De: Max Walker-Silverman. Com Josh O'Connor, Lily LaTorre, Meghann Fahy, Kali Reis e Amy Madigan. Drama, EUA, 2025, 96 minutos.
Quem acompanhou mais de perto as enchentes que assolaram, em maio de 2024, diversos municípios do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, sabe que não foram poucos os entrevistados que, em meio aos escombros da tragédia que devastou tudo, levando os bens materiais (e até imateriais) de uma vida, reuniram forças para dizer que "ao menos estavam vivos". Por mais que casas, carros, eletrodomésticos e, no caso de moradores do campo, maquinários, galpões, animais e plantações, tenham sido levados pela fúria das águas, ao menos restaram as famílias e a sua resiliência. Em meio a um quadro desalentador - afinal foram muitos óbitos também -, o recomeço contou com o apoio de instituições públicas e privadas e de pessoas. Muitas pessoas. Numa ação coletiva que possibilitou algum tipo de recuperação - de autoestima, de dignidade, de esperança.
E não deixa de ser tocante perceber como o recém chegado à Netflix, Depois do Fogo (Rebuilding) trata justamente desse processo, vivido pelos flagelados climáticos: o de recuperar aquilo que realmente importa, num contexto de turbulência. Ao cabo, aqui temos uma experiência afetuosa e gentil que centra menos a sua narrativa no que desencadeia cheias, secas, queimadas, tsunamis e outros problemas climáticos e mais no que vem depois do ocorrido. O componente político certamente faria falta se esse fosse um projeto mais abertamente panfletário - e, admito que lá pelas tantas me incomodou um pouco o fato de os problemas ambientais estarem tão em segundo plano -, mas aqui o que é importa é o microcosmo dos vínculos familiares. Ou o que nos faz humanos. É clássica a frase de que sairíamos melhores como humanidade, depois da pandemia. Ou das cheias. Enfim, espero que tenhamos saído.
Na tocante obra dirigida por Max Walker-Silverman, que teria se inspirado em histórias da própria família (sua avó perdeu a casa num incêndio) Josh O'Connor é o cauboi Dusty, que tem a sua fazenda de oitenta hectares onde criava animais consumida por um incêndio de grandes proporções. Enquanto reside em um trailer improvisado oferecido pelo governo aos desalojados - ao lado de um grupo de outros moradores que passaram pelo mesmo -, Dusty estuda a possibilidade de ir morar e trabalhar em um rancho familiar no Estado de Montana, trocando o seu Colorado natal, no pé das montanhas rochosas. Taciturno e sem perspectivas para o solo dizimado pelo fogo - restando apenas galhos de árvores secas e retorcidas em meio ao cenário desértico quase pós-apocalíptico -, o protagonista só consegue ensaiar um meio sorriso quando está com a sua filha, a pequena Callie Rose (a ótima Lily LaTorre), fruto de um relacionamento com a ex-esposa Ruby (Meghann Fahy).
É ela, afinal, que lhe lembrará de forma afetuosa e meio que o tempo todo daquilo que importa - e daquilo que transforma um lar em lar de verdade. Sim, pode parecer papo barato de autoajuda, mas não deixa de ser comovente ver como o olhar de Dusty - entre uma postura entortada e outra, que se soma a incapacidade meio natural de um sujeito rústico do campo em seu comunicar -, ganha tons de doçura a cada ida a pequena biblioteca local para leituras improvisadas e momentos aleatórios em família (sério, é impossível ficar alheio à sequência da colagem de estrelas brilhosas nas paredes internas do trailer que, agora, é a casa deles). O senso de coletividade entre vizinhos, distribuindo cortesias (e comida), e se apoiando em tarefas domésticas cotidianas (como consertar uma torneira) nos faz lembrar do clima geral contemplativo, bucólico e resignado que assistimos em Nomadland (2020). Mas aqui a melancolia se converte em conforto e em lágrimas genuínas, quando nos percebemos torcendo por aqueles que estão ali, apenas querendo reconstruir as suas vidas, em meio a angústias, sonhos interrompidos e desejos de reconexão. Aliás, esse conjunto de ideias recebe um sentido quase alegórico na reta final, quando todos ali parecem perceber o significado de "família". É bonito demais.
Nota: 8,0

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