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terça-feira, 2 de abril de 2024

Pitaquinho Musical - Beyoncé (Cowboy Carter)

Vamos combinar que hoje em dia já é bastante conhecida a história que envolve a apresentação de Beyoncé, ao lado do grupo The Chicks durante o Country Music Awards de 2016 - e que resultou em um sem fim de reações racistas, misóginas, sexistas. Texana de nascimento, a maior rainha do pop estaria portanto impedida de cantar um estilo normalmente ligado, ao menos na atualidade, aos rednecks sulistas, que seguem batendo cabeça sobre como devolver Donald Trump ao poder? Não mesmo. Ainda que Texas Hold'Em possa ter sido um forte aceno ao gênero - como já havia ocorrido no passado em Daddy Lessons, presente em Lemonade (2016) -, o caso é que Cowboy Carter é muito mais do que o disco de country music da Bey. Pode ser o ponto de partida, uma investigação, um tratado histórico, como ela costuma fazer. Mas há muito mais do que Willie Nelson e Dolly Parton avalizando ou banjos respingados aqui e ali. E esse é um trabalho da Beyoncé que, vamos combinar, só poderia ter sido feito por ela. Especialmente por conta de suas origens. E, enfim, lidem com isso.


 

Sequência da trilogia que se iniciou com o festivo e dançante Renaissance - nosso terceiro favorito na lista internacional de 2022 -, aqui temos uma artista afiada no exame de sua terra natal em todos os seus preconceitos, mas sem deixar de expressar seu amor por ela. Somos seres complexos e ao trafegar por tantos gêneros - do hip hop ao gospel, passando pelo R&B e pelos ritmos africanos -, Beyoncé constroi uma epopeia revisionista provocativa, que escava o justo espaço histórico das mulheres negras, em um ambiente normalmente dominado por homens brancos, conservadores. Músicas como 16 Carriages são poderosas não apenas pela subversão melodiosa e pela letra potente sobre o desenraizamento repentino e os traumas decorrentes (Aos quinze anos, a inocência se extravia. / Tive que cuidar de casa em uma idade precoce), mas pelas possibilidades de transformação para além do purismo bucólico do gênero. É um disco pra degustar com calma - são 27 canções e quase 1h20 de duração - com as letras a tiracolo, lendo outras análises, resenhas, comentários. Um projeto que certamente será estudado no futuro, revisitado, redimensionado. Ousada, divertida, perspicaz, iconoclasta, sensual, confiante, Beyoncé invadiu o cenário do filme do John Ford e subverteu toda a lógica. Amém.

Nota: 9,5


quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Pitaquinho Musical - Beyoncé (RENAISSANCE)

Seis anos se passaram desde Lemonade (2016) e talvez não seja por acaso o fato de a montanha-russa emocional vista no projeto parecer, agora, distante. Nada mais dos versos cheios de sinceridade que pareciam funcionar como veículo de expiação dos problemas conjugais que envolviam o marido, o rapper Jay-Z -, e que renderiam canções maravilhosas como Hold Up e Daddy Lessons. O caso é que o casamento pode até existir (ainda), mas com RENAISSANCE, Beyoncé está de volta à pista. Aliás, quase literalmente, dado o apelo à disco music classuda e oitentista - o que faz com que canções como Cuff It soem como um convite a mexer o corpo. "Eu tô a fim de me apaixonar", anuncia a cantora em meio a uma melodia enfumaçada em que os globos espelhados de boate quase se tornam palpáveis. E isso instantes depois de ter levado o ouvinte a levitar com as notas excitantes e espaciais da sublime Alien Superstar. E olha que nesse momento ainda estamos no comecinho do álbum!

Evidentemente que a temática do registro - o sétimo da carreira da artista -, também dialoga com essa vontade de ver o mundo, que parece mover as pessoas nesse período pós confinamento pela pandemia. "Com todo o isolamento do ano passado, penso que estamos todos prontos para escapar, viajar, amar e rir novamente", comentou ela em entrevista ao Harper's Bazaar, citando ainda o renascimento como uma metáfora desse contexto (que, por quê não, também encontra paralelo no momento político e cultural dos Estados Unidos). O resultado é um projeto que muda de rota mas que se apresenta, como de praxe na carreira da estrela, revigorante, oxigenado e cheio de personalidade. O que faz com que canções como Virgo's Groove, I'm That Girl, Break My Soul e, especialmente, Heated (um sinuoso afrobeat) brilhem naturalmente. É quase uma Beyoncé das antigas dando as caras. Mas mais experiente e mais madura do que nunca. O que, convenhamos, é uma combinação irresistível.

Nota: 9,0