quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

25 Melhores Discos Internacionais de 2017 (+ 15 Menções Honrosas)

Não fosse a música e talvez fosse mais difícil para todos nós encarar, a cada nova manhã, esse mundo tão intolerante, individualista e cheio de ódio. Não fossem esses tantos artistas legais lançando dúzias e mais dúzias de trabalhos para nos fazer sorrir, pensar e, por quê não, refletir, talvez este fosse um mundo muito mais sem graça. Sem cor, sem vida, sem barulho. Quem gosta de música sabe que até a hora de lavar a louça merece a companhia daquele disquinho recém chegado que, na semana seguinte, será o novo queridinho da crítica e do público. E como houve álbuns legais nesse ano! E, para nós do Picanha, é preciso que se diga, NUNCA é tarefa fácil selecionar apenas 25 - com mais 15 menções honrosas - para integrarem a nossa lista. Mas a gente se esforça pra trazer um panorama do que de melhor apareceu no ano, respeitando todos os estilos, vertentes, cores e sabores.. enfim, vamos ao que interessa! Segue a nossa relação com os 25 Melhores Discos Internacionais de 2017 (+ 15 Menções Honrosas). Boa leitura!

Menções honrosas:

40) Tori Amos (Native Invader)
39) Jens Lekman (Life Will See You)
38) Vince Staples (Big Fish Theory)
37) Ariel Pink (Dedicated to Bobby Jameson)
36) Tennis (Yours Conditionally)
35) Japanese Breakfast (Soft Sounds From Another Planet)
34) Sam Smith (The Thrill Of It All)
33) Weezer (Pacific Daydream)
32) Julien Baker (Turn Out The Lights)
31) Big Thief (Capacity)
30) Baths (Romaplasm)
29) Haim (Something To Tell You)
28) LCD Soundsystem (American Dream)
27) Taylor Swift (Reputation)
26) Paramore (After Laughter)

25) Miguel (War & Leisure): ainda que não possua toda a provocante sensualidade de seu registro anterior - o irretocável Wildheart (2015) - o mais recente disco do americano chega bem perto do clima de R&B psicodélico e de deleite sexual daquele álbum. Como se fosse uma espécie de Lenny Kravitz do mundo alternativo, Miguel utiliza seu vocal eventualmente sussurrado e em falsete para reverberar a importância da libertação do corpo como ente político - discurso que vem em boa hora, especialmente em uma América (no caso a de Trump) que se mostra inacreditavelmente conservadora. É um álbum que mergulha fundo na iconoclastia, mas que utiliza camadas sonoras celestiais para reforçar a importância do erotismo e do prazer como metáforas para a liberdade.

24) Real Estate (In Mind): poucas bandas alternativas da atualidade conseguem ter uma personalidade (ou uma identidade) tão própria quanto o Real Estate. No caso deste registro bastam os acordes iniciais da graciosa e litorânea Darling - canção que abre o disco - para reconhecermos o estilo agradável da banda. Os (metidos a) exigentes poderão dizer que, por isso, o quinteto possa soar eventualmente insosso, inócuo ou formulaico. Mas é justamente na economia, nas arestas bem aparadas, na ausência de excessos, que parece estar o segredo por trás da sonoridade acolhedora dos americanos. Escutar as suas melodias litorâneas, primaveris, assoviáveis ou mesmo adocicadas é mergulhar em um cenário colorido de final de tarde, em meio a natureza, ao lado das pessoas que gostamos. Faça o teste com Darling ou White Light. E prepare-se para sorrir.


23) Jessie Ware (Glasshouse): impressionante a capacidade dessa inglesa em trafegar por tantos estilos diferentes e tantas vertentes nostálgicas, mas sem nunca perder o frescor ou a personalidade própria no diálogo com pop, o R&B, o soul e música eletrônica. Se o álbum Tough Love (2014) já era uma verdadeira obra-prima sonora, com Glasshouse a impressão que se tem é a de que, com seus versos íntimos e lirismo evocativo, a artista parece querer se aproximar ainda mais da subjetividade do ouvinte. Se a batida de Midnight nos faz lembrar Elton John, Your Domino parece ter saído de algum recente registro da Grimes. E o que dizer de Selfish Love, que bebe na fonte da Sade? É uma mistura que teria tudo pra ser confusa, mas forma um registro homogêneo em que as músicas tão distintas parecem sempre conecadas. Melhor para quem se arrisca por cada curva desse lindo trabalho.


22) Spoon (Hot Thoughts): incapazes de errar, os americanos do Spoon não vacilaram em seu nono álbum - que vem logo após They Want My Soul (2014), seu melhor registro. A banda, querida da crítica mundial, desta vez aparece com uma abordagem mais dançante, funkeada, repleta de sintetizadores, porém sem perder a capacidade de surpreender com seus arranjos pouco óbvios, sempre embalados por certa psicodelia melancólica, amparada pelo vocal característico de Britt Daniel. When the moon is rising and looking on me / When the night comes knocking, knocking on me canta Dulling em I Ain't The One, como se estivesse convidando o ouvinte para curtir. Ouça ainda a faixa-título, Can I Sit Next to You e Do I Have To Talk You Into It e tente não se contagiar.


21) Phoenix (Ti Amo): o Phoenix é aquela banda que você amou em 2009 por causa do hit Lizstomania, que tocou a exaustão nas rádios mais descoladas do planeta. Com mais um disco lançado depois - o regular Bankrupt! (2013) - os franceses resolveram inovar e lançaram um dos álbuns mais divertidos desse ano, ao misturar um retrô sofisticado, com pop oitentista e kitsch italiano. Talvez como um contraponto da guinada da extrema-direita na França ou como uma reação a onda de ataques terroristas ocorridos no País, o caso é que o grupo parece querer encontrar risada em meio ao drama e requenta uma série de referências do passado em um registro nostálgico, gracioso e cheio de charme. Impossível não ser arrebatado por músicas grudentas como Tuttifrutti, Flor Di Late e a faixa título.


20) The New Pornographers (Witheout Conditions): o The New Pornographers é a melhor banda de power pop surgida nos últimos anos e, vamos combinar, é impressionante a capacidade desses canadenses de se manterem regulares (e relevantes) durante tantos anos. É o caso em que os fãs sempre aguardam ansiosos por uma nova coleção de canções grudentas, com aqueles vocais adocicados que se colidem, os refrões assoviáveis e o instrumental - sempre pontuado por um sintetizador nostálgico e divertido - pontuando tudo na medida certa. Se o novo registro não chega a ser um Twin Cinema (2005) - até hoje o trabalho mais querido pelo público - o carisma do septeto não deixa a peteca cair. Arraste o sofá um pouquinho para o lado, dê o play e escolha This Is The World Of The Theater ou High Ticket Attractions para tocar. Ninguém ficará parado.


19) Sampha (Process): existem artistas que se tornam tão famosos pelas colaborações com outros, que quando resolvem lançar o seu primeiro registro, mais parecem veteranos do mundo da música. Com dois EPs bem recebidos no currículo - Sundanza (2010) e Dual (2013) - Sampha já esteve em estúdio para produzir nomes como Kanye West, Drake e Solange. Mas, como numa espécie de contraponto, a "inspiração" para a realização de um trabalho mais pessoal partiu de uma triste notícia: a morte de sua mãe vítima de câncer. Ainda que, aqui e ali, as notas possam parecer mais entristecidas, em linhas gerais o R&B sofisticado do britânico parece trafegar sempre no limite da esperança por dias melhores. Não por acaso canções como Blood On Me e (No One Knows Me) Like The Piano formam o contraponto perfeito entre energia pop e melancolia intimista.


18) Cigarettes After Sex (Cigarettes After Sex): esse disco não vai aparecer em nenhuma lista de melhores. Não adianta procurar. E talvez seja um dos que mais facilmente cairá nas graças do público, se analisarmos essa lista toda. Com um soft pop moderno e letras cheias de comentários espertos sobre relacionamentos que se firmaram ou esmoeceram Greg Gonzales, nos apresenta ainda uma musicalidade capaz de misturar guitarras a moda de um Interpol, efeitos no estilo The xx e um vocal meio Simply Red. Os refrões são grudentos e nos fazem pensar em uma noite de vinho, a meia luz, com aquela pessoa que mais curtimos. Come out and haunt me / I know you want me sussurra o vocalista na espetacular Apocalypse - candidata séria e melhor música do ano. Se você ainda não conhece, corre lá.


17) Fever Ray (Plunge): a cantora Karin Dreijer - que responde por esse projeto - já tem pelo menos uma música nesse ótimo disco para ser chamada de clássico: This Country. Além de fazer, na mesma canção, uma crítica as vidas padronizadas, ao sexo frio da era virtual e a criminalização do aborto, ela ainda encerra a música repetindo exaustivamente os versos This country makes it hard to fuck. Karin é sueca e fica difícil definir sobre qual País ela está falando exatamente, mas o caso é que até pra foder parece estar faltando ânimo - especialmente num planeta que parece voltar para a Idade Média no que diz respeito as discussões sobre gênero. Não bastasse a potência das letras, a banda ainda possui uma eletrônica toda torta, abstracionista, meio difusa, como se uma alienígena baixasse na terra pra cantar no Siouxie On The Banshees ao som de Kraftwerk.

16) The Afghan Whigs (In Spades): desde o retorno magistral com Do to the Beast (2014), os tiozões do grupo de Cincinnati fizeram a alegria dos fãs que, desde a década de 90, aguardavam um novo petardo do grupo principal de Greg Dulli. Se em seus projetos paralelos - Twilight Singers, The Gutter Twins - Dulli já aperfeiçoava seu modus operandi, ao retomar seu grupo original houve uma aumentada na voltagem sônica de sua mistura de rock e R&B, fazendo bom uso da sofisticação que só uma produção caprichada é capaz de fazer. Arabian Heights é Whigs em sua forma máxima, enquanto Copernicus e Demon in Profile hão de deixar qualquer fã de boa música com um sorriso no rosto, além de muito mais, em seus enxutos 30 minutos.


15) Perfume Genius (No Shape): a impressão que se tem ao ouvir o novo registro de Mike Hadreas - o nome por trás do projeto - é que ele parece finalmente ter encontrado a calmaria em seu coração. Se discos como Put Your Back N2 It (2012) e Too Bright (2014) eram potentes no discurso sobre alienação e vícios modernos - além do fato de Hadreas ser gay assumido - por outro lado eram absolutamente minimalistas em suas paredes sonoras. O caso é que este é um registro muito mais sorridente. Se a abertura com Otherside surge cm um piano discreto, logo adiante ela explode como se ali houvessem milhares de fagulhas multicoloridas, transcendentes e idílicas - quase como um passeio hippie no litoral. Essa sensação segue com as oitentistas Slip Away e Just Like Love que nos mostram o fato de ainda ser possível emular uma década inteira sem nunca soar repetitivo ou pouco original. Um discaço!


14) The War On Drugs (A Deeper Understanding): após a consagração de crítica e público do álbum Lost in the Dream (2014), o próximo rebento de Adam Granduciel e companhia vinha cercado de grandes expectativas. Como superar ou pelo menos manter a qualidade imensurável de sua obra-prima? Se este A Deeper Understanding não supera o supracitado deleite sonoro, pelo menos mantém o selo de qualidade The War On Drugs. Produção impecável, canções longas e melodiosas - mas sem nunca soar como algo progressivamente entediante -, vocais dylanescos, toques eletrônicos aqui e acolá criando os climas de uma viagem atemporal e emocionante. Faixas como Pain, Holding On e Strangest Thing não nos deixam mentir.


13) The National (Sleep Well Beast): é preciso que se diga que, dados os eventos políticos mais recentes na terra do Tio Sam - mais especificamente o primeiro ano de Donald Trump como presidente -, a expectativa por um novo álbum dos americanos, após um pequeno hiato de quatro anos, era ainda maior. Especialmente pelo fato de, com a sua palpável melancolia - percebida nos vocais entristecidos e nos acordes repletos de uma certa esquizofrenia minimalista - a banda parecer ser plenamente capaz de traduzir o desencanto do homem moderno. Sim, o Sleep Well Beast pode até não ser o Boxer (2007) ou o High Violet (2010) - os grandes registros de Matt Berninger e companhia. Mas canções como The System Only Dreams In Total Darkness, Day I Die e I'll Still Destroy You traduzem bem o espírito destes tempos sombrios que estamos vivendo. Mas sem perder o instrumental arrebatador. E o refrão.


12) Moses Sumney (Aromanticism): my wings are made of plastic / my wings are made of plastic lamenta Sumney na espetacular Plastic, com sua voz num falsete capaz de ser ao mesmo tempo sutil e cortante, sussurrado e hipnótico, como se invadisse o peito de cada ouvinte para arrancar seu coração, vísceras e tudo o mais. E tudo embalado por uma base sonora de uma eletrônica econômica que lembra uma curiosa mistura de Bon Iver e Bossa Nova. Tendo a sua voz como força motriz, o americano derrama em cada canto desse grande disco de estreia todas as inquietações, inseguranças e medos que permeiam os relacionamentos. O que faz com que o ouvinte tenha identificação imediata. Plastic pode ser a peça central do registro. Mas outros momentos de perfeito equilíbrio entre soul, jazz e R&B - casos de Quarrel (essa não faria feio num disco do Radiohead) e Doomed - fazem valer cada audição.


11) Harry Styles (Harry Styles): talvez tenha sigo o grande ano da carreira do inglês. Além de ter feito sua estreia no cinema - no mediano Dunkirk, mais recente obra do diretor Christopher Nolan - ainda conseguiu, com o lançamento desse primeiro registro solo, ter a sua imagem descolada daquela que possuía anteriormente, como integrante da boyband One Direction. Em seu trabalho de estreia, não se pode negar que Styles atira para o todo o lado, entregando um trabalho altamente heterogêneo - e pop na medida certa para ser tocado em tudo quanto é rádio. Mas ele acerta (quase) sempre, mostrando que amadureceu. Se Sign Of The Times não faria feio em um disco do Manic Street Preachers dos anos 90, o recente (e saboroso) single Two Ghosts é uma balada folk rock moderna sobre um amor fadado ao fracasso. Mas o fato é que é tudo muito bom de ouvir. É só deixar o preconceito de lado.

10) Kelela (Take Me Apart): se existe uma palavra que combina com a audição desse disco é "aconchego". Sim, é uma definição curiosa, mas chega a impressionar a sensação de acolhimento provocada no ouvinte, a cada curva sinuosa desse álbum de estreia carregado em um R&B moderno, que dialoga com o passado de uma forma muito natural. Com uma sonoridade absolutamente envolvente - que traz ainda ecos de jazz, de soul e de pop acessível -, a americana de origem etíope amplia o caráter evocativo de seu cancioneiro - o que já podia ser percebido no ótimo EP Hallucinogen (2013). Gosto de citar a FKA Twigs como uma referência para aquele estilo denso, que vai no limite entre o experimental e o comercial. Não vou dizer que Kelela bebe dessa fonte, porque é bem capaz de ela ter sido a inspiração. Ouça gemas como Frontline, LMK e a faixa-título e tenha a certeza de estar diante de uma das grandes estreias do ano.


9) SZA (Ctrl): existe um que meio de "R&B classudo dos anos 90" nessa estreia promissora da americana Solána Imani Rowe. Mas o fato de este ser o seu disco de estreia, não quer dizer que ela seja uma completa novata. Após duas mixtapes e um EP lançados desde 2012, a artista, talvez por um certo perfeccionismo, vinha protelando o lançamento deste saborosíssimo e mais do que bem-vindo registro - ainda mais diante das atuais discussões sobre a importância do respeito a igualdade entre gêneros. No álbum, 14 canções que versam sobre inseguranças, fantasias, desgostos e uma permanente sensação de perda de controle no que diz respeito ao amor. Seu vocal ao mesmo tempo doce e sussurrado faz o contraponto perfeito para as batidas eletrônicas levemente econômicas, mas cheias de groove. Sem medo de se mostrar eventualmente vulnerável, SZA nos acerta em cheio o coração.


8) Father John Misty (Pure Comedy): The comedy of man starts like this / Our brains are way too big for our mothers' hips (A comédia do homem começa assim / Nossos cérebros são muito grande para os quadris de nossas mães). É com essa frase que se inicia o registro mais recente do americano, um dos mais irônicos e sarcásticos "comentaristas" da atualidade. Absolutamente NADA parece escapar de seu escárnio e, ainda que a parte instrumental seja conduzida de forma quase monocórdica em alguns momentos, vale a pena ouvir esse longo disco com as letras (de preferência já traduzidas), a tiracolo. A diversão é garantida com uma verborragia quase sem fim e que não poupa nenhuma instituição. Mídia, religiões, governo.. ou mesmo a nossa infinita capacidade de reinventar ídolos. Tá tudo lá, nesse álbum imperdível.


7) Beck (Colors): a crítica em geral torceu o nariz pro novo disco do Beck - décimo terceiro da (longa) carreira. Mas como nós não somos a "crítica em geral", só o que podemos dizer é que AMAMOS. Deixando de lado o lo-fi, as eletronices e o country de outrora, o americano resolveu abraçar de vez o pop ensolarado, agridoce, leve, direto. Quem não conhece a discografia dele - aliás, ela é extremamente valiosa, especialmente o álbum Odelay (1996) - ficará absolutamente encantado com a energia jovial transmitida pelo registro. A moda de um fanfarrão que se diverte no estúdio - ele se aliou nesse disco ao produtor Greg Kurstin, que já trabalhou com Adele e Sia - Beck nos entrega uma verdadeira coleção de gemas que nos remetem aos momentos mais coloridos dos anos 80 (e 90 também) - tudo amparado por um instrumental desavergonhadamente kitsch. Experimente ouvir Seventh Heaven, Dreams e faixa título sem sorrir. Duvido!


6) Kendrick Lamar (DAMN): existe uma certa magia no cancioneiro de Lamar, que é capaz de colocá-lo no mesmo "saco" das grandes estrelas do rádio - seja pela sonoridade de fácil consumo, pelos efeitos eletrônicos convidativos ou mesmo pelos refrões grudentos - e dos maiores pensadores da música na atualidade. Mas o artista não está ali apenas para criticar ou para jogar na cara dos outros os problemas do mundo - sim, isso ele também faz com inteligência, referências, grandes rimas e maestria. Mas ele sabe TAMBÈM olhar pra si próprio como sujeito que está longe de ser perfeito e que é parte desse mecanismo. I got power, poison, pain and joy inside my DNA, canta o artista em DNA, um dos tantos grandes momentos desse visceral registro. É o tipo de disco capaz de transformar as pessoas que o escutam.


05) St. Vincent (Masseduction): poucas bandas são capazes de fazer uma crítica tão mordaz sobre a nossa relação com as novas tecnologias e sobre como podemos ser individualistas, hedonistas e niilistas na modernidade, como o St. Vincent. Se no autointitulado disco anterior Annie Clark já tratava do tema com propriedade - como esquecer os versos da imprescindível Digital Witness (Digital witnesses, what's the point of even sleeping? / If I can't show it, if you can't see me) - agora o assunto volta a baila com temas como amor líquido (Los Ageless), vício em medicamentos (Pills), alienação (Masseduction)e outros surgindo com igual intensidade - mas sem nunca soar hipócrita ou excessivamente conservadora. Não bastassem as letras potentes, a artista ainda equilibra tudo no limite entre o eletropop, o soft rock e o jazz, formando um conjunto melodioso de canções, totalmente alinhado a realidade em que vivemos. O que se pode perceber, diga-se, já pela capa.


04) Alvvays (Antisocialites): se de todas as bandas, artistas e discos que estão aqui nessa lista eu tivesse que indicar apenas uma para vocês, leitores do Picanha, essa seria esse simpaticíssimo quinteto canadense. Não bastassem os versos carregados de romantismo sobre os anseios e desilusões apaixonadas da juventude - que dão continuidade ao bem recebido primeiro e autointitulado registro de 2014 - esse trabalho ainda amplia as "tintas" comerciais, transformando cada fragmento melódico em uma singela homenagem aos anos 90, numa mistura que equilibra de maneira perfeita o lo-fi e o powerpop garageiro. Ainda que a vocalista Molly Rankin pareça estar sempre no "ponto do sofrimento", o fato é que a doçura nostálgica desse disco é totalmente irresistível.


03) Lana Del Rey (Lust For Life): todos os discos da Lana Del Rey são legais. Todos, sem exceção. Mas com Lust For Life, a artista parece ter atingido o auge do clima retrô/enfumaçado/weirdromance. A experiência que, inicialmente, parece exaustiva - o álbum possui 16 músicas e 1h12 (!) de duração - logo se torna um exercício de escuta musical dos mais prazerosos. Lana desfile toda a sorte de versos confessionais de imediata identificação por parte do ouvinte - You get ready, you get all dressed up / To go nowhere in particular (Você se arruma, se veste todo / Para is a nenhum lugar em especial), canta ela já na inaugural Love. Tudo embalado por aquele clima denso, levemente soturno e espacial. Frio e calor se misturando. Noite e dia. Amor e tesão. A americana parece saber das coisas. Se você ainda não se convenceu, escute Tomorrow Never Came. Depois a gente conversa.



02) The xx (I See You): num universo tomado por bandas que repetem fórmulas de maneira exaustiva e pouco criativa, a simples existência do The xx é um verdadeiro respiro. Dotado de uma personalidade própria que a distingue dos demais grupos, o trio aposta em uma eletrônica de acordes minimalistas e vocais sussurrados, capazes de prender o ouvinte já na primeira audição. E, após dois discos lançados - xx (2009) e Coexist (2012) - caso ainda houvesse quem torcesse o nariz para os britânicos, esse terceiro registro ainda apresenta uma "novidade": uma coleção de canções absurdamente radiofônicas, dotadas de uma certa pegada pop - mas sem esquecer aquele clima fim-de-noite-enfumaçado-na-grande-metrópole, que amamos. Experimente ficar alheio a verdadeiras gemas como On Hold, I Dare You e Replica. É simplesmente impossível.


01) Lorde (Melodrama): quem acompanha as notícias do mundo da música deve ter lido a matéria sobre a mulher que invadiu o Museu do Louvre para pendurar uma cópia do disco da neozelandesa em meio a outras obras de arte. Sim, pode parecer exagero, mas o novo registro da jovem artista que recém completou 21 anos é um verdadeiro combo de letras confessionais sobre a chegada da vida adulta (e seus prazeres, romances, rompantes), com tudo embalado por uma sonoridade ao mesmo tempo acessível e classuda, comercial e robusta. É aquele tipo de disco homogêneo - como se fosse uma espécie de ópera moderna cheia de nuances -, ainda que cada composição consiga "gritar" sozinha - indo da calmaria ao caos em segundos -, nos fazendo ter vontade de apertar o repeat infinitas vezes. Um verdadeiro clássico moderno. Digno do Louvre.

E então, pessoal, gostaram da lista? Ou faltou algum bom disco aí no meio? Comentem conosco!

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Cinema - Terra Selvagem (Wind River)

De: Taylor Sheridan. Com Jeremy Renner, Elisabeth Olsen, Graham Greene (II), Jim Birmingham e Jon Bernthal. Suspense / Policial, EUA / Canadá / Reino Unido, 2017, 110 minutos. 

Terra Selvagem (Wind River) tem um trailer feito sob medida para atrair o cinéfilo fã de suspense policial: um cenário inóspito (e gelado), um assassinato, uma tensão presente em cada detalhe, além da existência de um Jeremy Renner com ar melancólico e endurecido. Parece a equação perfeita e, no começo, até é. Renner, que na obra se chama Cory, é uma espécie de caçador de coiotes e de predadores, que é incumbido de localizar o animal que tem sido responsável pela morte do rebanho de um dos nativos. Só que em uma de suas rondas ele encontra o corpo congelado de uma jovem morta - que é identificada como a filha do índio Dan (Birmingham), que é amigo de Cory. As circunstâncias parecem misteriosas: ela está de pés descalços, com sinais de estupro, em uma região absolutamente isolada.

Para tentar solucionar o caso, o FBI designa a novata agente Jane Banner (Olsen) - aliás, este um equívoco em uma obra que pretende, em alguma medida, discutir o completo abandono de grupos remanescentes de reservas indígenas. Sim, é a loira de olhos claros que tentará, com a ajuda de Cory (também branco), montar as peças desse quebra-cabeças que parece envolver outros habitantes locais que, também se tornam suspeitos - e, é preciso que se diga, o terço inicial da película se constitui em um excelente exercício de suspense, com montagem fluída, ângulos de câmera que reforçam o caráter inóspito do local e trilha sonora marcante. O mesmo vale para os personagens secundários, como o xerife Ben (Greene) e Matt (o sempre ótimo Bernthal).



Só o que era um suspense levemente enigmático - com revelações como a de que o personagem de Renner também perdeu uma filha no passado (os crimes teriam alguma conexão?) - se torna uma obra excessivamente catártica do ponto de vista da violência, conforme se aproxima o desfecho. Especialmente após Cory e Jane localizarem, em uma propriedade particular, o grupo que, aparentemente, estaria envolvido com o caso. Com um flashback único, somos apresentados aos eventos que desencadearam na morte da jovem - o que transforma os jovens sádicos (aparentemente sob efeito de bebida) em uma massa de sujeitos permanentemente malvados em seu estranho isolamento, em um maniqueísmo simplista que nos leva, em alguma medida, ao maior problema da película: o de tornar o espectador uma espécie de cúmplice da ideia tão moderna (quanto retrógrada) de que "bandido bom é mesmo bandido morto".

Sheridan foi roteirista nos ótimos Sicário (2015) e A Qualquer Custo (2016) e, em sua estreia como diretor, até acerta ao tentar tornar a obra uma espécie de pequeno comentário social da condição indígena dentro de reservas localizadas em lugares inóspitos. (e, não é por acaso, que mesmo o censo demográfico dos Estados Unidos sequer tem números sobre assassinatos nesse locais, por exemplo) O mesmo vale para as rimas visuais e metáforas, especialmente as que envolvem o personagem de Cory que, de alguma maneira, também está em uma espécie de caçada bastante particular para chegar a alguma conclusão sobre o que, de fato, teria ocorrido com a filha do amigo. Só que não é suficiente. Ao exagerar no clima "os fins justificam os meios" ou mesmo ao emular a Lei de Talião (do "olho por olho dente por dente"), Sheridan erra feio. E, assim, se alinha as correntes mais reacionários e intolerantes do planeta, transformando os "mocinhos" em criminosos tão abomináveis quanto àqueles que repudiamos.

Nota: 5,5

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Pérolas do Netflix - Ao Cair da Noite (It Comes At Night)

De: Trey Edward Shults. Com Joel Edgerton, Kelvin Harrison Jr., Carmen Ejogo, Christopher Abott e Riley Keough. Suspense, EUA, 2017, 91 minutos.

O suspense é, muitas vezes, um gênero que gera desconfiança entre os cinéfilos - seja pela eventual (falta de) qualidade das produções ou mesmo pelas histórias pouco criativas ou excessivamente forçadas. Mas, aqui e ali, é possível pinçar obras virtuosas, que adotam roteiros econômicos que, no fim das contas, estão muito menos interessadas nos famosos "sustos fáceis" e muito mais empenhadas em conduzir o espectador na direção de um clima de tensão naturalmente sufocante, claustrofóbico e quase inexplicável - e que flerta, de fato, com o desconhecido. Mas um desconhecido palpável, possível, que faz com que enxerguemos as personagens como figuras verossímeis em um cenário idem. E é exatamente isto o que ocorre com o excelente Ao Cair da Noite (It Comes At Night), que está disponível na Netflix.

A trama é simplíssima: um homem chamado Paul (Edgerton), mora com a esposa Sarah (Ejogo) e com o filho Travis (Harrison Jr.) em uma casa solitária e misteriosa, em um mundo que parece conviver com uma severa ameaça a saúde das pessoas - o que é explicado já na primeira cena da película, quando assistimos a morte do pai de Sarah, que parece padecer de um vírus fatal. Não bastassem as dificuldades naturais relativas as tentativas de sobreviver em um mundo em que uma doença altamente transmissível assola a humanidade, o trio ainda vê a sua casa invadida por um desconhecido de nome Will (Abott), que garante estar ali com a intenção de buscar um local para alojar sua família, que está há dezenas de quilômetros e necessita especialmente de água - além de um local que lhe dê conforto e segurança.



O sujeito parece dizer a verdade, mas como acreditar? Especialmente em um mundo que convive com a desconfiança, com a paranoia e com o medo do desconhecido? E aí está um dos grandes acertos do filme dirigido pelo jovem Trey Edward Shults: ao invés de centrar seu foco nos desdobramentos da doença que está matando os habitantes da Terra ou em como se defender dela, o diretor trabalha muito mais com o temores relacionados ao outro. (e, nesse sentido, é impossível não associar a película ao universo que habitamos, cheio de doenças capazes de dificultar a nossa sobrevivência, mas também repleto de ódio, de intolerância, de preconceitos e de falta de empatia) A doença está ali, mas não seria o homem em si - e seu comportamento beligerante - muito mais "doente"? E, é preciso que se diga, esta metáfora por si só já faz valer o filme.

Mas Shults recheia a película com um clima permanente de tensão , especialmente após a família de Will - sua esposa Kim (Keough) e o bebê de ambos - se mudar para a casa claustrofóbica e escura de Paul e de sua família. A intenção é unir forças contra o "desconhecido", com Paul fornecendo o abrigo e Will a comida. Mas o clima NUNCA é tranquilo. Paul parece desconfiar sempre das intenções de Will - por mais amistoso e amoroso (especialmente com sua esposa), que este pareça ser. Há algum segredo? Ou é só medo? Paranoia? A imaginação fervilhando? O clima absolutamente sufocante é aumentado pelos incessantes sonhos de Travis - e a interpretação de Harrison Jr. é não menos do que realista, convincente e, até mesmo, comovente.


Apresentando um desfecho amargo (SPOILER ALERT), que faz lembrar outras obras de suspense, como o irrepreensível O Nevoeiro (2007), baseado na obra de Stephen King, Shults nos faz refletir sobre a importância da empatia, da compreensão em relação ao outro e da importância de não tomar atitudes precipitadas que poderão gerar dissabores e traumas para toda a vida. É um filme conduzido de forma fluída, com tensão permanente e que transforma sequências simples - como a perseguição de um cachorro no meio do mato ou uma discussão em família - em cenas impactantes. O que prova que a simplicidade e a sutileza - inclusive no que diz respeito as formas de passar o recado - podem ser muito mais eficientes do que sequências em que somos surpreendidos pela "queda de bigornas" (ou por gatos que surgem miando, do nada).

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Tesouros Cinéfilos - Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual (Medianeras)

DE: Gustavo Taretto. Com Javier Drolas, Pilar Lólez de Ayala e Inés Efron. Comédia romântica, Argentina / Espanha / Alemanha, 2011, 95 minutos.

Poucas vezes a juventude solitária, mas que mantém a esperança - especialmente no amor - em meio a um mundo cheio de pessoas e povoado pela tecnologia, foi tão bem descrita como magnífico Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual (Medianeras), verdadeira obra-prima do cinema moderno argentino. Ainda que seja eventualmente pessimista em seu tom e no olhar para seus protagonistas - o webdesigner e fotógrafo ocasional Martin (Javier Drolas) e a arquiteta e vitrinista Mariana (Pilar López de Ayala) -, a película mantém um permanente clima de ternura e de leveza capaz de tornar a experiência não menos do que deliciosa. É um filme que traça um paralelo entre a arquitetura e o eventual crescimento desordenado e sem nenhum planejamento dos grandes centros, com as vidas das pessoas que também surgem desalinhadas, confusas, cheias de dúvidas, de fobias, de doenças e vivendo um sem fim de frustrações. E, pior: como encontrar o amor em meio a esse caos, especialmente após relacionamentos fracassados?

Mas a melhor notícia: não se trata de um drama pesado. Muito pelo contrário, ao adotar uma postura absolutamente literal em sua abordagem, o diretor e roteirista Gustavo Taretto transforma Medianeras em uma experiência gráfica que dialoga com o seu tempo e que é capaz de apresentar as metáforas - quase esfregadas na cara do espectador - de uma forma fluída, orgânica e totalmente deliciosa. Em resumo, é aquele filme gostoso de assistir. Mariana gosta de abrir o seu livro de Onde Está Wally? para procurar o famoso personagem nos mais variados locais - seja em shoppings, na praia ou no aeroporto. Bom, não é preciso ser nenhum gênio para supor que o "Wally" que ela nunca encontrou em uma daquelas páginas, poderá ser justamente o sujeito que encherá de cor os seus dias - assim como ocorre com as multicoloridas páginas de tal publicação.


Sim, é um filme romântico por excelência. Mas nunca aquele romantismo brega, piegas ou clichê. Tá, talvez um pouquinho. Mas é uma obra adorável e doce, que acompanha a rotina solitária dos personagens - Martin gosta de jogar videogame e assistir Astro Boy e faz um bico como cuidador de cachorros, enquanto Mariana se esforça para aturar um vizinho de prédio que gosta de executar música clássica ao piano -, bem como seus encontros e desencontros (eles são vizinhos). São duas pessoas aparentemente infelizes, com muitas diferenças, e que devem aprender diariamente a enfrentar um mundo que nem sempre lhes parecerá o mais inadequado. Na realidade, refletido na metrópole cinzenta, em grande parte das vezes parecerá aquele mundo frio, oblíquo, difuso e até mesmo opressor e claustrofóbico. Tal qual os cubículos e os prédios em que residem.

Repleta de frases de efeito significativas fruto das divagações de ambas as personagens em suas rotinas de isolamento - "que gênios esconderam o rio com prédios e o céu com cabos?", "a internet me aproximou do mundo, mas me distanciou da vida", "observar é estar e não estar", "quem dera minha cabeça funcionasse como um Mac" - a película ainda nos brinda com uma série de citações culturais, que vão de Manhattan (o filme do Woody Allen), passando pelo Jogo da Vida, até chegar a Star Wars. Tudo de uma forma orgânica, natural e que promove um verdadeiro deleita visual. O que torna Medianeras, com toda a sua plástica própria e toda a sua personalidade gritante, ela mesma em uma verdadeira peça de arte contínua - como se o próprio filme, com todos os seus elementos, objetos cênicos, trilha sonora e personagens complexos, fosse uma espécie de instalação artística pronta para ser apreciada.


Os mais exigentes talvez digam "ah, é só uma comédia romântica boba e adolescente, que não reflete a realidade da maioria dos jovens". Pode ser. Mas é uma experiência divertida, leve, despretensiosa, como muitas vezes podem (e devem) ser os produtos artísticos. Se talvez não haja tanta profundidade neste debate envolvendo a solidão (e até mesmo a depressão) da juventude na pós-modernidade, impossível é ignorar o realismo daquilo que vemos retratado na tela (e não seria difícil substituir Buenos Aires por Porto Alegre, pra ficar só num exemplo). E se o filme já existisste na era do Tinder, do Happn e de outros aplicativos de relacionamento? Talvez pudessem ser acrescentadas ainda outras camadas a obra. O que reforçaria o fato de que a tecnologia não para. Nos toma. Nos ocupa. Nos faz as vezes esquecer de como é importante viver a vida no mundo real. E a conclusão do filme nos mostra que NADA substitui isso. E que o acaso, muitas vezes, é capaz de nos surpreender.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - A Lição (Bulgária)

De: Kristina Grozeva e Petar Valchanov. Com Margita Gosheva, Ivan Barnev e Stefan Denolyubov. Drama, Bulgária, 2014, 111 minutos.

Sartre já dizia que "o inferno são os outros" e que as nossas ações deveriam, fruto da nossa liberdade individual, servir de espelho para a sociedade em que vivemos. Mas como tomar decisões exemplares diante de situações limite? É mais ou menos isso que discute o ótimo filme búlgaro A Lição (Urok). A obra inicia em uma sala de aula, onde uma professora de inglês (Gosheva) inquire os seus alunos a respeito do sumiço de uma certa quantia de dinheiro de um dos estudantes. Aparentemente rígida em seu código de ética, a docente se esforça para descobrir o responsável pelo pequeno delito, com a intenção de lhe ensinar uma lição sobre o caso. Não por acaso, como forma de resolver a questão, ao menos de forma paliativa, ela faz com que todos os colegas de turma doem uma certa quantia para cobrir o valor desaparecido no furto - sendo este devolvido para a dona.

Em seguida, ao chegar em casa, ela se depara com o marido sendo pressionado por um oficial de justiça sobre o atraso de três meses no pagamento do financiamento habitacional - em três dias a casa irá a leilão caso a dívida não seja saldada. Desempregado, o marido havia utilizado o dinheiro para comprar uma caixa de marchas nova para o trailer da família, com a intenção de vendê-lo e, assim, cobrir as despesas relativas a hipoteca. O que, evidentemente, não deu certo. Para piorar a situação, a empresa que a protagonista presta serviços de tradução de textos - um complemento de renda - não apenas lhe atrasa os pagamentos, como acaba falindo. (e, diante desse cenário de burocracia, de pressão institucional e de descaso com as camadas mais humildes da população, é impossível não comparar a Bulgária parlamentarista com o Brasil presidencialista)


O que se assiste a partir desse processo é uma verdadeira espiral descendente onde o aviltamento financeiro é o gatilho para uma improvável bola de neve em que uma ação leva a outra muito pior, com o objetivo de levantar o dinheiro para o pagamento da dívida. Se um encontro com o pai (aparentemente rico e bem de vida) é um desastre que traz a tona mágoas do passado, pior ainda será a obtenção de verba com um agiota claramente mal intencionado. Nesse sentido, se consiste em uma obra preciosa que discute a falência de um sistema - no caso o capitalismo - que, em muitos casos, beneficia uma pequena parcela da população, para deixar a grande maioria do povo na miséria. E o pior, transforma uma professora dona de um rígido código de conduta - e que deveria certamente ser alguém muito mais respeitada na esfera social - em uma pessoa a margem da sociedade, que deve se sujeitar a um sem fim de humilhações com a intenção de manter um mínimo de dignidade.

Não é uma obra fácil de assistir - como ocorre, em muitos casos, com os filmes do Leste Europeu. E se a Bulgária não tem assim uma grande tradição cinéfila - especialmente pelos problemas financeiros enfrentados pelo País e pela queda do padrão de vida da população, com o fim da União Soviética - pode-se dizer que esse A Lição dá uma verdadeira "aula" (perdão pelo trocadilho) de bom cinema de estilo social. O que pode ser observado pelas interpretações (com destaque para Gosheva), pela fotografia pálida - tal qual a vida das personagens que assistimos na tela -, pela quase completa ausência de som (o som diegético é muito bem utilizado e mixado) e pelo figurino que retrata bem a condição social de cada um dos envolvidos. (e observar o agiota utilizando uma camiseta que mostra dois animais "se comendo" não é apenas uma rima visual desalentadora, mas um retrato quase literal daquela que pode ser considerada a realidade vivida pela família da protagonista) Um filme realista, seco, melancólico e que ainda conta com um final inesperado. Vale conferir!

Na Espera - Phantom Thread (Filme)

Finalmente uma parte do mistério que envolve a nova produção do diretor Paul Thomas Anderson (Magnolia, Sangue Negro, O Mestre) foi desvendada, com a divulgação de um trailer para o filme Phantom Thread, que tem estreia mundial prevista para o dia 25 de dezembro! Sério candidato a figurar entre os indicados do Oscar 2018 - em várias categorias - o filme se passa em meio ao glamour da Londres dos anos 50, onde o renomado costureiro Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis em seu último papel, antes da aposentadoria) e sua irmã Cyril (Lesley Manville) estão no centro da moda britânica, vestindo a realeza, estrelas de cinema, herdeiros, socialites, debutantes e damas com o distinto estilo da Casa de Woodcock.



Na trama, mulheres parecem ir e vir na vida de Woodcock, entregando inspiração e companhia ao solteiro, até o dia em que ele encontra a jovem e opiniosa Alma (Vicky Krieps), que logo se torna um acessório em sua vida como musa e amante. Uma vez "controlado" pela moça, ele verá sua vida minuciosamente planejada ser interrompida justamente pelo amor. O trailer tem estilo classudo e dá a impressão de que virá por aí uma película com grande interpretação de Day-Lewis, em uma obra que ainda deverá receber atenção pelo desenho de produção, pela fotografia e também pela trilha sonora. Na bolsas de apostas o hype tem falado mais alto e há a expectativa é a maior possível. Por aqui, naturalmente, já estamos Na Espera!


terça-feira, 24 de outubro de 2017

Novidades em DVD - O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled)

De: Sofia Coppola. Com Colin Farrell, Nicole Kidman, Kirsten Dunst e Elle Fanning. Drama, EUA, 2017, 93 minutos.

Sou um fã do trabalho da diretora Sofia Coppola, o que torna a decepção um pouco maior com o resultado alcançado pela refilmagem de O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled) - o original foi dirigido por Don Siegel, em 1971. Sob a desculpa de "aparar as arestas" e retirar boa parte do componente politicamente incorreto do original, tentando ainda - com justiça, diga-se - focar a trama muito mais nas moradoras do internato em que vai parar o soldado da União John McBurney ((Farrel), Sofia consegue apenas reduzir a carga dramática e a tensão sexual de um filme que, diga-se, já nem era lá grandes coisas no original. Pior ainda: suprimir da história sequências como a do beijo do soldado em uma menina de 12 anos (o que ocorre no original) e, pior, fazer desaparecer do mapa a escrava Holly, que tinha valioso papel na discussão do preconceito - basta lembrar das escabrosas reação da personagem de Clint Eastwood no terço final da obra de 1971 -, é fazer de conta que, em um cenário de guerra (ou mesmo no cotidiano), outros crimes horrorosos como pedofilia e racismo não existem.

Nesse sentido, ao ignorar essas subtramas, a diretora não melhora a obra do ponto de vista do debate em relação a estes temas. Muito pelo contrário, especialmente para quem não viu ao filme antigo. Aliás, enquanto assistia a moderna releitura da diretora - sempre estilosa do ponto de vista do desenho de produção, da fotografia e da edição de som - apenas conseguia pensar em como os integrantes do MBL ficarão felizes diante dessa releitura, que joga no lixo questões cruciais discutidas no roteiro da película inaugural. E me admira alguns críticos profissionais de cinema (longe do nosso caso, aqui no Picanha) estarem valorizando essa escolha, como se esconder temas espinhosos debaixo do tapete automaticamente nos livrasse deles. Racismo e pedofilia existiam aos montes na época da Guerra Civil Americana? Sim, provavelmente é só ir para a internet para que se constate isso. Mas no filme de Coppola isso não aparece. Ou aparece pouco. Como se o espírito transgressor da arte não pudesse nos servir justamente para a reflexão sobre assuntos considerados tabu.



E se algumas escolhas não são tão interessantes, apagando parte da força político-ideológica do filme, outras são muito mais adequadas aos tempos em que vivemos. A própria Amy (Oona Lawrence), a menina de 12 anos que encontra o soldado ferido em um matagal próximo ao internato de mulheres gerenciado pela diretora Martha Farnsworth (Kidman), é muito mais ingênua do que no original - afinal de contas, nunca é demais lembrar que se trata de uma criança. Já a aparente disputa entre todas as mulheres do internato - que envolve ainda a professora Edwina (Dunst) e a aluna Alicia (Fanning), além de Martha - pela atenção do inesperado visitante (um inimigo que deverá se recuperar para ser entregue aos oficiais confederados do Sul, onde se passa a história) é atenuada, provavelmente, pelo bem da sororidade. O que explica, por exemplo, a exclusão da sequência do original em que Alicia, numa explosão de ciúmes em relação a Edwina, praticamente entrega o soldado inimigo ao pendurar um pano azul no portão do educandário (que era o sinal que advertia as tropas sulinas para a presença do inimigo).

Só que, do ponto de vista da carga dramática, estas escolhas também reduzem parte da força da obra. E se no filme mais recente os jogos e provocações entre as meninas parecem mais discretos ou mesmo atropelados - na intenção de dar mais espaço em cena para todas, o resultado parece meio confuso -, o mesmo vale para a condição imposta ao soldado McBurney. Se no original ele ficava literalmente trancado no quarto, num clima permanente de tensão, de claustrofobia e de luxúria, no segundo filme ele não apenas transita livremente, como se torna até mais "amigo" das companheiras de internato. O que também diminui drasticamente o clima de sedução, que agora parece muito mais insosso. Nesse sentido, até mesmo o impacto visual das escolhas de Martha no terço final, a partir dos eventos ocorridos na casa, é reduzido (por mais que o trailer tente vender o contrário).


Sim, comparar esta com aquela obra nunca é bom e é evidente que Sofia Coppola tentou de todas as formas imprimir o seu estilo, transformando o seu O Estranho que Nós Amamos em uma película mais urgente, moderna e até mesmo palatável para todas as famílias de bem. Mas para a diretora que já nos brindou com obras-primas modernas como As Virgens Suicidas (1999) e Encontros e Desencontros (2003), me pareceu faltar mesmo foi uma boa dose de ousadia. Debater assuntos caros aos tempos em que vivemos, como, empoderamento feminino, racismo, pedofilia, machismo e outros, não é transformar um filme (ou qualquer produto artístico) em algo certinho ou fácil de assistir. É, sim, utilizá-lo para escancarar essas feridas que até hoje fazem a sociedade sangrar. Aliás, nem sangue se vê no filme. As bombas da guerra explodem lá longe, as pernas não aparecem rasgadas, os soldados parecem mansos demais (e não os inimigos que talvez fossem). Para quem quer uma experiência um pouco mais interessante sobre o filme dirigido a partir do livro de Thomas Cullinan, a versão do começo dos anos 70 ainda é melhor. Infelizmente.

Nota: 6,3

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Lançamento de Videoclipe - Phoenix (Ti Amo)

É praticamente impossível permanecer alheio ao retrô sofisticado dos franceses do Phoenix que, com o seu mais recente lançamento, Ti Amo, promove uma divertida mistura de pop oitentista com o cancioneiro kitsch italiano. E a prova de que o que vale mesmo para o quarteto é o bom humor, está justamente no lançamento do videoclipe para a faixa-título, que alterna imagens de diversas localidades da Itália com outras sequências que envolvem filmes rodados no País, tudo amparado por uma nostalgia e uma graça cheias de charme. (e sem esquecer que a letra da música é MUITO engraçada, com citaões ao Festival de San Remo, a série Bonanza e até a Beethoven) Já assistiram ao vídeo? Bora clicar pra conferir!