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quinta-feira, 5 de abril de 2018

Cinemúsica - Encontros e Desencontros (Lost In Translation)

O flerte com a cultura pop - e, consequentemente, com o universo da música - já é uma espécie de tradição no que diz respeito a a filmografia da diretora Sofia Copolla. Desde a estreia com As Virgens Suicidas (1999) até, mais recentemente, em Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013) muitos foram os artistas que emprestaram as suas canções para as películas dela - de Carole King e Phoenix a Kanye West e My Bloody Valentine. O que dá, diga-se de passagem, uma boa ideia da diversidade de estilos e da pluralidade pensada pela filha de Francis Ford na hora de escolher as trilhas sonoras que comporão suas obras. Pois um dos filmes mais queridos da diretora, o ótimo Encontros e Desencontros (Lost In Translation), também tem um repertório inesquecível de canções que vão desde as ambientais - que servem como uma paisagem sonora perfeita para o sentimento de solidão que invade os protagonistas - até chegar em petardos mais intensos, como, God Save The Queen dos Sex Pistols.

B.B. King, Elvis Costelo, Peaches, Nat King Cole, Air e Chemical Brothers e mais alguns outros embalam os momentos que resultarão na aproximação entre Bob Harris (Bill Murray), estrela de cinema que está em Tóquio para fazer um comercial de uísque e Charlotte (Scarlett Johansson), que está na capital japonesa para acompanhar o marido fotógrafo (Giovanni Ribisi), que lhe deixa o tempo todo sozinha no hotel por que só pensa em trabalho. Ambos têm dificuldades para dormir (e até para existir) e, acabam, aqui e ali, se encontrando meio que sem querer no bar do hotel, na piscina ou no elevador. Não demora para que, dali, a despeito da diferença de idade, nasça uma grande amizade entre ambos, que se sentem isolados em relação ao contexto em que estão inseridos - que é o de uma metrópole fria, individualista, apressada, urgente e, invariavelmente, multicolorida (como mostram as sequências nas casas de jogos).



Diga-se de passagem, também nestas cenas, a confusão produzida pelos efeitos sonoros que saem caoticamente de cada aparelho serve como metáfora perfeita para a bagunça interior que parece invadir cada um dos protagonistas. Nesse sentido os encontros, a conversa, a cumplicidade que começa a acontecer, os eventuais silêncios e sorrisos tímidos e até o sentimento de euforia por esta "novidade", formam a representação do acolhimento tão sonhado, da saudade do que não foi, daquilo que era pra acontecer mas não era possível. O Japão urbano e a sua balbúrdia representam a vida daquelas personagens naquele instante que, como se estivessem perdidas no mundo, procuram o aconchego perdido. E tudo isto embalado por uma trilha sonora que mescla na medida certa shoegaze, música eletrônica e pop francês - o que acaba sendo a equação perfeita para uma espécie de nostalgia romântica vivida por qualquer um de nós, seja na memória afetiva da paixãozinha adolescente que não aconteceu, seja nas decepções amorosas que fazem parte da vida.

Mas, numa análise geral, nenhuma passagem musical é mais marcante para mim do que aquela em que Charlotte canta - e a voz rouca e sussurrada de Johansson parece perfeita para isso - o clássico oitentista Brass In Pocket, do The Pretenders. A melancolia onipresente, os olhares trocados, o clima de fim de festa bêbado e entorpecido, uma charmosa desafinação, a letra ousada e provocante - 'Cause I gonna make you see / There's no one else here / No one like me / I'm special so special / I gotta have some of your attention give it to me -, tudo é perfeito nesse instante que, pode-se dizer, resume a obra e aquilo que ela tenta nos mostrar, com precisão. Murray não poderia estar mais perfeito como o sujeito que vivencia aquilo com a consciência de um mundo que não lhe pertence. Scarlett, carismática, magnética e encantadora, é capaz de fazer até a porta do quarto do hotel se apaixonar. Mas não era pra ser, o que, diga-se, não é problema, já que esta é a vida real. E o que nos resta disso tudo? A música, que serve para embalar nossas alegrias e tristezas na medida certa.

terça-feira, 15 de março de 2016

Espaço do Leitor - Encontros e Desencontros (por Tammy Moraes)

Já fazia algum tempo que o Espaço do Leitor - um de nossos quadros preferidos aqui do Picanha - não dava as caras. E, a convite da nossa produção (este jornalista que vos tecla, no caso) a querida amiga, parceira, leitora e estudante de jornalismo Tammy Moraes - que faz um belíssimo trabalho no diário A Hora, aqui em Lajeado - resolveu escrever sobre um de seus filmes preferidos, no caso o arrebatador Encontros e Desencontros (Lost In Translation). Com vocês o imperdível - e apaixonado e sincero - texto da Tammy sobre a bela obra, que também é uma das favoritas aqui da casa!

Encontros e Desencontros (Lost In Translation)

De: Sofia Copolla. Com Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovani Ribisi e Anna Faris. Comédia dramática / Romance, EUA / Japão, 2004, 102 minutos. 


Conheci Sofia Coppola muito por acaso. Foi em meados de 2005, depois de uma habitual ida à locadora. Na ocasião, ao colocar o disco no aparelho de DVD, pela primeira e única vez o menu brilhando na tela não correspondia ao nome da capa. Estranhei mas resolvi dar uma chance. Tratava-se de um tal Encontros e Desencontros. Apesar de eu não passar de uma criança à época, a identificação com o filme foi imediata. Em poucos minutos, soube que seria um de meus favoritos.

Conta a história de dois americanos no Japão, que se conhecem no hotel onde estão hospedados. Muito solitários na ocasião, acabam criando relação baseada na companhia, onde conversar e simplesmente estar junto é o mais importante. O que mais me chamou a atenção de início foi a sensibilidade de condução da história. Somente anos mais tarde eu viria a descobrir que Sofia consegue transpassar isso a todos os seus filmes, independentemente da história. Também só depois soube que o nome original do longa é Lost in Translation, ou algo tipo "perdidos na tradução”, o que faz muito mais sentido pois os personagens se viram como podem sem falar japonês.



O roteiro tem premissa simples e a história é conduzida cheia de silêncios e melancolia em meio aos ares urbanos de Tóquio. Tudo para retratar o vazio existencial pelos quais os personagens passavam, mesmo em fases muito diferentes da vida. Scarlett Johansson e Bill Murray, que interpretam os protagonistas, estão em total sintonia, tanto entre si quanto com a premissa do filme. A fala mansa e os gestos comedidos traduzem muito disso.

Confesso que ao ver o filme pela primeira vez, fui conquistada pela imparidade. Com o passar dos anos, cada vez mais entendia pelo que os personagens passavam: a solidão, sensação de estar “emperrado”, vontade de mudar velhos hábitos e se conectar verdadeiramente com as pessoas. Não há nada como uma obra que ganhe novo significado toda vez que contemplada. É a magia do cinema em sua mais pura forma.

Quanto mais você sabe quem é e o que quer, menos deixa as coisas te chatearem. – Bob Harris (personagem de Bill Murray)