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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Cinema - A Chegada (Arrival)

De: Denis Villeneuve. Com Amy Adamsn, Jeremy Renner, Forest Whitaker e Michael Stuhlbarg. Ficção científica, EUA, 2016, 116 minutos.

Disse certa vez o escritor Charles Baudelaire: "manejar sabiamente uma língua é praticar uma espécie de feitiçaria evocatória". Pois, em uma análise do espetacular e evocativo A Chegada (Arrival), é praticamente impossível permanecer alheio ao aforismo do autor de As Flores do Mal. E o quão verdadeiro ele parece ser a cada curva contemplativa que encontramos e a cada detalhe que apreendemos dessa película especialíssima do diretor Denis Villeneuve - que, ouso dizer, se consolida como um dos mais importantes de sua geração. Discutir a linguagem e os seus significados em um filme de ficção científica - em que, imagina-se, as pessoas esperem invariavelmente o maniqueísmo das guerras sem fim entre humanos e alienígenas - certamente não é tarefa fácil. Mas Villeneuve o faz não apenas com sensibilidade e profundidade, mas imprimindo ainda um caráter existencialista às noções de tempo e de espaço ou mesmo de presente, passado e futuro, confundindo cronologias e lógicas pré-estabelecidas. Sem ignorar a (importante) porção cinematográfica, evidentemente.

Poderíamos ser mais "evoluídos" se tivéssemos uma maior capacidade de diálogo? Se falássemos mais e ouvíssemos menos, nos tornaríamos uma humanidade mais compreensiva, tolerante, empática? Olharíamos mais para o outro? Baixaríamos a guarda um pouco mais? Compreenderíamos as intenções de cada um? É só pensar no nosso dia a dia. Quantas vezes não machucamos pessoas que amamos por dizer uma palavra errada na hora ainda mais errada. E o quão difícil é poder voltar atrás para afirmar que não era nada daquilo e sim exatamente o oposto. A linguagem é um feitiço que Villeneuve insere em um filme sobre doze naves alienígenas em formato de concha que "invadem" o nosso planeta, se estabelecendo em lugares diferentes, que não possuem nenhuma lógica entre si. As naves permanecem lá, quietas. Por muitas horas. Enquanto os terráqueos conversam e muito. Sobre atacar ou não. Sobre tentar conversar ou não. É diferente de Independence Day, quando os aliens já chegam chegando.


Pra tentar dialogar com os extraterrestres, é convocada a doutora Louise Banks (Amy Adams), especialista da área de linguística, que tentará traduzir os sinais sonoros enviados pelos tripulantes da nave invasora, com a intenção de tentar descobrir se eles representam uma ameaça, ou não. Ao seu lado estará um matemático (vivido com a habitual competência por Jeremy Renner), que lhe acompanhará na jornada, que deverá responder a uma simples pergunta: "o que vocês querem?". Mas confrontar os alienígenas, dentro da nave DELES, não será tarefa fácil e exigirá de Louise dezenas de visitas para que ela possa, minimamente, compreender as expressões sonoras dos seres - que, na aparência, lembram polvos gigantes de sete patas. E mais: a curiosa linguagem" deles, recheada de desenhos circulares, repletos de detalhes rústicos que escondem significados em cada um de seus elementos não-lineares. Conforme Louise faz avanços, se encanta e se aproxima dos objetivos reais dos visitantes, o mundo, numa espécie de paradoxal metáfora, retrocede, com cada uma das equipes de segurança do Governo dos países "invadidos" optando por tomar sozinhos as suas decisões. O que envolverá ataques do exército e ações bélicas diversificadas, por mais que a tal "defesa da nação", pareça ser desnecessária, inicialmente, já que é o medo do diferente que impera.

Genial em estabelecer a incapacidade de comunicação dos países do mundo - e não surpreende que os locais em que as naves se instalam sejam rivais tradicionais em guerras, como Estados Unidos e Rússia - como um reflexo da nossa sociedade atual, em que o ódio institucionalizado legitima os sujeitos a primeiro agredirem para depois perguntarem, A Chegada ainda se consolida como um tocante exercício cinematográfico que passa muito próximo de teorias científicas que acenam para a existência de universos paralelos ou recortes de espaço-tempo alternativos aos nossos. Nesse sentido, não é difícil encontrar ecos do magnífico Interestellar, de Christopher Nolan, ou mesmo de A Árvore da Vida, de Terrence Mallick. Este último, especialmente nas enigmáticas cenas em flashback que mostram Louise e sua filha e de como ela veio a perdê-la para uma grave doença. E, é preciso que se diga: reunir todos os pontos da curiosa equação que se estabelece no terço final dessa película e que envolvem um arco dramático relacionado a vida da protagonista é poder celebrar o estado puro da arte em seu caráter mais genuíno. Um processo eventualmente lento, contemplativo e, invariavelmente, satisfatório.


Praticamente GRITANDO para que a Academia lembre de Amy Adams no Oscar de 2017 - reparem em sua interpretação a capacidade de transmitir ao mesmo tempo horror e serenidade apenas com a respiração ofegante das primeiras visitas - Nolan tem ainda no elenco outros nomes importantes que realizam caracterizações competentes, como é o caso de Forest Whitaker, na pele do Coronel Weber. Do ponto de vista técnico, a obra também é um deleite. Se o compositor Jóhann Jóhansson, com suas notas urgentes, secas e claustrofóbicas imprime um tom ao mesmo tempo solene e angustiante para algumas sequências - ou mesmo para a narrativa como um todo -, o diretor de fotografia Bradford Young, mantém os atores em uma "penumbra permanente", que serve, em alguma medida, para denotar o estado de espírito de uma humanidade que não sabe lidar de maneira alguma com o fato que lhe ocorre. Ainda que penumbra, aqui, não represente a escuridão desconsolada, que torna alguns filmes apenas sessões de aborrecimento. Talvez você levante da sessão com mais dúvidas do que certezas. Muito provavelmente tenha vontade de assistir A Chegada de novo. Mas essa é uma obra que não tem todas as respostas, ao menos do ponto de vista racional, da comunicação. É mais ou menos como o nosso universo. Tão infinito que, se mandarmos um recado para o lado de lá, como ele será recebido?

Nota: 9,5

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Na Espera - A Chegada (Filme)

Quando seres interplanetários deixam marcas na Terra, a doutora Louise Banks, uma linguista especialista no assunto, é procurada por militares para traduzir os sinais e desvendar se os alienígenas representam uma ameaça ou não. No entanto, a resposta para todas as perguntas e mistérios pode ameaçar a vida de Louise e a existência de toda a humanidade. Uma primeira leitura na sinopse do filme A Chegada (Arrival) - previsto para estrear no Brasil no dia 09 de fevereiro de 2017 - poderia nos passar a impressão de estarmos diante de mais uma obra convencional e esquemática sobre o eterno "sonho" humano de estabelecer contato com os extraterrestres. Poderia, não fosse os nomes por trás do projeto, a começar pelo do diretor Denis Villeneuve - de filmes que estão entre os favoritos da casa, como Incêndios (2010), Os Suspeitos (2013) e Sicario: Terra de Ninguém (2015).



Pois Villeneuve recrutou os indicados ao Oscar Amy Adams e Jeremy Renner, além do premiado Forest Whitaker para contar essa história que, se de saída não parece inovadora, ao menos dá a impressão de representar com propriedade o cinema seguro do canadense, um dos diretores mais badalados (na falta de outra palavra) e inventivos da atualidade. O trailer, com aquele clima meio Sinais meio Distrito 9, apresenta uma boa dose de tensão, drama e suspense, em meio a debates político-diplomáticos sobre como como lidar com a questão - algo que faz aumentar a expectativa dos fãs do gênero ficção científica. Se nas bolsas de apostas para a estatueta dourada nas premiações do ano que vem o filme aparece como uma espécie de azarão, por aqui, não podemos negar: já estamos Na Espera!