente com a Chapecoense para que essa tese seja validada)


Lá pelas tantas aparece um certo doutor Frederick Treves (Anthony Hopkins), que pretende levá-lo para o hospital para uma série de experimentos e testes que farão parte de um tratamento - o que desagrada o Sr. Bytes (Jones), o "proprietário" de Merrick, no circo. Com a ajuda do pacientoso Treves, Merrick passa a se sentir mais à vontade para falar e para se expressar, mostrando-se, aos poucos, um sujeito amável e dotado de grande capacidade intelectual - ainda que sua aparência não se modifique nesse contexto. Só que conforme o filme avança, alguns conflitos serão estabelecidos. O Sr. Bytes quer o seu "empregado" (que sofre uma série de maus tratos, diga-se), de volta. No próprio hospital, a presença de Merrick não é bem vista pelos diretores - especialmente por sua impossibilidade de cura. Fora o fato do próprio Treves se sentir abalado pelo fato de, numa espécie de contraponto, também explorar o sujeito, levando-o a congressos de medicina ou mesmo abrindo o hospital para visitantes da alta sociedade inglesa.

São vários arcos dramáticos que fazem com que a obra trafegue livremente entre o terror e o drama, entre a surpresa e a ternura. No começo, por exemplo, a sensação que o espectador tem é a de estar diante de um pavoroso suspense, com os personagens percorrendo corredores claustrofóbicos, com fotografia expressionista e trilha sonora urgente - fora o enigma estabelecido quanto a aparência do protagonista (que só é revelada mais para frente). Já no terço final, com Merrick já mais integrado, tudo o que desejamos é que ele possa ter o seu sofrimento minimizado, em uma vida em que ele possa se manifestar a sua maneira, a despeito do formato de seu rosto e de seu corpo. E não chega a surpreender o fato de ser justamente a capacidade intelectual, em uma comovente sequência, aquilo que lhe livra de perseguições maiores de um grupo de bárbaros odiosos - esses sim, que poderiam ser considerados os verdadeiros monstros do filme, numa espécie de curiosa dicotomia.


Respeitoso para com os personagens, o filme não economiza nos momentos de emoção a cada avanço que Merrick faz e conforme aumenta a compreensão de todos a seu redor. Tal sensação é fortalecida quando aparece uma atriz de teatro (como não amar esse povo?), uma certa Sra. Kendal (vivida de maneira absolutamente encantadora por Anne Bancroft), interessada em fazer com que o sujeito seja incluído na sociedade. Pouco convencional e ainda assim facílima de assistir, a obra foi um sucesso de público e de crítica na época de seu lançamento, pavimentando o terreno para que Lynch pudesse adotar o seu estilo absolutamente autoral em obras futuras - como Veludo Azul (1986) e Cidade dos Sonhos (2001). Tudo graças a esse alegoria sobre a importância de se respeitar as diferenças e que costuma aparecer em diversas listas de melhores do história, como no caso dos 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Tesouros Cinéfilos - 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 Luni, 3 Saptamâni si 2 Zile)

De: Cristian Mungiu. Com Anamaria Marinca, Laura Vasiliu e Vlad Ivanov. Drama, Romênia / Bélgica, 2007, 113 minutos.

Entre tantos méritos do maravilhoso 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 Luni, 3 Saptamâni si 2 Zile), talvez o maior de todos seja a capacidade de abordar um tema difícil e campo para as mais variadas discussões e posicionamentos - no caso, a legalização do aborto -, procurando entender cada um dos lados em uma mesma obra. Sim, nós, em nosso dia a dia temos motivos os mais variados para sermos favoráveis ou contrários a prática. Um caso de saúde pública? Um atentado contra vida? Que atire a primeira pedra quem ainda não espumou de raiva atrás da telinha de seu notebook ao ver, na internet, ideias contrárias as suas sobre o assunto, que, recentemente, voltou a arena de debates. E eu também me incluo entre estes. Mas o que o romeno Cristian Mungiu alcança, de maneira exemplar nessa obra-prima moderna, é olhar para as duas "correntes", ainda que o processo possa envolver certa dor, choque e traumas diversos para os envolvidos - inclusive o espectador.

A trama se passa em 1987, nos últimos anos da ditadura comunista de Nicolae Ceausescu, na Romênia. Numa espécie de alojamento estudantil, Otilia (Anamaria Marinca) e Gabita (Laura Vasiliu) discutem amenidades que envolvem a compra de cosméticos ou cigarros no mercado negro - já que estes não eram permitidos no País - e a visita do pai de uma delas. Só que há uma certa tensão permanente no ar, possível de ser percebida já nos planos iniciais: Gabita está grávida e está decidida a abortar - prática que, naquela ditadura, assim como na nossa, tão valorizada pelas famílias de bem, não é permitida. Assim, no terço inicial da película acompanhamos a via crucis de Otilia indo de hotel em hotel, tentando ser o mais discreta possível, com o objetivo de alugar um quarto para que elas possam receber no local um certo Sr. Bebe (Vlad Ivanov), o sujeito que realizará a prática de forma clandestina.



Não é preciso nem dizer que o sistema adotado pelo Sr. Bebe - sujeito rude e de personalidade perversa, como perceberemos mais adiante - estará muito longe do ideal. Especialmente se, num comparativo, o aborto fosse realizado por um médico, em um hospital, com toda a preparação e os cuidados necessários, com equipamentos adequados e higiene idem - o que certamente evitaria a morte de milhares de mulheres ao ano. Só que nesse contexto há um agravante: em geral o grosseiro Sr. Bebe só faz abortos em mulheres com no máximo dois meses de gravidez. Talvez três. E não é preciso ser nenhum gênio para compreender que, como o próprio título da película sugere - traduzido fielmente do original -, o tempo está passando muito rapidamente no que diz respeito a essa decisão. Com tudo se tornando ainda pior quando as novas "condições" do Sr. Bebe para a realização do procedimento forem impostas não apenas a Gabita, mas também a Otilia, que, com razão, não desgruda da amiga.

É um filme duro, seco, sufocante, tenso do início ao fim. E que pode fazer com que, inclusive, convicções já há muito estabelecidas pelo espectador, possam ser eventualmente questionadas ou revistas. Otilia e Gabita são claramente pobres ou integrantes das classes menos abastadas. Para juntar o dinheiro para um hotel barato há que se apelar para a boa vontade do namorado de Otília, sujeito de família rica. E o que dizer da procura de um profissional que realiza o procedimento sem um mínimo de cuidado que seja, lavando suas mãos quanto a qualquer tipo de responsabilidade, na clandestinidade e, ainda por cima, com grotescas exigências? Tudo isso sem esquecer da comovente cena em que o resultado do aborto é mostrado, em uma sequência que martela sem parar a mente de quem assiste o filme. É uma película de sentimentos que colidem, de idéias que batem de frente. Tudo em um contexto social e de uma realidade em que pouco se sabe. Sem esquecer do fato de que não basta ser favorável ao nascimento de um bebê. Também é importante analisar a circunstância em que este será criado, educado, etc.


Genial em utilizar uma série de planos sequências angustiantes, com diálogos ultrarrealistas e naturalistas, a obra ainda tem uma aula de interpretação de cada um dos atores do trio principal. Se por um lado, Ivanov inova ao apresentar o médico como um vilão monstruoso, imprevisível e multifacetado, por outro, Marinca consegue dizer muito não apenas em sua fala geralmente mansa, mas também com silêncios, gestos, olhares (como na turbulenta cena do jantar em família). Vasiliu completa o trio como uma jovem insegura e dependente. Já a fotografia, muitas vezes sombria e opaca, mantém os personagens em um permanente estado de melancolia, bem de acordo com os sentimentos expressos por eles. 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias ganhou a Palma de Ouro, prêmio máximo na edição de Cannes do ano de 2007. Desafiador, questionador e nem sempre fácil, é daqueles filmes que certamente suscita um bom debate sobre o tema, servindo, inclusive, como sugestão para professores que queiram aplicá-lo como exercício em sala de aula.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Grandes Filmes Nacionais - Deus e o Diabo na Terra do Sol

De: Glauber Rocha. Com Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Othon Bastos, Maurício do Valle e Lídio Silva. Drama / Faroeste, Brasil, 1964, 118 minutos.

Existem grandes clássicos do cinema que passam a sua mensagem, mas sem esquecer o ponto de vista artístico. Nesse sentido, Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme maior de Glauber Rocha - na realidade o segundo de sua curta carreira -, não apenas retrata o espírito de seu tempo, no caso, o de um País a beira de adentrar no abismo de uma Ditadura Militar, como o faz em um sentido ao mesmo tempo onírico, fluído, operístico e documental. A impressão que se tem o tempo todo ao assistir a esta obra-prima é a de estarmos diante de uma grande encenação pública, com cenários megalomaníacos, em que atores de verdade se misturam com a massa, com o objetivo de denunciar as mazelas de uma população que fica a mercê de diversas instituições - o mercado, a religião, ou até mesmo o crime organizado -, mas sem encontrar em nenhuma delas o amparo necessário para uma vida minimamente digna. Ou com algum tipo de salvação, qualquer que seja.

E não deixa de ser interessante o fato de, já na primeira sequência de imagens, sermos arrebatados. O sertão reluzentemente seco, uma cabeça de gado que jaz ensanguentada, a trilha sonora urgente e angustiante de Heitor Villa Lobos. É o cenário de desolação do Nordeste - tão repetido em nosso cinema nos anos seguintes - se apresentando a partir de ícones e símbolos que servirão quase como um resumo metafórico daquilo que presenciaremos nas duas horas seguintes. Evidentemente não há nenhum glamour na história contada à moda de Graciliano Ramos (em Vidas Secas) ou Euclides da Cunha (em Os Sertões). É uma obra que mistura certo misticismo com um clima de faroeste americano e que explora um cenário de inerente mudança na esfera político-ideológica para correlacioná-la com a violência desesperada que (pode) simbolizar o grito dos oprimidos. Glauber, afinal de contas era um sujeito altamente politizado, como é possível inferir.


No começo do filme somos apresentados a Manoel (Geraldo Del Rey), um boiadeiro que se rebela contra o seu empregador, que quer lhe prejudicar em meio a uma negociação envolvendo cabeças de gado. "A Lei tá comigo" brada o coronel durante um debate que envolve uma ponta histórica mais forte e outra mais fraca e desemparada. O resultado trágico do encontro faz com que Manoel parta em disparada com sua mulher, Rosa (Yoná Magalhães), pelas áridas terras do sertão, com o objetivo de encontrar apoio junto a um grupo de fanáticos religiosos e seu líder Sebastião (Lídio Silva), que prega que o "sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão". Só que Sebastião e seu misticismo que busca a libertação dos bens materiais será duramente perseguido por um certo Antônio das Mortes (Maurício do Valle), matador de aluguel contratado pelos ricos latifundiários da região, que são contrários a suas idéias. No fim das contas a própria Rosa matará Sebastião, enquanto Antônio das Mortes liquidará com o grupo de fiéis.

É um filme absolutamente violento e que pode ser considerado naturalmente subversivo pelas mentes mais conservadoras - incapazes de compreender o fato de que, nas terras áridas do interior do Nordeste não há mocinhos nem vilões, não há "famílias de bem" e nem "adoradores de satã". Há sim a tentativa afoita de pertencimento e (talvez) de intenção de se sentir incluso em um mundo que, definitivamente, não parece ser o de ninguém. O que faz com que Manoel e Rosa, em uma tentativa ainda mais desesperada de permanecerem vivos em meio a tantas mazelas, se aliem a Corisco (Othon Bastos), o "diabo louro", último cangaceiro do grupo de Lampião ainda vivo. E que em seu fluxo de consciência, em seus delírios aparentemente sem lógica e suas roupas e modos extravagantes, seguirá a sua luta numa tentativa desesperada de explicitar a origem dos problemas - que pode estar em um Governo que não olha para o seu povo como deveria, por exemplo.


Mais de 50 anos depois de seu lançamento, é incrível notar como Deus e o Diabo na Terra do Sol segue atual em seu debate, e mesmo em seu estilo de filmagem - documental, granuladamente árida e olhando para seus personagens com certa ternura desencantada - em uma obra moderna, que chega a bordejar a antropofagia dos autores dos anos 20. Maior filme do cinema nacional na história, a película é filmografia básica para a compreensão de um período, especialmente pelo seu espírito totalmente visionário e imprevisível - e não foi por acaso que o Golpe Militar de 64 foi instaurado apenas 15 dias após a sua primeira exibição em um cinema nacional. Por mais difícil que possa ser, seu simbolismo e seus contrastes ainda pavimentaram o terreno para outra obra-prima de Glauber Rocha: Terra em Transe, que sacramentou o seu nome entre os grandes, estabelecendo-o ainda como um dos principais nomes do movimento nacional conhecido como Cinema Novo - e que tinha também entre seus expoentes Nelson Pereira dos Santos, Rogério Sganzerla e Ruy Guerra.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Novidades em DVD - Destino Especial (Midnight Special)

De: Jeff Nichols. Com Michael Shannon, Joel Edgerton, Sam Shepard, Kirsten Dunst e Jaeden Lieberher. Ficção científica / Drama, EUA, 2016, 111 minutos.

Existem obras que, mais do que filmes com começo, meio e fim bem delineados, se constituem em verdadeiras experiências cinematográficas. São filmes nem sempre fáceis, eventualmente complexos e que, inclusive, muitas vezes desafiam as convicções ou mesmo os códigos morais dos espectadores. Em partes, pode-se dizer que é o que ocorre com o etéreo, denso e incomum Destino Especial (Midnight Special), mais recente empreitada do diretor Jeff Nichols (do igualmente belo O Abrigo) e que chega diretamente para a telinha. (aliás, absolutamente inexplicável o fato de não ter sido exibido nos cinemas) São filmes que, muito provavelmente provocarão muito mais perguntas do que respostas e que, nesse caso, nos fará refletir sobre perda, relacionamento entre pais e filhos e temor a Deus ou a qualquer tipo de energia "superior".

Quando o filme começa, somos apresentados a dois homens que, aparentemente, estão sequestrando um menino. O rosto sempre anguloso de Michael Shannon e sua expressão dura e angustiada na pele de Roy, não nos impede de compreender logo o fato de que ele - um dos raptores - é, na verdade, o pai do menino. Especialmente pela ternura nos gestos direcionados ao rapaz. O outro homem é Lucas (Joel Edgerton) que está ajudando Roy na tarefa. Em meio a divulgações na televisão envolvendo o caso, o pastor Calvin Meyer (Sam Shepard, sempre competente) é preso enquanto realiza uma espécie de pregação com o envolvimento de dezenas de fiéis de modos ortodoxos. Os fiéis, que vivem em um local conhecido apenas como "Rancho", também são presos, já que todos que rodeavam o menino, que teria sido criado no local, passam a ser suspeitos do caso.



Até aí a obra parece simples: dois sequestradores e um menino em fuga pelo interior dos Estados Unidos. Investigações com o envolvimento da Segurança Nacional e do FBI. Um grupo de extremistas religiosos que passa a ser suspeito do caso. Só que o jovem (vivido com carisma pelo pequeno Jaeden Lieberher) tem poderes especiais, resultado de uma espécie de doença, que o impede de ver a luz do dia. E quando seus olhos recebem doses de claridão, eles não apenas emitem raios de luz azulada, como ainda são capazes de modificar a geografia ao redor por meio de telepatia e outros tipos de reações mediúnicas que lhe concedem, inclusive, a condição de enxergar o futuro, alterar as ações presentes ou conversar em outras línguas que não a sua. Uma espécie de ser superior e cheio de dádivas que fará com que tenhamos a exata compreensão a respeito da comoção causada pelos habitantes do Rancho.

A adição da mãe do menino, Sarah (Kirsten Dunst, que andava meio sumida), transformará o quarteto em um grupo de fugitivos que viverá uma espécie de road movie paranormal (e existencial) - com direito a escapadas mirabolantes de barreiras policiais e de raptores violentos, tudo com o auxílio do agente Sevier (o ótimo Adam Driver), que parece ter descoberto algo muito particular nos números aparentemente sem sentido proferidos pelo jovem (e que servem de base para correlações com as escrituras e para alguma reação exacerbada envolvendo fanatismo religioso). Aliás, reparem no elenco estelar reunido por Nichols, em uma obra que ainda possui excelente montagem, com todos os elementos se encaixando cedo ou tarde - como no caso da cena aparentemente inexplicável da chuva de "objetos de metal" em um posto de gasolina. Sem falar na atmosférica trilha sonora.


É um filme de ficção científica quase a moda antiga - não por acaso que a crítica o comparou ao clássico Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), de Steven Spielberg. Mas para aqueles espectadores que tiverem alguma dificuldade em mergulhar no estilo fantasioso e até mesmo onírico da película, relacionando-a com os elementos terrenos (e muito humanos) citados no final do primeiro parágrafo, certamente não será fácil de captar a mensagem por trás do trabalho de Nichols. E se é possível dar uma dica, ela pode envolver - nada é definitivo - os limites a que são capazes de chegar os pais de uma criança "doente" para que o seu sofrimento seja amenizado. Tudo para que ela possa encontrar o seu caminho. Nem que esse seja em uma espécie de mundo paralelo. Ou outra dimensão. Uma reflexão que, vamos combinar, jamais será pequena.

Nota: 8,3

domingo, 4 de dezembro de 2016

Disco da Semana - The Weeknd (Starboy)

Quando The Hills desbancou Can't Feel My Face do topo das paradas, no final do ano passado, Abel Tesfaye - o nome por trás do The Weeknd - se tornou apenas o décimo segundo artista da história a alcançar o feito de ter faixas seguidas entre as mais tocadas nas programações das rádios mais descoladas do mundo. Um seletíssimo grupo em que inclui, por exemplo, Elvis Presley e os Beatles. Este fato ilustra bem a comoção causada no mundo todo com o lançamento de Beauty Behind the Madness, no ano passado, que conquistou crítica e público, aparecendo em listas de melhores do ano - como foi o caso aqui no Picanha. Mas quem achou que o sucesso ia acomodar o artista - que talvez preferisse curtir a fama "repentina" após algumas mixtapes e um álbum que trafegavam bem no underground, mas não encontravam ser espaço junto ao grande público -, se enganou, com o anúncio, há cerca de dois meses, de um novo registro, o agora recém lançado Starboy.

E não bastasse a produtividade do cantor - capaz de lançar dois discos em um intervalo de cerca de um ano - o novo registro ainda vem carregado com 18 músicas que representam um tempo total de duração de uma hora e oito minutos de audição. O que, invariavelmente, pode tornar a apreciação do registro um tanto quanto exaustiva, especialmente para aqueles ouvintes que preferem muito mais as playlists prontas que espalham canções de diversos artistas em uma mesma sequência, do que aqueles que se aventuram por ouvir um trabalho completo deste ou daquele artista. Mas aqueles que mergulharem de cabeça no novo disco do The Weeknd encontrarão aquilo que Abel Tesfaye sabe fazer de melhor: um soft pop com um pé no R&B, no hip hop e na música eletrônica, com letras absolutamente confessionais envolvendo noitadas regadas a drogas pesadas, muito sexo e outros tipos de subversões.


Se em Beauty Behind The Madness a atmosfera permanentemente soturna de algumas composições as transformavam em verdadeiros hinos desencantados sobre a juventude hedonista e libertina, a engenharia ainda mais pop do atual registro torna as canções um produto fácil e ideal para eventuais neófitos. Nesse sentido, basta comparar por exemplo músicas como Often, Acquainted e Earned It - que foi trilha do filme Cinquenta Tons de Cinza -, que, a despeito de sua arquitetura classuda apresentavam em cada curva um ar sorumbático e arrastado, entre o sexy e o misterioso e que certamente exigiam uma atenção a mais para que cada entalhe da produção seja melhor percebido. Por outro lado, a exceção da esteticamente curiosa e agressiva False Alarm, o presente registro parece constituir-se em um conjunto essencialmente pop, ainda que a presença de sintetizadores, autotunes e outros efeitos afastem o artista de comparações com o ídolo Michael Jackson - o que pode ser percebido em gemas maravilhosas como True Colors, Secrets, Love to Lay, Attention e A Lonely Night.

As parcerias com Daft Punk (Starboy e I Feel It Coming), Lana Del Rey (Stargirl Interlude), Future (All I Know) e Kendrick Lamar (Sidewalks) também servem para dimensionar a importância que tem Tesfaye no mundo da música, na atualidade. Sempre sofisticado nas escolhas sonoras o disco não procura esconder verdades sobre o ainda jovem cantor (hoje, com 26 anos), que, na adolescência em terras canadenses - seu País de origem na verdade é a Etiópia - já entrava em contato com drogas pesadas e com a convivência com mulheres mais velhas. "Nunca precisei me desintoxicar nem nada disso, mas era viciado no sentido de 'Caralho, não quero passar esse dia sem ficar chapado'", chegou a afirmar em entrevista a Revista Rolling Stone, sobre a infância em um bairro de Toronto. O resultado destas vivências pode ser percebido nas suas músicas: confessionais, íntimas e que refletem uma realidade quase que exclusiva de um artista (ainda) em formação.

Nota: 7,6

Lançamento de Videoclipe - Céu (Varanda Suspensa)

Com o eletrônico e minimalista Tropix, a cantora Céu lançou um dos melhores discos nacionais de 2016 - e segue com o processo de divulgação do trabalho à todo o vapor! Na última sexta-feira a artista lançou com exclusividade, pelo site da Rolling Stone Brasil, um clipe para a canção Varanda Suspensa - segunda música a receber vídeo, depois de Perfume do Invisível. Dirigida e produzida por Indira Dominici, a produção audiovisual foi gravada inteiramente em Super 8, o que confere um aspecto granulado à filmagem. "O formato tem uma emoção que, mesmo que se tente, não é possível imprimir em uma réplica digital", afirmou a cantora. Ainda que a letra seja cheia de referências a praia ou a elementos mais tropicais, o clipe funciona como um contraponto, com a artista dançando erraticamente pelas ruas de São Paulo. Bora clicar e conferir?