Vamos combinar que, muito provavelmente, nem o mais otimista dos ouvintes de Punisher (2020), elogiado disco anterior de Phoebe Bridgers - e nosso sexto colocado na lista de melhores daquele ano -, seria capaz de incluir no bingo de possibilidades para o novo álbum da artista, Lost Weekend, uma canção "alegre e de amor". Mas aconteceu e ela se chama Bobby, um singelo tributo ao seu novo crush, o (ótimo) comediante Bo Burnham, que aparece não apenas nas letras repletas de homenagens, mas também contribui em algumas das composições - afinal, ele também é músico. Sim, quem se acostumou ao estilo taciturno, evocativo e quase sombrio da californiana, com seus dedilhados econômicos e voz sussurrante, talvez se surpreenda com esse lado mais ensolarado - ainda mais depois do falecimento do pai, de quem ela não era tão próxima, e do término meio traumático de relacionamento com o ator Paul Mescal.
Mas o fato é que Bridgers tem essa habilidade meio única de, aqui e ali, divagar sobre luto e perdas, mas também sobre paixões e conquistas de forma coesa - em alguns casos até na mesma música, que nos arremessa de lá para cá, muitas vezes saindo da sutileza para a exaltação sem tempo para respiro, como é o caso da assombrosa (com o perdão do trocadilho) Haunted. Ainda assim, por mais que haja uma série de instantes calorosos, as marcas registradas da artista - seu vocal que contrasta suavidade e grito; passando pelas melodias granuladas, poeirentas, oníricas; até chegar às letras cheias de ironias (Eu era a mais bela / do Governors Ball / Escondida no banheiro / Que nem a Shelley Duvall) - seguem intactas. Em entrevistas, Bridgers afirmou ter receio de estar ficando literal demais ou talvez perdendo certo cinismo em sua poética. Terá o amor a ver com isso? Se depender dos fãs e também da crítica que a abraçou, inclusive em sua incursão pelas Boygenius, seu legado segue intacto. Se estiver na dúvida, comece por Lost Boys. E siga o coração.
Nota: 9,0

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