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terça-feira, 25 de agosto de 2020

Lasquinha do Bernardo - As Respostas Não Estão em Paris

Há sempre um desejo profundo escondido nos melhores sonhos e nas mais delirantes fantasias de sua alma. Dedicar-se a um instrumento, cuidar melhor da saúde, ter independência financeira, viajar pelo mundo, manter um cronograma comprometido de estudos ou até mesmo escrever um livro. É um enredo bastante comum e muito particular, a insatisfação com a realidade faz com que busquemos aquilo que um dia foi, ou continua sendo, nossa grande paixão. Contudo, acabamos esbarrando nos problemas mais comuns de uma vida ordinária, não temos tempo, não temos dinheiro, não temos algum conhecimento prévio necessário e, acima de tudo, não temos coragem para mudar ou reorganizar a rotina.

O cinema é uma fábrica redentora de desejos frustrados. Quase sempre os mais clichês possíveis, como o músico que sonha em ser um rock/pop star e é descoberto pelo produtor que passa pelas acinzentadas ruas de Londres, o artista plástico incompreendido pelo vulgo que é um sucesso depois de morto, o mochileiro solitário em busca de autoconhecimento (sempre na europa, afinal somente lá podemos encontrar a verdadeira cultura e filosofia) que vivencia o amor da sua vida e, claro, o ávido leitor classe média que sonha em escrever um clássico da literatura universal. Confesso que, sendo professor de literatura e produtor de conteúdo dedicado aos livros, muitas vezes me vi fantasiando uma grande palestra ou uma sessão de autógrafos na Feira do Livro de Porto Alegre, ao lado de grandes mestres da estirpe de Charles Kiefer, Luis Fernando Veríssimo, Milton Hatoum e Altair Martins, para ficar apenas nas “possibilidades reais” da vida. Enquanto isso, aqueles contos e poemas inacabados que - talvez - um dia se convertam em uma edição continuam escondidos e muito bem guardados nas gavetas virtuais do computador.


É comum desejarmos o nosso “Meia-Noite em Paris” particular, aquele momento em que os astros e os signos se alinham e o universo conspira para nossa felicidade, nos presenteando com as respostas mais reveladoras e com os mais didáticos acontecimentos, uma espécie de vida em modo tutorial, tão fácil, tão simples….e totalmente irreal. O filme de Woody Allen, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Original em 2012, é belíssimo ao apresentar a romântica, atual e nostálgica, Paris que, convenhamos, é cenário perfeito para qualquer obra, seja na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Gil Pender (Owen Wilson) é um roteirista de sucesso em busca de inspiração para finalizar o seu romance e que, amarrado junto à família de sua noiva Inez (Rachel McAdams), não consegue desenvolver sua escrita, não consegue encontrar a sua voz. Sobra dinheiro, sobra tempo, sobra técnica, mas lhe falta coragem. E nós, muito distantes do protagonista do filme, ficamos frustrados quando reconhecemos que Hemingway em pessoa não vai nos dar uma dica preciosa, nos mostrar uma técnica narrativa surpreendente. Pensamos em desistir quando percebemos que Salvador Dalí não vai nos convidar para saborear um bom vinho tinto e destilar toda sua genialidade em nosso favor.

Deixo aqui as epifanias hollywoodianas de lado para a necessidade de escrever o óbvio: as respostas não estão na astrologia, no acaso ou em Paris. A inspiração não é um objeto, mas um estado. Não é preciso sair em busca de um cálice sagrado, ou melhor, saia, procure, mas atente ao percurso. Estamos sempre tão focados em algum tipo de prêmio e esquecemos que o processo mais revelador e surpreendente é permitir-se vivenciar as experiências, liberando um espaço interno da nossa mente e coração. A vida real pode ser a prática mais inspiradora possível e as respostas estão nas suas dores, alegrias, vitórias e derrotas. Na teoria é bem mais fácil, há que se admitir, mas você pode estar em Londres, Berlim, Budapeste, em Roma ou Pequim, quase casado com a Rachel McAdams e ainda estar insatisfeito.


Jesse e Céline (Ethan Hawke e Julie Delpy) ou "o melhor casal da história do cinema", em “Antes da Meia-Noite”, percebem que a realidade, mesmo que dura, é melhor do que o mais improvável sonho de verão. Imagine você que Viena, Paris, Nova Iorque e Atenas não foram o bastante. A inspiração está em um táxi, em passeio durante a tarde, em uma mesinha de bar, na própria relação, nos seus filhos, em uma música ou em um filme de Woody Allen num sábado qualquer.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Tesouros Cinéfilos - Meia Noite em Paris (Midnight In Paris)

De: Woody Allen. Com Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cottilard, Michael Sheen, Tom Hiddleston, Corey Stoll, Kathy Bates e Adrien Brody. Comédia / Fantasia, EUA / França / Espanha, 2011, 93 minutos.

Existe uma obra do espanhol Salvador Dalí que se chama A Persistência da Memória. Você conhece ela: é o famoso quadro dos "relógios moles". O artista teria pintado ele em apenas cinco horas, em 1931: enquanto a sua esposa foi a cinema, se dedicou a sua arte. E pra mim é meio paradoxal pensar que uma tela executada em tão pouco tempo seja uma das mais importantes daquele período. E que diga tanto a respeito da permanência da arte. De como ela fica enquanto memória VIVA do passado. Dalí era um surrealista, então naturalmente suas obras vinham carregadas de forte simbolismo. De representações complexas e de significados diversos. No caso de A Persistência..., pode-se dizer que o quadro é metalinguístico: o tempo escorre. Mas fica. Como memória. Como no caso da obra de um artista. E talvez Meia Noite em Paris (Midnight In Paris) seja também sobre isso. Sobre nostalgia, sobre lembranças. Sobre artistas que se vão e sobre produções culturais que ficam. Eternizadas. Em nossas retinas.

Salvador Dalí (Adrien Brody) é uma das tantas figuras vistas em "carne e osso" na obra de Allen. Representam o passado sonhado e idealizado por Gil (Owen Wilson), um escritor de roteiros de cinema que acredita que o tempo bom - da efervescência cultural, de experiências transformadoras nas artes -, está simbolizado na Paris dos anos 20. Época em que figuras como Pablo Picasso (Marcial Di Fonzo Bo), Ernest Hemingway (Corey Stoll) e o casal F. Scott (Tom Hiddleston) e Zelda Fitzgerald (Allison Pill), trocavam "figurinhas" na casa de uma agitadora Gertrude Stein (Kathy Bates). Idealizar o passado, acreditando que aquele tempo era melhor que o presente: é isso que Gil faz. E, assim, acaba arrumando briga com a sua noiva Inez (Rachel McAdams), que vê no revisionismo do sujeito uma espécie de inadequação. Aliás, é após um desentendimento, que Gil resolve caminhar solitário pelas ruas da capital francesa, sendo transportado diretamente para esse universo em que materializará o encontro com os ídolos.



Na real, a meu ver, o filme é uma grande homenagem às artes. E sobre como as obras dos artistas que amamos permanecem conosco até hoje, mesmo após a morte de todos eles. Idealizar os anos 20 tem a ver com sonhar com as festas luxuosas dadas pelo Gatsby de Fitzgerald ou com os quadros oníricos de Dalí - caso do A Persistência da Memória. A gente tende a achar, afinal, que não se faz mais música como antigamente, que os filmes de hoje não são como os de outra época, cheios de grandes astros e estrelas. Mas será mesmo? Será que somos seres eternamente insatisfeitos TAMBÉM no que diz respeito ao consumo de produtos culturais? SE fosse para este jornalista que vos escreve dar uma simples opinião eu diria que discordo de Gil: as manifestações culturais, afinal de contas, nunca foram tão plurais e democráticas. Destinadas aos mais variados nichos. E não objeto de apreciação de um seleto grupo.

Estabelecendo diálogo com as próprias artes que analisa, Allen filma Paris com uma beleza poucas vezes vista - suas praças, museus, espaços públicos, comércios. Há algo de artístico também, de nostálgico talvez, na busca por um disco perdido do Cole Porter em um sebo em que uma moça atenciosa lhe aborda. Ou mesmo no charme de um café a beira da calçada em um bistrô. Ou de caminhar na chuva mesmo, em meio a noite profunda e efervescente de Paris, seus cartões postais e locais de encontro. Allen transforma Paris na arte em si: grava-a em nossa retina. Nos faz sonhar, reimaginar, evocar. E faz tudo isso com uma ótima história, recheada de referências culturais divertidas - a parte em que Gil sugere o roteiro de um filme para Buñuel é ótima! -, com ótima trilha sonora e desenho de produção cheio de beleza. Olhar para o passado, no fim das contas, é algo que nos faz bem. Mas a vida é agora: pra frente. E ela pode acontecer. Em meio a chuva de Paris - ou não. Basta se permitir.