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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Disco da Semana - The Afghan Whigs (In Spades)

Envelhecer pode ser um fardo para muitas bandas. Artistas que, esgotados em sua criatividade, insistem em se manter na ativa a fim de agradar os fãs e faturar alguma grana para sustentar suas aposentadorias - o que é justificável, diga-se de passagem, sendo que há público para isso - mesmo que o artista tenha que virar um pastiche de si próprio. Este definitivamente não é o caso do grupo americano The Afghan Whigs que, após um hiato de 16 anos desde seu espetacular álbum 1965, retornou em 2014 com o brilhante Do to the Beast e volta a presentear os fãs com seu mais novo lançamento, In Spades.

É importante frisar que o homem por trás da banda, Greg Dulli, jamais esteve parado durante a pausa do seu grupo principal. Prolífico e tendo a música como mola propulsora, Dulli sempre a utilizou em seus trabalhos como uma forma de catarse pessoal em seus não menos excelentes projetos paralelos. Seja em sua carreira solo, nos 5 álbuns de seu grupo The Twilight Singers até o projeto The Gutter Twins - juntamente de Mark Lanegan, ex-Screaming Trees e detentor de um extenso e belo catálogo solo - o músico aperfeiçoou e trouxe novos elementos à sua mistura de rock alternativo, soul music e R&B. Fórmula esta tão bem demonstrada no clássico álbum Congregation (1992) que, em pleno auge do grunge, trouxe um sopro de ar fresco ao misturar o som daquele momento à música negra americana (como a capa do disco tão bem representava), criando algo bastante original.


A julgar pela capa de ar misterioso/fantasmagórico, In Spades amplia o catálogo do grupo de Cincinnati com um álbum cuja temática traz - de acordo com o próprio release - algo de assustador, sombrio e metafórico a ser desvendado pelo ouvinte. É basicamente, segundo Dulli, "um disco sobre memória, sobre como vida e memória podem se misturar". A faixa inicial, a climática e nostálgica Birdland, lentamente ambienta o ouvinte num misto de tensão e doçura - como se alguém segurasse a nossa mão ao nos levar por um caminho desconhecido prestes a ser desvendado - desembocando na sensacional Arabian Heights. Esta canção traz aquela pegada tradicional dos Whigs com suas guitarras, um incrível trabalho de bateria e letra típica de Dulli, aliando sensualidade e ameaça numa das melhores faixas do disco. O primeiro single, Demon in Profile, com sua melodia levada ao piano nos apresenta uma das grandes virtudes da banda: deixar o ouvinte querendo mais. Ao não exagerar no uso de refrões e na duração das canções, o convite ao repeat está feito em uma das mais grudentas faixas da bolachinha. 

Talvez a música mais diferente do disco seja a impactante Toy Automatic, que traz uma das mais comoventes interpretações de Dulli até o momento, com um vocal vulnerável e rasgado cuja intensidade atinge seu ápice com o som dos metais invadindo a mixagem nesta balada que, mesmo sem refrões, consegue emocionar na sua meticulosa construção. Oriole, segunda faixa a ganhar clipe, traz uma introdução ao violão mais tradicional, com sua letra cifrada que desemboca em um rock climático mais tradicional. Copernicus lembra um pouco Queens of the Stone Age, com sua batida stoner rock que não demora a surpreender numa bridge que leva a música a outro patamar melódico e por isso mesmo fascinante. The Spell lembra o Afghan Whigs de sempre com uma performance vocal excelente de Dulli envolta em teclados e violinos que não tardam a virar um rock cheio de groove e uma letra que convida o ouvinte a dançar frente a toda escuridão. Light as a Feather lembra muito algo que The Twilight Singers já fez, com um som mais funkeado, palminhas, riffs espertos e um único refrão perdido no meio da canção que faz o ouvinte pedir mais. I Got Lost é uma linda balada ao piano feita após Dulli descobrir que o guitarrista e amigo Dave Ross sofria de um câncer de cólon inoperável, enquanto Into the Floor nasceu de uma jam nos shows e transformou-se na trilha perfeita para encerrar mais um álbum dos americanos, fazendo a alegria dos fãs desejosos por mais um trabalho.

Enxuto, com 10 faixas e 37 minutos, In Spades é o tipo de álbum que convida a várias audições para decifrar suas camadas e letras enigmáticas, além de ser mais bem acabado que seu antecessor e trazer o que de melhor uma das grandes bandas de rock surgidas neste planeta tem a oferecer. Envelhecer pode ser uma dádiva, e Greg Dulli e seu The Afghan Whigs são a prova disso. Que venham muitos discos mais.

Nota: 9,0.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Lado B Classe A - The Afghan Whigs (1965)

Atenção:
Tire as crianças da sala.
Material altamente inflamável.

Com o álbum 1965, a banda The Afghan Whigs (uma das queridinhas aqui da casa) deu fim às suas atividades, no ano de 1998, entregando um trabalho altamente viciante, bem produzido e com uma levada soul elevada à enésima potência. Produzido pela primeira vez por David Bianco (dos excelentes discos Grand Prix, do Teenage Fanclub, e Smitten, do Buffalo Tom), o grupo alçou o rock alternativo ao patamar dos grandes clássicos da "música para acasalamento", até então representada por ícones como Marvin Gaye, Barry White, dentre outros.

Com uma coleção de faixas intensas, saborosas, suingadas e com um teor altamente explosivo, o vocalista, líder e compositor Greg Dulli destila todo o seu "veneno" com a fome de um predador prestes a capturar sua presa. Sabendo dosar os momentos mais agitados com outros mais elegantes, com uma melancolia subjacente, Dulli acaba por ser uma espécie de, guardadas as devidas proporções, Christian Grey (sim, daquele livro e, em breve, filme) do rock. Ou melhor: imagina o Wando cantando junto com o Mano Changes, da Comunidade Nin-Jitsu (do clássico gaúcho Maicou Douglas Syndrome) mais o rock dos anos 90, vocais de black music, e já dá pra ter uma noção do que encontrar aqui.


Ao apertar o play, ouve-se de imediato o som de um fósforo sendo aceso, já dando a deixa pra Somethin' Hot, com seu riff sacolejante, convidar o ouvinte pra dançar. A balada Crazy, com suas melodiosas frases de guitarra, pergunta: What ever did happen to your Soul?, numa referência óbvia ao estilo homenageado. Uptown Again volta a agitar, sendo um dos maiores destaques, com refrão forte. A faixa 66 traz uma das letras mais 'safadas' do disco, um balanço irresistível com alto teor pop, vocais femininos, uivos, gemidos e tudo mais... só ouvindo pra crer. Citi Soleil traz frases em francês e viola espanhola para complementar o já conhecido rock da banda, em outro destaque do álbum. John the Baptist traz uma letra que deve horrorizar os católicos mais fervorosos, com Dulli pecando sem pudor e trazendo à tona a frase que escancara a influência ddo grande clássico: Let's Get it On! A próxima música, The Slide Song, traz, como o título sugere, slides de guitarra fazendo a cama para mais uma linda balada, narrando a busca de um vampiro por amor. Neglekted talvez seja a mais soul do disco, com um suingue que casa muito bem com os vocais sussurados entremeados pelos backing vocals femininos, criando um clima sexy que descamba para um gran finale de cair o queixo. Por fim temos Omerta, uma faixa mais climática, porém de menor destaque, que faz o prelúdio para The Vampire Lanois, faixa instrumental que encerra este grande álbum.


Wando, Dulli e Mano Changes: incentivando a perpetuação da espécie

Recheado de hits, 1965 deveria ter se tornado um grande sucesso comercial que finalmente alçaria a banda ao mainstream. Infelizmente não foi o que aconteceu, o que acabou por levar o grupo ao término após a turnê do álbum. No entanto, Greg Dulli continuou na ativa e permanece até hoje, tendo neste meio tempo participado de projetos sensacionais como The Twilight Singers e The Gutter Twins, além de uma carreira solo. Em 2014, a banda voltou à ativa com o elogiado Do to the Beast, fazendo a alegria dos fãs de longa data. Com uma discografia invejável, este é o perfeito exemplar Lado B Classe A, uma dica preciosa que nós aqui do Picanha compartilhamos com vocês. Enjoy it!

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Lançamento de Videoclipe - The Afghan Whigs (The Lottery)

Quem acompanha o Picanha sabe que o The Afghan Whigs é uma das bandas favoritas da casa. O novo clipe saído do álbum Do to the Beast é da faixa The Lottery. A música é uma das mais roqueiras do disco e sua sonoridade remete aos primeiros trabalhos do grupo.

O videoclipe é uma homenagem a Ryan O'Hara, engenheiro de som, que fica no backstage durante os shows controlando todos os detalhes para que as coisas corram conforme o esperado. No entanto, O'Hara costuma fazer seu showzinho particular nos bastidores, demonstrando todo o seu amor pela profissão e pelo grupo que acompanha nas turnês. Greg Dulli, líder da banda, na descrição do vídeo no Youtube relata que "(...) muitas vezes esqueço de cantar porque fico observando a sua performance (...) Isso é rock and roll! É o que nos faz seguir em frente".

Uma bela homenagem, e uma música para se curtir no último volume!