FALTA UMA SEMANA! Sim, o nosso "nerdômetro" pode até não ser tão apurado quando o de outros sites e blogues - até mesmo pela nossa estrutura enxutíssima -, mas sim, também estamos contando os dias para o lançamento de Star Wars: O Despertar da Força, que ocorre na próxima quinta-feira (17/12). E como forma de ir entrando no clima, resolvemos falar um pouco da trilha sonora do filme, sempre grandiloquente, épica e totalmente de acordo com aquele universo que tanto nos acostumamos a ver nas telas desde o final dos anos 70. Na verdade a ideia aqui não é relembrar todos os temas criados pelo mestre John Williams para os seis filmes já lançados - são mais de 150 movimentos em todos os eles -, mas sim falar daquela música que esta no coração de todo o que qualquer fã de cultura pop: a famosa canção título. Ou simplesmente Main Title, na língua do Tio Sam.
É muito provável o fato de que, tão inesquecível quanto essa verdadeira obra-prima do cinema moderno - concebida por George Lucas -, seja também as suas retumbantes composições recheadas de sopros, metais, cordas e andamentos capazes de nos transportar imediatamente para o mundo em que vivem jedis, siths, o Mestre Yoda, Darth Vader, Luke Skywalker, sabres de luz, Han Solo, Obi-Wan Kenobi, Millenium Falcon, R2D2 e C3PO. E até mesmo Jar Jar Binks - que os fãs adoram odiar! A música título é aquela que sempre aparece durante o famoso letreiro inicial. E, em muitos casos, nos momentos de maior suspense e tensão dos filmes ou mesmo nos créditos finais. Tãn nãn, tãnãnãnããããnãm tãnãnãnããããnãm tãnãnãnã. Sim, todo mundo sabe cantar junto. Suspira sempre que a escuta. Se ajeita no sofá, pois sabe que um universo a parte de tudo aquilo que até hoje já foi concebido em termos de fantasia cinematográfica está para adentrar em nossas casas (e almas). Se essas palavras forem exageradas, me digam!
Do alto dos meus 34 anos, sempre que assisto novamente os filmes da série - estou fazendo isto, calmamente, nesta última semana antes da estreia do sétimo episódio - eu tenho uma certa nostalgia. Essas obras me fazem lembrar como, em algum lugar muito distante (talvez numa galáxia muito distante), eu aprendi a gostar de cinema. Em algum recanto da minha memória me enxergo sentado no sofá, a noite - com as luzes todas desligadas - assistindo talvez a O Império Contra Ataca (famoso Episódio V) em um desses programas tipo Tela Quente. Sim, porque esse filme com todas as suas explosões, luzes, planetas e personagens característicos passava, sabe-se lá, por quê, de noite. Enfim, ao menos é o que eu me lembro. E me lembro da música título. E dos letreiros iniciais. E dos Ewoks, claro - já que era criança de seis anos em 1987.
John Williams ganhou até Oscar pelo trabalho realizado em Star Wars - no caso, pelo primeiro episódio, intitulado Uma Nova Esperança, lançado em 1977. E este talvez seja o último episódio com o envolvimento do compositor, já que ele não estará presente em Rogue Nation, que chegará no final de 2016. Mudanças acontecem, ainda mais quando o assunto é uma série que teve início há quase 40 anos. O diretor dos novos episódios, por exemplo, será J. J. Abrams - que já tem seu nome consolidado dentro da cultura pop por trabalhos em Lost e Star Trek. Só o que não mudará, eternamente, é a paixão do público pelos elementos que compõem essa tão fantasiosa saga. Muitos a descobrirão apenas agora. Comprarão games, livros, quadrinhos, bonecos e objetos relativos aos filmes. E cantarão, nem que seja mentalmente, a trilha que marcou uma geração inteira e que, agora, aguarda o lançamento desse novo universo. Que a força siga com todos nós!
O cantor Abel Tesfaye - mais conhecido pelo nome artístico The Weeknd - lançou um dos discos mais comentados de 2015, chamado Beauty Behind the Madness. Muito do falatório se deu por conta do megahit Can't Feel My Face, em que a mistura de R&B, soul, funk, house music e até indie rock - com boas pitadas de Michael Jackson e Prince - foi elevado a última potência em sua ainda curta carreira! A música, talvez a melhor do ano, é absolutamente grudenta, com refrão cativante, sonoridade classuda e vocal aveludado, prontinha pra botar abaixo qualquer boate (e rádio) descolada. Resultado: primeiro lugar na parada da Billboard e indicações ao Grammy em sete categorias.
Como forma de seguir a divulgação do elogiado trabalho, Tesfaye agora lança mais um clipe. Dessa vez a música escolhida foi a também dançante In the Night. Estrelado pela modelo Bella Hadid - que é namorada do músico - a produção tem direção do duo BRTHR e conta uma história de ação entre mafiosos em um clube de strip tease. É só clicar para conferir!
Mais um texto da querida amiga e, agora, colunista, Rosane Cardoso, dentro do quadro Encontro com a Professora. Dessa vez ela escolheu um dos mais tragicômicos filmes italianos, o inacreditável Feios, Sujos e Malvados. Um daqueles clássicos que bem poderia fazer parte do quadro Cine Baú! Boa leitura a todos!
Uma tragédia à italiana Feios, Sujos e Malvados
Quem não ama uma família italiana? Não são poucos os filmes que abusam do clichê de mãe, pai, filhos, avós e netos falando ao mesmo tempo em volta de uma mesa farta. Diretores como Tornatore, Monicelli, Fellini – cada um a seu modo – fizeram questão de homenagear a alegria. Já Antonioni, Visconti e Pasolini mostraram o lado amargo e Tinto Brass, o perverso. Mas la famiglia segue como a máxima da cinematografia italiana. Considerando esses diretores citados – lista obviamente falha, pois faltam muitos – Ettore Scola parece ter se abeberado em cada uma dessas verves para compor o genial Feios, Sujos e Malvados (Brutti, Sporchi e Cattivi), de 1976, melhor direção no Festival de Cannes.
Giacinto Mazzatella (Nino Manfredi) vive com a mulher, dez filhos, noras, genros e mãe num barraco em Roma. Como perdeu o olho esquerdo no trabalho, ele recebe um seguro que os parentes desejam usurpar. Mas Giacinto é a avareza em pessoa e o tesouro se mantém escondido. Assim, cada um se sustenta como pode: subempregos, roubo, prostituição, mendicância ou completa ociosidade. Uma vez por mês, a família leva a avó inválida para receber a pensão e ali mesmo dividem o dinheiro entre eles. Como ratos vivem e como tal constroem as relações familiares e amorosas. Mas, como nada está tão ruim que não possa piorar, Giacinto começa a gastar seu dinheiro com a amante, Iside. Logo, decide levá-la para morar na casa. É o apocalipse. Finalmente, os filhos podem justificar o desejo pelo dinheiro do pai e um assassinato é tramado. Mas, a tentativa de crime vira uma grande piada. Nada funciona como deveria e a vida dos Mazzatella continua igual.
Como costuma ocorrer em boas narrativas, a ação é só a cobertura do bolo. Há tantos subtextos em Brutti, Sporchi e Cattivi que a sinopse vira sinapse. Pautado fortemente pela escatologia, nenhum riso nos sai de graça. Embora pareça risível o modo como a família atua sexualmente, ou como comem, ou sua aparência física, tudo resulta em um quadro de horror e desesperançada repetição. Em uma das cenas, pode-se ver a divisão que existe entre a favela e o “outro lado”, a Roma dos turistas e da arte eterna. Na Roma de Giacinto e família, a beleza não os visita. As cores estão ali, mas não aparecem de fato. Todos os personagens são feios e decadentes. Por isso Iside é tão importante.
O nome provém da deusa egípcia Isis, símbolo da fertilidade, e significa “eu nasci de mim mesma, não venho de ninguém”. E é como ela surge para Giacinto. A imagem é de suavidade e cor. As formas avantajadas compõem certa voluptuosidade ingênua, como um quadro de Botticelli ou de Botero. Porém, horas depois, quando está comendo rabo de boi com o recente amante, essa visão se perde. Tudo fenece ante os Mazzatella.
Feios, Sujos e Malvados parece ser a composição de um caos de proporções bíblicas. Se não é o fim do mundo, é a absorção das pessoas por um ciclo de miséria e de abjeção. Isso pode soar moralista, mas quando se observa a última cena do filme, uma das mais cruéis que já vi, parece que, de fato, a terra sucumbe na mais santa das cidades.
[PROMETO A VOCÊS: tem o mínimo possível de spoilers!]
É provável que existam dezenas de boas séries. Aliás, se levarmos em conta apenas o número de produções entregues pela plataforma de streaming Netflix, no último ano, talvez não fosse exagero dizer que existam CENTENAS de boas séries. Espalhadas por diversos canais de TV aberta, fechada e online. Mas nesse emaranhado, algumas se destacam, começam a ser mais faladas, debatidas, lembradas. Viram motivo de conversas animadas entre novos fãs, que elaboram suas teorias a respeito do desfecho de cada personagem. É assim com Game Of Thrones. É assim com The Walking Dead. Era assim com Breaking Bad e com tantas outras. E, agora, é o caso com How to Get Away With Murder. A propósito, aqui no Picanha não somos de "obrigar" ninguém a nada. Cada um faz o que quer, as pessoas são livres e têm o direito de ir e vir como bem entender. Mas, nesse caso, acho que abriremos uma exceção: se ainda não viram, vocês PRECISAM ASSISTIR HTGAWM!!!1
Vocês talvez se perguntem: mas por quê devemos assistir? A resposta é mais ou menos como aquela de uma certa propaganda de cerveja: porque SIM. Com a diferença de que aquela bebida é ruim de doer. A série é espetacular. Caso vocês ainda não tenham se convencido, a despeito desse importante argumento, tentaremos explicar o que fascina tanto nessa série. Comecemos por duas palavras mágicas: Viola e Davis. Sim, Viola Davis. Quem é cinéfilo de carteirinha sabe que a presença da atriz em qualquer produção funciona quase como um selo de qualidade - e basta lembrar de pequenas obras primas modernas como Dúvida, ou Histórias Cruzadas para ter a certeza sobre isso. Na trama Viola vive a professora de Direito Penal Annalise Keating, na fictícia Universidade de Middleton, na Filadélfia - que seria uma das mais prestigiadas escolas dos Estados Unidos. Além de ser advogada de defesa.
Como forma de qualificar o processo "educacional", Annalise gosta de selecionar estudantes para atuarem como estagiários em posto avançado - trabalhando diretamente em seu escritório, em casos de assassinato verdadeiros. É nesse momento que entram em cena os acadêmicos Connor Walsh, Michaela Pratt, Asher Millstone, Laurel Castillo e Wes Gibbins. No primeiro time de protagonistas também estarão os sócios de Annalise: Frank Delfino e Bonnie Winterbottom. E é aqui, citando os principais personagens, que podemos falar que entra o segundo ponto interessante da série: é tudo muito dinâmico! Além de haver um certo suspense em cada episódio isoladamente, envolvendo assassinos e motivações as mais variadas, das mais "curiosas" até as mais "barra pesada", ainda há um fio condutor da história que parece ligar os próprios alunos a um caso de assassinato! (o que fica claro já na primeira cena da primeira temporada, não se consistindo portanto em spoiler)
Tudo é organizado de uma maneira altamente movimentada - quase frenética -, com trilha sonora impactante, um tom levemente bem humorado e sombrio (ao mesmo tempo), um sem fim de flashbacks que vão revelando aos poucos pequenas partes do mistério e uma edição primorosa, que exige atenção total do espectador para que nada seja perdido! Ainda mais se levarmos em conta o fato de que qualquer detalhe pode ser determinante para que sejam obtidas as respostas que tanto desejamos em relação ao desfecho de cada episódio (ou mesmo da temporada toda)! Viola, já falamos, está arrebatadora como Annalise - num indo e vindo de reações e emoções que representam o melhor de sua interpretação. E a sua capacidade de mudar de humor num instante, apenas como parte de um plano para manipular quem quer que seja para que ela (ou quem ela queira) possa ser favorecido, é daqueles momentos que deveriam ser exibidos, sem exageros, em escolas de atores!
Mas além de Viola - e sua Annalise -, os demais atores também se empenham em entregar o melhor em seus papeis, sendo uma das tantas partes legais constatar o fato de que absolutamente nenhum personagem da série seja totalmente unidimensional, tendo bom (ou mau) caráter o tempo todo. Não há maniqueísmos ou definições claras a esse respeito. Ao contrário, aquele pelo qual torcíamos a poucos minutos atrás, por acharmos estar tendo um comportamento honesto ou de acordo com o que consideramos moralmente justo, no instante seguinte não hesitará em roubar, cometer perjúrio, ser adúltero, mentiroso, inescrupuloso e até assassino, se isso representar algum tipo de ganho pessoal futuro. E este pode ser considerado outro fato a ser ressaltado - o quarto, se levarmos em conta o que foi dito sobre a parte técnica - e que tornaria essa série digna de nota.
Sim, talvez de fora pareça apenas mais uma série teen sobre direito. Mas esse reducionismo vai embora, prometo a vocês, após o final do primeiro episódio. E da vontade de só ver mais e mais e de saber o que vai acontecer, até mesmo pela capacidade sem fim dos criadores - Shonda Rhimes, Betsy Beers e Peter Nowalk - de formular conspirações as mais variadas, conexões entre os acontecimentos e ganchos absolutamente surpreendentes, que são capazes de manter o interesse de maneira permanente - ainda que, eventualmente, possa haver uma ou outra forçação de barra o que, pelo bem do entretenimento, acabamos relevando. HTGAWM está, atualmente, na half season da segunda temporada. E os acontecimentos quando do retorno, em 11 de fevereiro, prometem deixar os fãs ainda mais ligados. Façam um bem a vocês, se ainda não ficou claro: assistam a essa série! A primeira temporada está disponível no Netflix. De nada.
Todo mundo conhece alguém ou tem um amigo que adora palpitar sobre política nas timelines da vida. Em tempos de polarização política então, não é raro ver os ânimos esquentando em infinitas discussões em postagens no Facebook ou Twitter. Termos como "impeachment", "crise", "golpe", são utilizados incessantemente pelos "especialistas" de plantão que lutam para provar seus pontos de vista custe o que custar, o que quase nunca termina em conciliação - muitas vezes o fight rola solto, pra alegria dos que curtem ver um quebra pau pra botar lenha na fogueira.
Agora pensa: se já é difícil ter um bom argumento e convencer "meia dúzia" de seguidores no Feice a concordarem com você (ou Eu que, é preciso que se diga, nem somos lá grandes coisas em questões como política ou economia), imagina ir em cadeia nacional participar de diversos debates com alguém com idéias diametralmente opostas às suas. Tem que ter coragem, não é mesmo? E foi isso mesmo que aconteceu no ano de 1968 nos Estados Unidos, e é retratado neste documentário de 2015 intitulado Best of Enemies (Melhores Inimigos), dirigido por Robert Gordon e Morgan Neville e um dos pré-selecionados para concorrer a uma indicação ao Oscar 2016 em sua categoria.
Exemplificando: na década de 60, o canal de TV americano ABC era o último colocado em audiência. Para contornar isto, a emissora convidou o escritor e ativista político Gore Vidal, liberal, e o intelectual William J. Buckley, conservador, para uma série de 10 debates sobre política em pleno ano de campanha eleitoral que antecedeu a eleição de Richard Nixon - que posteriormente seria o centro do escândalo Watergate. Sagazes, irônicos, debochados e agressivos, os debatentes causaram frisson no país à época, levando o debate político a níveis até então inimagináveis. Se você pensa que a discussão que você teve sobre o bolsa-família ou as privatizações com aquele seu (provável ex) amigo foi "violenta", espere até ver o que ambos aprontaram aqui.
Longe de criar uma espetacularização do debate (que, diga-se de passagem, foi fundamental para alavancar a audiência de uma até então capenga ABC), o filme acaba por humanizar seus personagens, mostrando os dois lados sem assumir um posicionamento, valorizando-os e criando empatia no espectador, que testemunha uma rivalidade cujo ressentimento permaneceu até o fim de suas vidas. E é justamente este enxergar dos dois lados que tanto faz falta hoje em dia. É possível sim que aquela pessoa não seja justamente um monstro por ter tal opinião política, muito embora eu não concorde em nada com ela. E mais: vale a pena tentar vencer a todo custo uma batalha cujos efeitos, no fim das contas, serão sentidos por todos nós? Podemos dar o braço a torcer e ceder a argumentos mais coerentes que o nosso? Como podemos ver neste belíssimo filme (que está disponível no Netflix), nem mesmo as mentes mais brilhantes são capazes de ultrapassar esta barreira tão difícil.
De: M. Night Shyamalan. Com Olivia DeJonge, Ed Oxenbould, Kathryn Hahn, Deanna Dunagan e Peter McRobbie. Terror, EUA, 2015, 94 minutos.
Se a qualidade dos filmes dirigidos pelo indiano M. Night Shyamalan fosse apresentada em forma de gráfico, ele seria mais ou menos como no caso daquelas planilhas empresarias em que o presidente de uma companhia mostra para os seus empregados como foi que a crise chegou, fazendo com que os números caíssem vertiginosamente em um período de duas décadas. Mais ou menos como uma linha reta que inicia no topo - o que seria, no caso, O Sexto Sentido, elogiadíssimo filme de 1999 que recebeu diversas indicações ao Oscar - até chegar ao fundo do poço com o constrangedor Depois da Terra (2013). Nesse meio tempo da queda de qualidade, um interessante Corpo Fechado (2000), um médio - ainda que absolutamente hilário - Sinais (2001) e o último suspiro da "empresa" com A Vila e A Dama na Água (2006), antes da decadência total com os lamentáveis Fim dos Tempos (2008) e O Último Mestre do Ar (2010), talvez disparado o pior de todos.
Se há uma boa notícia com o recém lançado A Visita (The Visit) é que ao menos os números dessa empresa fictícia ficaram estagnados em relação ao já citado Depois da Terra, lançado anteriormente. Ou, vá lá, subiram um pouquinho. A ideia de Shyamalan com este filme era ter uma espécie de retorno as "origens", especialmente daquelas que o consagraram com a famosa obra do menininho que via gente morta. Era a ideia. Mas o simples fato de ter optado pelo (saturadíssimo) estilo de filmagem em found footage - que é aquele da câmera subjetiva, com imagens amadoras, capturadas em estilo documental e que, atualmente, tem em Atividade Paranormal a sua série mais conhecida (A Bruxa de Blair foi um dos "pioneiros") -, já se mostra uma escolha absolutamente equivocada e cansativa.
A "responsável" pelas filmagens é a jovem Becca (Olivia DeJonge), que, ao lado do irmão, Tyler (Ed Oxenbould), visitará os avós que ainda não conhecem, após a mãe (a ótima Kathryn Hahn) romper relações com a família, há quase 20 anos. Becca, uma jovem cinéfila que sonha em ser documentarista, vê no inusitado encontro com os avós, a oportunidade de realizar um filme. O que se torna a desculpa perfeita para que a câmera fique ligada o tempo todo, independentemente do movimento realizado ou do lugar em que se encontram - e, é preciso que se diga, se Becca existisse na vida real, certamente se tornaria uma excelente cineasta no futuro, dada a sua total capacidade de manter a câmera em funcionamento e com uma lógica de enquadramento, mesmo nos momentos mais agitados da película.
Quem já assistiu o trailer sabe que tem algo de muito errado com esses avós, já que eles caminham de madrugada, fazem portas ranger, vomitam, dão risadas involuntárias e geram medo mesmo em uma "prosaica" brincadeira de pega-pega matinal. Nesse sentido é claro o esforço de Shyamalan em procurar uma explicação racional para os eventos - os problemas decorrentes da idade -, algo que, se reduz em partes o impacto do suspense, ao menos gera curiosidade para as próximas ocorrências que deixarão os meninos de cabelos em pé. Mas os péssimos diálogos - o pior caso o de Tyler utilizando o nome de cantoras pop no lugar de xingamentos -, aliado a indefinição em relação ao caminho seguido pela obra (humor x terror), torna o filme uma experiência exaustiva e, em alguns momentos, até mesmo constrangedora. A famosa "surpresa" que o diretor costuma reservar para o final também pouco ajuda - e a meu ver ainda contribui para diluir qualquer expectativa quanto a um desfecho efetivamente surpreendente ou, que fosse, mais verossímil. Ao final, fica a sensação de que, em sua tentativa de retornar a O Sexto Sentido, Shyamalan apenas consegue fazer um novo Depois da Terra. E o pior: em found footage. Não foi nesse ano que as finanças da empresa melhoraram.
De: Vittorio De Sica. Com Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola e Lianela Carell. Drama, Itália, 1948, 93 minutos.
Peça central do movimento conhecido como Neorrealismo Italiano, o filme Ladrões de Bicicletas (Ladri di Biciclette), de Vittorio De Sica, talvez possua uma das cenas mais comoventes da história do cinema: no pós-guerra romano, um pai desempregado (e desesperado) leva seu filho para jantar em um restaurante chique e lotado de famílias da alta sociedade, com direito a música ao vivo e tudo o mais. Mesmo claramente sem condições de bancar uma refeição naquele local, o homem faz de tudo para possibilitar ao jovem esse momento. Ainda que isto represente, futuramente, o comprometimento total daquilo que restará de suas finanças, já que uma extravagância do tipo não seria possível em um contexto de crise, de falta de emprego e de inflação galopante, que levaram muitas famílias italianas a uma condição de miséria, em meados da década de 40.
O homem em questão é Antonio Ricci (Maggiorani), um trabalhador de origem humilde que luta para garantir o sustento da família, composta ainda pelo menino Bruno (Staiola) e pela esposa Maria (Lianela). A sorte volta a sorrir para o Antonio quando ele consegue um bico como colador de cartazes de propaganda de cinema. Ainda que a vaga só seja viabilizada após a mulher penhorar as roupas de cama da família, o que possibilitará ao homem a aquisição de uma bicicleta - veículo necessário para a realização da atividade. O inesperado roubo da bicicleta em um momento de desatenção, fará com que Antonio empreenda uma verdadeira jornada atrás do bem - passando por lugares que funcionam como desmanches ou mesmo indo atrás de qualquer sujeito que tenha uma bici parecida -, que possa tornar possível o seu ofício.
De Sica - que mais tarde filmaria ainda outros clássicos, como Ontem, Hoje e Amanhã e O Jardim dos Finzi-Contini - enche a tela com imagens desoladoras de uma Itália abalada pelos anos que se sucederam ao desfecho da Segunda Guerra Mundial. A estante interminável de roupas que se encontra na Casa de Penhora, os bondes constantemente lotados e o desespero dos vendedores em garantir um trocado qualquer no mercado negro de itens usados, dão uma dimensão dos problemas sociais que os italianos enfrentavam na época. E, evidentemente, do abismo que havia entre as camadas mais abastadas e a porção mais humilde da sociedade, situação que De Sica apresenta sem concessões. E que fica clara também no desespero dos desempregados diante de qualquer possibilidade de emprego, ainda que seja em algo temporário - o que pode ser observado nas cenas que fazem lembrar ainda o clássico Sindicato de Ladrões, que já figurou anteriormente nesse quadro.
O cinéfilo mais atento talvez não estranhe a completa ausência de nomes mais conhecidos no elenco da obra-prima, o que se explica pelo fato de De Sica ter optado pela utilização de atores não profissionais entre os envolvidos com a produção. O que não impediu as ótimas atuações - com destaque para o menino Staiola - que contribuem de maneira efetivamente genuína para o clima de desolação instalado pela película. Ainda que não seja o principal representante do Neorrealismo Italiano - Roberto Rossellini segue imbatível com o seu Roma, Cidade Aberta (1945) - o filme, que conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (o que não deixou de ser uma surpresa, já que a obra foi taxada pelos críticos de "comunista"), segue sendo uma película de fácil identificação, tenra e de uma melancolia doce - especialmente nos momentos que envolvem a relação entre pai e filho -, capaz de humanizar plenamente o protagonista que vive em uma situação limite.
Tido pela crítica como um dos grandes favoritos para faturar a principal estatueta do Oscar 2016, o filme Spotlight tem um daqueles enredos que nasceram para o cinema: baseada em uma história real, a trama mostra um grupo de jornalistas de Boston que reúne milhares de documentos capazes de provar uma série de casos de abuso de crianças, cometidos em diversos lugares dos Estados Unidos por padres católicos. A investigação poderá mostrar que, durante anos, líderes religiosos ocultaram os casos transferindo os padres de região, ao invés de denunciá-los. Com tudo para gerar polêmica, o filme certamente dará o que falar!
O grande elenco tem nomes como Michael Keaton e Mark Ruffalo - que provavelmente também serão lembrados na temporada de premiações - além de Rachel McAdams, Liev Schreiber e Stanley Tucci. Dirigido por Thomas McCarthy - que já havia feito um excelente trabalho no comando de filmes alternativos (e ótimos!) como O Agente da Estação (2003), O Visitante (2007) e Ganhar ou Ganhar - A Vida é Um Jogo (2011) - Spotlight estreia por aqui no dia 07 de janeiro de 2016. O trailer, que pode ser visto abaixo, garante o clima de tensão, entre mesas de escritórios e debates envolvendo jornalistas, advogados e religiosos.