quarta-feira, 20 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary)

De: Christopher Miller e Phil Lord. Com Ryan Gosling, Sandra Huller e James Ortiz. Ficção científica / Drama / Aventura, EUA, 2026, 156 minutos.

"Rocky, telefone, minha casa!". Vamos combinar que, se ao final de Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary), aparecesse em algum canto dos créditos finais o nome de Steven Spielberg, não seria nenhuma surpresa. Tamanha a cara de blockbuster situado em algum local entre as décadas de 80 e 90, que a adaptação do livro de Andy Weir que ainda está nos cinemas - mas também já disponível para aluguel na Amazon e na Apple TV - tem. Ao cabo trata-se de uma obra movimentada, calorosa e cheia de afeto - muito mais próxima de algo como um ET: O Extraterrestre (1985) dos confins do universo, do que da sisudez existencialista de um A Chegada (2016), por exemplo. E vamos combinar que a gente não precisa ser cabeça o tempo todo. Ou esperar um grande exame da nossa situação global política, social, cultural ou religiosa atual, para assistir um filme. Talvez faça bem se divertir simplesmente. E esquecer por algumas horinhas daquilo que nos atormenta. Um filme que não doi. E que nos faz abrir um sorriso largo. Como aqueles que víamos na Sessão da Tarde.

Ingenuidade de minha parte? Talvez. Mas foi exatamente esse o meu sentimento assistindo à produção dirigida por Christopher Miller e Phil Lord e protagonizada por um Ryan Gosling no auge do carisma e do charme. Aliás, ele sendo um astronauta naturalmente curioso que acorda do coma em uma nave espacial sabe-se lá onde ou em que ponto da galáxia, que faz o contraponto ideal ao estilo prudente e austero de Eva Stratt (a sempre ótima Sandra Huller), uma das líderes da Força Tarefa Petrova e que, mais adiante será uma espécie de chefe geral do Projeto Hail Mary. Um projetinho simples, aliás, que visa tentar salvar o mundo da mais nova desgraça que nos afeta - como se não bastassem às pandemias, as guerras e o avanço da extrema direita maluca. E que envolve o surgimento de um novo micro-organismo que tem uma habilidade única: se alimentar da luz solar. O que fará com que o sol se enfraqueça dentro de algumas décadas, se nada for feito. O que prejudicará não apenas a temperatura do globo - com uma nova Era Glacial à caminho -, mas também a nossa agricultura. Nossa capacidade de produzir alimento. Um desastre.

 


E pra tentar evitar essa tragédia que se avizinha, Stratt vai atrás do único sujeito possível pra salvar nosso mundinho de meu Deus: um professor de biologia de escola fundamental, que responde pelo nome de Ryland Grace (Gosling). Ocorre que Grace já foi motivo de chacota no meio acadêmico no passado, caindo em desgraça após escrever um artigo onde buscava evidenciar um fato que, de forma resumida, ia contra um consenso científico que existe até hoje: de que a existência de vida em outros planetas, ou mesmo em ambientes hostis, não exigiria necessariamente a presença de água. Da ligação entre oxigênio e hidrogênio. E como o tal micro-organismo - o nome oficial no livro e no filme é astrofágico - que se alimenta da luz solar navega entre Vênus e o Sol em um arco chamado de Linha de Petrova (em homenagem à Irina Petrova, a cientista que o descobre), talvez resida aí o segredo de sua resistência. O que caberá ao protagonista, um biólogo molecular de formação, descobrir.

Assim como ocorre no livro, no filme temos uma série de idas e vindas no tempo, que alternam entre o passado, quando o projeto estava sendo construído - com a participação de cientistas, engenheiros e pesquisadores de todo o mundo - e o presente (que talvez seja o futuro, claro), com Grace despertando na nave de um coma induzido de doze anos. E meio que não apenas aprendendo a sobreviver sozinho em uma nave. Mas também compreendendo qual a sua missão naquele local inóspito. O que ocorrerá em meio de flashbacks bem conduzidos, que unem uma ponta à outra, e que tanto na obra literária como no filme funcionam como uma espécie de recuperação paulatina da memória. Com cada nova lembrança operando como uma peça de quebra-cabeças. Uma ponte. Até o momento em que ele lembrará que está ao lado de um planeta chamado Tau Ceti, porque o dito parece ser resistente à ação dos astrofágicos, preservando sua luz natural. Cabendo a Grace descobrir os motivos e, mesmo estando há anos-luz de distância da Terra, tentar enviar algum sinal (ou até material) que explique os fatos.

 

 

Sim, pode parecer meio complicadinho lendo, mas não é. É simples: o Sol na Terra tá perdendo força, Grace está do lado do planeta que não perde luz mesmo com os astrofágicos tendo "contaminado" parte da galáxia. Só que quando Grace olha pela janelinha, percebe que não está sozinho: há uma enorme nave que lhe avizinha, chamada de Blip-A e que tentará fazer algum contato. E, bom, pra quem não leu o livro e pouco sabe da produção, vale se manter no escuro, com o perdão do trocadilho, para desvendar os acontecimentos. E as surpresas decorrentes deles. Mais leve, divertido e menos burocrático que o livro - que inicia muito bem e lá pelas tantas, não nego, dá uma aborrecida -, o filme não perde muito tempo com subtramas desnecessárias, focando-se no senso de amizade e de companheirismo entre Stratt e sua equipe (é linda a cena com a música Sign of The Times, de Harry Styles) e no esforço coletivo para superar as adversidades. Além de ter ótimos efeitos práticos, desenho de produção e trilha sonora. É o filme conforto de 2026 por excelência. Assim como foram os do Spielberg em décadas passadas. 

Nota: 8,0 

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