Hipervigilância, inteligência artificial, onipresença das big techs, guerra cibernética, entretenimento alienante, ascensão da extrema direita e a consequente manipulação política. Vamos combinar que o pós punk soturno, urbano e de combustão meio lenta do Interpol nunca pareceu tão adequado aos tempos que vivemos, como em 2026 - e talvez não seja por acaso que a banda capitaneada por Paul Banks optou por olhar, por meio de This Mirror Weighs a Ton, com certo amargor para esse contexto em que parecemos a cada dia mais pessimistas, em um cenário de desinformação e de realidades distorcidas. Em linhas gerais o espelho pode "pesar uma tonelada", não apenas por aquilo que vemos, mas também por aquilo que parece deixar a nossa imagem deformada por conivência a certa banalização, especialmente frente ao fato de que meio que testemunhamos tudo, o tempo todo, em todo lugar. Sentimento reforçado pela ótima capa.
E talvez não seja por acaso que muitas das canções desse oitavo e mais recente projeto aludam à influência direta da tecnologia em nosso cotidiano. Um bom exemplo disso, pode ser percebido na sombria Iron City, uma espécie de balada metalizada ao piano, que parece simular uma espécie de diálogo entre o narrador que protege a sua família e uma IA, ao mesmo tempo em que tenta identificar se ela é benevolente ou hostil (Dormimos profundamente / E agora a incerteza dá lugar ao progresso). Outras músicas reforçam essas ideias que se espalham de forma melancólica, discutindo assuntos como violência midiática e exposição (Wounded Soldier), polarização em tempos digitais (Enemy), paranoia (See Out Loud) e introspecção e endurecimento emocional (na faixa-título). Verdade seja dita que o Interpol nunca deixou de ser relevante. Mas aqui talvez tenhamos o maior acerto desde o excelente El Pintor (2014).
Nota: 8,5

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