Mesmo com o prestígio entre os "acadêmicos", limitado a apenas duas categorias, a obra vem forte na briga pela estatueta de Melhor Filme. Alguns sites especializados - como o Awards Circuit -, inclusive o colocam como o quarto colocado na bolsa de apostas - atrás apenas de Birdman, Boyhood e O Jogo da Imitação, os mais cotados a faturar o grande prêmio da noite. Sobre o Selma, trata-se de uma cinebiografia do pastor protestante e ativista social Martin Luther King, Jr (David Oyelowo), que acompanha as históricas marchas realizadas por ele e por manifestantes pacifistas em 1965, entre a cidade de Selma, no interior do Alabama, até a capital do estado, Montgomery, em busca de direitos eleitorais iguais para a comunidade afro-americana. Lembrando que o Oscar ocorre no dia 22 de fevereiro.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Aquecimento para o Oscar - Selma: Uma Luta Pela Igualdade
É uma situação bastante peculiar a que ocorre com o filme Selma - Uma Luta Pela Igualdade (Selma, 2014), que estreia amanhã (05 de fevereiro) nos cinemas nacionais. O filme da jovem diretora Ava DuVernay recebeu apenas duas indicações, nas categorias Melhor Filme e Melhor Canção Original (Glory). Normalmente um filme nominado para o principal prêmio da noite, também recebe indicações em outras categorias, como Ator ou Atriz, ou mesmo Roteiro Original. Não é a regra, evidentemente, mas é o que normalmente ocorre. O ótimo Interestelar, último do Christopher Nolan, recebeu cinco indicações, por exemplo. O mesmo ocorrendo com Foxcatcher. Mas nenhum dos dois chegou perto da nominação na principal categoria. Coisas da Academia.
Mesmo com o prestígio entre os "acadêmicos", limitado a apenas duas categorias, a obra vem forte na briga pela estatueta de Melhor Filme. Alguns sites especializados - como o Awards Circuit -, inclusive o colocam como o quarto colocado na bolsa de apostas - atrás apenas de Birdman, Boyhood e O Jogo da Imitação, os mais cotados a faturar o grande prêmio da noite. Sobre o Selma, trata-se de uma cinebiografia do pastor protestante e ativista social Martin Luther King, Jr (David Oyelowo), que acompanha as históricas marchas realizadas por ele e por manifestantes pacifistas em 1965, entre a cidade de Selma, no interior do Alabama, até a capital do estado, Montgomery, em busca de direitos eleitorais iguais para a comunidade afro-americana. Lembrando que o Oscar ocorre no dia 22 de fevereiro.
Mesmo com o prestígio entre os "acadêmicos", limitado a apenas duas categorias, a obra vem forte na briga pela estatueta de Melhor Filme. Alguns sites especializados - como o Awards Circuit -, inclusive o colocam como o quarto colocado na bolsa de apostas - atrás apenas de Birdman, Boyhood e O Jogo da Imitação, os mais cotados a faturar o grande prêmio da noite. Sobre o Selma, trata-se de uma cinebiografia do pastor protestante e ativista social Martin Luther King, Jr (David Oyelowo), que acompanha as históricas marchas realizadas por ele e por manifestantes pacifistas em 1965, entre a cidade de Selma, no interior do Alabama, até a capital do estado, Montgomery, em busca de direitos eleitorais iguais para a comunidade afro-americana. Lembrando que o Oscar ocorre no dia 22 de fevereiro.
Cinema - Grandes Olhos
De: Tim Burton. Com Amy Adams, Christoph Waltz e Krysten Ritter. Comédia dramática, EUA, 2014, 106 minutos.
Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade. A frase atribuída ao político alemão Joseph Goebbels serve perfeitamente para resumir a história de Grandes Olhos (Big Eyes), mais recente empreitada do diretor Tim Burton - que finalmente deixa de lado o estilo sombrio para apostar numa paleta de cores mais ensolarada, ainda que se trate de uma obra com alta carga dramática. A trama - que de tão improvável chega a surpreender que seja baseada em fatos reais -, narra a história da pintora Margaret Keane (Amy Adams) que, recém-separada do marido, tenta a vida vendendo quadros de crianças assustadoras com os tais "olhos grandes", em pequenas feiras culturais da cidade de San Francisco.
A vida da artista muda completamente quando ela conhece o charmoso pintor Walter Keane (Christoph Waltz, abusando um pouco do estilo "quero-ganhar-mais-um-Oscar-então-vou-exagerar-na-dose"), que a pede em casamento, propondo também uma parceria de negócios: ela pinta, ele vende. Financeiramente arruinada e com o risco de perder a guarda da filha, Margaret aceita a proposta. Só que, conforme o negócio avança e os quadros da pintora começam a ficar famosos, Walter muda o seu comportamento, embebido pela fama repentina, atribuindo a ele próprio a autoria dos retratos. "Tudo pelo bem do negócio", diz ele, já que, nos anos 50, não eram tão comuns as mulheres ligadas as artes.
O filme discute de maneira inteligente as questões de gênero, em uma época em que as mulheres eram apenas esposas submissas e subservientes ao marido. Vivendo diariamente sob a ameaça de revelação da farsa, à Margaret só resta pintar, tornando-se conivente com a proposta. E, enquanto Walter tem encontros com estadistas internacionais e artistas de Hollywood, em saraus repletos de pessoas elegantes interessadas nos quadros - que vão ficando mais famosos a cada dia -, a pintora se enclausura em um minúsculo cômodo da mansão em que vivem, isolando-se não apenas dos antigos amigos, mas também da própria filha. Que, evidentemente, passa a desconfiar do comportamento recluso da mãe.
Com excelente trabalho cenográfico, a obra recria os anos 50 e 60, com seus figurinos e penteados típicos, de forma acertada e, ao mesmo tempo, econômica. Bem diferente daquilo que nos acostumamos a ver em outros filmes de Tim Burton - casos de A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, Sweeney Todd e Sombras da Noite - aqui a fotografia é mais ensolarada e colorida, ainda que, nos momentos de maior suspense, o filme ganhe cores mais frias, tornando a paleta mais sombria. No elenco, Adams, que foi agraciada com o Globo de Ouro como atriz de Comédia ou Musical, entrega um trabalho soberbo - ainda que tenha sido ignorada no Oscar. Diferentemente de Waltz, que mais parece interessado em impressionar pelos maneirismos, algo que o torna, em alguns momentos, caricato, tirando parte da força da película.
Nota: 7,5
Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade. A frase atribuída ao político alemão Joseph Goebbels serve perfeitamente para resumir a história de Grandes Olhos (Big Eyes), mais recente empreitada do diretor Tim Burton - que finalmente deixa de lado o estilo sombrio para apostar numa paleta de cores mais ensolarada, ainda que se trate de uma obra com alta carga dramática. A trama - que de tão improvável chega a surpreender que seja baseada em fatos reais -, narra a história da pintora Margaret Keane (Amy Adams) que, recém-separada do marido, tenta a vida vendendo quadros de crianças assustadoras com os tais "olhos grandes", em pequenas feiras culturais da cidade de San Francisco.
A vida da artista muda completamente quando ela conhece o charmoso pintor Walter Keane (Christoph Waltz, abusando um pouco do estilo "quero-ganhar-mais-um-Oscar-então-vou-exagerar-na-dose"), que a pede em casamento, propondo também uma parceria de negócios: ela pinta, ele vende. Financeiramente arruinada e com o risco de perder a guarda da filha, Margaret aceita a proposta. Só que, conforme o negócio avança e os quadros da pintora começam a ficar famosos, Walter muda o seu comportamento, embebido pela fama repentina, atribuindo a ele próprio a autoria dos retratos. "Tudo pelo bem do negócio", diz ele, já que, nos anos 50, não eram tão comuns as mulheres ligadas as artes.
O filme discute de maneira inteligente as questões de gênero, em uma época em que as mulheres eram apenas esposas submissas e subservientes ao marido. Vivendo diariamente sob a ameaça de revelação da farsa, à Margaret só resta pintar, tornando-se conivente com a proposta. E, enquanto Walter tem encontros com estadistas internacionais e artistas de Hollywood, em saraus repletos de pessoas elegantes interessadas nos quadros - que vão ficando mais famosos a cada dia -, a pintora se enclausura em um minúsculo cômodo da mansão em que vivem, isolando-se não apenas dos antigos amigos, mas também da própria filha. Que, evidentemente, passa a desconfiar do comportamento recluso da mãe.
Com excelente trabalho cenográfico, a obra recria os anos 50 e 60, com seus figurinos e penteados típicos, de forma acertada e, ao mesmo tempo, econômica. Bem diferente daquilo que nos acostumamos a ver em outros filmes de Tim Burton - casos de A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, Sweeney Todd e Sombras da Noite - aqui a fotografia é mais ensolarada e colorida, ainda que, nos momentos de maior suspense, o filme ganhe cores mais frias, tornando a paleta mais sombria. No elenco, Adams, que foi agraciada com o Globo de Ouro como atriz de Comédia ou Musical, entrega um trabalho soberbo - ainda que tenha sido ignorada no Oscar. Diferentemente de Waltz, que mais parece interessado em impressionar pelos maneirismos, algo que o torna, em alguns momentos, caricato, tirando parte da força da película.
Nota: 7,5
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Cinema - Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo.
De: Bennett Miller. Com: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, e Vanessa Redgrave. Drama, EUA, 2014, 129 min.
Baseado em uma história real, este Foxcatcher: Uma História que Chocouos Estados Unidos o Mundo (Foxcatcher) narra um drama que se passa em cenário tendo como pano de fundo a luta greco-romana, mas não é um filme sobre o esporte - pelo contrário. Na trama, o humorista Steve Carell (conhecido por filmes como O Virgem de 40 Anos e pela versão americana do seriado The Office) está irreconhecível e surpreendente como o excêntrico milionário John E. du Pont que, nos anos 80, cria e patrocina um centro de treinamento para lutadores em sua mansão, sendo a equipe batizada de Foxcatcher, com o objetivo de prepará-los para as Olimpíadas de Seul. Eis então que os irmãos Mike e David Schultz são contatados para fazer parte do grupo. Mike (Tatum), o caçula, é um ser introspectivo e desencantado devido aos resultados dos treinamentos recentes, e cuja relação com o irmão mais velho guarda uma série de ressentimentos, o que faz com que o mesmo encontre em du Pont uma figura paterna. David (interpretado pelo sempre talentoso e boa praça Mike Ruffalo), pelo contrário, é um atleta respeitado e responsável para com sua família, aceitando treinar o irmão na preparação devido à solicitação do milionário.
Contando com fortes atuações do elenco principal (Carell e Ruffalo tiveram suas performances indicadas ao Oscar), o filme centra suas atenções na dinâmica entre os três indivíduos. O personagem de Carell é um enigma inicialmente: com discurso de empresário bem sucedido e patriota, aparenta ser uma espécie de fomentador de astros do esporte que tanto gosta, oportunizando aos atletas um lugar distante e bem equipado para treinar, além de um salário mais digno e belas instalações para moradia. No entanto du Pont, cuja relação com a mãe (Redgrave, que mora junto na mansão), é um tanto fria e distanciada, aos poucos vai revelando outras facetas de sua personalidade e influenciando a relação com os demais, trazendo à tona sentimentos como ciúme, possessão, egocentrismo e negação da realidade.
Apesar de algumas inserções dos treinos de luta, Foxcatcher é um drama intimista, sem grandes explosões, mas com uma tensão latente. Apostando em uma paleta fria, o diretor indicado ao Oscar Bennett Miller (de Capote e O Homem que Mudou o Jogo) não apressa em desenvolver seus personagens, o que pode tornar a sessão um tanto arrastada em alguns momentos, mas que funciona ao apresentar as motivações e os desvios de personalidade de seu personagem principal de forma gradual, trazendo uma sensação de desconforto e preparando o espectador para o desfecho anunciado indevidamente no infeliz subtítulo do lançamento no mercado brasileiro. Devido à história ser pouco conhecida no Brasil, recomenda-se fortemente que se assista ao filme sem saber de nada, o que tornará o impacto dramático da experiência mais eficaz.
Nota: 8,0.
Baseado em uma história real, este Foxcatcher: Uma História que Chocou
Contando com fortes atuações do elenco principal (Carell e Ruffalo tiveram suas performances indicadas ao Oscar), o filme centra suas atenções na dinâmica entre os três indivíduos. O personagem de Carell é um enigma inicialmente: com discurso de empresário bem sucedido e patriota, aparenta ser uma espécie de fomentador de astros do esporte que tanto gosta, oportunizando aos atletas um lugar distante e bem equipado para treinar, além de um salário mais digno e belas instalações para moradia. No entanto du Pont, cuja relação com a mãe (Redgrave, que mora junto na mansão), é um tanto fria e distanciada, aos poucos vai revelando outras facetas de sua personalidade e influenciando a relação com os demais, trazendo à tona sentimentos como ciúme, possessão, egocentrismo e negação da realidade.
Nota: 8,0.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Lançamento de Videoclipe - Carne Doce (Fetiche)
A banda goiana Carne Doce lançou um discaço no final do ano passado, que, aos poucos, começa a ser descoberto pelos fãs de boa música. Homônimo, o álbum marca a estreia do coletivo, capitaneado pelo casal Salma Jô e Macloys Aquino. O trabalho, de apenas 10 canções e pouco mais de 35 minutos, é enxuto apenas nas aparências já que, marcado por elementos dicotômicos, coloca em oposição o interior e a cidade, o amor e o ódio, a candura e a visceralidade. Todos esses elementos pontuados pela voz lasciva de Salma, que, pelo estilo, poderia ser colocada ao lado de nomes consagrados como Elis Regina e Gal Costa.
O primeiro videoclipe, da canção Fetiche, foi lançado recentemente e serve como porta de entrada para os interessados em conhecer mais sobre o quinteto - a propósito, o trabalho está disponível para ser baixado, de forma gratuita, aqui. O vídeo, dirigido e roteirizado por Luciana Faria e editado por Luciano Evangelista, é todo em preto e branco e foi gravado em uma chácara próxima a Goiânia. As imagens mostram uma série de fotografias, coladas umas as outras, mostrando o casal Salma e Macloys. A letra da canção versa sobre a insegurança e a resignação de uma mulher que se admite ciumenta, em um relacionamento aberto.
O primeiro videoclipe, da canção Fetiche, foi lançado recentemente e serve como porta de entrada para os interessados em conhecer mais sobre o quinteto - a propósito, o trabalho está disponível para ser baixado, de forma gratuita, aqui. O vídeo, dirigido e roteirizado por Luciana Faria e editado por Luciano Evangelista, é todo em preto e branco e foi gravado em uma chácara próxima a Goiânia. As imagens mostram uma série de fotografias, coladas umas as outras, mostrando o casal Salma e Macloys. A letra da canção versa sobre a insegurança e a resignação de uma mulher que se admite ciumenta, em um relacionamento aberto.
Pra Ouvir - Violins
Hoje, no quadro Pra Ouvir, vamos falar de uma das melhores bandas que já passaram aqui pela redação. A Violins, formada em 2001 em Goiânia, mesmo com mais de dez anos de carreira, teve uma divulgação modesta frente ao público - reflexo da produção totalmente independente e a ausência de um marketing mais agressivo - o que não diminui de forma alguma a qualidade de sua extensa e variada obra. Originalmente batizada como Violins and Old Books, a banda, liderada por Beto Cupertino, compunha em inglês. Porém, não tardou para que houvesse a transição das letras para o português, com o nome sendo reduzido para apenas Violins, o que criou uma identificação maior para com o público brasileiro.
Resumir a obra do grupo é extremamente difícil, dada a variação temática e sonora de cada álbum. Dá pra dizer que cada disco é, desde a arte, produção, sonoridade e conteúdo, uma obra conceitual, que deve ser absorvida como um todo. E as letras então são um espetáculo a parte, estando sem dúvida entre as melhores da música nacional em todos os tempos! Por isso, faremos abaixo uma breve retrospectiva de sua discografia (que pode ser baixada gratuitamente no site oficial).
Aurora Prisma (2003)
O primeiro disco foi produzido inteiramente pela própria banda. E por sinal é bem ambicioso, com orquestrações, músicas longas, que devem ter dado um trabalhão na mesa de edição. Como disse Cupertino em uma entrevista: "a gente desistiu da mixagem", de tantos detalhes a acertar para uma banda relativamente inexperiente com o trabalho em estúdio. Apesar do vocalista não aprovar totalmente o resultado final, o mesmo impressiona, apesar das óbvias limitações sonoras que seriam corrigidas nos discos posteriores. De temática lírica, é um disco que fala de amor e possui uma melancolia típica da passagem pra fase adulta. Os vocais são sinceros e, embora ainda um tanto exagerados em alguns momentos, há de se admirar a entrega de Beto às interpretações. Não sei porque o álbum não está disponível para download no site oficial, visto que até hoje é o favorito de muitos fãs. Ouça: Auto-Papparazzi, Feche seu Corpo, Deus Você, Ocidente/Oriente.
Grandes Infiéis (2005)
Produzido pelo gaúcho Iuri Freiberger, é um disco que dá uma guinada considerável em temática e sonoridade. Com maior ênfase nas guitarras - porém sem perder o senso melódico - trata de um tema mais delicado, como o próprio título indica: a infidelidade. Não somente a amorosa, mas sob uma perspectiva mais ampla. Os vocais aqui estão mais contidos, os timbres mais trabalhados, e as letras melhores do que nunca. Não à toa, o álbum foi considerado por diversas publicações independentes como um dos melhores discos brasileiros do ano de seu lançamento. Contando com um excelente trabalho gráfico (a capa é belíssima), pode ser considerado um clássico do rock nacional, introduzindo as letras polêmicas que seriam exploradas com maior intensidade no álbum seguinte. Ouça: Il Maledito, Atriz, Ensaio Sobre a Poligamia, Vendedor de Rins.
Tribunal Surdo (2007)
O disco mais polêmico da banda. De temática "pesada", narra personagens em situações bisonhas da vida sob a ótica dos mesmos - sem julgamentos. Criminalidade, violência doméstica, preconceitos, ódio, guerras, acidentes automobilísticos, tudo faz parte do cardápio de temas abordados aqui. As letras mudam drasticamente em relação aos trabalhos anteriores, aparecendo aqui de forma crua, direta e, por isso mesmo, mais provocativas. Nem todo mundo entendeu a ironia das canções: reza a lenda que o primeiro hit do disco, "Grupo de Extermínio de Aberrações" foi censurada em uma rádio goianense por suposta apologia da violência. A produção ajuda a dar a roupagem "suja" tão necessária ao conceito do disco: guitarreira, timbres vintage e vocal enterrado na mixagem - aposta inteligente, contrastando o vocal doce de Cupertino com o conteúdo chocante das letras. Um disco ousado, provocador e, por isso mesmo, um clássico sem precedentes no rock nacional. Ouça: Anti-Herói pt. 1, Campeão Mundial de Bater Carteira, Grupo de Extermínio de Aberrações, Manicômio.
A Redenção dos Corpos (2009)
Baixando um pouco a bola em relação ao disco anterior, aqui a banda explora uma temática mais filosófica, reflexiva, barroca. A questão religiosa está bem presente na grande maioria das letras que, através de metáforas, questionam a presença (ou ausência) de Deus e nossas motivações na busca por ele. Dividido em duas partes, é um álbum bonito e rico liricamente: a primeira parte consiste em composições com violões e teclado, já a segunda tem a presença da banda inteira, com as músicas mais roqueiras tão características - embora sem o peso e sujeira dos dois discos anteriores. Contando ainda com reflexões sobre o fazer artístico, é um disco desafiador que merece uma audição cuidadosa e paciente, de preferência com as letras, para uma recompensa maior. Ouça: Rei Pornô, Manobrista de Homens, Entre o Céu e o Inferno, O Fim da Música como Arte.
Greve das Navalhas (2010)
Segundo palavras do próprio vocalista, Greve das Navalhas é um disco sobre "o fim do mundo, mas de forma otimista". Novamente a banda alcança aqui um tema não abordado anteriormente, o apocalipse, neste que é o seu trabalho mais super produzido. Com uma sonoridade "grande", dá ênfase ao trabalho de estúdio, com guitarras bem dosadas e melodias que remetem às características dos outros trabalhos, além de alguns efeitos eletrônicos. Mas temos novidades aqui também: alguns vocais gritados e até frases em inglês em algumas canções chamaram a atenção dos fãs. A faixa Tsunami narra o desastre igualmente demonstrado no filme O Impossível, sendo um dos destaques mais originais do disco. Ouça: Um Só Fato, Comercial de Papelaria, Tsunami, Morte da Chuva.
Direito de Ser Nada (2011)
Se eu tivesse que escolher apenas um disco pra que as pessoas conhecessem o Violins, seria este: é a prova cabal de que menos pode ser mais. Redondinho, breve, direto ao ponto, radiofônico, Direito de Ser Nada é um álbum extremamente agradável de se ouvir. Os possíveis excessos de trabalhos anteriores foram aparados aqui, gerando um trabalho impecável que inexplicavelmente não alcançou os grandes veículos de comunicação. É mais variado tematicamente e as letras continuam com a qualidade conhecida. Dia desses soube que até a Rádio Univates estava tocando músicas deste álbum, o que me deixou muito feliz. Uma excelente porta de entrada para toda a complexidade que o grupo tem a oferecer, preparando o terreno para os desafios subsequentes. Um discaço! Ouça: É Como Está, Rumo de Tudo, Do Combate, O Grande Esforço.
Violins (2012)
Canto do cisne do Violins, o álbum homônimo deu por encerrada as atividades de um grupo que deixou uma série de fãs, que esperavam ansiosos pelos seus frequentes lançamentos, órfãos. A divulgação foi escassa e não houve aqui sequer lançamento de disco físico, tendo sido logo disponibilizado para download no site oficial. A temática principal aqui é a política, com um retorno sensível às letras ácidas que fizeram parte do segundo e terceiro álbuns. Embora a qualidade não seja a mesma dos trabalhos anteriores, a audição ainda reserva diversas pérolas que certamente agradaram aos ouvintes. Uma despedida digna de uma banda que deixou (e deixará) saudades. Ouça: A Questão do Chão, Nenhum Johnny Depp, A Marcha, Pra Testar os Dentes.
Felizmente, Beto Cupertino e Pedro Saddi (tecladista da Violins) estão com um novo projeto na praça: a banda Tonto. Uma proposta diferente, sem guitarras - a formação consiste em bateria, baixo, e dois teclados - e que certamente agradará aos fãs da boa música. Fica a dica!
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Disco da Semana - Sleater-Kinney (No Cities to Love)
Já fazia dez anos que as garotas roqueiras do Sleater-Kinney não lançavam disco - o último foi o barulhento The Woods, de 2005. Mas se engana quem pensa que esse meio tempo tenha sido exclusivamente de descanso - uma filosofia que, é bom que se diga, nem combinaria com a proposta da banda. Uma das vocalistas, Carrie Brownstein, esteve envolvida em quatro temporadas da série Portlandia que, dizem, é uma das mais engraçadas da atualidade (alguém aí já viu?). Outra vocalista, Corin Tucker, trabalhou em carreira solo, tendo lançado o último disco em 2012.
Ocorre que o hiato parece ter feito muito bem para a banda de Olympia, Washington, que agora retorna com o ótimo No Cities to Love. O álbum, com 10 músicas e pouco mais de meia hora de duração, mantém a já tradicional visceralidade e a verve roqueira que sempre caracterizaram o grupo. Afinal, nunca é demais lembrar que se trata de uma banda que "opera" com duas guitarras e uma bateria. O que torna o som cru e até agressivo para ouvidos que talvez estejam mais acostumados a ouvir cantoras pop sussurrando versos românticos e melosos em canções prontinhas pra tocar em alguma rádio light.
Nunca é demais lembrar que o Sleater-Kinney faz parte do movimento das Riot Grrrls que, nos anos 90, surgiu justamente como forma de protesto relacionado a um certo machismo no mundo da música. Diziam as integrantes do movimento, que os homens seriam incapazes de vê-las de forma igualitária, ou seja, como alguém que tem seus direitos, expressa suas opiniões e é capaz de tocar uma guitarra de forma furiosa. E esse estilo sempre resultou em letras ao mesmo tempo divertidas, sacanas, confessionais e diretas ao ponto, versando sobre temas os mais variados, como sexo casual, ditadura da moda, bebedeiras, entre outros.
A diferença desse para os discos mais recentes do trio, é que, ainda que o som continue ruidoso, como já dito antes, há que se destacar um aumento do caráter melódico das composições, fruto também de um esplêndido trabalho vocal. Se antes quase não conseguíamos encontrar refrões nas letras verborrágicas e furiosas - sendo talvez a única exceção o clássico álbum Dig me Out, de 1995 -, agora, eles estão em toda a parte. Portanto, não se surpreenda se você se pegar cantarolando, após ouvir duas ou três vezes canções como A New Wave, Bury Our Friends, Gimme Love e, especialmente No Cities to Love - que mais parece algum "lado B" do disco Show Your Bones do Yeah Yeah Yeahs. Enfim, um retorno que deve ser saudado.
Nota: 8,0
Ocorre que o hiato parece ter feito muito bem para a banda de Olympia, Washington, que agora retorna com o ótimo No Cities to Love. O álbum, com 10 músicas e pouco mais de meia hora de duração, mantém a já tradicional visceralidade e a verve roqueira que sempre caracterizaram o grupo. Afinal, nunca é demais lembrar que se trata de uma banda que "opera" com duas guitarras e uma bateria. O que torna o som cru e até agressivo para ouvidos que talvez estejam mais acostumados a ouvir cantoras pop sussurrando versos românticos e melosos em canções prontinhas pra tocar em alguma rádio light.
Nunca é demais lembrar que o Sleater-Kinney faz parte do movimento das Riot Grrrls que, nos anos 90, surgiu justamente como forma de protesto relacionado a um certo machismo no mundo da música. Diziam as integrantes do movimento, que os homens seriam incapazes de vê-las de forma igualitária, ou seja, como alguém que tem seus direitos, expressa suas opiniões e é capaz de tocar uma guitarra de forma furiosa. E esse estilo sempre resultou em letras ao mesmo tempo divertidas, sacanas, confessionais e diretas ao ponto, versando sobre temas os mais variados, como sexo casual, ditadura da moda, bebedeiras, entre outros.
A diferença desse para os discos mais recentes do trio, é que, ainda que o som continue ruidoso, como já dito antes, há que se destacar um aumento do caráter melódico das composições, fruto também de um esplêndido trabalho vocal. Se antes quase não conseguíamos encontrar refrões nas letras verborrágicas e furiosas - sendo talvez a única exceção o clássico álbum Dig me Out, de 1995 -, agora, eles estão em toda a parte. Portanto, não se surpreenda se você se pegar cantarolando, após ouvir duas ou três vezes canções como A New Wave, Bury Our Friends, Gimme Love e, especialmente No Cities to Love - que mais parece algum "lado B" do disco Show Your Bones do Yeah Yeah Yeahs. Enfim, um retorno que deve ser saudado.
Nota: 8,0
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Aquecimento para o Oscar - O Grande Hotel Budapeste
Se você é daqueles que até quer ver os filmes do Oscar, mas não sabe nem por onde começar, aqui está uma boa dica: O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2013, 100 minutos), obra de Wes Anderson indicada a nove estatuetas, já está disponível em DVD.O filme contempla o período entre as duas guerras mundiais e narra a história de um famoso gerente de um hotel europeu que conhece um jovem empregado, tornando-se seu amigo. É dessa amizade que surgem várias aventuras, envolvendo, entre outros, o roubo de um famoso quadro do período renascentista e a batalha pela fortuna de uma família.
De certa forma, não deixa de ser uma surpresa o fato de a obra ter recebido tantas indicações - e é preciso que se diga que, ainda que o filme seja uma divertida e colorida alegoria sobre as transformações históricas ocorridas durante a primeira metade do século XX, não chega a ser melhor do que Os Excêntricos Tennenbauns (2001) por exemplo, ótimo filme de Anderson que, na época, recebeu apenas uma mísera indicação na categoria Roteiro Original. O Grande Hotel... além de indicado a Melhor Filme, concorre nas categorias: Diretor, Roteiro Original, Desenho de Produção, Fotografia, Figurino, Montagem, Maquiagem e Trilha Musical. Lembrando que a cerimônia ocorre no próximo dia 22 de fevereiro!
De certa forma, não deixa de ser uma surpresa o fato de a obra ter recebido tantas indicações - e é preciso que se diga que, ainda que o filme seja uma divertida e colorida alegoria sobre as transformações históricas ocorridas durante a primeira metade do século XX, não chega a ser melhor do que Os Excêntricos Tennenbauns (2001) por exemplo, ótimo filme de Anderson que, na época, recebeu apenas uma mísera indicação na categoria Roteiro Original. O Grande Hotel... além de indicado a Melhor Filme, concorre nas categorias: Diretor, Roteiro Original, Desenho de Produção, Fotografia, Figurino, Montagem, Maquiagem e Trilha Musical. Lembrando que a cerimônia ocorre no próximo dia 22 de fevereiro!
Novidades em DVD - O Artista e a Modelo
De: Fernando Trueba. Com Jean Rochfort, Aida Folch e Claudia Cardinale. Drama, Espanha/França, 105 minutos.
Recém-chegado às locadoras, o filme O Artista e a Modelo (El Artista y la Modelo, 2013) é, à moda das obras europeias, uma película de silêncios, de longos planos, de reflexões. Na trama somos apresentados a Marc Cross (Rochfort), escultor octogenário já há tempos aposentado, que resolve voltar a ativa após a esposa Léa (Cardinale) oferecer abrigo a uma fugitiva (Folch) do regime de Franco, na Espanha. A jovem, de vinte e poucos anos, passa a morar no atelier de Cross que, pouco a pouco, recupera a vontade de trabalhar, utilizando a moça como modelo.
É deste improvável encontro que, a despeito de tantas diferenças, surgirá não apenas uma relação de "trabalho", mas também uma amizade. Enquanto Cross trabalha dias e dias a fio, de forma calma e paciente, aproveita os intervalos para "doutrinar" a sua modelo em assuntos relacionados às artes, especialmente a pintura. E, neste ponto, é especialmente tocante a parte em que ele explica um pequeno desenho de Rembrandt a jovem, com uma riqueza de detalhes tão interessante que, no fim, também nos faz pensar o quão pouco sabemos sobre o tema.
Filmado todo em preto e branco, em alguns momentos pode fazer lembrar algumas películas dos anos 60, período em que os filmes em cores ainda se constituíam em uma novidade que, aos poucos começava a ganhar espaço. E, a presença de Claudia Cardinale, que tantos filmes clássicos fez - como 8 1/2 de Fellini ou O Leopardo de Visconti, pra citar apenas dois - apenas reforça essa impressão, ainda que, atualmente, ela seja apenas uma senhora de 75 anos. E, evidentemente, não mais a jovem que, quando pós-adolescente, chegou a ganhar concursos de beleza - sendo esse o caminho para que iniciasse a carreira no cinema.
Nesse ponto o filme de Trueba - que faturou o Festival de San Sebastián, na categoria Melhor Diretor, estando presente também em outros festivais - também apresenta um valoroso recurso metalinguístico, já que Léa não demonstra o mínimo ciúme do marido - ao contrário, é uma incentivadora -, tão segura que está de sua estonteante beleza de outrora, reforçada em muitos momentos pelo marido artista. E, ainda que se refira a personagem, é impossível não pensar na atriz na vida real. Tendo a guerra como pano de fundo, a obra peca apenas por não dar uma maior profundidade aos personagens, sempre se limitando a apresentar poucos lados de suas personalidades. O mesmo valendo para os poucos personagens secundários que, no fim, acabam mal aproveitados.
Nota: 7,0
Recém-chegado às locadoras, o filme O Artista e a Modelo (El Artista y la Modelo, 2013) é, à moda das obras europeias, uma película de silêncios, de longos planos, de reflexões. Na trama somos apresentados a Marc Cross (Rochfort), escultor octogenário já há tempos aposentado, que resolve voltar a ativa após a esposa Léa (Cardinale) oferecer abrigo a uma fugitiva (Folch) do regime de Franco, na Espanha. A jovem, de vinte e poucos anos, passa a morar no atelier de Cross que, pouco a pouco, recupera a vontade de trabalhar, utilizando a moça como modelo.
É deste improvável encontro que, a despeito de tantas diferenças, surgirá não apenas uma relação de "trabalho", mas também uma amizade. Enquanto Cross trabalha dias e dias a fio, de forma calma e paciente, aproveita os intervalos para "doutrinar" a sua modelo em assuntos relacionados às artes, especialmente a pintura. E, neste ponto, é especialmente tocante a parte em que ele explica um pequeno desenho de Rembrandt a jovem, com uma riqueza de detalhes tão interessante que, no fim, também nos faz pensar o quão pouco sabemos sobre o tema.
Filmado todo em preto e branco, em alguns momentos pode fazer lembrar algumas películas dos anos 60, período em que os filmes em cores ainda se constituíam em uma novidade que, aos poucos começava a ganhar espaço. E, a presença de Claudia Cardinale, que tantos filmes clássicos fez - como 8 1/2 de Fellini ou O Leopardo de Visconti, pra citar apenas dois - apenas reforça essa impressão, ainda que, atualmente, ela seja apenas uma senhora de 75 anos. E, evidentemente, não mais a jovem que, quando pós-adolescente, chegou a ganhar concursos de beleza - sendo esse o caminho para que iniciasse a carreira no cinema.
Nesse ponto o filme de Trueba - que faturou o Festival de San Sebastián, na categoria Melhor Diretor, estando presente também em outros festivais - também apresenta um valoroso recurso metalinguístico, já que Léa não demonstra o mínimo ciúme do marido - ao contrário, é uma incentivadora -, tão segura que está de sua estonteante beleza de outrora, reforçada em muitos momentos pelo marido artista. E, ainda que se refira a personagem, é impossível não pensar na atriz na vida real. Tendo a guerra como pano de fundo, a obra peca apenas por não dar uma maior profundidade aos personagens, sempre se limitando a apresentar poucos lados de suas personalidades. O mesmo valendo para os poucos personagens secundários que, no fim, acabam mal aproveitados.
Nota: 7,0
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