De: Alfred Hitchcock. Com Ingrid Bergman, Cary Grant, Claude Rains e Leopoldine Konstantin. Suspense / Romance / Drama, EUA, 1946, 101 minutos.
Uma das histórias que mais gosto sobre Interlúdio (Notorious) ocorreu em 1979, décadas depois do lançamento do clássico suspense de espionagem. Naquele ano, Alfred Hitchcock era homenageado na cerimônia Life Achiement Award, quando Ingrid Bergman, a estrela da obra de 1946, lhe deu um "presente" inusitado - no caso, a chave original que abria, no filme, a misteriosa adega do casarão de Alexander Sebastian (o ótimo Claude Rains) e que seria decisiva para uma grave descoberta: a de que os alemães refugiados no Rio de Janeiro, após a Segunda Guerra Mundial, guardavam uma quantidade generosa de minério de urânio, escondido em garrafas de vinho. Na obra-prima de mistério, essa é uma sequência de forte impacto. E que ganha mais força pela engenhosidade, com Devlin (Cary Grant), escolhendo beijar deliberadamente Alicia (Ingrid Bergman), como forma de tentar distrair o executivo Sebastian. Que, naquela altura, já estava casado com Alicia, como parte de um estratagema para desvendar os segredos dos alemães.
Evidentemente que a chave, essa peça tão pequena, possui extrema importância em Interlúdio. Então não deixa de ser divertido pensar em Hitchcock - que sempre teve um talento absurdo para converter objetos triviais do cotidiano em catalisadores de tensão dramática - recuperando o objeto tantos anos depois. Nos bastidores, há a garantia de que o Mestre do Suspense foi, de fato, surpreendido - a chave teria ficado por anos com Cary Grant, que teria presenteado Ingrid mais tarde. Foi quase como um contragolpe simbólico e meio inesperado. Um acerto de contas curioso. Hitchcock sempre teve esse apego à coisa prosaica, ao item cenográfico - seja a corda em Festim Diabólico (1948), o isqueiro em Pacto Sinistro (1951) a cortina em Disque M Para Matar (1954) ou à câmera fotográfica em Janela Indiscreta (1954). Elementos que criam tensão ou ameaça, mesmo que semioticamente eles não venham embutidos desse sentido. É como se a chave em sua mão fosse uma anedota.
E por mais que a chave seja fundamental para o andamento de Interlúdio - a cena em que Alicia luta para escondê-la nas mãos, tentando passá-la para Devlin em meio a um jantar no casarão de Sebastian está impressa de maneira inesquecível na retina do fã de cinema - o filme é muito mais do que isso. É um thriller de espionagem política que teve a ousadia de tratar do belicismo do pós-guerra, em um momento em que ainda havia um tanto de incerteza a respeito do uso de energia atômica (por assim, dizer). E, como se não bastasse esse pano de fundo em que o nazismo moribundo busca respirar na América do Sul, sendo observado a certa distância por Devlin - o agente do governo dos Estados Unidos que recruta Alicia, filha de um espião alemão condenado pela justiça, com quem ela tinha uma relação conturbada -, há ainda espaço para aquilo que Hitchcock faz de melhor, que é a narrativa clássica que coloca em conflito a paixão e o dever. O que resultará em um sem fim de sequências imprevisíveis, irônicas e psicologicamente tensas.
Afinal de contas, vamos combinar que não deixa de ser eticamente questionável o protagonista simplesmente empurrar o seu objeto de desejo, por quem ele se apaixona imediatamente, em direção a um grupo perigoso de alemães nazistas, esperando que tudo ocorra normalmente. O fato de Sebastian ser um antigo amigo do pai de Alicia, e alguém que tem completa devoção pela jovem, para irritação da mãe controladora do sujeito (vivida por Leopoldine Konstantin) - por sinal, outro arquétipo recorrente na filmografia de Hitchcock -, burla ainda mais a lógica, tornando incerto cada encontro e desencontro entre o casal. Conferindo uma fluidez um tanto lânguida à narrativa - reforçada pelas belas vistas da sacada do Copacana Palace no Rio de Janeiro -, a obra avança sem pressa, possibilitando ao público desvendar os mistérios aos poucos, percebendo nos detalhes os riscos vividos pelos protagonistas. Como é o caso da parte em que Sebastian revela com um sorriso torto e debochado, que assistia o casal com o seu binóculo, em meio a um encontro no clube de equitação.
Aliás, esse é só mais um dos típicos instantes hitchcockianos de geração de suspense onde aparentemente não deveria haver nenhuma tensão maior - o mesmo valendo para o momento em que um certo Emil (Eberhard Krumschmidt), um atrapalhado alemão, dá bandeira a respeito do conteúdo de uma garrafa de vinho (aparentemente sendo "suicidado" mais adiante), em meio a um jantar. Lembrado com carinho pelos fãs, Interlúdio integra uma série de listas de grandes filmes da história do cinema, como a do American Film Institute (AFI) - é o 38º em uma lista de 100 Suspenses - tendo recebido ainda duas indicações ao Oscar (nas categorias Roteiro Original e Ator Coadjuvante para Rains). Não por acaso, sua engenhosidade sedutora, que faz com que uma garrafa de vinho se converta em peça-chave e evidência criminal - a bebida alcoólica, aliás, renderia outro capítulo -, pavimentaria o caminho para que o diretor construísse uma sólida carreira, com clássicos que permanecem até hoje no coração dos cinéfilos.

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