segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Pitaquinho Musical - CHVRCHES (Screen Violence)

Esqueçam o disco de 27 músicas e quase duas horas provavelmente insuportáveis disponibilizado neste final de semana e mantenham o foco naquilo que interessa: os escoceses de CHVRCHES lançaram na sexta-feira (27/08) o seu quarto registro de inéditas. Intitulado Screen Violence o trabalho é, sem sombra de dúvidas, mais um que deverá ser figurinha certa nas listas de melhores do final do ano. Retornando à boa forma mostrada no inaugural The Bones of What You Believe (2013) - álbum que tinha, entre outras, os hits The Mother We Share e We Sink - Lauren Mayberry, Iain Cook e Martin Doherty apostam novamente no synthpop movimentado, eventualmente soturno, recheado por refrãos grudentos, que deixam para trás a má impressão causada pelo pouco inspirado Love Is Dead (2018). Ainda que produzido em um contexto de pandemia, o disco opera no modo "esperamos vocês no estádio pra cantar junto conosco". Sim, as letras podem soar melancólicas, reflexivas - a perfeita Violent Delights fala de morte de uma forma sombriamente romântica (aliás, condição que se estende a capa do projeto) -, mas a dor é convertida em redenção, a cada evolução robótica da melodia. A conclusão é a de que dá pra falar do mal-estar do mundo, da tecnologia empregada de forma difusa, da violência cotidiana e da fragilidade das relações. E ainda fazer um verdadeiro hinário em forma de álbum.


quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Cine Baú - Casablanca (Casablanca)

De: Michael Curtiz. Com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains e Dooley Wilson. Drama / Romance, EUA, 1942, 102 minutos.

Acho que já podemos deixar uma coisa combinada na abertura dessa resenha: em matéria de cinema, a palavra "clássico", no dicionário, bem que poderia (ou deveria) vir acompanhada de uma foto de Casablanca (Casablanca). Afinal, o filme de Michael Curtiz é o CLÁSSICO por excelência. Com todas as letras! Pra começar, trata-se de uma grandiosa história de amor, em meio a um contexto de guerra. Aliás, a ousadia de falar sobre a perseguição promovida pela Alemanha nazista em meio aos anos em que se desenrolava o conflito, também merece crédito. Há ainda um inesquecível "casal" de estrelas de Hollywood - no caso Ingrid Bergman e Humphrey Bogart. Há o roteiro engenhoso, sinuoso, pontuado pelos diálogos tão envolventes quanto cínicos. Por fim existe ainda a riqueza técnica, que vai da construção do cenário que reproduz a cidade que fica ao Norte do Marrocos, até chegar aos jogos de luzes, passando ainda pelo uso da música e pela edição de uma fluidez comovente. Tudo é engenhosamente perfeito. 

Tão perfeito que Casablanca, quase oitenta anos após seu lançamento, segue sendo uma prazerosa experiência fílmica. Que nos joga para dentro do fervilhante Rick's - o caleidoscópico bar/cassino de propriedade de Rick Blaine (Bogart) -, para nos apresentar um sem fim de figuras que trafegam naturalmente pela boemia, de garçons e músicos passando por jogadores vigaristas e empresários sem muitos escrúpulos. No ambiente que é preenchido pela música quase onipresente, a câmera flana de um lado para o outro, o que nos revelará um outro lado desse contexto, que é quebrado pela guerra que se impõe. Casablanca, a cidade, é uma espécie de rota quase obrigatória para quem pretende fugir da América para a Europa, fazendo uma ponte entre Marselha, no Sul da França, e Lisboa, em Portugal. E, portanto, o município marroquino também é povoado por generais, capitães e outros líderes do conflito que movimentam peças de xadrez, enquanto os oprimidos confabulam pelas frestas em busca do sonho de liberdade.

Um desses sujeitos que pretende empreender uma fuga é um certo Victor Laszlo (Paul Henreid), líder da resistência tcheca que chega ao bar acompanhado da estonteante Ilsa Lund (Bergman). Uma troca de olhares entre Ilsa e Rick é o suficiente para que saibamos: há algo a mais entre os dois do que o mero flerte descompromissado. Enquanto Laszlo se ocupa em tentar obter os salvos-condutos que, aparentemente, estão perdidos após o trapaceiro Ugarte (o ótimo Peter Lorre) ser preso, Ilsa e Rick apelam a melodramáticas reminiscências ao som da inesquecível As Times Goes By, tocada majestosamente pelo pianista Sam (Dooley Wilson). Em meio a tudo, o terrível major Strasser (Conrad Veidt) estuda a melhor estratégia para executar seus planos em território não ocupado, enquanto o capitão Renault (Claude Rains) se comporta de forma ambígua, tentando estabelecer limites em meio a todas as forças que se interpõem - enquanto escancara o amor oblíquo que parece verter de seu coração, a cada nova paixão que se apresenta.

É um filme tão completo que é costuma ser lembrado pelos mais variados motivos. Entre elas há as frases memoráveis - "estou de olho em você, garota", "nós sempre teremos, Paris", "Louis, acho que este é o começo de uma bela amizade", "reúna os suspeitos de sempre", "toque novamente, Sam" - e, não por acaso, em uma lista com as maiores citações da história do cinema elaborada pela AFI, Casablanca aparece com seis. Há também uma reviravolta impactante, que torna o final paradoxalmente feliz - teria Rick tomado a atitude correta, nos instantes decisivos do filme? Os figurinos charmosos, os jogos de luzes - repare no brilho ofuscante de Ilsa, quando da cena em que ela chega de volta ao bar, na madrugada -, o romantismo quase kitsch, que se repetiria tantas vezes depois (até mesmo em paródias). O filme de Michael Curtiz é tão maravilhoso, que a premiação máxima no Oscar chega quase a ser pouco. A obra integra o cânone das grandes, aparecendo em absolutamente todas as listas de melhores de todos os tempos - na da AFI é a segunda colocada. E pode ser a porta de entrada ideal para quem quer mergulhar no universo dos "filmes em preto e branco". E dele não sair mais.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Novidades em Streaming - An American Pickle

De: Brandon Trost. Com Seth Rogen, Sarah Snook, Carol Leifer e Betsy Sodaro. Comédia, EUA, 2020, 89 minutos.

Devo confessar a vocês que foi a trama excêntrica de An American Pickle aquilo que me atraiu para essa comédia bobagenta da HBO Max. E o melhor de tudo: não me arrependi! E olha que aqui está falando um sujeito que já anda bastante saturado daquele humor meio "mangolão" que costuma ter o Seth Rogen como protagonista. Mas aqui o negócio funciona direitinho - especialmente no que diz respeito aos contrastes existentes entre um judeu do começo do século 20, que precisa (re)aprender a viver no universo tecnológico (e recheado de extremismos) dos dias de hoje. A narrativa nos apresenta a um certo Herschel Greenbaum (Rogen), um operário que migra para os Estados Unidos em busca do sonho americano, depois de os cossacos destruírem o vilarejo em que ele morava, em algum lugar da Rússia Oriental. Tudo corria relativamente bem na fábrica de pepinos em conservas que ele trabalhava até o dia em que, acidentalmente, ele cai em um tanque de picles, permanecendo na salmoura por... 100 anos!

Sim, ninguém percebe o acidente, já que a fábrica é lacrada ainda em 1919 por um problema envolvendo o excesso de ratos no local. Só que 100 anos depois uma dupla de meninos descobre o corpo do homem. Que não apenas está vivinho da silva, como não envelheceu um "milímetro" sequer. Sem se ocupar demais com a curiosidade natural que o fato poderia gerar na comunidade científica - e na imprensa sensacionalista em geral -, o filme do diretor Brandon Trost pula estas etapas indo direto para a parte em que ele encontra um de seus descendentes - no caso o bisneto Ben Greenbaum (também interpretado por Rogen), que trabalha como desenvolvedor de aplicativos. É óbvio que não será necessário ser nenhum adivinho para imaginar que será a partir desses contrastes que emergirão as melhores piadas da obra. Com os dois não apenas tendo dificuldade para se entender como ainda disputando espaço no "mercado".

 
 
A situação se complica verdadeiramente quando o "viajante do tempo" percebe que o cemitério em que estão enterrados seus parentes está abandonado e ainda é ocupado pela iniciativa privada. Uma briga generalizada com operários acaba indo parar nas redes, o que compromete os negócios do jovem Greenbaum. Separado de seu único parente, o veterano resolve investir na única coisa que sabe fazer: pepinos em conserva. Sem capital, ele cata a matéria-prima no lixo, envasa em vidros que não passariam nem perto de uma avaliação positiva da vigilância sanitária e ainda completa o combo, utilizando água da chuva reaproveitada no processo. Nas ruas, o bisavô Greenbaum se torna um sucesso entre os hipsters do Brooklyn, que elevam a sua figura singular - o que se estende a barba farta e ao modo de se vestir -, a uma personalidade hypada do ramo gastronômico. Não demora para que ele figure em sites, blogs, tik toks. Sua fama aumenta, na mesma medida do golpe, que envolve uma balela sobre cultivo de alimentos orgânicos, sem agrotóxicos e adquiridos por meio de produtores locais.

É claro que a gente sabe que essa história toda tem os dias contados, mas até lá temos uma ampla oferta de piadas que envolvem as extravagâncias dos padrões de consumo de hoje - a irritação de Herschel ao perceber que a vodka, nos dias de hoje, é misturada com... baunilha, é ótima -, até a cultura do cancelamento gestada pelas redes sociais. Nesse sentido, não há melhor momento do que aquele em que o veterano começa a colocar as suas "opiniões impopulares" no Twitter, o que faz com que atraia um sem fim de conservadores reacionários americanos - adeptos de Deus, da família e das armas (e muito provavelmente votantes do Trump). Sim, é meio besta. Sim, a lição de moral sobre unir esforços por um bem maior é meio óbvia. Mas faz rir, tem boas referências culturais e ainda é tecnicamente bem feito (o desenho de produção das cenas do passado, é digna de grandes obras de época). O que comprova mais uma coisa: até quando a HBO Max produz algo que teria tudo pra dar errado, ela acerta. 

Nota: 7,0

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Podcast do Picanha Cultural #10 (Segunda Temporada) - Filmes Esportivos

Sim, a gente sabe que está bem atrasado. Aliás, completamente atrasado. E que as Olimpíadas parecem ter acabado, sei lá, no século passado. Tudo é tão rápido nesse mundo que quando a gente pensou em homenagear os Jogos de Tóquio com um episódio especial com filmes esportivos, bem, lá estava a Rebeca Andrade carregando a nossa bandeira na cerimônia de despedida. Com o mundo todo já projetando Paris, em 2024. Mas a gente é assim mesmo: com um "orgulho meio envergonhado" (se é que isso é possível) de estar meio deslocado no espaço-tempo, resolvemos manter o nosso tema. Até mesmo porque o encantamento provocado por Isaquías, Rayssa, Ana Marcela, Abner, Beatriz, Alison, Kelvin, Thiago, Mayra e tantos outros não cessa. Até os "não campeões" - caso do Darlan Romani - tem muito a nos ensinar sobre espírito esportivo, luta, esforço, superação. Então embarque conosco nessa jornada e reverencie essa verdadeira coleção de grandes obras que tem o esporte como pano de fundo. De clássicos como Carruagens de Fogo (1980), passando por alternativos como Febre de Bola (1997) até chegar no recente Raça (2016), a gente promete uma discussão leve, divertida, quase como uma prova de skate park. Bora dar play?


Cinema - Nunca Mais Nevará (Sniegu Juz Nigdy Nie Bedzie)

 De: Margolzata Szumowska e Michal Englert.Com Alec Utgoff, Maja Ostaszewska, Lukasz Simlat e Weronika Rosati. Comédia dramática, Polônia, 2020, 113 minutos.

Foi com o ótimo Medos Privados em Lugares Públicos (2006) que o falecido Alain Resnais elaborou uma verdadeira colcha de retalhos em que a hipocrisia da sociedade era evidenciada a partir da história de seis pessoas - três homens e três mulheres - que tinham suas vidas cruzadas. Na narrativa - meio fria, eventualmente insólita, quase como uma fábula existencialista -, temas como solidão, efemeridade das relações e a instabilidade do amor, eram apresentados de forma primorosa, enquanto a neve que persistia em cair, se apresentava como a metáfora estética perfeita que servia como alicerce para a ideia geral do filme. De alguma forma, é possível afirmar que Nunca Mais Nevará (Sniegu Juz Nigdy Nie Bedzie) - o enviado da Polônia para a mais recente edição do Oscar e que finalmente está chegando aos cinemas - repete esse expediente. Ainda que de uma forma invariavelmente mais hermética.

Trata-se ao cabo de um filme curiosamente agradável de se assistir, ainda que reserve uma boa dose de complexidade para as suas camadas mais interiores. A trama nas aparências é muito simples: nela acompanhamos um imigrante ucraniano de nome Zhenia (Alec Utgoff), que atua como massoterapeuta em um condomínio fechado na Polônia. Indo de casa em casa, sempre com a sua maca portátil a tiracolo, o protagonista tem contato com as mais variadas figuras que habitam esse universo particular - da dona de casa mãe de dois filhos que parece estar insatisfeita com o casamento, passando pelo idoso de comportamento reacionário até chegar a mulher solitária que se ocupa de cuidar de seus cachorros. Em meio a porteiros e vigilantes, a existência pacata do local parece estar sempre no limite do "acontecimento". Por baixo do véu de tranquilidade, um sem fim de angústias que sempre parecem prontas à vir a tona, seja em forma de discussões acaloradas, seja por meio de pulsões sexuais reprimidas.

Bonito e habilidoso no seu ofício, Zhenia vai aos poucos ganhando a confiança de cada uma daquelas pessoas - sejam homens ou mulheres. O que torna a sua presença um veículo para tensões latentes, que são complementadas por gestos econômicos, olhares de satisfação e a busca hedonista por algum prazer que a existência vazia já não parece mais capaz de satisfazer. Aqui e ali em cada diálogo, temas como xenofobia, opressão às minorias e a futilidade dos extratos mais abastados da população, surgem em pequenas pílulas, que nunca soam excessivamente invasivas. O mesmo vale para a curiosa análise da neve como fenômeno natural que está em "extinção" - e que aqui estabelece um diálogo sofisticado com a obra de Resnais. Diante de tudo o que (não) acontece, não demora para que Zhenia se transforme em uma espécie de guru daqueles que atende: condição que é reforçada pelo exercício de habilidades que vão para além da mera massagem.

Em linhas gerais, é um filme que possibilita uma série de interpretações - e que certamente fará sucesso naquele clube de cinema alternativo da faculdade de humanas. Nada é óbvio, por mais que o fio narrativo dificilmente se desvie do prumo. Tecnicamente bem executada, a obra recorre ainda a flashbacks para esclarecer que Zhenia também possui os seus próprios traumas - e a cada ida para esse "canto" do seu inconsciente nos desperta mais curiosidade sobre o que teria ocorrido, no passado, com sua família. Pra quem gosta do estranhamento gerado pelo trabalho da diretora Malgorzata Szumowska - aliás, tem resenha do excelente Body (2015) aqui no Picanha -, encontrará em Nunca Mais Nevará um prato cheio. Místico, soturno, emocionalmente curioso, é aquele filme que não entrega uma solução fácil. Mas que nos tira da zona de conforto. Eu, particularmente, adoro isso.

Nota: 8,0

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Tesouros Cinéfilos - O Conto (The Tale)

De: Jennifer Fox. Com Laura Dern, Ellen Burstyn, Elizabeth Debicki, Isabelle Nélisse e Jason Ritter. Drama, EUA, 2018, 114 minutos.

Filmes como o ótimo A Caça (2011), do dinamarquês Thomas Vinterberg, serviram para nos lembrar: mesmo quando o assunto é daqueles que suscitam reações mais exaltadas, pode haver algum grau de complexidade. Um tipo de contexto que "nubla" a nossa percepção. E que pode fazer com que, mesmo aquilo que possa parecer uma inadiável convicção, seja por nós questionado. Nem tudo é tão oito ou oitenta. Tão isso ou aquilo. Ainda que não seja tarefa fácil, num universo polarizado, pretender elevar o debate para além do mero antagonismo que coloca os bons e os maus em prateleiras bastante óbvias. O excelente O Conto (The Tale), telefilme disponível na plataforma da HBO Max é uma dessas obras. Densa, de fluidez difusa, nos apresenta uma outra visão da temática "abuso sexual contra crianças", a partir da história autobiográfica da documentarista Jennifer Fox (Laura Dern), que aqui estreia na ficção. 

A trama inicia com a mãe de Jennifer, Nadine (a excelente Ellen Burstyn) que, ao ler antigas cartas encontradas em um porão e escritas por sua filha ainda jovem - com cerca de 13 anos -, acredita ter identificado ali, naquelas crônicas cheias de lirismo, naquelas letras tortas e eventualmente poéticas, um caso de abuso sexual. Diferentemente da angustiada mãe de Lolita (a do livro de Nabokov) que é consumida pela culpa ao se demorar em identificar o abuso sofrido pela filha, Nadine empreende uma verdadeira jornada de pressões (algumas podem soar até mesmo exageradas) para que Jennifer, agora uma mulher que se aproxima dos 50 anos, possa lembrar o que de fato teria acontecido, anos atrás, no começo dos anos 70, no haras em que ela teve como tutores a professora de equitação Mrs. G (Elizabeth Debicki) e o instrutor de corridas Bill (Jason Ritter).

Vasculhando os cantos de sua própria memória, recorrendo a trechos das mesmas cartas encontradas pela mãe e fazendo visitas a antigas colegas que frequentavam o mesmo local - casos de Becky (Shay Lee Abeson) e Franny (Isabella Amara) -, Jennifer busca reconstituir os fatos, montando o quebra-cabeças que possa lhe dar a solução sobre o suposto abuso. Bem desenvolvida, a narrativa faz com que fiquemos em dúvida por um bom tempo. Quando Mrs. G e Bill surgem pela primeira vez, se apresentam como figuras afáveis, bem resolvidas, que incluem Jennifer (que na juventude é vivida por Isabelle Nélisse) em um tipo de relação "não convencional" e de aparência segura. A ponto de revelarem à adolescente segredos de suas vidas, possibilitando uma existência plena e livre das amarras de seus conservadores pais. Ao mesmo tempo, cada gesto feito pelos seus tutores, cada insinuação mais "perturbadora", faz com que redobremos a atenção. E nos perguntemos: houve abuso? E na percepção da jovem? Como ela encara tudo que aconteceu, em meio a uma realidade que surge em sua mente de forma meio borrada, difusa? Tudo isso sendo apenas uma adolescente?

Desenvolvida de forma elegante, a obra jamais insulta a inteligência do espectador ou tenta manipula-lo. Quebrando a quarta parede, a jovem Jennifer surge numa espécie de conflito interior, desafiando também a nós, que acompanhamos a sua narrativa em meio a flashbacks embaralhados, que hora sugerem uma coisa para, no instante seguinte, migrar pra outra. Da mesma forma, a a obra jamais exagera na romantização, já que nos lembra o tempo todo do fato de que uma vítima pode jamais ter se percebido como tal em sua infância/juventude - muito pela completa incapacidade de leitura mais ampla do cenário no que diz respeito ao sexo. Por mais que a mente esteja sempre aberta para novas "experiências". Como complemento, Nadine e a própria Mrs. G da terceira idade surgem, quase ao final da vida, como figuras amarguradas, que foram coniventes com um processo de aliciamento quase "normalizado" em uma sociedade patriarcal, e que jamais deve ser suavizado. Sim, é complexo. Nunca fácil. Possibilitará uma série de discussões. Sobre corpo, sobre memória, sobre subjetividade, sobre hipocrisia. Sobre violências. As mais diversas. Em resumo: é uma obra gigante. E fundamental. 

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Tesouros Cinéfilos - Locke

De: Steven Knight. Com Tom Hardy, Olivia Colman, Andrew Scott, Ruth Wilson e Tom Holland. Drama, EUA / Reino Unido, 2013, 84 minutos. 
 
[ATENÇÃO: ESSE TEXTO POSSUI SPOILERS]

De clássicos como O Anjo Exterminador (1962), passando pelo suspense noventista Louca Obsessão (1990), até chegar a obras recentes, como o ótimo A Pele de Vênus (2013), não foram poucos os filmes que utilizaram como cenário um único local. Fosse por escolhas estéticas ou por limitações de orçamento - ou mesmo ainda por questões técnicas da narrativa -, o caso é que a sensação de confinamento, a persistência do "ambiente fechado" como parte do contexto, em muitos casos resulta em experiências sufocantes, tensas, daquelas que nos deixam nervosos. Nesse sentido, talvez não seja por acaso que haja tantos thrillers que concentram suas histórias em espaços limitados. Situação que, convenientemente, busca ampliar a sensação de claustrofobia daqueles que acompanhamos. E, em partes, podemos afirmar que é exatamente isso que ocorre com Ivan Locke (Tom Hardy), o protagonista do curioso Locke - filme dirigido por Steven Knight, que está disponível na HBO Max.

O filme todo se passa dentro do carro de Locke, durante pouco mais de uma hora e vinte minutos, no final de uma noite. O sujeito é um operário experiente da construção civil - aliás, ele é o responsável por receber um grande carregamento de concreto que será entregue em uma obra de grandes proporções, no começo da manhã seguinte. Só que, no interior do veículo, ele deixa tudo para trás: pega a rodovia e parte na direção de um hospital. É lá que está a sua amante, que se prepara para entrar em trabalho de parto. De um filho seu. Na madrugada que se inicia, em meio ao movimento de vai e vem de carros, utiliza o telefone adaptado do painel do carro para (tentar) resolver todos os problemas de sua existência. O que envolve, entre outras decisões, revelar para sua esposa - e filhos -, o episódio isolado de traição, que resultou em uma paternidade não desejada. Ao mesmo tempo, conversa com colegas empreiteiros que tocarão a obra em sua ausência - o que também não é simples -, ao mesmo tempo em que tenta se apresentar como uma figura presente também para a pessoa com quem teve um relacionamento extraconjugal.


É um contexto complexo, difícil. Locke sai de uma ligação para outra e mais outra e mais outra, emendando uma conversa em outra conversa - e é quase inevitável constatar o fato de que, pouco a pouco, as coisas sairão do controle. Como metáfora óbvia, a própria construção da qual ele é responsável - um empreendimento majestoso, o maior da Europa, como ele mesmo faz questão de ressaltar mais de uma vez -, corre o risco de ruir se não estiver bem alicerçada. Assim como está "ruindo" a sua vida - e não deixa de ser comovente o esforço do protagonista em tentar manter todas as arestas bem aparadas, sem alterar o tom de voz, num desejo íntimo de jamais repetir aquilo que aconteceu com o seu próprio pai (que, aparentemente, abandonou a família após seu nascimento). Na estrada, a sensação de solidão asfixiante, se alterna com os barulhos de veículos da polícia, de ambulâncias, de pedágios e de outros elementos do tráfego, que surgem como forma de ecoar a própria balbúrdia interior vivida por Locke. O trânsito nunca parece excessivamente caótico. Mas ele eventualmente apresenta alguma barreira, alguma limitação, algo que gera dúvida sobre o "destino".

Hábil na construção do roteiro, o diretor Steven Knight jamais deixa a experiência derivar para o tédio. Mesmo quando um instante parece isolado ou meio em sentido, ele surge com razão de ser. É o caso por exemplo das sequências em que vemos os limpadores e para-brisas muito mais "bagunçando" a sua visão, do que clareando aquilo que ele enxerga. O mesmo valendo para as persistentes cenas das estradas vazias, que certamente reforçam, de forma metafórica, o estado de espírito de um sujeito que está colocando em risco não apenas o seu casamento, mas também o seu trabalho - e o seu "destino" como um todo. Carismático, o protagonista nos é apresentado como um homem que tenta manter o controle, mesmo em meio ao caos - condição reforçada pela voz monocórdica adotada, que sempre é precedida por gestos econômicos, discretos. Imersivo, tenso, é um daqueles filmes que a gente nem vê passar. E que, quando acaba, deixa um gostinho de quero mais. O que torna tudo ainda melhor.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Pitaquinho Musical - The Killers (Pressure Machine)

Um The Killers muito mais reflexivo, contemplativo e sutil é aquilo que encontramos no ótimo sétimo disco Pressure Machine, lançado nesta sexta-feira (13/08). Sim, a festa purpurinada, dançante e explosivamente roqueira vista nos trabalhos anteriores dá lugar agora a um registro mais íntimo, de essência nostálgica, que pretende navegar sem pressa em meio a esse contexto urgente, tecnológico, de pandemia e de incertezas que vivemos. E, nesse sentido, confesso que esse álbum faz muito bem. Aliás, talvez seja o melhor de Brandon Flowers e companhia em anos. É da economia, afinal, que brotam as grandes canções do disco - casos de Quiet Town, Cody e a perfeita Runaway Horses, que conta com a participação de Phoebe Bridgers, Isso sem contar a inaugural West Hills, com seu instrumental folk à moda Mutual Benefit que já nos insere naquele clima "cidade pequena do interior que pede para ser abraçada". A crítica, aparentemente, está saudando a mudança de rumo. Aliás, a gente muitas vezes espera isso de uma banda. Alguma alteração, um sopro de novidade. Um algo diferente que saia da mesmice. O Killers conseguiu.