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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Jovens Mães (Jeunes Mères)

De: Jean-Pierre e Luc Dardenne. Com Lucie Laruelle, Babette Verbeek, Elsa Houben, Janaïna Halloy Fokan e Samia Hilmi. Drama, França / Bélgica, 2025, 106 minutos.

Em uma das tantas sequências comoventes do ótimo Jovens Mães (Jeunes Mères), mais recente produção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne e que chega para aluguel nas plataformas da Apple TV e da Amazon Prime, uma desesperada Ariane (a ótima Janaïna Halloy Fokan) explica à sua mãe o fato de nunca a ter reprovado por ser pobre. "Eu só não queria ter o filho", suplica aos prantos, após ter levado um tapa de Nathalie (Christelle Cornil), a sua genitora e avó da bebê que carrega, a contragosto, nos braços. A visita de Ariane a Nathalie tem um objetivo central: ela dá à sua mãe os motivos pelos quais ela pretende doar a filha a uma família de acolhimento. Alguém que poderá criá-la, exatamente como permite a Lei, com melhores condições. Ariane queria abortar. A mãe não permitiu. O que é apenas uma das tantas facetas problemáticas das pressões sociais que envolvem a maternidade.

Talvez poucas jovens mulheres admitam o fato de terem sido mães para agradar a família. Quem nunca ouviu dos pais sobre o desejo de ser avô ou avó - cedendo a esse tipo de situação apenas para não romper essa lógica familiar? E que envolve, em muitos casos, o discurso conservador do papel da mulher na sociedade? O filme dos Dardenne, um mosaico complexo a respeito das eventuais precariedades da maternidade, evidencia feridas sociais variadas em que temas, como, abandono, dependência afetiva, falta de maturidade emocional, relações tóxicas, autodestruição e problemas financeiros são salpicados, aqui e ali, por meio de cinco histórias diferentes, em que mães que, em muitos casos, sequer saíram da adolescência, precisam lidar com o peso dessa enorme responsabilidade. O que ocorre, em muitos casos, com pouca estrutura familiar e com, óbvio, o abandono dos parceiros (jovens meninos que só passarão a pensar sobre o significado de colocar um filho no mundo depois que a coisa acontece).

 


Em linhas gerais essa é uma experiência dolorida e que, mais uma vez, como costuma acontecer na filmografia dos Dardenne, olha para a juventude não como uma alegoria meio abstrata para futuro ou perda de inocência. E, sim, como um estado de formação urgente frente às pressões do mundo. Em suas obras, não são poucos os casos em que adolescentes, ou mesmo crianças, são levados à tomarem decisões que, até mesmo para os adultos, podem ser eticamente questionáveis - e basta pensar em obras essenciais como Rosetta (1999), O Filho (2002), A Criança (2004) ou mesmo a recente O Jovem Ahmed (2019), para que sejamos confrontados com questões ligadas à violências, traumas e solidão. Ou mesmo a temas ainda mais complexos, ligados à questões políticas ou sociais. Em Jovens Mães, as cinco jovens do filme buscam acolhimento em uma espécie de abrigo, o que também torna evidente a importância da sororidade. Enquanto lidam com um ambiente em permanente combustão.

E não deixa de ser impressionante perceber como um filme tão curto consegue ser dotado de tanta complexidade. Se na primeira cena da obra já somos impactados pelo desespero de Jessica (Babette Verbeek), que busca algum contato com a mãe biológica que lhe abandonou, ao mesmo tempo em que precisa lidar com a própria gravidez, no instante seguinte temos Perla (Lucie Laruelle), que tem uma relação turbulenta com seu namorado (e pai do seu bebê), ao mesmo tempo em que sonha em ter uma família mais "normal", como é da sua irmã. Sendo um tanto trágico que isso tenha de acontecer em meio a interrupção de uma adolescência. No caso, a dela própria. Já Julie (Elsa Houben) precisa lidar com o vício e suas recaídas - com a maternidade surgindo, estranhamente, como uma chance para um recomeço. E há ainda Naïma (Samia Hilmi), que parece um ponto mais luminoso da narrativa, ainda que ela não escape de um lado sombrio. Indicada à Palma de Ouro no Festival de Cannes, a obra venceria o prêmio nas categorias Melhor Roteiro e do Júri Ecumênico. E é sempre muito prazeroso ver qualquer filme da dupla, afinal, nunca saímos os mesmos de qualquer que seja a sessão.

Nota: 9,0 

 

sexta-feira, 5 de julho de 2024

Tesouros Cinéfilos - Rosetta (Rosetta)

De: Jean-Pierre e Luc Dardenne. Com Émilie Daquenne, Fabrizio Rongione, Olivier Gourmet e Anne Yernaux. Drama, Bélgica / França, 1999, 94 minutos.

"Seu nome é Rosetta. Meu nome é Rosetta. Você encontrou um trabalho. Eu encontrei um trabalho. Você tem um amigo. Eu tenho um amigo. Você tem uma vida normal. Eu tenho uma vida normal. Você não vai cair na rotina. Eu não vou cair na rotina. Boa noite." É mais ou menos na metade de Rosetta - obra dos irmãos Dardenne que venceria a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1999 (uma surpresa, aliás, já que o favorito era o Tudo Sobre Minha Mãe, de Pedro Almodóvar) -, que a protagonista vivida pela ótima Émilie Daquenne tem uma espécie de epifania, que faz com que ela fale sozinha. Na modesta casa de Riquet (Fabrizio Rongione), deitada na cama, ela divaga sobre ter encontrado um emprego, ter feito uma amizade, ter agora uma vida normal. Como se fosse uma espécie de mantra, ela repete as frases como se, ao verbalizá-las em voz alta, elas pudessem ter mais força. Afinal de contas, tudo que a jovem deseja é uma rotina repetitiva. É ter um dia a dia como o de qualquer outra pessoa.

Só que ela simplesmente não consegue - e quem acompanha a filmografia dos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne sabe que seu cinema bastante cru e sem firulas é daquelas que aborda as mazelas humanas, os contrastes sociais, a dureza do mundo e a hipocrisia da sociedade de forma direta e um tanto naturalista. Nas suas obras não costuma haver a problemática espetacularização da pobreza ou da miséria - com arroubos estilísticos e aparatos técnicos hiperbólicos que servem como mera distração para aquilo que efetivamente interessa. Em uma produção como Rosetta não há muito espaço para respiro. A câmera seca está sempre grudada no rosto e no corpo da protagonista - aliás, por vezes ela parece quase confusa, trêmula, como se fosse um objeto invasivo, a atrapalhar a ação. A impressão que se tem em muitos casos é a de se estar assistindo um documentário, tamanho o realismo das imagens, a veracidade das sequências (dramáticas, violentas, caóticas).


 

Aliás, aqui o filme já abre com uma Rosetta aflita que circula por corredores apertados daquilo que parece ser uma pequena indústria não se sabe bem de quê. Em tom de súplica, a jovem "foge", mas, curiosamente, para dentro do local de trabalho. Ela não quer sair dali. Quer ficar. Tem uma mãe alcoólatra pra lidar, uma existência miserável em um trailer improvisado e precário em que volta e meia falta tudo (de gás a luz), e um monte de contas para pagar. Independência? Individualidade? Esquece. A vida de Rosetta se resume a um cubículo fechado, que só é desocupado quando sua mãe se prostitui como forma de quitar dívidas. Ou pra manter o vício em bebidas. A caminhada de Rosetta na abertura do filme é simbólica, alegórica. É longa, deprimente, entre escadarias infinitas e espaços opacamente iluminados. "Eu quero ficar", implora, enquanto seu chefe explica que seu período de experiência terminou e ela não mais trabalhará ali. Um tumulto acontece, a polícia é chamada, todos vão ao chão.

Essa será a deixa para que os Dardenne, como de praxe, examinem a precariedade do universo do trabalho, exatamente como fariam outras vezes, mais adiante, em obras doloridas como O Filho (2001) ou Dois Dias, Uma Noite (2014) - o primeiro sobre um sujeito que contrata um jovem que supostamente assassinou seu filho, o segundo sobre uma mulher que empreende uma via crúcis para preservar seu emprego, após retornar de uma licença saúde. Em Rosetta, a protagonista está sempre apressada pra lá e pra cá, em uma busca desenfreada por alguém que simplesmente lhe permita trabalhar. Que lhe assine uma carteira. Que lhe confira dignidade. Ou alguma qualidade de vida. Que lhe ajude a amenizar as cólicas recorrentes, a solidão retumbante, o desalento comovente. É uma obra dura em que as brigas são mundanas e as metáforas gritam, como no instante em que a jovem joga fora peixes dados como um "presente" à mãe, para tentar pescar no lago do entorno as suas próprias carpas. "Não somos mendigas", argumenta. Evidentemente, em obras assim não há muita solução para além da resignação, diante da completa falha do capitalismo nem tão tardio. Se a gente ri no final, se é que ri, é de nervoso.