segunda-feira, 2 de maio de 2022

Cinema - Medida Provisória

De: Lázaro Ramos. Com Taís Araújo, Seu Jorge, Alfred Enoch, Adriana Esteves e Ranata Sorrah. Drama, Brasil, 2021, 94 minutos.

Juro que a expectativa estava lá no alto pra sessão de Medida Provisória - estreia na direção do sempre carismático e competente Lázaro Ramos, a partir da peça Namíbia, Não! de Aldri Assunção. Pra começar a ideia era ótima. Aliás, mais do que isso, num governo tão reacionário, obtuso e retrógrado como o de Bolsonaro, uma premissa sobre um decreto nacional que obriga os cidadãos negros (ou os possuidores de "melanina acentuada") a retornarem pra África, é mais  do que uma distopia futurista: é um verdadeiro aceno aos tempos atuais. A gente não precisa nem mencionar quantos casos de racismo ocorrem diariamente - basta abrir algum site de notícias que estará lá o caso do policial que confundiu um guarda-chuva com uma arma e assassinou um jovem negro, do torcedor que proferiu ofensas raciais em meio a uma partida de futebol, do entregador de aplicativo humilhado pelo playboy, do homem morto em um supermercado, entre tantos outros. Não escapa ninguém. Anônimo, famoso, bem sucedido ou de vida modesta. O Brasil é esse País vergonhoso onde muitas pessoas medem caráter pelo tom de pele.

Então, de novo, estava empolgadíssimo em conferir uma obra com um argumento tão criativo. Com tanto potencial. Mas sei lá, não rolou tão bem sabe? E a meu ver um dos principais pontos foi a completa falta de sutileza da obra. Sim, eu sei que nos tempos que vivemos é preciso esfregar a realidade na cara de quem assiste, sob pena de evitar qualquer tipo de ambiguidade. Lembram dos conservadores adeptos do "bandido bom é bandido morto" celebrando o Capitão Nascimento em Tropa de Elite? Mesmo com a sequência do filme de 2007 deixando absolutamente claro que não é legal um sistema de segurança que flerta com as milícias ou com o fascismo, o personagem de Wagner Moura se tornou uma espécie de objeto de culto, idealizado por essa elite tosca como um verdadeiro símbolo da violência policial. Então o que Lázaro faz aqui é dizer praticamente o tempo todo algo como "ei, vocês tão entendendo, né? Racismo não é legal, perceberam?".



Sim, novamente, talvez seja necessário. E nesse caso aqui eu aguardo MUITO as impressões de vocês sobre o filme. Só que em muitos casos esse excesso pode gerar justamente o efeito contrário, resultando numa perda de força do discurso. Afinal, o filme martela tanto, mas tanto, mas tanto o quão bizarro é estarmos discutindo cor de pele em pleno 2022, que em alguns momentos o negócio quase pende pro caricato. É mais ou menos como na cena em que o tal Ministro Lobato (Cláudio Gabriel) aparece para discursar sobre a medida provisória e, perguntado sobre o tipo de café que ele deseja consumir, ele comenta sussurrando, pra que ninguém lhe ouça, um "o meu pode ser preto". Tipo: como assim? E, nesse sentido, são muitos os instantes que ficam apenas no raso, num tom mais bem humorado do que reflexivo, como forma de expor aquilo que propõe o roteiro. Ok, o diretor explicou em entrevistas que essa opção foi proposital, talvez com a ideia de ampliar o alcance. Mas, de novo: uma experiência mais séria, com menos frases de efeito e mais ideias bem amarradas, talvez desse mais consistência ao resultado final.

É claro que há muitos méritos. Muitos mesmo. O desenho de produção é caprichado e pra quem gosta de easter eggs será certamente uma experiência divertida identificar as citações culturais que povoam os ambientes, seja em murais, em cartazes ou até em nomes de rua. Os figurinos são divertidos, tropicais e o afrobunker construído para que a população negra possa se proteger e se reorganizar, carecia de mais espaço de tela. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Sobre os pontos positivos há ainda um sem fim de participações especiais - de Emicida a Flávio Bauraqui, passando por Conceição Evaristo e Diva Guimarães. Já Elza Soares surge retumbante na trilha sonora, sendo a canção O Que Se Cala um dos momentos mais marcantes - e há outros, entoados por artistas diversos, como, Liniker, Baco Exú do Blues, Flora Matos, Tássia Reis. No combo geral ficou a impressão de que uma aposta maior nas entrelinhas, no dito pelo não dito, na sugestão, talvez conferisse mais relevância ainda ao projeto. Assim ficou aquela sensação de comédia ficcional que materializa uma série de pequenas esquetes diante de um argumento excelente. Por mais encantados que todos nós tenhamos ficado por tudo que envolveu esse filme - entre eles estando o impecável trio central de atores, vividos por Taís Araújo, Seu Jorge e Alfred Enoch.

Nota: 6,5


quinta-feira, 28 de abril de 2022

Novidades em Streaming - Lingui (Lingui)

De: Mahamet-Saleh Aroun. Com Achouackh Abakar, Rihane Khalil Alio, Youssouf Djaouro. Drama, Chade / Alemanha / Bélgica / França, 2020, 89 minutos.

No ano passado fez burburinho nos meio alternativos o filme Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre (2020), sobre uma jovem adolescente que enfrentava uma verdadeira via crúcis para tentar interromper uma gravidez indesejada - que era resultado de um episódio de violência. E se já era difícil pra protagonista de uma obra que se passa nos Estados Unidos - onde as leis sobre o aborto variam de Estado para Estado, evidenciando uma certa esquizofrenia sobre o assunto -, imagina como não é em um País pobre da África. Especialmente em uma nação fortemente influenciada pela religião muçulmana, como é o caso do Chade. Assim, como no citado hit do cinema independente, em Lingui (Lingui) - o enviado do País ao Oscar desse ano -, o tema descriminalização do aborto está no centro da narrativa, colocando novamente os desígnios (ou os supostos planos) de Deus de um lado e a ciência ou mesmo a capacidade de decisão sobre o corpo de outro.

Sim, no Chade a prática do aborto é crime em qualquer circunstância. Até mesmo médicos que facilitam o processo podem ser incriminados, amargando cinco anos ou mais na cadeia. Assim, quando Amina (Achouackh Abakar) descobre que Maria (Rihane Khalil Alio), sua jovem filha de apenas 15 anos está grávida, resta apenas a clandestinidade como caminho. Aqui e ali, Amina percorre as ruas arenosas do subúrbio de N'Djamena determinada a encontrar quem faça o procedimento. Isso sem que os islâmicos que as rodeiam fiquem sabendo. Inconformada por não poder ir a escola a adolescente esconde, inicialmente, o segredo da própria mãe. Por vergonha, por medo - e a violenta reação da mãe ao saber da gravidez talvez explique o receio. Mas, mais adiante Amina e Maria perceberão que somente a partir da uma grande rede de sororidade conseguirão "enfrentar" a questão.

Amina, assim como Maria foi mãe aos 15 anos. Resultado de uma violência que a retirou do convívio da família e da comunidade religiosa. Taxada como impura por ter tido uma filha fora de um casamento - esse tipo de absurdo misógino que só é possível nos países mais conservadores (pra não dizer reacionários) -, a mulher vive à margem da sociedade, em uma habitação modesta, onde empreende produzindo peças de artesanato com restos de pneus. Caminho seguido também pela filha - e as cenas delas perambulando pelas ruas, tentando comercializar uma peça que seja de suas produções, são devastadoras. Buscando reunir o dinheiro para realizar o procedimento às escondidas, a dupla descobre, a muito custo, uma espécie de enfermeira clandestina que pode fazer o aborto. O medo é constante. As dúvidas permanentes. O surgimento de Fanta (Bryia Gomdique), a irmã de Amina, atrapalha. Mas também ajuda. As mulheres unidas, afinal, são a única possibilidade de mudança nesse cenário patriarcal.

Ao cabo trata-se de uma obra dolorida, mas que mantém um certo otimismo ao mostrar qual o caminho. Ou onde reside uma pontinha de esperança, que seja. Dirigido com maestria pelo sempre ótimo Mahamet-Saleh Aroun (do também excelente Um Homem que Grita, de 2010), é um filme que nos faz refletir sobre o absurdo de, em pleno ano de 2022, ainda haver a completa incapacidade de se discutir esse tema como ele realmente é: uma questão de saúde. Que envolve empatia, respeito ao outro, a seu corpo e suas decisões. Especialmente quando estamos diante de casos de violência - não só física, mas psicológica. Há uma cena em Lingui em que um sacerdote se recusa a um simples aperto de mão a Amina. Obrigando-a ainda a se cobrir (ela apenas estava com vestes de "ficar em casa"). O mundo precisa evoluir. E experiências cinematográficas como esta nos ajudam a, nem que seja, refletir. É um mérito da arte. Provocar, ousar, questionar. Pra alegria de quem curte cinema.

Nota: 8,5

terça-feira, 26 de abril de 2022

Tesouros Cinéfilos - Assassinato em Gosford Park (Gosford Park)

De: Robert Altman. Com Helen Mirren, Maggie Smith, Kristin Scott Thomas, Michael Gambon e Emily Watson. Drama / Suspense, EUA, Reino Unido, Itália, 2001, 138 minutos.

Se Luis Buñuel tivesse filmado alguma obra de Agatha Christie é possível afirmar que o resultado, muito provavelmente, seria algo próximo a Assassinato em Gosford Park (Gosford Park) - clássico moderno de Robert Altman, que está disponível na plataforma Mubi. Altman se caracterizou por suas obras de elencos numerosos, tramas múltiplas, roteiros engenhosos e diálogos riquíssimos. Isso sem contar a predileção por reflexões mais existencialistas, ainda que em meio a pequenos microcosmos sociais - seja num cenário de guerra, como no clássico M.A.S.H. (1970), seja nos bastidores de uma rádio que realiza sua última transmissão, como ocorre no divertidíssimo e derradeiro A Última Noite (2006). Assim, para o diretor, um filme sobre um crime ocorrido em uma elegantíssima casa de campo inglesa no começo dos anos 30 do século passado, não é apenas um suspense pelo suspense, em que cabe ao espectador descobrir o assassino. Aqui tem-se uma experiência que desnovela a mesquinharia da aristocracia, ao mesmo tempo em que faz uma crítica corrosiva a essa elite tão ambiciosa quanto patética.

Sim, porque na casa de Gosford Park, cada convidado para o final de semana em companhia dos anfitriões William (Michael Gambon) e Sylvia McCordle (Kristin Scott Thomas) parece ter seu próprio interesse. E interesse financeiro, de preferência - seja a irmã falida que vive de uma pensão (a sempre ótima Maggie Smith), o cunhado totalmente inseguro que deseja ampliar os seus negócios (Tom Hollander) ou o produtor de filmes de Hollywood vivido por Bob Balaban. Nesse sentido, a reunião para luxuosos almoços e jantares e algumas atividades no campo - caso de uma caçada a faisões - parecem apenas desculpa para comportamentos presunçosos e uma existência de aparências, especialmente no que diz respeito à relação com mordomos, governanta, cozinheira e todos os outros criados. Fofocas, segredos prestes a vir à tona e outras intrigas vão dando movimento à narrativa, que flui de forma bem amarrada, mesmo em um universo de tantos personagens.


Aliás, quando o filme começa é quase impossível não ficar confuso com tantos cômodos, escadas e salões e tantas condessas, lordes, baronesas e comandantes circulando em meio a empregados que parecem tão perdidos em suas atribuições quanto o espectador. Mas Altman vai facilitando o nosso trabalho conforme a trama avança, apresentando cada núcleo aos poucos, nos deixando familiarizados com as figuras - e suas personalidades. É o caso por exemplo da ressentida Constance (Smith), que não hesita em reclamar de absolutamente tudo - da música tocada, ao tipo de geleia oferecida no café da manhã -, e do misterioso criado Henry Denton (Ryan Philippe) que, com seu ousado comportamento, trafega com naturalidade em meio aos ambientes que seriam destinados apenas à burguesia. É nesse contexto meio caótico que relações se misturam, pessoas distintas se encontram, classes lutam e interesses colidem. E um assassinato inesperado acontece. Tornando todos que ali se encontram em potenciais suspeitos.

Sim, esse tipo de narrativa até não chega a ser novidade, mas a personalidade que Altman imprime a sua história não apenas lhe concederia o Oscar na categoria Roteiro Original, na cerimônia de 2002, como lhe renderia outras sete nominações - duas delas para Helen Mirren e para a já citada Maggie Smith. É, ao cabo, uma experiência divertida e sinuosa, cheia de curvas meio imprevisíveis em que, para nós, só resta o deleite. Há um componente metalinguístico que costura a narrativa e que envolve o diretor de Hollywood que está acompanhado do astro de cinema Ivor Novello (Jeremy Northam). O que converte a experiência em um filme dentro do filme sobre um sujeito que deseja realizar uma história envolvendo um grupo de aristocratas em um casarão, que precisam lidar com a ocorrência de um assassinato. É só uma pitada a mais do debochado diretor, que entrega uma série de outras inesperadas piadas e comentários sociais sarcásticos, como na sequência envolvendo um prosaico "copo de leite". A quinta série pira. E o cinéfilo vibra. Vale (re)descobrir.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Novidades em Streaming - A Jornada (Proxima)

De: Alice Winocour. Com Eva Green, Matt Dilon, Zélie Boulant e Sandra Hüller. Ficção científica / Drama, Alemanha / França, 2020, 108 minutos.

"Estamos nos preparando para ir. Mas isso não é o mais difícil. O mais difícil é a volta, quando percebemos que vida continua sem a nossa presença." Quem acompanha o Picanha de perto já sabe que a ficção científica com uma pegada mais existencialista costuma nos tocar. E ainda que em A Jornada (Proxima) - disponível na Amazon Prime - a abordagem não seja assim tão filosófica, aqui temos um filme que funciona como uma boa desculpa não apenas para discutir de forma simbólica o rompimento do cordão umbilical entre mães e filhos, mas também como o mercado de trabalho pode ser muito mais difícil para as mulheres. Independente da profissão. E especialmente para aquelas que desejam ser astronautas. E é esse o caso de Sarah, a protagonista vivida por Eva Green, que é selecionada para se juntar a uma missão espacial em Marte. O que a deixará por um período de um ano longe da filha de apenas oito anos Stella (Zélie Boulant).

Sim, porque quando a gente assiste um filme tradicional de astronauta - com homens -, o ambiente doméstico ou a existência de filhos dificilmente se convertem em uma dificuldade. Imbuídos em suas missões, esses sujeitos não tem medo de olhar pra trás, para encarar o futuro. O que importa é a heroica jornada. E o temor real será pelo desconhecido. Pelo que vem pela frente. É diferente do caso de Sarah - e a meu ver está aí a beleza do que a obra de Alice Winocour propõe: enquanto a astronauta está em treinamento na Agência Espacial Europeia de Colônia, as dificuldades vividas pela filha, à distância, lhe atormentam. Como ela conseguirá se focar no rígido treinamento para sobreviver em Marte se a pequena está indo mal na escola? Se ela está com saudade? Se está magoada com a própria mãe, já que talvez considere a escolha pela profissão como uma espécie de abandono?

E não bastasse todas essas dores intermitentes que carrega - físicas e psicológicas -, Sarah ainda precisa conviver com o machismo do meio, simbolizado pelo astronauta americano Mike Shannon (Matt Dillon) que, ao apresentar a tripulante da missão, a elogia afirmando que será bom ter uma mulher no grupo, já que "dizem que as francesas sabem cozinhar bem". É claro que cada personagem possui muito mais camadas num tipo de rara complexidade, mas assistir as reações sutis e cheias de nuances de Green, enquanto evolui dentro do programa, é um pequeno deleite. As suas dores estão todas lá, em cada olhar melancólico, em cada choro solitário. E como externá-las? Com quem? A presença de uma pedagoga (a sempre ótima Sandra Hüller) pode ajudar. Ou piorar tudo, dependendo do ponto de vista, já que quanto mais a criança se aproxima da profissional e se acostuma com a ausência da mãe, mais distante ela fica.

Excelente em utilizar o próprio contexto da narrativa para discutir seus temas, o filme ainda aposta em metáforas meio óbvias, mas que ajudam a consolidar a proposta da obra. Um bom exemplo disso é a existência de uma ferida na perna de Sarah, ocorrida após um acidente em seu treinamento. Uma ferida que custa a cicatrizar - assim como custará a sarar a dor de sua escolha. Mas uma escolha que é vital para o futuro. Especialmente para o futuro de outras astronautas. Outras mulheres, que também queiram dar prioridade para outros aspectos de sua vida, que não apenas a maternidade. Além disso, é uma obra que explora bem o quão exaustivos são esses treinamentos. Algo que, muitas vezes, passa meio despercebido em algumas produções - e que, aqui, ajuda a reforçar a ideia de que as mulheres são tão capazes quanto os homens, na hora de superar desafios. Enfim, A Jornada é uma experiência com pouquíssima nave espacial ou "closes" de planetas imensos. E muita divagação sobre questões terrenas. E é justamente aí que ele acerta.

Nota: 8,0

 

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Pitaquinho Musical - Placebo (Never Let Me Go)

Em uma conversa descompromissada com os amigos Bernardo e Henrique eu tentava explicar o sentimento gerado por The Prodigal, uma das canções do oitavo e mais recente trabalho do Placebo, Never Let Me Go: "é uma música mais Placebo que o Placebo, mas sem que pareça tanto assim com o Placebo". Na hora não sei se me fiz entender, mas isso era uma espécie de elogio à Brian Molko e companhia que, finalmente, deixavam para trás a péssima impressão deixada pelo pouco inspirado Loud Like Love, lançado num agora longínquo 2013. E, vamos combinar que, em tempos tão pesados e sombrios como os que vivemos - de ascensão da extrema direita, de pandemia, de guerra, de espionagem digital e de desastres climáticos, só pra ficar em alguns exemplos - faz todo o sentido os britânicos, que tanto souberam converter as dores do mundo em belas canções, lançarem um novo disco. E ainda oxigenarem ele com criativos instantes melódicos, mas sem deixar de lado a personalidade que foi a marca registrada de hits como Pure Morning, Every You Every Me, Special K e Nancy Boy. "Eu deixo pra este mundo uma canção esperançosa / Sem uma lágrima, vou me prolongar / Minhas dores curadas, minhas cicatrizes não mais ali / E cada batalha me fez forte" canta Molko na citada música que abre esse texto. Enfrentar a paranoia atual se faz também pela arte. E o Placebo fez e muito bem a sua parte.


quarta-feira, 20 de abril de 2022

Tesouros Cinéfilos - Los Angeles: Cidade Proibida (L.A. Confidential)

De: Curtis Hanson. Com Russel Crowe, Kevin Spacey, Guy Pearce, Kim Basinger, Danny DeVito e David Strathairn. Drama / Policial / Suspense, EUA, 1997, 138 minutos.

Policiais corruptos, redes de prostituição, imprensa sensacionalista, crimes misteriosos. Não é por acaso que Los Angeles: Cidade Proibida (L.A Confidential) parece uma grande homenagem aos filmes noir dos anos 50, já que os ingredientes estão todos lá. Dirigida por um Curtis Hanson no auge - é talvez o seu melhor trabalho - a trama é adaptada da obra de James Ellroy, tendo em seu DNA o espírito dos filmes de investigação típicos dos anos 90, daqueles que conduzem o espectador em uma espiral de eventos, muitos deles amparados em reviravoltas surpreendentes. Aqui, a cidade título é muito menos "angelical" do que se imagina que seja a capital mundial do cinema, de Hollywood. A cada possibilidade de diversão, de entretenimento, de encontro com estrelas há todo um submundo dominado por mafiosos, por tráfico, por investigadores de moral duvidosa, por assassinatos de difícil explicação - num tipo de ousadia meio coletiva, um atrevimento que se espalha pelas ruas, pelas calçadas, pelas frestas.

E é nesse complexo ecossistema que entrarão em rota de colisão três policiais que atuam na mesma divisão. O primeiro deles, o detetive Jack Vincennes (Kevin Spacey) é o sujeito corrompido que não tem vergonha de vender informações a céu aberto, sendo um de seus principais contatos um certo Sid Hudgens (Danny DeVito), proprietário do Hush Hush, uma espécie de pequeno tabloide que não resiste a uma capa sensacionalista (de preferência comprada). O segundo é o violento oficial Bud White (Russel Crowe), o tipo de sargento que não hesita em partir para a violência física na hora de obter informações de seus investigados. Entre os dois está o eticamente correto policial Edmund Exley (Guy Pearce) que, com seu cabelo sempre alinhadinho e seu óculos de nerd, tem a pretensão de moralizar uma instituição que parece atolada até o último fio de cabelo em negócios escusos. Isso sem contar a atuação tão violenta que beira o flerte com o fascismo.



E é justamente após uma ação policial truculenta contra um grupo de presos mexicanos, que o bicho pega. Após o acontecido sair na capa dos principais jornais - em mais um episódio desmoralizador para a polícia -, um dos envolvidos no incidente, no caso o policial prestes a se aposentar Dick Stensland (Graham Beckel), acaba morto em um bar no centro da cidade, ao lado de outros clientes, além de garçons e o gerente do local. Com poucas informações, o trio de investigadores tentará, cada um a sua maneira, obter as pistas que possam servir para que o quebra-cabeças possa ser montado. A chave para elucidar o mistério pode estar na elegante Lynn Bracken (Kim Basinger), que trabalha para uma rede de prostituição do submundo, que as converte em sósias de estrelas de Hollywood. Será por meio de Lynn que White chegará a um dos cabeças da rede de operação, um certo Pierce Patchett (David Strathairn), um investidor multimilionário que parece esconder uma série de segredos.

Sim, parece complexo. E talvez seja um pouco. São muitos personagens, idas e vindas, pistas sendo disponibilizadas aos poucos. Mas não deixa de ser absurdamente saboroso conferir um grupo de atores tão talentoso, destrinchando um roteiro tão afiado e tão repleto de diálogos inteligentes e virtuosos. É um deleite que é ampliado pelo charme noventista dos cenários - sejam os cubículos da delegacia, seja os pátios elegantes das casas -, que recriam o período de forma fervilhante, viva. Nesse sentido vale ficar atento aos detalhes, seja o nome de um filme que está em cartaz, seja um objeto cênico qualquer que possa dialogar de forma metafórica com aquilo que acompanhamos (como é o caso do arranha-céu absurdamente fálico que surge no decorrer da narrativa, em meio a mais uma das discussões envolvendo aqueles homens tão masculinizados). Talvez não fosse um fenômeno cultural chamado Titanic e esse clássico moderno teria tido mais "sorte" no Oscar de 1998. Restaram os prêmios de Roteiro Adaptado e Atriz Coadjuvante (para Basinger). O que não chega a ser pouco.


terça-feira, 19 de abril de 2022

Na Espera - Elvis (Filme)

Preciso confessar a vocês: o trailer de Elvis (Elvis) me deixou totalmente empolgado. Sim, eu sei que muitas vezes o trailer é pra isso mesmo, mas em se tratando da filmografia do diretor Baz Luhrmann - de Moulin Rouge: Amor em Vermelho (2001) e O Grande Gatsby (2013) - é possível esperar por uma experiência ainda mais fervilhante quando o assunto é o Rei do Rock. E acho que dá pra afirmar sem medo de errar que estava faltando um filme desse tamanho, que honrasse o legado do morador mais famoso da cidade de Tupelo, no Mississipi. Para os fãs da obra musical de Presley, a jornada será, claramente, um prato cheio. E pra quem curte grandes cinebiografias, também.



Com lançamento previsto, inicialmente, para o dia 14 de julho de 2022, o filme contará a história de Elvis (interpretado por Austin Butler) desde a sua infância como um completo desconhecido, passando pelo estrelato, até chegar ao seu precoce ocaso. Como uma espécie de antagonista/rival, o empresário Tom Parker (Tom Hanks) será o narrador da trama, juntando as peças dentro dos contextos histórico, político e cultural que incluem a jornada do astro na Terra. O trailer, como já disse, empolga, havendo uma grande chance de indicações ao Oscar, especialmente nas categorias técnicas. Claro, ainda é cedo. Mas, por aqui, estamos Na Espera!


Pérolas da Netflix - O Patrão: Radiografia de Um Crime (El Patrón, Radiografía de un Crimen)

De: Sebastián Schindel. Com Joaquin Furriel, Luis Ziembrowski, Guillermo Pfening e Mónica Lairana. Drama, Argentina / Venezuela, 2014, 99 minutos.

Quem assistiu e gostou do nacional 7 Prisioneiros (2021) vai encontrar em O Patrão: Radiografia de Um Crime (El Patrón, Radiografía de un Crimen) uma experiência semelhante sobre condições de trabalho degradantes e decisões extremas movidas pela violência. Se no filme brasileiro tínhamos o ambiente acinzentado de um ferro-velho como cenário - um espaço insalubre, sujo -, aqui temos um açougue como microcosmo, o que permite uma série de metáforas bastante gráficas que envolvem o manuseio de carnes de procedência duvidosa (pra não dizer podres mesmo). Na trama, o peão interiorano Hermógenes (Joaquin Furriel) encontra emprego numa rede de açougues de Buenos Aires. Semi-analfabeto e sem muito conhecimento sobre direitos e deveres envolvendo esse universo, o protagonista se sujeita a uma série de pressões e extorsões vindas de seu chefe, um certo Don Latuada (Luis Ziembrowski), que age na base da coerção com seus funcionários, quase no limite do comportamento miliciano.

Ocorre que no decorrer da narrativa não demoramos a saber que ocorreu um crime envolvendo os dois homens - com a trama derivando para uma espécie de drama de tribunal a respeito de injustiças relacionadas ao trabalho análogo à escravidão e a ineficiência do Estado na hora de analisar casos como esse. Interessado no caso, o advogado humanista Marcelo Di Giovanni (Guillermo Pfening) passará a investigar os motivos que teriam levado Hermógenes a assassinar o próprio chefe tentando, assim, atenuar sua pena. Voltando no tempo, também descobriremos detalhes da relação conturbada, que levariam o sujeito ao limite da tolerância - o que envolvia maus tratos também a sua esposa Gladys (Mónica Lairana), que passará a trabalhar como doméstica na residência de Latuada. O que ampliará a sensação de degradação já que, por não ter condições financeiras, o casal passará a habitar os fundos do açougue em que trabalham - um espaço pequeno, pouco higiênico, sem ventilação alguma.


Hábil na construção desse cenário um tanto caótico, o diretor Sebastian Schindel (do recente Crimes em Família, 2020) converte o diminuto local do açougue em um ambiente que beira a claustrofobia - sensação ampliada pelo hábito do patrão de receber carne deteriorada, aplicando na matéria-prima uma série de ingredientes e de produtos químicos (inclusive água sanitária) como forma de revitaliza-la para utilização em bifes empanados ou em carnes moídas. Não demora para que os clientes reajam e que a Vigilância Sanitária feche o local, o que só piora tudo, com Latuada cobrando do empregado não apenas os valores relativos a prejuízos financeiros, mas mantendo-o assim preso, enjaulado nesse contexto geral de precariedade. A presença de um açougueiro mais experiente, de nome Armando (German de Silva), não ajuda muito, já que é ele que ensina a Hermógenes as maracutaias do setor, o que naturaliza o processo como algo que, bom, enfim, acontece.

Baseado em fatos reais, o filme tem como grande destaque as atuações, e Furriel está tão bem na pele de Hermógenes que é quase difícil separa-lo do personagem, numa caracterização naturalista e absurdamente convincente (e se alguém me dissesse que se tratava mesmo de um empregado de açougue e não de um ator eu não hesitaria em acreditar). Tecnicamente bem executada, a obra também se utiliza da própria cenografia para uma série de rimas visuais, com a podridão sendo literalmente evidenciada a partir da carne recebida que parece, a cada dia, mais fétida, mais estragada, mais decomposta, numa alegoria perfeita para tudo o que se encontra naquele local em matéria de maus tratos e condições sub-humanas de sobrevivência. É uma experiência difícil, amarga, dolorida, quase para estômagos mais fortes. Mas quem se aventurar pela narrativa encontrará uma experiência que discute exploração no trabalho, contrastes sociais, pressões psicológicas, relações de dependência e, claro, os limites que levam o oprimido a reagir com brutalidade às violências impostas pelo opressor. Em tempos em que direitos trabalhistas e o sonho do retorno à escravidão parecem mover parte da elite, não é demais lembrar ao trabalhador a importância de lutar por aquilo que lhe pertence.