quinta-feira, 23 de abril de 2026

Cinema - Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don't Die)

De: Gore Verbinski. Com Sam Rockwell, Haley Lu Richardson, Juno Temple e Zazie Beetz. Comédia / Ficção Científica, EUA / Alemanha, 2025, 134 minutos.

Um filme que mais parece uma coletânea de episódios perdidos de Black Mirror, em uma temporada não tão satisfatória. Mais ou menos dessa forma é possível resumir a experiência com o pretensiosamente estranho Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don't Die), obra dirigida por Gore Verbinski (dos três primeiros Piratas do Caribe), e que está em cartaz nos cinemas. Na trama, Sam Rockwell é um homem que alega ter vindo do futuro para um alerta geral: o de que as redes sociais e, mais ainda, a inteligência artificial, será a nossa ruína (ah, vá?). A menos que ele consiga recrutar um grupo ideal de voluntários - que ele pretende extrair de uma unidade da rede de restaurantes Norms - para uma jornada épica até o quarto de um adolescente nerd (daqueles que se entopem de Cheetos) da vizinhança, para impedir um apocalipse tecnológico.

Ok, as intenções podem ser boas a despeito da verborragia infinita e esquisita desse homem do futuro, que mais parece um morador de rua em roupas metalizadas - que, de quebra, ainda ameaça explodir tudo já que seu corpo está revestido de dinamite -, com a história melhorando sensivelmente após o sujeito recrutar aqueles que lhe auxiliarão na missão. Especialmente pelo fato de boa parte desse coletivo ter, em seu passado, alguma história meio trágica envolvendo o uso da tecnologia. Não por acaso, um dos bons momentos da trama envolve o casal de professores Mark (Michael Peña) e Janet (Zazie Beetz), que precisam lidar com alunos adolescentes que simplesmente não prestam mais atenção nas aulas - com o pescoço direcionado ao feed do Insta, com seus conteúdos de gosto duvidoso e rolagem infinita. Com o caos sendo estabelecido quando Mark simplesmente ousa encostar na tela do celular de um dos jovens. O que os converte em zumbis com uma sanha meio mortífera.

 


Sim, parece estranho e meio que é. Sendo necessária uma suspensão da descrença em absoluto para que haja qualquer tipo de apreciação. Mínima que seja. Quando adentra o restaurante, como um cauboi de filme sci-fi de segunda linha, o tal homem do futuro é confundido com um doidinho de bairro qualquer, que pretende incomodar as pessoas do local. O que atrai a atenção da polícia, obrigando o protagonista, Mark, Janet e outros, como a jovem Ingrid (Haley Lu Richardson), a buscarem uma fuga alternativa pelos fundos. Com evoluções pela madrugada sombria, em meio a becos, ruas mais escuras que o normal, e moradores de rua com um pendor para alguma violência, além de sujeitos mascarados com uma energia no limite entre o anarquismo e a milícia. Para Ingrid, aderir ao grupo representa uma oportunidade de superar a perda do namorado para uma espécie de aparato tecnológico de realidade virtual, que lhe permite "viver" uma outra vida que não a sua - algo que meio que já vimos mais de uma vez em Black Mirror. E como se desgraça pouca não fosse bobagem, Ingrid ainda sofre de uma curiosa doença, que a torna intolerante a dispositivos eletrônicos e redes de wi-fi. 

Há ainda outros integrantes nesse coletivo todo torto de salvação do mundo - como é o caso de Susan (Juno Temple), uma mãe enlutada pela perda do filho em um tiroteio em massa, desses que ocorrem dia sim dia também nas escolas dos Estados Unidos. Como forma de superar a dor, ela é estimulada a adquirir uma espécie de clone do menino - mas a cópia tem uma personalidade um tanto diferente do filho. O que a faz investir em outra tecnologia, esta mais precisa - um tipo de avatar em IA que replica a voz do menino. Todas essas pessoas estão devastadas - e irritadas, em alguma medida - com a tecnologia e os caminhos tomados por ela, o que as estimula a se tornarem voluntárias da missão. O objetivo é acoplar um pendrive que evitará o desastre futuro (representado pelo avanço desenfreado da tecnologia) e os vídeos de péssimo gosto feitos por IA. Alienação, excesso de mediação digital e consequente afastamento da realidade, anestesia emocional, perda de identidade, vigilância e paranoia contemporâneas. Esses são alguns dos temas que se espalham por essa comédia de ficção científica bem intencionada, mas, infelizmente, pouco profunda. Lá pelas tantas dá uma cansada, não dá pra negar.

Nota: 6,5

 

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