Vamos combinar que, quem gosta do Big Thief, dificilmente ficará alheio ao trabalho solo de Buck Meek, que é o guitarrista e vocal de apoio do grupo. Afinal, tem uma crueza ali, uma sujeirinha no bom sentido e um estilo meio de cafofo indie - por mais movimentada, calorosa ou expansiva que seja a música. E o expediente se repete em The Mirror, terceiro registro solo do artista - e bastam os primeiros acordes da deliciosa, teatral e resplandecente Gasoline, que abre o registro, para que sejamos catapultados àquele universo empoeirado, quase místico, em que falar de amor nunca é óbvio. Há uma ansiedade boa ali que se espalha pela melodia magnética, daquelas que ficam na cabeça já na primeira audição, se estendendo para a letra romântica, mas, metafísica sobre quantuns e fótons e feixes de luz e a respeito de quem vai verbalizar o amor primeiro (Será eu ou será ela? / A dizer eu te amo primeiro?).
Em geral parece haver uma evolução nessa mescla de folk, lo-fi e rock alternativo com uma pitada de psicodelia em relação ao anterior Haunted Mountain (2023) que, diga-se, já era um bom disco, ainda que soasse mais intimista ou, vá lá, menos comercial. Há, em geral, um maior preenchimento sonoro agora, um instrumental mais expressivo, mais estruturado, o que faz com que canções como Can I Mend It? pareçam saídas de algum disco do The Decemberists fase The King Is Dead (2011). Percepção que talvez também tenha a ver com a participação de seus companheiros de banda, Adrianne Lenker e o irmão Dylan, em vocais de apoio, o que dá movimento a coisa toda. Há, e importante: Meek é um frasista e tanto, apostando na ironia como âncora pra essa ideia de espelho do título, de como nos vemos por meio do olhar do outro, o que adiciona camadas a músicas supostamente simples (Por muitos anos vivi com medo dos valentões e dos críticos / Agora sei o que eles odeiam). É redondinho.
Nota: 8,5

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