De: Harry Lighton. Com Harry Melling, Alexander Skarsgård e Lesley Sharp. Drama / Comédia / Romance, Reino Unido / Irlanda, 2025, 107 minutos.
O público cinéfilo mais cracudo a respeito do que rola nos bastidores já percebeu: Pillion foi adiado diversas vezes e essa resenha foi escrita na esteira daquela que deveria ter sido a data de estreia oficial - no caso a última quinta-feira, dia 21 de maio. E vamos combinar que esse timing meio que já passou, até mesmo porque a obra já foi exibida em festivais, já teve estreia mundial e já tá rolando em ambientes, digamos, "alternativos", pra quem quiser acessá-la. Meio que quem quis viu - e toda essa coisa de adiar infinitamente uma produção, aparentemente apenas por causa do seu tema (a trama acompanha um jovem gay introvertido em suas primeiras experiências sexuais, quando conhece um taciturno motoqueiro que o inicia no universo BDSM) só torna tudo mais estranho. Sim, a família tradicional brasileira ainda se choca com qualquer coisa que desvie do padrão. E, aqui, não parece ser muito diferente. Por mais que os motivos para os atrasos pareçam ser sempre outros do que apenas o bom e velho preconceito.
Sobre o filme, que venceu o prêmio de Melhor Roteiro na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes - é a estreia de Harry Lighton na direção - vai depender do olhar e da percepção de quem assiste. Se por um lado a obra nos apresenta uma relação fetichista quase abusiva entre dois homens - um deles mais velho -, por outro este também é um conto sobre amadurecimento e de como os primeiros amores podem ser dolorosos, complexos, frustrantes. Ao cabo, contribuindo para a nossa formação como sujeitos. Sim, pode parecer impactante ver um jovem sem nenhuma experiência vestido com roupas diminutas de couro, enquanto o outro o humilha de todas as formas, mas é importante deixar os julgamentos para os conservadores. Aqui, não cabe analisar o fetiche em si e sim como se desenrola essa experiência em toda a sua complexidade, com o envolvimento de familiares e de toda uma comunidade de motoqueiros.
Aliás, o termo "pillion" costuma ser utilizado como forma de definir não apenas o assento traseiro de uma motocicleta, mas também quem o ocupa. E, naturalmente, por extensão, parece haver aqui a alegoria mais do que perfeita para o comportamento confiante e misterioso de Ray (Alexander Skarsgård), que levará na garupa o tímido Colin (o sempre expressivo Harry Melling). A dupla se conhece em um boteco onde Colin se apresenta com os seus amigos que formam um quarteto de vozes. É noite de Natal em Londres - aliás, está aí mais um filme natalino para assistir em família -, e Ray se aproxima do rapaz de forma determinada. Mais do que isso, combinam um encontro antes da chegada do Papai Noel, para desespero dos pais de Colin - não por preconceito, já que eles acolhem as opções do filho, a ponto da mãe (Lesley Sharp), ajudá-lo nos encontros com homens -, mas pelo receio de ele estar indo ao encontro de um desconhecido que pouco se sabe. O date, por assim dizer, termina em um beco. Com uma sessão de sexo oral.
A partir dali eles passam a manter um certo vínculo, ainda que as dinâmicas de poder sejam opostas - não por acaso, em uma tentativa de encontro na noite de Ano Novo, Colin tenta chamar Ray para um rolezinho no pub dos motoqueiros, mas ele nem dá as caras. E quando reaparece, surge cheio das exigências, obrigando-o a fazer comida, fazendo-o dormir no chão e ignorando qualquer uma das suas solicitações de afeto. Rastejando atrás dele, no limite. Em contrapartida, não apenas o inicia no sexo, como lhe dá um prazer que talvez ele dificilmente sentiria em outras circunstâncias. "Ele diz que tenho aptidão para a devoção", explica o jovem em certa altura da projeção. Tudo enquanto sua mãe se empenha em saber mais sobre o sujeito. Alternando momentos engraçados, estranhos, sensuais e afetuosos - como na sequência da surpresa de aniversário, ou nas tentativas frustradas de executar Eric Satie ao piano -, essa é uma obra pouco convencional, que não julga seus personagens ou os torna meras caricaturas. Alguém fez uma ótima piada no Letterboxd ao resumir o filme com um título alternativo: call me by your slave. Perfeito. Bem distante do gosto do reacionário médio.

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