Dia complicado pra quem amanheceu querendo falar mal do novo disco do Muse, Will of the People. Até mesmo porque, vamos combinar, se tem uma banda que encontra matéria-prima farta no combo pandemia, colapso ambiental, guerra, ódio nas redes sociais, extremismo político (especialmente o de direita) e outros temas é o coletivo capitaneado por Matt Bellamy. Deixando um pouco de lado as firulas eletrônicas e os excessos de todo o tipo que marcariam trabalhos dispensáveis como Drones (2015) e Simulation Theory (2018), aqui, o coletivo recolhe os cacos que sobraram da nossa atual distopia para buscar uma sonoridade mais orgânica, de fácil digestão. Assim, não é difícil pra quem se formou musicalmente ouvindo clássicos modernos como e Black Holes and Revelations (2006) se apaixonar por canções pegajosas Ghosts (How Can I Move On) ou You Make Me Feel It's Halloween.
Já o single Compliance consegue ser mais Muse que o próprio Muse com seu sintetizador oitentista cheio de vigor, refrão grudento e uma letra que parte da perspectiva da existência de uma espécie de organização que pretende cooptar pessoas fragilizadas, com promessas de segurança, proteção, amparo e remoção da dor (Você está correndo com medo, você vai correr para os nossos braços / Venha se juntar ao nosso grupo, nós vamos mantê-lo a salvo de danos / Nosso soldado de brinquedo, você vai fazer o trabalho sujo). E, sinceramente, quando ouvimos músicas do tipo, é simplesmente impossível não pensar em certos grupos extremistas que atraem os vulneráveis com discurso alienante - algo bastante adequado aos nossos tempos. Sim, o Muse é uma banda política desde sempre. Mas em seu nono trabalho eles conseguiram unir o apocalipse às ótimas canções. Os fãs agradecem.
É muito provável que poucas bandas sejam tão "ame ou odeie" como o Muse. Quem gosta, costuma destacar o virtuosismo do grupo, o seu esforço em soar grandiloquente e pop ao mesmo tempo, sem esquecer do clima retrô/futurista que rege as composições. Quem não gosta, acha Matthew Bellamy um vocalista exagerado e a banda cheia de afetações, com sintetizadores excessivos (e repetitivos) e aquele clima rock de arena farofa capaz de irritar qualquer ouvinte do novo milênio. Para o bem ou para o mal, é um grupo que costuma chamar a atenção - sendo cada novo lançamento aguardado para ser louvado e atacado em igual medida. Aqui no Picanha nosso sentimento é curiosamente misto, já que não morremos de amores pelo quarteto. Mas há bons álbuns, casos de Origin Of Simmetry (2001) e Absolution (2003). Só que o disco que, até hoje, permanece inabalado no coração dos fãs, é o irretocável Black Holes and Revelations, de 2006.
Poucas vezes na história os ingleses parecem ter alcançado tamanha uniformidade em um registro - ainda que cada composição funcione surpreendentemente de maneira isolada. Com aparente consciência daquilo que representa em termos de personalidade no universo musical, Bellamy e companhia parecem se deleitar ao flertar com os mais variados estilos - da eletrônica "alienígena" ao pop radiofônico, passando ainda pelo rock progressivo. Canções como Starlight, por exemplo, não fariam feio em algum registro que compilasse as melhores canções dos anos 80 - ainda que o refrão (aliás, são dois refrões) represente o tipo de "explosão" típica que acompanharia o grupo por toda a carreira. Já Supermassive Black Hole, cantada por Bellamy em falsete, mais parece extraída de algum registro perdido do Prince, ainda no milênio passado (e não poderia haver melhor elogio do que esse, vamos combinar).
Outra canção que chama a atenção é Knights Of Cydonia - que mais parece saída de um daqueles antigos jogos de RPG e que determina o momento exato em que os aventureiros encontram o seu maior vilão - e a sonoridade, que lembra uma espécie de cavalaria se aproximando do espaço sideral, contribui para esse clima. Já Invincible talvez seja uma das mais doces e belas baladas já feitas pela banda - e talvez uma das únicas. Afeito desde sempre aos temas políticos, o Muse utiliza o registro também como um veículo para a crítica social a sistemas opressores e como comentário para uma sociedade tecnológica, fria, individualista e vigiada pelos governos - tipo de estratagema que se ampliaria até a chegada de Drones (2015), mais recente trabalho. Map Of The Problematique fala de maneira escancarada sobre o sentimento de isolamento (A solidão vai acabar / Quando essa solidão vai acabar?). Já Exo-Politics versa sobre teorias da conspiração, em meio a uma sociedade que permanece alienada e letárgica diante de tudo (Enquanto conspirações se espalham / Você irá fechar ou abrir sua mente / Ou permanecer hipnotizado?).
Ainda relativamente longe da pretensão que transformaria a banda quase em uma caricatura dela mesma, anos mais tarde, Black Holes and Revelations ainda é o tipo de disco que envelhece bem e é capaz de traduzir - talvez numa espécie de combo com o multipremiado (e já citado) Absolution (2003) - qual a verdadeira personalidade do grupo. Se aqui e ali, é possível perceber influências de artistas distintos como Queen, Depeche Mode, Radiohead ou o já citado Prince, isto também parece se dar pelo fato de Bellamy. o baixista Chris Wostenholme e o baterista Dominic Howard estarem menos preocupados com o hype. Espontâneo e excêntrico na mesma medida, dançante e cheio de guitarras enérgicas que nos fazem ir do velho oeste ao apocalipse em um piscar de olhos, o registro recebeu uma infinidade de críticas positivas - o semanário New Musical Express deu nota 9 (de 10) e a revista Q o avaliou com cinco estrelas. Já aqui no Picanha, não poderia ser diferente, já que o trabalho é um verdadeiro Lado B Classe A.
Quando o assunto é Muse, você já deve ter ouvido um dos mais famosos chavões: ou você ama ou odeia. Pois eu me atrevo a discordar desse lugar comum pelo simples fato de a banda capitaneada por Matthew Bellamy ser capaz de me provocar os dois sentimentos. Muitas vezes ao mesmo tempo! E até no mesmo disco (pra não dizer na mesma música). Há momentos em que estou escutando algum dos trabalhos dos caras e penso: que baita grupo. Que riffs bem elaborados de guitarras. Que sintetizador bem colocado ali. Que efeito bem executado acolá. Que belo e emocionado refrão. Que grandiosidade! Em outras ocasiões o meu sentimento varia. Mas pra quê tanto exagero? Que troço mais choroso. Pra que esse GRITEDO? Troço chato do cacete. Por quê estou ouvindo isso se nunca gostei de música progressiva?
Se você se identificou com qualquer um dos sentimentos descritos acima, seja bem-vindo ao mundo do gostar ou não do Muse. E a novidade? No sétimo e recém-lançado álbum Drones, a coisa se mantém exatamente da mesma maneira. Estão lá as canções grandiosas, muitas vezes longas, verdadeiras epopeias capazes de versar sobre os mais variados temas modernos, com refrães grudentos e trabalho instrumental potente (ainda que não exatamente criativo), capaz de aproximar o grupo a outros similares do gênero hard rock. As canções parecem feitas para serem gritadas por hordas de fãs enlouquecidos estádios afora, fazendo um pouco de falta uma certa polidez que já fez parte da personalidade do trio em outrora - e quem já ouviu gemas como Starlight ou mesmo a (improvável) cover de Feeling Good sabe ao que me refiro.
Não é de hoje a predileção do grupo por temas relacionados a nossa atual sociedade, estando entre eles o poder exercido pelas instituições e pelo Governo como mecanismo de controle em relação aos cidadãos comuns, a crítica aos excessos armamentistas, o aquecimento global, a falsa ilusão da sensação de segurança, a tecnologia como suporte capaz de subjugar os sujeitos, a ambição pelo poder, a lavagem cerebral na política e a constante de opressão fomentada por todo o sistema a que estamos associados. Algo que, no caso de Drones, já pode ser observado na capa do trabalho. E, nesse sentido, ninguém pode acusar o Muse de não seguir fiel a um certo padrão temático (e sonoro), já que este tipo de abordagem era feita desde os ótimos discos Origin of Simmetry e Absolution, até chegar aos recentes The Resistance e The 2nd Law. Ainda que em diferentes escalas, evidentemente.
Oppression is persisting/ I can’t fight this brain conditioning/ Our freedom’s just a loan/ Run by machines and drones (algo como A opressão é persistente/ Eu não posso lutar contra esse cérebro condicionado/ Nossa liberdade é só um empréstimo/ Administrado por máquinas e drones) canta um angustiado Bellamy, para depois explodir em um persistente refrão, onde o vocalista canta repetidamente You can revolt, na música Revolt. O expediente se repete em Mercy: Absent gods and silent tyranny/ We're going under, hypnotized by another puppeteer/ And tell me why the men in cloaks always have to bring me down (que pode ser traduzido como Deuses ausentes e tirania silenciosa/ Estamos caindo, hipnotizados por outro manipulador/ E me diga porque os homens de capas sempre me colocam pra baixo). Há certamente alguns exageros no estilo wannabe-Radiohead, lá no meio, sendo a pretensiosa The Globalist, o maior exemplo. Mas o Muse passa o seu recado, enquanto os fãs seguem amando/odiando, de acordo com o dia. Ou a hora.