quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Cine Baú - O Sol É Para Todos

De: Robert Mulligan. Com Gregory Peck, Mary Badham, Philip Alford, Brock Peters, Collin Wilcox Paxton e Robert Duvall. Drama, EUA, 1962, 129 minutos.

Diferentemente do que ocorre nos dias atuais, no início dos anos 60 não eram muito comuns as produções de Hollywood que debatessem o preconceito racial. A atenção para o tema foi ter início somente em meados dos anos 80, quando películas como A Cor Púrpura (1985), Conduzindo Miss Daisy (1988) e Faça a Coisa Certa (1989) iniciaram, ainda que timidamente, uma abordagem que pudesse (tentar), a partir de obras de ficção, amenizar as profundas cicatrizes que marcam a desigualdade racial, fruto de mais de 300 anos de escravidão institucionalizada. Enfim, isso numa época em que já era mais do que necessário colocar o dedo na ferida. Já o clássico O Sol É Para Todos (To Kill A Mockingbird) foi lançado em 1962, um ano antes de Martin Luther King proferir o seu famoso discurso de paz, com a frase i have a dream - contexto que pode ser visto no impressionante Selma, recém chegado em DVD.

Todo esse contexto serve pra dar uma dimensão da importância da obra dirigida por Rober Mulligan e protagonizada pelo astro Gregory Peck. Era - pra não dizer que ainda é - um período complicado para os negros. Especialmente para aqueles que viviam no sul dos Estados Unidos, justamente o local em que se passa a ação do filme - no caso a cidade de Macomb, no Alabama. A segregação racial havia sido abolida apenas nas aparências, com a comunidade negra não tendo assegurados direitos básicos a qualquer cidadão - como o voto - ou até mesmo sendo impossibilitada de dividir um mesmo local com os brancos. A menos que fosse para servir como mão de obra para o serviço pesado, ou como empregado de qualquer tipo. Justamente o caso do jovem negro Tom Robinson (Peters), que é acusado de estuprar uma moça branca (Paxton) e filha de gente "importante" da comunidade.



Só que, diferentemente daquele que seria o curso normal das coisas - no caso deixar o jovem ser preso, sem direito a qualquer defesa - o advogado Atticus Finch (Peck), sujeito de bom caráter, resolve pegar o caso, concordando em defender Robinson, fazendo de tudo para que ele possa ter ao menos um julgamento justo. A comunidade, recheada de "cidadãos de bem", tementes a Deus, e que não hesitam em empunhar uma arma para alcançar seus interesses, passa a intimidar Finch, que mora em um pequeno rancho ao lados dos dois filhos - que são o fio condutor da história. Fazendo da vida real uma verdadeira escola para seus rebentos, o advogado utilizará o caso em que está envolvido para ensinar as crianças sobre a importância de se tratar a todos de maneira igual, de agir com integridade e de não cometer injustiças - situação alcançada na trama de maneira comovente, em tom quase de fábula, no terço final, quando é revelada a identidade do vizinho "esquisito" dos meninos.

Alternando situações absolutamente lúdicas - que quase fazem lembrar as melhores aventuras da Sessão da Tarde, como Os Goonies - do dia a dia das crianças, com impactantes e reveladoras cenas de tribunal, recheadas de saborosas reviravoltas, Mulligan - que nunca mais repetiu sucesso igual - entrega uma obra que consegue ser ao mesmo tempo singela e dolorosa, sutil e consistente. E que se mantém até hoje como uma espécie de marco inicial do cinema na discussão sobre a busca pela igualdade racial - que seria seguida mais tarde por outras produções, como a inglesa Ao Mestre Com Carinho (1967). Com sete indicações ao Oscar, o filme - que possui uma verdadeira galeria de cenas inesquecíveis, como a de Atticus atirando em um cão raivoso - faturou a estatueta dourada nas categorias Roteiro, Ator (Peck) e Direção de Arte. A honrosa 34ª posição entre os 100 Melhores Filmes Americanos da história, na seleta galeria do American Film Insistute (AFI), não é por acaso. Um filme fundamental que, até hoje, se mantém atual.


Nenhum comentário:

Postar um comentário