sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Pérolas da Netflix - A Prima Sofia (Une Fille Facile)

De: Rebecca Zlotowski. Com Mina Farid, Zahia Dehar, Lakdhar Dridi, Nino Lopes e Clotilde Courau. Drama, França, 2019, 92 minutos.

Se tem uma coisa que o ser humano é especialista nesse mundo é em julgar o rabo alheio. No Brasil de Bolsonaro, então, nem se fala: aqui, a hipocrisia reinante fala mais alto, em um Governo que pretende tomar decisões sobre o corpo do outro, suas liberdades e vontades. Aliás, liberdade é uma palavra-chave para o ótimo A Prima Sofia (Une Fille Facile), filme despretensioso que estreou recentemente na Netflix. Exibido na quinzena dos realizadores do Festival de Cannes, é a típica "obra de amadurecimento". Na trama, Naïma (Mina Farid) é a jovem que, durante as férias escolares, recebe a bem resolvida prima do título em português (e que é encarnada de forma hipnotizante por Zahia Dehar). É verão, o clima é primaveril, as pessoas estão livres e dispostas e o que a diretora Rebecca Zlotowski faz, de alguma maneira, é mostrar que, na nossa vida, devemos ser apenas nós mesmos. E ser felizes. Sem julgamentos. Sem olhar o outro com preconceitos por não ser parte do padrão vigente.

Sofia é, ao cabo, um espírito "livre". E talvez seja um espírito mesmo: que assim como vem, vai, deixando marcas, influenciando vidas, modificando ideais. Eu diria até que a jovem, guardadas as proporções, é como aquele livro que a gente lê, desvenda, e que nos abre os horizontes. Nos desperta para que saiamos da letargia de nossos dias, em busca de algo mais palpável e que tenha significado para nós. Sofia, por exemplo, encara o sexo, o corpo, com naturalidade. Se utiliza dele, inclusive, para se aproximar de outras pessoas. Mas o corpo é dela, afinal. Ela decide. É ela que, aos poucos, mostrará isso para Naïma que, perto da prima, parece uma menininha que ainda não desabrochou. Que segue presa numa infância em que é paparicada pela mãe e que tem sonhos juvenis que são como as peças de teatro encenadas com o amigo Dodo (Lakdhar Dridi). E isso também não é problema, afinal de contas cada um tem seu tempo. E este não só pode, como deve ser respeitado.


É um filme sobre muitos "nadas" que significam bastante coisa - e a formação na juventude passa por muitas provações, muitas inseguranças a serem superadas e, quem vai mentir que nunca encarnou uma personagem daquilo que não era nessa fase da vida? Sensual, o filme tem na liberdade sexual uma forma de expressar suas intenções. E com cenas de transa reais, em que a conexão entre os corpos é um prazer, um deleite - diferentemente do que ocorre nas cenas de sexo de filmes hollywoodianos em que, invariavelmente, transar é um sofrimento. Aliás, a obra é toda sexy: de seus cenários quase paradisíacos, passando pelas enigmáticas sequências de flerte junto a barcos, até chegar as boates classudas e as praias aconchegantes. Na rotina dessa quinzena de férias, Sofia e Naïma se juntam para formar uma espécie de contraponto entre duas jovens: uma ambientada a uma vida hedonista, de luxo e de sexo e outra que tem a sua rotina abalada justamente por esse combo.

Diga-se de passagem, acredite, o público mais careta, mais conservador tem se queixado das liberdades tomadas pela película. Onde já se viu, afinal de contas, uma obra em que uma jovem curte, transa, vive a vida sem se preocupar com o futuro, família, filhos, carreira? Sim, é uma espécie de idílio nem sempre aceitável - e os consumidores da Netflix alegam não estar encontrando sentido na narrativa. Nesse caso, eu costumo ir na regra oposta: se a juventude anacrônica e lacradora não está gostando, há chance de estarmos diante de um bom filme. Aliás, a obra me fez lembrar outra, que foi tão criticada quanto esta, pelas cenas de nudez e pelas liberdades tomadas: Swimming Pool: A Beira da Piscina (2003), também de um diretor francês, no caso o ótimo François Ozon. Em ambos os casos há uma protagonista misteriosa, que parece saída de algum universo alternativo, mas que deixará profundas marcas naqueles que ficam. Viver a vida sem julgamentos, ser feliz, fazer aquilo que gosta. Me parece ser esse o recado de A Prima Sofia. Pena que os jovens da idade das protagonistas, não pareçam compreender isso.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Tesouros Cinéfilos - Gênio Indomável (Good Will Hunting)

De: Gus Van Sant. Com Matt Damon, Robin Williams, Ben Affleck, Minnie Driver e Casey Affleck. Drama, EUA, 1997, 126 minutos.

Nas aparências, Gênio Indomável (Good Will Hunting) sempre foi o filme sobre o adolescente rebelde com um talento único, que é incapaz de lidar com o mundo como este se apresenta. Sim, é TAMBÉM sobre isso. Mas é uma obra de muitas camadas - e talvez este seja um dos aspectos que mais me agrade na película de Gus Van Sant (Milk: A Voz da Igualdade). No caso o fato de sempre perceber algum outro detalhe, uma ou outra nuance capaz de tornar a obra um pouquinho maior do que ela é. E a meu ver o aspecto que mais me salta aos olhos, nesse sentido, é o fato de a narrativa propor uma grande reflexão sobre escolhas. Escolhas mesmo.Aquelas que faremos na vida, certas ou erradas, que nos farão quebrar a cabeça, nos decepcionar, gerar ansiedade. Na juventude - especialmente -, decidir, muitas vezes movidos pelo entorno, pelo meio em que nos encontramos, pelas circunstâncias, não é tarefa fácil. Conosco está uma bagagem ainda pequena, que deixará para a trás a inocência da infância fazendo um aceno para a vida adulta.

E, de alguma forma, Gênio Indomável é também uma obra de "formação". De amadurecimento. De nos fazer refletir sobre o que devemos fazer. De como (e se) devemos utilizar as nossas habilidades a nosso favor. Ser feliz? Todos queremos. Mas qual o percurso para isso? Will Hunting (Matt Damon) tem um dom que o faz ser uma espécie de "gênio involuntário": ele é capaz de resolver equações matemáticas complexas, com meia dúzia de rabiscos, num piscar de olhos. É um tipo de talento nato que quase foge de uma explicação racional. Vale a mesma lógica para Mozart na frente de um piano: enquanto para nós o instrumento não passa de uma grande caixa de maneira com teclas - numa divagação semiótica -, para o precoce compositor era a forma de fazer a sua mágica acontecer. Não era questão de treino, de estudo, de persistência. Era natural. Sabe aquele garotinho que, com sete ou oito anos de idade, deita e rola no futebolzinho do bairro? E que será o novo Messi? É isso.


Só que na volta de Will, todos acham que ele pode fazer algo MELHOR com a sua habilidade do que aquilo que ele efetivamente faz. O jovem teve uma infância difícil, o que fez com que ele crescesse embrutecido, raivoso. Dá um dedo para, com seus comparsas, arrumar confusão na rua, brigar por bobagem. E é numa dessas brigas aleatórias que vai parar em um reformatório que lhe impõe uma condição: ou faz algum tipo de tratamento psiquiátrico que possa fazer com que expulse os demônios que estão dentro do armário, ou é xadrez. As turras brigará também com os psicólogos indicados pelo professor Gerald (Stellan Skarsgard) - que naquela altura já está sabendo de seu talento matemético. A única solução? Um antigo ex-colega que também atua na área da psiquiatria, um certo Sean Maguire (Robin Williams). Com uma metodologia bastante excêntrica, Sean compreenderá o que se passa na mente de Will - especialmente no que diz respeito às pressões que sofre para que resolva as coisas que dizem respeito à potência de suas aptidões. Arrumar um trabalho? Ganhar bastante dinheiro? Ser "feliz", mas numa vida não desejada?

Nesse sentido, Will me faz lembrar bastante a personagem Charlie, da espetacular distopia Flores Para Algernon, do escritor Daniel Keyes. Quando participa de um experimento científico que não apenas lhe cura de uma severa deficiência intelectual, como lhe torna absurdamente inteligente, Charlie se torna incapaz de suportar a dureza do mundo. Algo que num universo de alienação e ignorância não existia: ao contrário, sentia-se feliz em seu mundinho de poucos amigos e de amor familiar bastante torto. Will tem algo excepcional ao seu alcance: mas aceitar seu destino e adentrar naquele universo - que talvez seja o universo que as demais pessoas esperam dele -, o tornará realizado? Ou uma vida simples, justa e de amor pode ser suficiente? A carta deixada para Sean, no último instante dá uma pista. E, como a cereja do bolo, a "amizade" entre Sean e Gerald deixa uma pista ainda maior: a de que seremos tristes e felizes, inevitavelmente e independentemente de nossas escolhas. A vida, afinal, não é uma ciência exata. Não é uma equação como aquelas tão facilmente resolvidas por Will. E, vamos combinar, é nisso que está a beleza de tudo. No imprevisível, no imponderável, no aleatório.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Na Espera - Ammonite (Filme)

Conforme o ano avança vão ficando mais claros quais as obras que deverão ter uma campanha mais pesada para a próxima edição do Oscar - e esse parece ser justamente o caso de Ammonite (Ammonite), filme do diretor Francis Lee (de O Reino de Deus), que tem estreia prevista para o dia 13 de novembro de 2020 no Estados Unidos (por aqui a data ainda não foi definida). É daquelas obras que tem toda a cara de que vai arrebanhar indicações na premiação máxima do cinema. Começa pelas atrizes que protagonizam: no caso Kate Winslet e Saoirse Ronan. Depois, tem a trama de época com direito a relacionamento homoafetivo - o que o trailer entrega. E já toda aquela ambientação, cenários, um clima acinzentado, suntuoso, imponente. É filme que, pode escrever, no mínimo vai conseguir colocar as suas estrelas nas categorias de Atriz e Atriz Coadjuvante, podendo pintar ainda categorias técnicas, como Figurino e, Filme claro.


Divulgado na última semana, o trailer nos joga para o começo do Século 19 onde, no Reino Unido, uma paleontóloga de nome Mary Anning (Kate Winslet) trabalha sozinha em uma companhia, catando fósseis comuns para vender para turistas com a intenção de cuidar de si mesma e de sua mãe doente - seus dias de glória já ficaram para trás. Lá pelas tantas, um homem rico lhe oferece um trabalho, que envolverá uma jovem londrina e uma grande amizade. Em tempo, o amonite é um tipo de molusco fossilizado que ocorre junto ao Canal da Mancha. O trailer é classudo, a história parece instigante, cheia de ótimas reflexões e nós por aqui já estamos Na Espera por essa produção!

Grandes Cenas do Cinema - Os Pássaros (The Birds)

Cena: um ataque que se desenha na escola.

Quem já assistiu a Os Pássaros (The Birds), clássico do diretor Alfred Hitchcock, sabe que a obra é uma verdadeira coleção de sequências vertiginosamente aflitivas. Aliás, o filme é todo tenso, num efeito meio curioso que faz com que sintamos alguns calafrios até mesmo nas cenas mais prosaicas - como as que ocorrem no restaurante ou em um eventual barquinho que atravessa a baía. A meu ver é nessa obra-prima que o Mestre aprimora todas as trucagens que lhe consagraram. E o melhor: diferentemente daquilo que ocorre em suas películas anteriores, aqui temos o terror instaurado por uma força da natureza que é, portanto, imprevisível, mais complicada de lidar. O que farão efetivamente os pássaros a cada passo dado pelos habitantes da pequena Bodega Bay ninguém sabe: é diferente de um assassino com uma arma na mão e uma ideia fixa. É tudo imprevisível, cáustico, barulhento, aleatório. A violência vindo do ar, do nada, gratuita, implacável. Um terror incontrolável, pode-se dizer.

E escolher apenas uma sequência que resuma essa catarse aérea que assistimos transpirando da tela, também não é tarefa fácil. Mas existe uma que é tensa não apenas por aquilo que assistimos: mas por aquilo que NÃO enxergamos. E era dessa forma que Hitchcock conseguia, muitas vezes, estabelecer a sua magia. O suspense e o terror pareciam brotar de onde menos se esperava, de uma forma meio contrastante, angulosa, com as acontecimentos se descortinando de forma tópica, mas não menos inquietante. Na cena da escola, a jovem Melanie Daniels (Tippi Hedren) pretende conversar com a professora (vivida por Suzanne Pleshette), para lhe alertar sobre os perigos que podem estar rondando não apenas a pacata cidade, mas o educandário. Se aproxima de uma cerca, fuma um cigarro, enquanto escuta a cantoria dos alunos, uma espécie de música folclórica hipnotizante, que vibra lá de dentro. Há um silêncio no ar. Aparece um pássaro que pousa no trepa-trepa. Mais um. E outro. Ela fuma, a música segue. A escola tem um silêncio plácido. Mais alguns pássaros se movem e...


...bom, é nessa sequência que a gente lembra os motivos de Hitchcock ser considerado um Mestre. A composição dos quadros, os jogos de câmera, as idas e vindas. A música, os contrastes entre a tensão e a calmaria e um trepa-trepa que surge LOTADO de pássaros. Um tipo de sadismo com o espectador que beira o delírio: a gente sabe que algo muito sério está pra acontecer. Percebemos, sentimos. A tensão já vem crescendo. Já houve um ataque. E mais outro, previamente. A cidade está sendo "invadida" por aves frenéticas que atacam, sem lógica. Querem apenas matar o que está pela frente. E resta as demais pessoas fugir. Correr. E lutar pela vida. A cena é demorada, angustiante. Os alunos sofrem com bicadas, sangram, gritam. Os guinchos dos pássaros perturbam, agridem, assim como o bater de asas. Tudo é atordoante, delirante. É como o livro A Pomba, do escritor Patrick Suskind elevado a enésima potência.

Talvez não seja tão simples identificar as metáforas propostas pelo diretor inglês, a partir da obra de Daphne Du Maurier. Há um subtexto permanente que envolve uma mãe "castradora" - no caso a do protagonista Mitch Brenner (Rod Taylor), sempre observado de perto pela matriarca Lydia (Jessica Tandy) -, com um Complexo de Édipo que parece "gritar" para sair da tela. Hitchcock se sentia assim, na vida real, e utilizava a sua obra para expulsar alguns demônios do armário - o que certamente explica a grande quantidade de femmes fatales em suas obras (e ele não faz nenhuma questão de esconder isso). Se os pássaros desse clássico são uma forma de confrontar essa "força da natureza", não temos como saber. Deixando de lado as metáforas, o que se pode afirmar é que este é o último grande filme do inglês. E que levou os seus atores ao limite da tolerância já que, reza a lenda, para conferir realismo à produção, ele chegou a GRUDAR pássaros de verdade ao corpo das vítimas, que saíram, de fato, machucadas). Perturbador é pouco.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Tesouros Cinéfilos - Amores Brutos (Amores Perros)

De: Alejandro González Iñarritu. Com Gael Garcia Bernal, Goya Toledo, Vanessa Bauche, Emilio Echevarria e Gustavo Sánchez Parra. Drama, México, 2000, 153 minutos.

Foi com um estilo vigoroso, fruto de um cinema pulsante, que o mexicano Alejandro González Iñarritu nos apresentou, em sua estreia, a sua visão de um mundo violento, bruto, individualista e de uma sociedade que parece permanentemente no limite do conflito. Amores Brutos (Amores Perros) também inaugurou aquele modelo que se repetiria em alguns de seus filmes seguintes - antes do sucesso em Hollywood com Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014) e O Regresso (2015): o do roteiro com histórias distintas que se cruzam para formar um painel maior a partir de um pequeno recorte do microcosmo social. A questão dos "cachorros" do título original não é por acaso: nas três narrativas que se intercalam, o animal surge praticamente como uma figura central, guiando às personagens em suas mais diversas decisões, o que também modificará suas vidas, suas rotinas, gerando conflito, caos, desordem.

A primeira das três histórias é também a melhor: nela, o jovem Octavio (Gael Garcia Bernal) tem um caso com Susana (Vanessa Bauche), a mulher do irmão - com quem vive as turras -, ao mesmo tempo em que inscreve o corpulento (e premiado) cachorro Cofi para participar de rinhas clandestinas de cães. A ideia, nesse esquema, é juntar dinheiro para fugir com a cunhada, livrando-a do irmão violento. A segunda história migra para o universo das classes mais abastadas, contando a história da modelo Vanessa (Goya Toledo), que vive um casamento midiático de aparências e sofre um acidente que lhe deixa em uma cadeira de rodas. Em seu apartamento recém mobiliado, acaba "perdendo" o seu cachorro em uma espécie de buraco existente no piso: sem possibilidade de resgatá-lo, ainda sofre com o choro angustiante do animal, incapaz de livrar-se da armadilha, em um tipo de narrativa que, curiosamente, se torna claustrofóbica, sufocante.


A última história, é também a mais misteriosa: nela o ex-guerrilheiro comunista El Chivo (Emilio Echevarria) atua como matador de aluguel, após uma temporada na prisão. Como morador de rua, possui vários cães que lhe acompanham. Já no começo do filme, entra em conflito com um grupo que participa das rinhas de galo. A história evoluirá para o acidente que deixará Vanessa impossibilitada de seguir sua carreira profissional e que, no fim das contas também envolve Octavio e o próprio Chivo, que resgatará um Cofi a beira da morte. Utilizando a estrutura do roteiro e montagem dinâmica, Iñarritu construirá um filme em que traições, brigas, sangue e vísceras se desnovelarão em cadeia, mostrando o que de pior pode haver em uma sociedade em desequilíbrio, em que a felicidade depende exclusivamente da beleza e do dinheiro e em que as pessoas não hesitarão em utilizar a violência para alcançar aquilo que desejam. Nessas horas não haverá família, mãe, filhos ou o que quer que seja na frente: haverá apenas a cegueira da busca dos objetivos, custe o que custar.

Nesse sentido, a obra pode até soar um pouco dura e não tão adequada para todos os paladares. Com cachorros sofrendo as mais variadas violências, o filme teve de contar com letreiros que indicavam que nenhum cão havia se ferido nas gravações, tamanho o realismo empregado. E se a câmera do diretor é eventualmente urgente, quase em estilo documental, há que se saudar a organização do roteiro, que vai desvendando aos poucos os "segredos" de cada um daqueles que assistimos. Não há mocinhos e bandidos, afinal: Octavio parece estar fazendo o bem, mas... a que custo? E o que dizer do "bem-feitor" de Vanessa, Daniel (Álvaro Guerrero), que abandona a família pelo sonho de um casamento estrelado? El Chivo tentará representar a redenção em todo esse espectro: mas ele também tem fantasmas dentro do armário e dores difíceis de serem curadas. Vencedor do prêmio da Seamana dos Críticos, em Cannes, o filme foi uma bela porta de entrada para um dos mais respeitados diretores da atualidade - inclusive nos Estados Unidos. O que, certamente, não é pouco.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Podcast do Picanha Cultural #18 - 10 Filmes Para Amar Alfred Hitchcock

O clássico Psicose (Psycho) completou 60 anos de lançamento nesta semana, então a gente considerou esta a desculpa ideal para fazer um "mergulho" na obra de Alfred Hitchcock. Aliás, o Mestre costuma ser uma ótima porta de entrada para quem pretende se familiarizar com os filmes mais antigos, em preto e branco, com menos efeitos especiais e foco em muitas outras virtudes técnicas e narrativas. Hitchcock lançou mais de 50 filmes em sua longa carreira, mas aqui a gente fala só da nata: aquelas obras que são imperdíveis pra qualquer cinéfilo! Pra nos ajudar na tarefa, recrutamos a professora Rosane Cardoso, uma outra MESTRE em nossas vidas e que tem vasta experiência universitária em campos relacionados à Literatura - ela é doutora em Teoria Literária -, Artes, Mídias e Produção Cultural. De Rebecca - A Mulher Inesquecível (1940) à Os Pássaros (1963), passando por Um Corpo Que Cai (1958), a discussão rendeu. E seguirá rendendo, com a participação de vocês, nos dizendo quais os favoritos do Hitch. Bora sextar?


Novidades no Now/VOD - A Química Que Há Entre Nós (Chemical Hearts)

De Richard Tanne. Com Lili Reinhart, Austin Abrams, Adhir Kalya e Bruce Altman. Drama / Romance, EUA, 2020, 93 minutos.

Todos nós sabemos que relacionamento não é uma ciência exata, afinal de contas são muitas as variáveis para que as coisas possam sair a contento. E, bom, filmes dispostos a discutir essas temáticas existem a rodo - especialmente no nicho do "melodrama de adolescente problemático que precisa superar traumas antes de encarar, de fato, a vida adulta". Mas sabe que A Química Que Há Entre Nós (Chemical Hearts) funciona direitinho? Inclusive eu me identifiquei com as personagens, mesmo já fazendo umas duas dezenas de anos que eu não estou mais na adolescência. A trama segue o padrão da história do garoto introspectivo, não necessariamente antissocial, mas que tem dificuldades de se relacionar com o sexo oposto - ou, vá lá, se apaixonar. E a oportunidade para que as coisas mudem de figura acontece quando o jovem consegue uma vaga de editor do jornalzinho do Ensino Médio, ocasião em que ele conhecerá uma moça tão fechada (e misteriosa) quanto ele.

Sim, eu sei que vocês já devem estar com ranço só de ter lido essa premissa, porque a quantidade de filmes aborrecentes - com jovens da classe média empilhando dramas -, parece não ter fim. Mas esse aqui, ao menos aparentemente, não ataca tanto a nossa inteligência. Ele é um pouco mais realista no retrato dessa etapa da vida que todos nós passamos, com todas as inseguranças de quem ainda não sabe como será a vida adulta, ao mesmo tempo em que abandona a inocência da infância. Aliás, a obra do jovem diretor Richard Tanne se apropria de alguns aspectos da ciência para identificar aquele período da vida - que talvez vá dos, sei lá, 14 aos 20 anos - como uma espécie de limbo juvenil existencial. "Quando você é adolescente, as substâncias do seu cérebro fazem você tomar decisões que o afastam da segurança da infância e o arrastam para a loucura da vida adulta. Alguém disse certa vez que um adulto é uma criança sortuda que sobreviveu ao limbo da adolescência e da melancolia da juventude", filosofa em certa altura o protagonista Henry Page (Austin Abrams).


Henry é o jovem reflexivo (e bastante romântico), que se apaixona pela misteriosa Grace (Lili Reinhart), que será sua colega de jornal. Se vendo todos os dias eles se aproximarão de uma forma meio torta, o que fará vir à tona uma série de feridas relativas ao passado, que tornarão o relacionamento como uma equação um pouco mais difícil de resolver. Pode parecer bobo e previsível, mas as surpresas da história são entregues em doses homeopáticas, o que nos permite digerir melhor as informações. Fora o fato de que tudo é construído utilizando com inteligência as convenções do gênero ou mesmo as metáforas. Há, por exemplo, a citação a um poema de Pablo Neruda sobre amar alguém não apenas por suas qualidades, mas também por seus defeitos. Também há o curioso hobby de Henry, que reforma vasos quebrados, pintando-os depois, dando a eles uma nova cara, um novo sentido. São fatos cotidianos que dialogam com o tipo de relacionamento que assistimos em tela: meio quebrado, que persiste, que luta para "juntar seus cacos", teimando em amar como num poema do escritor chileno.

E há ainda a completa quebra dos clichês do gênero - e são várias. Começa pelos pais de Henry, um casal amável, amoroso, dedicado (e que se ama também). A irmã do jovem lhe ajuda, jamais se apresentando como o contraponto vilanesco. O protagonista tem amigos, não é um sujeito solitário. Só que gosta de escrever, aprecia as artes, é mais "inábil" socialmente. Se ele será feliz? Se Grace será feliz? Talvez sim. Talvez não. Sofrerão, recolherão cacos, tentarão de novo. Como qualquer pessoa, afinal. O cinema costuma nos brindar com fantásticas histórias de amor que servem para nos renovar as esperanças, para nos fazer sorrir, sonhar. Esse aqui funciona mais como um tapão (metafórico) dado na cara, que é pra te fazer lembrar que, sim, com 17 anos você vai sofrer. Vai sofrer pra caramba. E ainda mais um pouco. E vai ter pensamentos ruins e apertos no peito e ansiedade. Mas as coisas vão passar. E se iluminar, provavelmente. Mesmo que demore. O filme faz essa construção de contexto de forma belíssima. E ainda tem uma trilha sonora - de nomes como The xx, Perfume Genius e Beach House - que é a cereja do bolo. Eu, se fosse você, daria uma chance. Vale a pena.

Nota: 8,0

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Mal dos Trópicos (Tailândia)

De: Apichatpong Weerasethakul. Com Banlop Lomnoi e Sakda Kaewbuadee. Drama / Fantasia, Tailândia / França / Itália / Alemanha, 2004, 118 minutos.

Cinema hermético, cheio de simbolismos, que exigem do espectador não apenas uma dose a mais de atenção, mas também uma ampla capacidade de abstração, a obra do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul costuma se caracterizar também pela fuga das convenções, como comprovam os premiados Tio Boonme, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010) e Cemitério do Esplendor (2015). E, bom, por mais que de alguma forma possamos afirmar que Mal dos Trópicos (Sud Pralad) vá mais "direto ao ponto", isso não significa necessariamente um cinema óbvio ou mais palatável. Na realidade é preciso um pouco de paciência para digerir um pouco melhor aquilo que pretende o realizador - sinônimo de cinema de qualidade na Tailândia. Trata-se, como habitual, de um filme de justaposições e de contrastes, capaz de colocar em lados opostos (ainda que unidos) a civilidade e a selvageria, o urbano e o rural, o sol e chuva, o movimento e a contemplação e, até, vá lá, a tristeza e a felicidade.

Pra falar a verdade é uma experiência sempre prazerosa assistir a qualquer filme do tailandês, já que ele nos joga em um outro lugar que não é o nosso. Nos arremessa em outra cultura em que o misticismo, o folclore, as lendas e a religião encontram o mundano, o palpável, o cotidiano. Tudo plasticamente bem construído, com trilha sonora, fotografia esmaecida e belas paisagens, evocando sentimentos diversos, que se misturam com os mesmos sentimentos daqueles que assistimos em tela. No caso de Mal dos Trópicos a trama também é ousada, daquelas que desafia as sociedades mais fechadas a enxergarem para além das bordas, para além das convenções. Nela somos apresentados ao soldado Keng (Banlop Lomnoi) e ao jovem trabalhador rural Tong (Sakda Kaewbuadee) que, em meio a atividades cotidianas prosaicas - uma ida ao cinema, um jogo de futebol, uns minutos na lan house, reuniões na casa da família de Tong - fazem mais do que uma simples "amizade". A gente não demora a perceber que o que tem ali é amor mesmo.


Na realidade a primeira parte do filme funciona quase como se fosse uma bela colagem da vida em "casal" - um casal discreto, em uma sociedade fechada. Há cenas divertidas como aquela envolvendo uma cantora brega em algum barzinho aleatório de Bangkok e outras mais sérias, como a ida ao veterinário para tratar do cachorro de Tong. Tudo costurado por sequências que mostram soldados a campo, o trabalho, a rotina, o ônibus, a luta cotidiana. Já a segunda parte já tem se tornado quase uma tradição de Weerasethakul: ao narrar a história de um monstro da floresta que pode se transformar em qualquer criatura, atraindo-a para a mata, o diretor insere as formidáveis lendas locais (quase fantasmagóricas, sufocantes) como alternativas para uma vida possível, de escolha, em que a natureza encontra o mundano, reequilibrando-o. É tudo ao mesmo tempo silencioso e instigante, levando o espectador até o limite da angústia diante de uma verdadeira caçada mata adentro.

Vencedor do Grande Prêmio do Juri no Festival de Cannes daquele ano - além de outras premiações -, a obra consolidaria o diretor tailandês como um dos principais nomes de sua geração, o que geraria burburinho em relação à produção do País asiático e de outros diretores, como Yongyoot Thongkongtoon (autor do badalado Best Of Times). Saudado pelos críticos - e também odiado, como é o caso do crítico Pablo Villaça que chegou a falar sobre Tio Boonme, de que se tratava de uma "obra vazia em seu centro, como se buscasse se beneficiar justamente de sua falta de conteúdo" -, o diretor utiliza o audiovisual em seu favor, construindo narrativas experimentais, nunca óbvias, mas sempre envolventes. É um cinema que, em seu cerne, pode parecer complexo demais. Mas no fim das contas está falando de temas caros a todos nós, caso das crenças, da natureza e do amor.