De: Paul Thomas Anderson. Com Alana Haim, Cooper Hoffman, Mary Elizabeth Ellis, Bradley Cooper e Sean Penn. Comédia dramática / Romance, EUA, 2021, 133 minutos.
Assim que subiam os créditos finais de Licorice Pizza (Licorice Pizza) comecei a me dar conta de como o novo filme de Paul Thomas Anderson (Sangue Negro) parecia ser sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo. Bom, tentando explicar é sobre tudo porque é a obra de amadurecimento por excelência, que nos apresenta a persistentes jovens da geração baby boomer que se aproximam da idade adulta em meio a incertezas, inseguranças, anseios e desejos. Desejos de tudo: sexuais, de bonança financeira, de constituir família, de ter uma estabilidade. Mas é também um filme sobre o nada - um "nada" meio à moda Seinfeld - porque se constitui de uma série de acontecimentos que mais parecem uma sequência de esquetes aleatórias, meio imprevisíveis, em que assistimos jovens vivendo, sobrevivendo, tentando. Errando e acertando. Se frustrando, mas sem deixar a peteca cair. Sofrendo decepções, mas achando que a vida sempre será melhor ali adiante, na curva seguinte, na próxima esquina. A vida, a vida de qualquer pessoa, ali, na tela.
Somos, afinal, seres que parecem sempre insatisfeitos. E Licorice Pizza leva essa questão até o limite do aceitável, na relação cheia de ambiguidades de Alana Kane (Alana Haim) e Gary Valentine (Cooper Hoffman). O filme por sinal já abre com um belo plano sequência, em um longo diálogo em que Gary tenta, à sua maneira, cortejar Alana. Mas há um problema aí: a jovem de 25 anos é uma espécie de monitora da escola em que o adolescente de 15 estuda. Dez anos de diferença que, não demorará, se diluirão em meio a experiências mútuas, paixões secretas, decepções amorosas. Prisões. Eventos sociopolíticos. Pessoas indo e vindo. Imprevisibilidade. Um monte de encontros e desencontros, numa enxurrada deliciosa de assistir não apenas pela leveza, mas também pelo apuro técnico. Pela riqueza do desenho de produção, pelos figurinos exuberantes (e extravagantes) e pela trilha sonora onipresente (cortesia, mais uma vez de Jonny Greenwood) - todos, talvez, injustiçados no Oscar desse ano.
E tudo é conduzido por Paul Thomas Anderson a partir de um roteiro bem amarrado, que nos leva de um ponto a outro na narrativa sem jamais nos deixar confusos, fazendo de cada salto temporal uma espécie de interlúdio que nos conduz às ocorrências de forma palatável, crível. Assim Gary inicia como o ator mirim que se aposenta - aparentemente ele não serve mais para os papeis que busca -, mas sem grande sofrimento, já que no instante seguinte ele já se vê envolto em um negócio de comercialização de colchões de água - que será um inesperado sucesso -, até desembocar num empreendimento que se aproveita da legalização dos jogos de fliperama. Já Alana é a parceira involuntária das maluquices do jovem ainda que, pela sua experiência, seja capaz de perceber os movimentos políticos e sociais para, também à sua maneira, se aproveitar deles, como no instante em que ela se aproxima de um candidato a prefeito (papel de Ben Safdie) para lhe assessorar.
Enquanto tudo se desenrola há a paixão que nunca acontece, que já dei a entender anteriormente. Com uma verdadeira coleção de figuras excêntricas cruzando o caminho da dupla, caso do astro do cinema William Holden (Sean Penn) e do cabeleireiro e produtor Jon Peters (Bradley Cooper) - duas pessoas reais que conferem certo charme real e irreal (olha a ambiguidade novamente) ao filme -, a obra também nos leva da tensão ao riso em questão de segundos, como no caso da longa cena em que Alana precisa improvisar enquanto dirige um caminhão. Aliás, a conclusão dessa sequência é a prova vida de que aquilo que permanece na nossa memória, com afeto, como uma lembrança viva e remota, não necessariamente precisa ser um grande acontecimento. Nossa existência, ao cabo, é uma coleção de eventos grandes e pequenos, de pessoas indo e vindo, de gente que cruza o caminho. Só que às vezes a felicidade pode estar justamente ali do lado. No simples. No aconchegante. No Confortável. E Licorice Pizza faz questão de nos lembrar disso.
Vamos combinar que a mistura de Paul Thomas Anderson, um roteiro bastante original, uma trilha sonora vibrante e um elenco carismático, dificilmente dará errado. Pode anotar aí: vêm indicações ao Oscar com toda a certeza! O trailer de Licorice Pizza - nova obra do diretor de Sangue Negro (2007), Trama Fantasma (2017) e outros clássicos modernos -, até não entrega muita coisa, que não seja a boa e velha obra sobre amadurecimento. A deliciosa canção Life On Mars?, do David Bowie, dita o tom retrô setentista, pro filme que tem aquela cara de comédia romântica inusitada, cheia de instantes imprevisíveis. Estrelado por Bradley Cooper, Cooper Hoffman (filho de Philip Seymour), Ben Stiller, Sean Penn, Maya Rudolph, John C. Reilly e ainda Alana Haim (integrante das nossas queridas do grupo Haim), o filme estreia no Brasil no dia 25 de dezembro e deverá ser lembrado em categorias, como, Filme, Diretor e Roteiro Original, além de Ator Coadjuvante, com Cooper sendo, inclusive, um dos favoritos ao Oscar. Estamos Na Espera!