sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Cinema - Ad Astra: Rumo às Estrelas (Ad Astra)

De: James Gray. Com Brad Pitt, Tommy Lee-Jones e Ruth Negga. Ficção Científica, China / EUA, 2019, 123 minutos.

A ficção científica existencialista é um dos subgêneros mais fascinantes do cinema. Por meio de toda a parafernália tecnológica, de efeitos especiais, ação (por vezes), há um enorme potencial humano a ser explorado naquele universo espacial, tão grandioso quanto misterioso. Um dos milagres que uma equipe de filmagem pode (e deve) realizar é a imersão do espectador naquele mundo, tornando o que vemos em tela (grande, de preferência) algo crível. Aquele monte de imagens em movimento, luzes, cores, sons e músicas, por si só devem provocar alguma reação: estranheza, medo, emoção, mesmo que não saibamos exatamente o que estamos presenciando - o que muitas vezes pode ser um revés para aqueles que buscam um entretenimento escapista com algumas explosões e sons mirabolantes, o que definitivamente não é o caso deste maravilhoso Ad Astra, embora algumas cenas certamente deixarão expectadores boquiabertos pelo seu virtuosismo.

Mais recente filme do cineasta James Gray (Amantes, Z: a cidade perdida, Era uma vez em Nova York) em parceria com o astro Brad Pitt, que vem se dedicando a estrelar/produzir cada vez mais projetos autorais/ousados/maduros, Ad Astra (que no português recebeu o subtítulo rumo às estrelas) desde já entra no rol das grandes obras do gênero, e compará-lo a clássicos do cinema como 2001: uma odisséia no espaço, Solaris, e o recente A Chegada, não deve ser encarado como exagero. Partindo de uma premissa simples, com poucos personagens e diálogos, o que importa aqui - para além da resolução - são as questões levantadas e o meio utilizado para nos fazer refletir sobre o que é dito (muito pouco) e mostrado. Adotando um tom sóbrio e minimalista (assim como seu personagem principal), são nas pequenas inflexões e "explosões" que vamos dissecando o enorme conflito interno de Roy McBride (Pitt), astronauta que, num futuro indefinido, após testes psicológicos extremos que provam sua habilidade de não se deixar abater pelo mundo exterior (sua pulsação dificilmente passa dos 60 batimentos por minuto, mesmo em situações de perigo), é enviado para uma missão secreta ao espaço, com escala pela Lua e em direção à Netuno, lugar onde provavelmente se encontra vivo o pai, H. Clifford McBride (Jones), e cujo encontro poderá encerrar uma série de catástrofes que estão afetando o planeta Terra devido à busca de recursos em outros planetas.


Abandonando tudo que o detinha em sua vida terrena, inclusive os afetos, a jornada significaria para o misantropo Roy uma oportunidade ímpar de finalmente se ver livre de tudo aquilo que procurava manter distância: o teatro social ao qual estava, desde o nascimento, fadado a viver - seja num sorriso para um colega de trabalho, num aperto de mão, um esbarrão em alguém, ou em um relacionamento amoroso. Eu não tenho escolha, diz, ao aceitar a missão. Além disso, a possibilidade de um reencontro com o pai, cuja relação pouco se sabe, poderia ser uma forma de encarar traumas passados e fazê-lo compreender o ódio que baseou grande parte de suas convivências, o que talvez justificaria o escudo que Roy vestiu (e continua vestindo) durante a maior parte de sua vida. É interessante como essa carcaça que o envolve nas relações humanas faz com que vidas sejam literalmente sacrificadas naquela missão espacial, em uma irracionalidade comparada ao homem primitivo - algo que levamos milhares de anos para conseguir evoluir mas que ainda deixa resquícios biológicos - impulso este que tentamos manter sob controle mas que talvez explique como, em um mundo pautado pelo individualismo e a competição, tendemos a ficar anestesiados com os maiores absurdos que volta e meia acontecem em nosso entorno - como a morte de crianças inocentes, por exemplo. Nós não temos escolhas, a não ser nos alienar - diria o personagem de Pitt, em uma visível - e covarde - forma de autodefesa.

Mas é no terço final onde a obra atinge o sublime ao lentamente revelar as camadas escondidas, quebrando a parede que isolava o personagem principal durante o tempo que pudemos conhecê-lo. O encontro com o pai revela muito dizendo muito pouco: da cegueira que nos aflige quando, na ânsia em procurar vida inteligente fora da Terra, acabamos por esquecer das pessoas em nosso entorno, "vida inteligente" esta que pode muito bem ser um projeto, a busca de sucesso profissional, de riqueza, que quase sempre relaciona-se à ambição e à vaidade. Ao tentarmos castrar nossos instintos e sentimentos como forma de obter controle sobre a própria vida e sobre as coisas, podemos estar perdendo talvez o que de melhor podemos oferecer, aquilo que nos define como seres humanos. E neste ciclo que se repete indefinidamente não há como escapar da ironia de termos que cortar o cordão umbilical deixando, de forma inversa, aqueles que nos deram a vida partir - como uma cena lindamente sugere e, de forma transformadora, apresenta uma catarse sufocada na qual, como o personagem Chris de Na Natureza Selvagem tragicamente se dá conta, poucos tem o privilégio de reconhecer: de que nem sempre estamos focados somente no que é importante. E é maravilhoso perceber que, em um espaço infinito, há a representação de algo tão universal naquele homem que, representando toda a humanidade, ao ser colocado na escala significaria apenas um grãozinho de areia em um deserto gigantesco. E justamente por sermos tão pequenos é tão incrível reconhecer a probabilidade quase nula de pararmos lado a lado de outros grãos tão pequenos como nós, mas com um universo tão grande para ser explorado dentro de cada um. E é por isso que é um milagre, e um privilégio, conviver com cada pessoa que cruza por nossas vidas, tentando ser alguém melhor e, quem sabe, como a imagem que muito bem podia fechar o filme sugere, se juntar aos bilhões de estrelas em uma paisagem que ecoará por muitas gerações.

Nota: 9,0


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Um Agradecimento aos Nossos Visitantes

O Picanha Cultural está prestes a completar o seu quinto ano de vida - o aniversário é agora em dezembro. E para nós não poderia haver satisfação maior do que abrir o site e perceber que uma média de 500 visitantes diários tem nos acompanhados nas nossas "aventuras" cinéfilas e musicais. O Henrique e eu não recebemos NADA pra fazer a página É tudo na mais pura paixão - o que explica também a nossa completa falta de habilidade para tornar esse espaço mais atrativo. Dificilmente a gente fala de nós aqui, mas o que a gente quer é agradecer vocês que nos acompanham! Quando a gente olha pro Picanha a gente sente que ele é um espaço legal, feito a nossa maneira, na raça, sem patrocínio, sem rabo preso, com muita opinião e tentando elaborar tudo com o menor grau de presunção possível.

De vez em quando algum amigo, colega de trabalho, conhecido comenta sobre algo que leu no Picanha ou que pretende ler e, para nós, vocês nem imaginam, isso nos faz ganhar o dia. É o combustível para que sigamos falando sobre essas paixões que nos arrebatam. Hoje, sabe-se lá por que, o site teve quase dois mil views! E neste mês foram mais de 20 mil views até o momento. É o que nos faz desejar mais dez, quinze, vinte anos de página. Valeu moçada! Voltem sempre!


Palco Picanha - A Mulher Arrastada

De: Diones Camargo e Adriane Mottola. Com Celina Alcântara e Pedro Nambuco. Drama, Brasil, 2018, 50 minutos.

O debate público sobre violência e abuso policial poucas vezes esteve tão em alta. Em praticamente todas as semanas (pra não dizer dias) somos surpreendidos com notícias a respeito de operações militares desastrosas em favelas ou morros, que resultam no assassinatos de civis que, invariavelmente, são pobres e pretos. E em governos autoritários como o de Bolsonaro e de Wilson Witzel, este tipo de prática parece ter sido ampliada. Na chamada guerra contra o tráfico - que também poderia ser chamada de guerra contra o POVO - não há limites para a violência. Vale tudo. Guarda-chuvas podem ser confundidos com armas e trabalhadores com bandidos, com a população vulnerável se transformando no "inimigo" a ser combatido. E assim morrem diariamente Ágathas, Kauans, Amarildos, Lucianos, Evaldos e tantos outros que viram apenas manchete. Estatística. Sem comoção. Sem dor. Apenas mais um que vai, por que assim é a vida, né?

O que a perturbadora peça de teatro A Mulher Arrastada faz é jogar luz sobre um desses tantos episódios de violência envolvendo uma polícia despreparada, que trata pessoas comuns como bandidos, de acordo com a matiz de sua pele. Exibida no Teatro do Sesc na noite de quarta-feira (25/09), como parte da programação do Palco Giratório, a peça resgata a história de Cláudia Silva Ferreira que não apenas foi morta pela polícia num dia qualquer de março de 2014: ela ainda teve o seu corpo praticamente desfalecido arrastado pelo camburão por quase MEIO QUILÔMETRO. E foi justamente por causa desse episódio grotesco - há imagens na internet que eu me recuso a assistir, sinceramente -, que Cláudia, trabalhadora, casada, mãe de família, proprietária de um corpo de todos os seus "pedaços" se transformou, para a mídia, apenas na "mulher arrastada". Sem nome. Coisificada. Como muitas vezes são os pobres e pretos que morrem, reduzidos à condição de objeto. E aí está um dos tantos subtextos possíveis, nessa impressionante obra que, não por acaso, tem sido premiada Brasil afora, desde que estreou no ano passado.


"Competir com a realidade seria muito difícil, então tivemos de reimaginar esse episódio abominável, para tornarmos ele catártico para o público", explicou a atriz Celina Alcântara em um pequeno bate-papo após a exibição da peça. Foi assim que o roteirista Diones Camargo e a diretora Adriane Mottola chegaram ao cenário - composto apenas por alguns biombos e uma espécie de maca usada em necrotérios -, com o público disposto como se estivesse em uma arena. O uso da luz e do som constroem uma ambientação claustrofóbica, incômoda, daquelas que faz o espectador se remexer o tempo todo na cadeira, conforme o episódio é reencenado. Os fatos não são apresentados em ordem cronológica: a peça inicia com o ator Pedro Nambuco, que interpreta o policial, proferindo uma série de frases aparentemente desconexas, que dão conta de sua confusão mental, enquanto trafega nervosamente por um canto do cenário, em meio ao público que está ali confinado - como se estivesse em uma espécie de "ônibus imaginário".

E este, no fim, é um dos tantos méritos da obra. Há muita simbologia. E muita simbologia que até nos escapa. Em dado momento, ainda no preâmbulo, o policial abraça Cláudia (Celina), como se esta fosse uma "refém" dele. E não seriam os pretos, os pobres, o povo, reféns reais desse tipo de política policial que lhes destrói as vidas? Em meio ao espetáculo, Celina realiza uma espécie de comovente monólogo em que chama a atenção para o absurdo do episódio, com o espectador imerso em um ambiente de dor, daqueles em que é difícil não se comover. Tudo ocorrendo com o policial circulando em meio a plateia como se fosse um espectro que reflete cada um de nós que, afinal de contas, pouco fazemos para que o racismo estrutural, institucionalizado, e mesmo a violência contra a mulher ou a misoginia possam ser refutados. Ou minimamente discutidos. Trata-se de uma peça arrebatadora, curta, daquelas que mete o dedo na ferida e que faz todo o mundo ficar paralisado em seu ato final. A pergunta que fica é: até quando? Sem resposta, o que fica é o gosto amargo, enquanto a escuridão (e a inquietação) nos invade.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Grandes Filmes Nacionais - Serras da Desordem

De: Andrea Tonacci. Documentário, Brasil, 2006, 130 minutos.

Não é preciso avançar muito em pesquisas no Google para que se obtenham informações diversas sobre massacres de povos indígenas no Brasil, invasões e tomadas de terras, incêndios em florestas ou assassinatos de líderes de tribos - especialmente em um País comandado por um Bolsonaro. Ainda que a prática não seja exclusividade deste governo, a volúpia com que parecem crescer o número de casos desse tipo em nosso território, dá conta de uma política de exclusão de povos tradicionais ou de famílias em vulnerabilidade social. Sem apoio federal e sem qualquer tipo de proteção, resta aos índios tentar se defender por conta em uma luta que é, por demais, inglória. Bom, o que dizer do atual diretor de Administração e Gestão da Funai, Fernando Carlos Rocha, que considera absurda a ideia de demarcar terras indígenas? O cenário é desolador, de fato.

E é talvez por isso que filmes como Serras da Desordem, do italiano Andrea Tonacci (do premiado curta-metragem Blá Blá Blá), ressurjam como verdadeiros documentos atemporais a respeito dos sistemáticos ataques sofridos pelos índios, vamos combinar, desde o nosso "descobrimento". Durante a Ditadura Militar, muitos fazendeiros se sentiram legitimados para atentar contra os povos tradicionais, tomando suas terras na marra para utilização no agronegócio (nada diferente do que ocorre nos dias de hoje). Foi o que ocorreu com a tribo Awa-Guajá do índio Carapirú, em 1978, quando seu grupo familiar foi atacado e morto por ambiciosos madeireiros. Único sobrevivente, Carapirú foge do local empreendendo uma longa jornada de 10 anos e mais de dois mil quilômetros de distância pela mata, até ser encontrado por moradores de uma pequena comunidade no interior da Bahia.


Acolhido, acaba chamando a atenção de lideranças do Governo Federal, que enviam primeiramente representantes do Incra e, depois, da Funai para recolhê-lo. É assim que Carapirú vai parar em Brasília, levado pelo sertanista Sydney Possuelo para, mais tarde, numa reviravolta "hollywoodiana" envolvendo um filho que ainda está vivo, retornar para o seu antigo "lar". É uma história com começo meio e fim narrada de forma contemplativa, bucólica, num misto de documentário e ficção e que utiliza a pequena tribo do protagonista - bem como suas interações naturalistas com a fauna e a flora local -, como um microcosmo para a questão maior dos indígenas. Há um simbolismo forte em cada sequência, com o tempo passando diferente nesse contexto simbiótico, gerando no espectador um estranhamento natural por aquilo que é considerado culturalmente avesso e que o "homem branco", adepto do colonialismo, fará de tudo para modificar, seja colocando roupas em Carapirú ou ensinando-o a usar talheres e o vaso sanitário.

Com longos planos sequência, Tonacci faz com que sejamos observadores (quase) participantes das vivências e desventuras de Carapirú. Em certo sentido, o formato adotado pelo diretor, a paciência complacente com que narra cada episódio, sem qualquer tipo de explicação relativa a saltos temporais, pode não ser fácil para todos os paladares cinéfilos. Propositalmente longa, a obra versa nas suas entrelinhas sobre passagem do tempo, diferenças culturais, ganância e até amizade - que se sobrepõe de forma comovente às barreiras da língua (e ver um Carapirú amistoso, amoroso e sorridente com todos a sua volta é algo não apenas enternecedor: é cativante, surpreendente, idílico). Nesse sentido, a vitalidade do protagonista (que recria as cenas vividas por ele mesmo, no passado) serve como um contraponto para um universo em que as motosserras, os tiros, o sangue e a brutalidade dos ditos "racionais", fala mais alto. Uma obra ao mesmo tempo econômica e complexa, sobre um tema que segue mais do que atual.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Novidades em Streaming - Keane (Disco)

Finalmente o hiato acabou e os fãs do Keane - nós aqui do Picanha estamos entre eles -, podem comemorar! Os ingleses lançaram na última sexta-feira (20/09) o álbum Cause and Effect - o quinto da carreira e que interrompe um longo hiato de sete anos desde o lançamento do ótimo Strangeland. Sem grandes mudanças na sonoridade, o novo registro deve agradar os adeptos do estilo "sintetizadores melancolicamente bucólicos", que estabelecem o coletivo como um fiel representante da música pop, cruzada com a alternativa. Aqui e ali o amadurecimento do grupo, que já tem mais de quinze anos de carreira, se sobressai, com letras versando sobre relacionamentos que acabam, crises de meia idade e até negligência nos deveres relacionados aos filhos. Tom Chaplin segue cantando como um guri - a despeito da severidade agora alcançada - e, nas recém iniciadas audições, algumas canções já entram para as favoritas do ano - o caso de Phases, I'm Not Leaving e Put the Radio On. Bem-vindos de volta!




Cinema - A Música da Minha Vida (Blinded By The Light)

De: Gurinder Chadha. Com Viveik Kalra, Aaron Phagura, Dean-Charles Chapman e Hayley Atwell. Comédia dramática, Irlanda do Norte / Grã-Bretanha / EUA, 2019, 117 minutos.

Baseado em uma história real, A Música da Minha Vida (Blinded By The Light) é o maior candidato a feel good movie desse ano. O filme não apenas se passa nos anos 80: ele parece dos anos 80, tendo aquele charme brega que faz lembrar os clássicos adolescentes do John Hughes - caso de Curtindo a Vida Adoidado, por exemplo. Na trama acompanhamos o jovem Javed (Viveik Kalra), um adolescente de ascendência paquistanesa que mora em Luton, na Inglaterra comandada com mão de ferro por Margaret Thatcher. De família conservadora, o rapaz sonha em ser escritor, sendo impedido pelo pai de frequentar festas, namorar, ouvir músicas que não sejam as de sua terra natal ou qualquer outra atividade prosaica para um adolescente de 16 anos. Sua vida se resume a ir de casa para a escola e da escola para casa - ele mente que está fazendo disciplinas de economia, quando na verdade está estudando letras e se preparando para entrar para a faculdade.

Mas a sua vidinha vira de ponta-cabeça quando ele conhece o excêntrico amigo Roops (Aaron Phagura). Em meio aos sintetizadores que movimentavam o ano de 1987 - as festas eram regadas a muito Pet Shop Boys, Human League, Level 42, entre outras -, Roops entregará a Javed duas fitas K7 com músicas do Bruce Springsteen. Em uma noite de solidão, de cerceamento da liberdade e de descrença na literatura que produz, Javed coloca uma das fitas para rodar. Ao som de Dancing In The Dark, cantada pela voz gutural do The Boss, uma epifania: ele não pode mais continuar nessa cidade. Precisa alçar outros voos, buscar seus objetivos, desatar o cordão umbilical que lhe une a um modelo de família antiquado e que lhe castra. Você não pode começar um incêndio sem uma faísca, afinal. E será em torno desse arco dramático, que essa história divertida e comovente em igual medida, se desenrolará.


A maioria das pessoas sabe que as canções de Springsteen muitas vezes versaram sobre a frustração da vida nas pequenas cidades, a luta dos operários para pagar as contas - seus pais eram trabalhadores de classe baixa -, seus anseios, motivações e romances de "beira de estrada", em meio a um cenário de instabilidade social. Não por acaso, as classes menos abastadas sempre se identificaram com o estilo direto do compositor, um cronista capaz de confrontar o mainstream ou o status quo. E esse espírito mais "político", de análise mais macro de um contexto social, também é o que move os personagens do filme. Javed precisa, alguns punhados de vezes, driblar os novos (e orgulhosos) fascistas ingleses que investem contra os imigrantes com um tipo de reacionarismo latente. Já a candidata a namorada de Javed, a simpática Eliza (Nell Williams), surge nas ruas se manifestando em defesa da libertação de Mandela. O antagonismo entre racismo e xenofobia e tolerância e empatia está em cada curva da película dirigida pela indiana Gurinder Chadha. E nos faz pensar no contexto político/social/cultural atual que estamos vivendo.

E, vamos combinar que isto, por si só, é um mérito, em um filme que prima pela leveza e que é conduzido sem excessos, comovendo de forma orgânica, natural. A luta de Javed tem a ver com os conflitos entre gerações, mas também joga luz sobre algo maior: a necessidade de superação de preconceitos na busca por espaço. Em dado momento o pai de Javed lhe inquire: quantos escritores existem no Paquiestão? O jovem fica sem resposta. Mas a quebra de paradigma se torna uma meta. Até pouco tempo atrás não havia mulheres, negros ou gays em cargos públicos e isto agora está mudando. Na jornada transformadora de Javed, também está a busca por alterar aquilo que lhe propõe o destino. O que ele faz com sua força de vontade, com seus méritos e também com o apoio de outras pessoas, como a otimista professora Ms. Clay (Hayley Atwell). Um dia, garota, eu não sei quando / Nós chegaremos naquele lugar que tanto queremos ir / E caminharemos sobre o sol / Mas até lá, garota, / Vagabundos como nós, Baby, fomos feitos para fugir canta The Boss em Born To Run. De alguma forma, é o que move as intenções de Javed nesse pequeno grande trabalho.

Nota: 8,0

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Novidades em DVD/Now - O Mistério de Henri Pick (Le Mystère Henri Pick)

De Remi Bezançon. Com Fabrice Luchini, Camille Cottin, Alice Isaaz e Bastien Bouillon. Comédia / Drama, França, 2019, 100 minutos.

Quem gosta de literatura não pode deixar de assistir a esse despretensioso O Mistério de Henri Pick (Le Mystère Henri Pick). Trata-se de uma comédia leve, com algumas pitadas de suspense, em que acompanhamos a jornada de um crítico literário que tenta, a todo o custo, descobrir a verdade por trás de um livro escrito por um pizzaiolo, que se torna um inesperado best seller dois anos após a sua morte. O manuscrito do livro em questão é "descoberto" pela editora Daphne Despero (Alice Isaaz) quando, em uma visita ao seu pai, ela conhece uma biblioteca que abriga publicações rejeitadas por editoras. Fascinada pelo local, ela se encanta com um romance escrito por um certo Henri Pick - que tudo o que havia escrito em sua vida antes do livro, eram receitas que utilizaria em sua pizzaria. Com o apoio da família do falecido e acreditando no talento literário do sujeito, ela resolve publicá-lo. Resultado: o livro vira febre e imediatamente entra para a lista de mais vendidos na França.

O inesperado sucesso da publicação acaba por gerar certo fascínio pelo autor, que se torna famoso de maneira póstuma. Como forma de divulgar o livro, Daphne e a família de Pick - a viúva Madeleine (Josiane Stoléru) e a filha Joséphine (Camille Cottin) -, são convidadas para um talk show em que um presunçoso apresentador e crítico literário chamado Jean Michel (o sempre ótimo Fabrice Luchini), coloca em dúvida a história contada por todos. Pior: acredita que Henri Pick seja uma farsa e que, de quebra, não se trata do verdadeiro autor da obra. O mal-estar exibido ao vivo para a televisão francesa resulta na demissão de Jean Michel. Ao chegar em casa, sua mulher, insatisfeita com o seu comportamento e com a sua petulância, também o abandona. Sem nada para fazer (e pensar), que não seja o mistério envolvendo Henri Pick, ele vai até a pequena cidade francesa em que vivia o pizzaiolo: quer tentar de todas as formas solucionar o caso.


É a partir daí que acompanharemos uma pequena via-crucis de Jean Michel, que visitará não apenas o prédio em que ficava a pizzaria, mas também a casa dos parentes, cartas publicadas, antigos vídeos e até o cemitério em que Pick está enterrado, tentando conseguir alguma pista que denuncie o que está por trás desse escritor tão talentoso, que teria deixado apenas um livro tão genial. Divertido, o filme fará referências a um possível comportamento recluso do candidato a escritor - que faria leituras escondidas do poeta russo Alexandre Pushkin e que escreveria a conta-gotas no andar de cima do prédio da pizzaria (observando a torre da igreja). Algumas reviravoltas farão com que também questionemos a real existência de Pick como um escritor de talento - ainda que o comportamento absurdamente arrogante de Jean Michel, nos faça torcer para que ele, de fato, esteja errado.

Muito menos interessado em comover a plateia com grandes reviravoltas - a desse filme pode até ser previsível para alguns -, o filme do diretor Rémi Bezançon, ainda dá algumas alfinetadas no mercado literário, que é capaz de relegar para segundo plano obras com bom potencial, não tendo ainda escrúpulos em utilizar jogadas de marketing extremas para atrair a atenção de certos autores lançados. Com algumas piadas engraçadas envolvendo títulos de livros perdidos na biblioteca dos rejeitados, a película não julga seus personagens, parecendo compreender as dificuldades que envolvem não apenas o universo daqueles que resolvem se aventurar pelo mundo das letras, mas também dos críticos, que recebem um sem fim de livros novos para ler e que devem, afinal, fazer algum tipo de triagem para que sua atividade se torne, efetivamente, prazerosa. Assim como muitos livros agradáveis, esse não é um filme que vá mudar a nossa vida: mas passará ligeirinho e ainda nos arrancará alguns sorrisos.

Nota: 8,0

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Lançamento de Videoclipe - Elza Soares (Comportamento Geral)

A Elza Soares já é meio hors-concours aqui no Picanha - e é muito provável que seu mais recente disco, Planeta Fome, apareça novamente entre os cinco melhores do ano em nossa lista que será publicada em dezembro (quem já ouviu o trabalho sabe que isso NÃO É um spoiler!). E como forma de divulgar o álbum - o 34º de sua carreira -, a Rainha gravou um clipe para a canção Comportamento Geral (e que, na verdade, é uma regravação do Gonzaguinha que cabe direitinho para os tempos que vivemos). Dirigido por Henrique Alqualo e Marcos Hermes, o vídeo mostra Elza em meio a um desmanche de veículos, estabelecendo um contraste entre a sua figura suntuosamente etérea (e até futurisca) e o local poeirento e sujo que destrói veículos e outros equipamentos. Tudo isso, em meio a versos como Você merece / Tudo vai bem, tudo legal / Cerveja, samba e amanhã, seu Zé / Se acabarem teu carnaval. É pra dar aquela reanimada na quinta-feira!