quinta-feira, 18 de junho de 2026

Novidades em Streaming - Rebelião Silenciosa (À Bras-le-Corps)

De: Marie Elsa-Sgualdo. Com Lila Gueneau Lefas, Grégoire Colin e Cyril Metzger. Drama, Suíça / Bélgica / França, 2025, 101 minutos.

Vamos combinar que nem chega a surpreender o fato de a maior violência sofrida por Emma (a ótima Lila Gueneau Lefas), a protagonista de Rebelião Silenciosa (À Bras-le-Corps), nem ser tanto a da guerra que a espreita - com soldados alemães circulando nos limites da floresta, representando uma ameaça constante -, e, sim, do microcosmo que ela habita, com sua estrutura essencialmente patriarcal e de rígidos códigos religiosos. O ano é 1943 e, se na Suíça rural onde se passa a narrativa, temos uma nação neutra no que diz respeito aos horrores do conflito - é possível, afinal, compreender o medo e a incerteza paralisantes frente aos soldados nazistas -, também temos uma jovem disposta a romper com esse sistema que, se não é gritantemente misógino, opera pelas frestas no sentido de reservar às mulheres uma série de papeis previamente estabelecidos. Emma talvez ainda nem saiba que, ali adiante, a guerra terminará. E, alegoricamente, talvez a opressão intrínseca às mulheres a vida na pequena comunidade também. Ou assim deveria ser.

Na trama, Emma mora com seu pai e as duas irmãs nesse espaço aparentemente idílico, mas que não impede que a violência chegue até ali, mesmo de onde não se espera. Dedicada, a adolescente de 15 anos atua como uma espécie de governanta faz tudo do pastor local - seu nome é Robert (Grégoire Colin) - e espera receber um tipo de "prêmio de virtude", que seria destinado à algumas mulheres como um reconhecimento pelo seu empenho e esforço recorrentes. E que seria concedido por líderes locais como o próprio pastor, um médico e outros (a maioria homens), o que lhe permitiria ir para um internato para estudar enfermagem. E, bom, não é preciso dizer que nessa comunidade onde os homens decidem meio que tudo - aliás, o valor da bolsa é repassado justamente para o pai, marido ou algum tutor -, as jovens devem ser íntegras, imaculadas e moralmente incorruptíveis para que sejam "dignas" da obtenção da distinção. Sim, o sonho molhado da extrema direita reside em 1943.

 


Só que a coisa muda de figura quando surge na propriedade o jornalista Louis (Cyril Metzger), que está pela região para escrever um artigo para um periódico a respeito do cultivo de trufas selvagens. Extrovertido e charmoso, o rapaz traz certa leveza para o ambiente taciturno da casa, dançando e brincando com todos. E, atraindo a atenção de Emma, que é levada por ele para a floresta isolada durante um passeio, ocasião em que a violenta - o que nos faz lembrar que a grande maioria de casos de abuso sexual é perpetrado justamente por pessoas em que se têm confiança. Ou de onde dificilmente se esperaria tal agressão. Quando segue sua jornada, Louis deixa para trás uma Emma não apenas traumatizada pelo ataque - mostrado pela diretora Marie Elsa-Sguardo de forma bastante sutil (optando por takes do rosto da jovem e de suas mãos retesadas, enquanto agarra o capim) -, mas também grávida. "Deus, por favor, me proteja da vergonha", suplica ela após o fato, sem nunca acreditar que o errado é o agressor.

Só que mesmo nesse cenário de violência estrutural, o estupro parece virar uma espécie de chave em Emma que, inicialmente, tenta forçar um aborto em uma cena de forte impacto e bem conduzida frente ao choque. Mais adiante, ela se casa em uma união sem muito amor com o guarda de fronteira Paul (Thomas Doret), que assume o filho prometendo mundos e fundos para, mais adiante, operar como o machinho meio escroto de sempre. Insatisfeita com esse conjunto, Emma assume as rédeas da própria história, confrontando aqui e ali as micro (e macro) violências - e uma das melhores cenas envolve ela reencontrando e desafiando o jornalista. Taciturna e silenciosa no exterior, mas como um furacão interior, a protagonista navega nessas águas densas que podem se abrir justamente pela união das mulheres - da mãe expulsa da aldeia por ter sido infiel, passando pela filha do patrão, até chegar às irmãs ainda pequenas. Ela se afasta de Paul, a guerra termina, o pastor sofre com a demência. A alegórica dança final é a metáfora para a libertação das amarras conservadoras. Pode parecer óbvio. Mas não deixa de emocionar. Tá disponível na Reserva Imovision.

Nota: 8,0 

 

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