segunda-feira, 2 de maio de 2022
Cinema - Medida Provisória
quinta-feira, 28 de abril de 2022
Novidades em Streaming - Lingui (Lingui)
De: Mahamet-Saleh Aroun. Com Achouackh Abakar, Rihane Khalil Alio, Youssouf Djaouro. Drama, Chade / Alemanha / Bélgica / França, 2020, 89 minutos.
No ano passado fez burburinho nos meio alternativos o filme Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre (2020), sobre uma jovem adolescente que enfrentava uma verdadeira via crúcis para tentar interromper uma gravidez indesejada - que era resultado de um episódio de violência. E se já era difícil pra protagonista de uma obra que se passa nos Estados Unidos - onde as leis sobre o aborto variam de Estado para Estado, evidenciando uma certa esquizofrenia sobre o assunto -, imagina como não é em um País pobre da África. Especialmente em uma nação fortemente influenciada pela religião muçulmana, como é o caso do Chade. Assim, como no citado hit do cinema independente, em Lingui (Lingui) - o enviado do País ao Oscar desse ano -, o tema descriminalização do aborto está no centro da narrativa, colocando novamente os desígnios (ou os supostos planos) de Deus de um lado e a ciência ou mesmo a capacidade de decisão sobre o corpo de outro.
Sim, no Chade a prática do aborto é crime em qualquer circunstância. Até mesmo médicos que facilitam o processo podem ser incriminados, amargando cinco anos ou mais na cadeia. Assim, quando Amina (Achouackh Abakar) descobre que Maria (Rihane Khalil Alio), sua jovem filha de apenas 15 anos está grávida, resta apenas a clandestinidade como caminho. Aqui e ali, Amina percorre as ruas arenosas do subúrbio de N'Djamena determinada a encontrar quem faça o procedimento. Isso sem que os islâmicos que as rodeiam fiquem sabendo. Inconformada por não poder ir a escola a adolescente esconde, inicialmente, o segredo da própria mãe. Por vergonha, por medo - e a violenta reação da mãe ao saber da gravidez talvez explique o receio. Mas, mais adiante Amina e Maria perceberão que somente a partir da uma grande rede de sororidade conseguirão "enfrentar" a questão.
Amina, assim como Maria foi mãe aos 15 anos. Resultado de uma violência que a retirou do convívio da família e da comunidade religiosa. Taxada como impura por ter tido uma filha fora de um casamento - esse tipo de absurdo misógino que só é possível nos países mais conservadores (pra não dizer reacionários) -, a mulher vive à margem da sociedade, em uma habitação modesta, onde empreende produzindo peças de artesanato com restos de pneus. Caminho seguido também pela filha - e as cenas delas perambulando pelas ruas, tentando comercializar uma peça que seja de suas produções, são devastadoras. Buscando reunir o dinheiro para realizar o procedimento às escondidas, a dupla descobre, a muito custo, uma espécie de enfermeira clandestina que pode fazer o aborto. O medo é constante. As dúvidas permanentes. O surgimento de Fanta (Bryia Gomdique), a irmã de Amina, atrapalha. Mas também ajuda. As mulheres unidas, afinal, são a única possibilidade de mudança nesse cenário patriarcal.
Ao cabo trata-se de uma obra dolorida, mas que mantém um certo otimismo ao mostrar qual o caminho. Ou onde reside uma pontinha de esperança, que seja. Dirigido com maestria pelo sempre ótimo Mahamet-Saleh Aroun (do também excelente Um Homem que Grita, de 2010), é um filme que nos faz refletir sobre o absurdo de, em pleno ano de 2022, ainda haver a completa incapacidade de se discutir esse tema como ele realmente é: uma questão de saúde. Que envolve empatia, respeito ao outro, a seu corpo e suas decisões. Especialmente quando estamos diante de casos de violência - não só física, mas psicológica. Há uma cena em Lingui em que um sacerdote se recusa a um simples aperto de mão a Amina. Obrigando-a ainda a se cobrir (ela apenas estava com vestes de "ficar em casa"). O mundo precisa evoluir. E experiências cinematográficas como esta nos ajudam a, nem que seja, refletir. É um mérito da arte. Provocar, ousar, questionar. Pra alegria de quem curte cinema.
Nota: 8,5
terça-feira, 26 de abril de 2022
Tesouros Cinéfilos - Assassinato em Gosford Park (Gosford Park)
De: Robert Altman. Com Helen Mirren, Maggie Smith, Kristin Scott Thomas, Michael Gambon e Emily Watson. Drama / Suspense, EUA, Reino Unido, Itália, 2001, 138 minutos.
Se Luis Buñuel tivesse filmado alguma obra de Agatha Christie é possível afirmar que o resultado, muito provavelmente, seria algo próximo a Assassinato em Gosford Park (Gosford Park) - clássico moderno de Robert Altman, que está disponível na plataforma Mubi. Altman se caracterizou por suas obras de elencos numerosos, tramas múltiplas, roteiros engenhosos e diálogos riquíssimos. Isso sem contar a predileção por reflexões mais existencialistas, ainda que em meio a pequenos microcosmos sociais - seja num cenário de guerra, como no clássico M.A.S.H. (1970), seja nos bastidores de uma rádio que realiza sua última transmissão, como ocorre no divertidíssimo e derradeiro A Última Noite (2006). Assim, para o diretor, um filme sobre um crime ocorrido em uma elegantíssima casa de campo inglesa no começo dos anos 30 do século passado, não é apenas um suspense pelo suspense, em que cabe ao espectador descobrir o assassino. Aqui tem-se uma experiência que desnovela a mesquinharia da aristocracia, ao mesmo tempo em que faz uma crítica corrosiva a essa elite tão ambiciosa quanto patética.
Sim, porque na casa de Gosford Park, cada convidado para o final de semana em companhia dos anfitriões William (Michael Gambon) e Sylvia McCordle (Kristin Scott Thomas) parece ter seu próprio interesse. E interesse financeiro, de preferência - seja a irmã falida que vive de uma pensão (a sempre ótima Maggie Smith), o cunhado totalmente inseguro que deseja ampliar os seus negócios (Tom Hollander) ou o produtor de filmes de Hollywood vivido por Bob Balaban. Nesse sentido, a reunião para luxuosos almoços e jantares e algumas atividades no campo - caso de uma caçada a faisões - parecem apenas desculpa para comportamentos presunçosos e uma existência de aparências, especialmente no que diz respeito à relação com mordomos, governanta, cozinheira e todos os outros criados. Fofocas, segredos prestes a vir à tona e outras intrigas vão dando movimento à narrativa, que flui de forma bem amarrada, mesmo em um universo de tantos personagens.
Aliás, quando o filme começa é quase impossível não ficar confuso com tantos cômodos, escadas e salões e tantas condessas, lordes, baronesas e comandantes circulando em meio a empregados que parecem tão perdidos em suas atribuições quanto o espectador. Mas Altman vai facilitando o nosso trabalho conforme a trama avança, apresentando cada núcleo aos poucos, nos deixando familiarizados com as figuras - e suas personalidades. É o caso por exemplo da ressentida Constance (Smith), que não hesita em reclamar de absolutamente tudo - da música tocada, ao tipo de geleia oferecida no café da manhã -, e do misterioso criado Henry Denton (Ryan Philippe) que, com seu ousado comportamento, trafega com naturalidade em meio aos ambientes que seriam destinados apenas à burguesia. É nesse contexto meio caótico que relações se misturam, pessoas distintas se encontram, classes lutam e interesses colidem. E um assassinato inesperado acontece. Tornando todos que ali se encontram em potenciais suspeitos.
Sim, esse tipo de narrativa até não chega a ser novidade, mas a personalidade que Altman imprime a sua história não apenas lhe concederia o Oscar na categoria Roteiro Original, na cerimônia de 2002, como lhe renderia outras sete nominações - duas delas para Helen Mirren e para a já citada Maggie Smith. É, ao cabo, uma experiência divertida e sinuosa, cheia de curvas meio imprevisíveis em que, para nós, só resta o deleite. Há um componente metalinguístico que costura a narrativa e que envolve o diretor de Hollywood que está acompanhado do astro de cinema Ivor Novello (Jeremy Northam). O que converte a experiência em um filme dentro do filme sobre um sujeito que deseja realizar uma história envolvendo um grupo de aristocratas em um casarão, que precisam lidar com a ocorrência de um assassinato. É só uma pitada a mais do debochado diretor, que entrega uma série de outras inesperadas piadas e comentários sociais sarcásticos, como na sequência envolvendo um prosaico "copo de leite". A quinta série pira. E o cinéfilo vibra. Vale (re)descobrir.
segunda-feira, 25 de abril de 2022
Novidades em Streaming - A Jornada (Proxima)
De: Alice Winocour. Com Eva Green, Matt Dilon, Zélie Boulant e Sandra Hüller. Ficção científica / Drama, Alemanha / França, 2020, 108 minutos.
"Estamos nos preparando para ir. Mas isso não é o mais difícil. O mais difícil é a volta, quando percebemos que vida continua sem a nossa presença." Quem acompanha o Picanha de perto já sabe que a ficção científica com uma pegada mais existencialista costuma nos tocar. E ainda que em A Jornada (Proxima) - disponível na Amazon Prime - a abordagem não seja assim tão filosófica, aqui temos um filme que funciona como uma boa desculpa não apenas para discutir de forma simbólica o rompimento do cordão umbilical entre mães e filhos, mas também como o mercado de trabalho pode ser muito mais difícil para as mulheres. Independente da profissão. E especialmente para aquelas que desejam ser astronautas. E é esse o caso de Sarah, a protagonista vivida por Eva Green, que é selecionada para se juntar a uma missão espacial em Marte. O que a deixará por um período de um ano longe da filha de apenas oito anos Stella (Zélie Boulant).
Sim, porque quando a gente assiste um filme tradicional de astronauta - com homens -, o ambiente doméstico ou a existência de filhos dificilmente se convertem em uma dificuldade. Imbuídos em suas missões, esses sujeitos não tem medo de olhar pra trás, para encarar o futuro. O que importa é a heroica jornada. E o temor real será pelo desconhecido. Pelo que vem pela frente. É diferente do caso de Sarah - e a meu ver está aí a beleza do que a obra de Alice Winocour propõe: enquanto a astronauta está em treinamento na Agência Espacial Europeia de Colônia, as dificuldades vividas pela filha, à distância, lhe atormentam. Como ela conseguirá se focar no rígido treinamento para sobreviver em Marte se a pequena está indo mal na escola? Se ela está com saudade? Se está magoada com a própria mãe, já que talvez considere a escolha pela profissão como uma espécie de abandono?
E não bastasse todas essas dores intermitentes que carrega - físicas e psicológicas -, Sarah ainda precisa conviver com o machismo do meio, simbolizado pelo astronauta americano Mike Shannon (Matt Dillon) que, ao apresentar a tripulante da missão, a elogia afirmando que será bom ter uma mulher no grupo, já que "dizem que as francesas sabem cozinhar bem". É claro que cada personagem possui muito mais camadas num tipo de rara complexidade, mas assistir as reações sutis e cheias de nuances de Green, enquanto evolui dentro do programa, é um pequeno deleite. As suas dores estão todas lá, em cada olhar melancólico, em cada choro solitário. E como externá-las? Com quem? A presença de uma pedagoga (a sempre ótima Sandra Hüller) pode ajudar. Ou piorar tudo, dependendo do ponto de vista, já que quanto mais a criança se aproxima da profissional e se acostuma com a ausência da mãe, mais distante ela fica.
Excelente em utilizar o próprio contexto da narrativa para discutir seus temas, o filme ainda aposta em metáforas meio óbvias, mas que ajudam a consolidar a proposta da obra. Um bom exemplo disso é a existência de uma ferida na perna de Sarah, ocorrida após um acidente em seu treinamento. Uma ferida que custa a cicatrizar - assim como custará a sarar a dor de sua escolha. Mas uma escolha que é vital para o futuro. Especialmente para o futuro de outras astronautas. Outras mulheres, que também queiram dar prioridade para outros aspectos de sua vida, que não apenas a maternidade. Além disso, é uma obra que explora bem o quão exaustivos são esses treinamentos. Algo que, muitas vezes, passa meio despercebido em algumas produções - e que, aqui, ajuda a reforçar a ideia de que as mulheres são tão capazes quanto os homens, na hora de superar desafios. Enfim, A Jornada é uma experiência com pouquíssima nave espacial ou "closes" de planetas imensos. E muita divagação sobre questões terrenas. E é justamente aí que ele acerta.
Nota: 8,0
sexta-feira, 22 de abril de 2022
Pitaquinho Musical - Placebo (Never Let Me Go)
Em uma conversa descompromissada com os amigos Bernardo e Henrique eu tentava explicar o sentimento gerado por The Prodigal, uma das canções do oitavo e mais recente trabalho do Placebo, Never Let Me Go: "é uma música mais Placebo que o Placebo, mas sem que pareça tanto assim com o Placebo". Na hora não sei se me fiz entender, mas isso era uma espécie de elogio à Brian Molko e companhia que, finalmente, deixavam para trás a péssima impressão deixada pelo pouco inspirado Loud Like Love, lançado num agora longínquo 2013. E, vamos combinar que, em tempos tão pesados e sombrios como os que vivemos - de ascensão da extrema direita, de pandemia, de guerra, de espionagem digital e de desastres climáticos, só pra ficar em alguns exemplos - faz todo o sentido os britânicos, que tanto souberam converter as dores do mundo em belas canções, lançarem um novo disco. E ainda oxigenarem ele com criativos instantes melódicos, mas sem deixar de lado a personalidade que foi a marca registrada de hits como Pure Morning, Every You Every Me, Special K e Nancy Boy. "Eu deixo pra este mundo uma canção esperançosa / Sem uma lágrima, vou me prolongar / Minhas dores curadas, minhas cicatrizes não mais ali / E cada batalha me fez forte" canta Molko na citada música que abre esse texto. Enfrentar a paranoia atual se faz também pela arte. E o Placebo fez e muito bem a sua parte.







