segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Novidades em Streaming - O Bom Patrão (El Buen Patrón)

De: Fernando León de Aranoa. Com Javier Barden, Almudena Amor, Manolo Solo, Óscar De La Fuente e Fernando Albizu. Comédia, Espanha, 2021, 115 minutos.

"Bom todos vocês sabem que minha mulher e eu não temos filhos, e nem precisamos deles, porque vocês são nossos filhos. Se vocês estão bem, eu estou bem." A frase dita pelo senhor Blanco (personagem de Javier Barden) ainda no começo de O Bom Patrão (El Buen Patrón) já evidencia uma certa semiótica desse ideal supostamente paternalista que costuma reger algumas empresas. Do alto de uma estrutura elevada, o sujeito - o dono de uma bem conceituada fábrica de balanças - discursa à seus funcionários, que estão ao nível do solo (uma imagem de peso e contrapeso que serve de metáfora não apenas para o tipo de segmento daquela indústria, mas também para a hierarquia ali vista). Em meio a comentários sobre compromissos, decisões tomadas e estratégias, o senhor Blanco alerta a todos ali que, naquela semana, deverá visitá-los uma comissão que concede uma premiação de excelência entre empresas regionais e que eles estão entre os finalistas. É preciso, portanto, manter uma boa imagem.

Só que em meio a sorrisos amarelados e um clima de "união da equipe", o caso é que talvez as aparências enganem. Passando por dificuldades financeiras - a chamada reestruturação - a indústria precisou desligar alguns empregados. E um desses, de nome Jose (Óscar De La Fuente), não apenas protestará veementemente contra esta medida, como se instalará em um terreno público em frente à indústria para reivindicar seus direitos. Com faixa, megafone, carro e tudo! O que pode ser desastroso para quem pretende manter inabalável a reputação. E como se não bastasse esse problemão, conforme a semana avança, outros conflitos emergirão, como no caso de um sócio antigo que não consegue se focar no seu trabalho por causa de problemas familiares, das trocas de favores no ambiente corporativo, das traições, assédios e adultérios (que se mantém em segredo mas que parecem prontos para vir à tona) e de outros embates desse universo.



À despeito da temática mais séria, tudo é conduzido pelo sempre ótimo diretor Fernando León de Aranoa - do excelente Segunda-Feira ao Sol (2001), também estrelado por Javier Barden - de forma debochada, cínica, o que leva as situações quase ao limite do suportável. Não foram poucas as vezes em que me peguei gargalhando do absurdo provocado pelas inesperadas reviravoltas, que envolvem outras discussões que bordejam a narrativa e que vão do abuso de autoridade, passando pelo provincianismo chulo, até chegar à xenofobia e ao machismo. Um bom exemplo disso se dá em um dos tantos momentos de irritação de Blanco, diante do comportamento condescendente de seu vigilante, incapaz de tomar uma atitude mais dura em relação à Jose: "você vai ficar contra a empresa que te alimenta?", pergunta o patrão, num daqueles casos típicos de assédio moral que, certamente, fazem a alegria de um bom advogado trabalhista.

Histriônica e exagerada, a experiência - que venceu o último Prêmio Goya, foi a enviada ao Oscar desse ano pela Espanha e está disponível no Star+ - pode soar meio extravagante para alguns paladares. E tenho a certeza de que posso adivinhar algumas pessoas assistindo ao filme e dizendo "nossa, nem é assim que acontece nas empresas, que injustiça com esses homens bondosos que dão emprego e que fazem a economia girar". Sim, talvez soe hiperbólico em alguns momentos. Mas os detalhes são tão bem encaixados, o roteiro é tão bem costurado, que é simplesmente impossível não se identificar com as situações. Rir delas. Como se estivéssemos em uma coleção de esquetes sobre o quão patética pode ser essa ânsia pela boa imagem (e por mesquinharias em geral). Idosos se sacrificando? Estagiárias sendo abertamente assediadas? Empregados sendo demitidos sem muita explicação? Meritocracia desenfreada? Crimes? Violações? Qual nada. Nessa ópera da vida o que vai importar lá no final, é a plaquinha de excelência na estante. Com um falso equilíbrio de forças prevalecendo. É apenas um dos filmes do ano.

Nota: 10


sexta-feira, 29 de julho de 2022

Picanha em Série - Barry (Temporadas 1-3)

De: Alec Berg e Bill Hader. Com Bill Hader, Sarah Goldberg, Henry Winkler, Stephen Root e Anthony Carrigan. Comédia / Policial, EUA, 3 Temporadas, 2018-2022.

Vamos combinar que a premissa de Barry, exibida pela HBO Max, não poderia ser melhor. Na trama acompanhamos Barry Berkman (Bill Hader), um veterano da guerra do Afeganistão que, de volta aos Estados Unidos, atua como assassino de aluguel. Designado para um "trabalho" em Los Angeles - matar um personal trainer de nome Ryan (Tyler Jacob Moore), que seria o pivô de uma traição amorosa envolvendo alguém da máfia chechena -, Barry acabará em uma escola de teatro onde, por vias meio inesperadas, se incorporará ao grupo de atuação coordenado pelo excêntrico Gene Cousineau (Gene Winkler). No local, após uma aula improvisada, ele conhecerá a jovem aspirante a atriz Sally Reed (Sarah Goldberg, em ótima caracterização) e, bom, maravilhado com encantador mundo das artes ele passará, naturalmente, a se questionar sobre o seu propósito de vida. E, óbvio, se retirar do mundo do crime não será tarefa tão fácil, afinal, o rastro de violência o acompanhará. O que colocará em risco as pessoas ao seu redor.

E, é preciso que se diga que, a despeito dos componentes policialescos e de mistério de cada um dos 24 episódios distribuídos em três temporadas, o que temos aqui é uma excelente série de humor. Isso explica, por exemplo, o comportamento histriônico e cheio de ambiguidades de figuras como Monroe Fuches (Stephen Root) e NoHo Hank (Antonio Carriga) dois criminosos que vão no limite do cômico e do trágico com suas ações. E que serão os responsáveis por dificultar a saída de Barry desse contexto de violência. Fuches é o contratante do protagonista. NoHo é alguém que ficará incomodado quando, ainda no primeiro episódio, Barry encontrar  alguma dificuldade para colocar em prática o assassinato de Ryan. O resultado do impasse será o sequestro de Barry e Fuches pelos chechenos, sendo a salvação para ambos executar um último crime, que envolve a morte de um rival do cartel da Bolívia. Claro, tudo uma ótima desculpa pra manter esses universos tão distantes - o das artes e o do crime - de alguma forma conectados.

Em meio a tudo haverá ainda a onipresença dos investigadores de polícia Janice Moss (Paula Newesome) e Loach (John Pirruccello), que se empenham em juntar as pistas sobre a morte de Ryan: eles sabem que a máfia chechena está por trás, mas também parecem desconfiar de que há algo errado na história toda que, como não poderia deixar de ser, respingará em Cousineau e nos demais alunos, dos quais Ryan era colega (incluindo, obviamente, Barry). E tudo piorará quando o veterano professor de teatro se apaixonar por Janice. Indo de lá pra cá, o roteiro acompanha a rotina dos integrantes da escola de atores - especialmente Sally e sua eterna ambição em ser uma atriz de renome (o que envolve um sem fim de audiências fracassadas em emissoras de TV e atrações pouco empolgantes) -, enquanto Barry luta para manter a sua vida dupla em segredo. E não é preciso ser nenhum adivinho pra saber que, lá pelas tantas, a coisa desanda. E as linhas que correm em paralelo se encontram.

Divertida, caótica, levemente iconoclasta, a série já recebeu mais de 40 indicações ao Emmy. Misturando interpretações de Shakespeare com piadinhas sobre um bandido que se comunica apenas por gifs animados com imagens de gatinhos a atração discute, aqui e ali, questões morais e como certas decisões podem impactar a vida dos envolvidos - e as sequências de flashback de Barry na guerra, nos auxiliarão a compreender quais os seus traumas e, consequentemente, as suas motivações. Melhorando a cada temporada, a série chega a terceira em seu auge - o que pode ser comprovado pela hilariante sequência em que o protagonista utiliza um aplicativo para detonar uma bomba (sem muito sucesso) ou mesmo na ótima cena em que Sarah descobre que o show que ela protagoniza é cancelado pela plataforma de streaming que detém os direitos, apenas 12 horas depois de lançado (o que evidencia a dinâmica cruel da busca incessante por cliques que move a indústria de consumo moderna de cultura). Ninguém quer ter, afinal, uma sentença de morte decretada nesse meio. Mas, para evitá-las será necessário mais do que grandes interpretações.


quinta-feira, 28 de julho de 2022

Novidades em Streaming - Los Lobos

De: Samuel Kishi Leopo. Com Maximiliano Nájar Márquez, Leonardo Nájar Márquez, Martha Lorena Reyes e Cici Lau. Drama, México, 2020, 95 minutos.

Existe um quê de Projeto Florida (2017) no tom melancólico desse Los Lobos, pequena joia do cinema mexicano que receberia o Prêmio do Júri no Festival de Berlim do ano passado (e que está disponível na HBO Max). Talvez tenha a ver com a onipresença dos pequenos Max (Maximiliano Nájar Márquez) e Leo (Leonardo Nájar Márquez), dois irmãos de oito e cinco anos que cruzam a fronteira do México com os Estados Unidos acompanhados da mãe Lucia (Martha Lorena Reyes), em busca de melhores condições de vida. Além das crianças, outra semelhança com o projeto de Sean Baker tem a ver com a permanente melancolia, que só é suplantada pelo caráter lúdico da narrativa, com os pequenos mantendo a esperança em meio a desenhos esboçados em uma parede decadente e em brincadeiras escapistas. E há ainda a própria Disney que, assim como no filme de 2017, bordeja a obra. É um sonho das crianças aqui. Era um sonho lá.

Sonhos. O que parece mover os personagens, especialmente Lucia que, como mãe solo, se submete a um trabalho precaríssimo para poder prover o mínimo. E, pior do que isso, em terras estrangeiras. Sem conhecer ninguém, e com a desconfiança que paira no ar em um País, à época, governado pelo xenófobo Donald Trump. A recomendação aos pequenos é de que não arredem o pé de casa e respeitem uma espécie de "lista de mandamentos" que envolve desde não abrir a porta pra ninguém, manter a organização e não chorar. Sim, não chorar. Por mais triste que tudo seja. A Max caberá ainda a responsabilidade pelo mais novo. Confinados em uma espécie de cárcere particular, os meninos improvisarão brincadeiras como forma de passar o tempo, sejam elas jogos de futebol - ainda que o local seja um cubículo -, lutinhas e outros. Claro, não demorará para que, conforme os dias passem, eles fiquem entediados. E comecem a acenar para possíveis saídas a rua - sendo estimulados por alguns garotos da vizinhança.

Desalentador, o filme mostra como a suposta liberdade vai somente até um limite - mesmo em países que se vendem como democráticos. Com os preconceitos sempre prontos para vir à tona - e a sequência inicial, em que Lucia se empenha em tentar encontrar uma habitação, uma residência que possa chamar de sua, já dá esse tom. Resta o claustrofóbico, fétido e pouco convidativo espaço ofertado pela Mrs. Chan (Cici Lau), que se tornará vizinha da família. Ninguém está muito preocupado ou interessado em saber que há dois meninos e uma mãe subsistindo em condições de vulnerabilidade: na Terra do Tio Sam é o individualismo que prevalece. O cada um por si. A invisibilidade é a regra. A precariedade a realidade. É daquele tipo de filme que doi, mesmo quando os meninos começam a criar o seu próprio universo imaginário, que salta da tela no formato de animações improvisadas, cheias de mensagens cifradas e comentários valorosos, tão lúdicos quanto imponentes.

Com um aceno à autobiografia - o diretor admitiu em entrevistas que passou por situação semelhante em sua juventude, quando sua mãe mentiu estar entrando nos Estados Unidos para ir à Disney (só que não) -, a obra também promove pequenas mas relevantes discussões sobre maternidade solo, sobre dificuldades enfrentadas por imigrantes e sobre o fundamental senso de comunidade, que pode ser o caminho para algumas soluções (e é por isso que instantes tão pequenos, como o de Mrs. Chan oferecendo comida aos meninos - uma comida diferente, saborosa - são tão comoventes). Apostando ainda em um tom mais otimista no terço final, o realizador "abre as janelas", leva a família para a rua, retirando-lhes um pouco da precariedade do confinamento. A penumbra dá lugar à luz. Aos sorrisos. A Disney em uma intenção mais simbólica do que real, movida por gestos de grande sensibilidade. Comovente é pouco.

Nota: 8,0

terça-feira, 26 de julho de 2022

Novidades em Streaming - Chico Ventana Também Queria Ter Um Submarino (Chico Ventana También Quisiera Tener Un Submarino)

De: Alex Piperno. Com Daniel Quiroga, Inés Bortagaray e Noli Tobol. Fantasia / Drama, Argentina / Uruguai / Brasil / Holanda / Filipinas, 2020, 84 minutos.

Meio de transporte ancestral, o navio tem papel central no curioso Chico Ventana Também Queria Ter Um Submarino (Chico Ventana También Quisiera Tener Un Submarino). Aliás, o caráter excêntrico da obra de estreia do diretor Alex Piperno - e que está disponível na Netflix - pode ser observado já no título do projeto. Há um quê de estranheza ali e que nos acompanhará nessa experiência sobre idas e vindas, encontros e desencontros e sobre as eventuais dificuldades que decorrem de choques culturais e de modos de vida bastante distintos. A bordo de um navio de cruzeiro que vaga pelos mares da Patagônia, Chico Ventana (Daniel Quiroga) é um empregado da tripulação que, certo dia, encontra uma espécie de portal mágico que o transporta para um apartamento de Montevidéu. Paralelamente, um grupo de camponeses do interior das Filipinas é surpreendido com o surgimento de uma cabana de concreto nos arredores do assentamento em que vivem.

Em algum momento essas histórias tão aleatórias, tão pouco previsíveis, irão se chocar. Circulando pelo navio, Chico Ventana se ocupa lavando o convés e auxiliando os turistas em atividades cotidianas. Em meio aos cubículos apertados do local, o taciturno sujeito localizará essa porta que lhe conduzirá a um "outro lado". Fora a metáfora do barco em si - um veículo que leva passageiros pra lá e pra cá, atracando em países culturalmente diversos -, o que se dá aqui é a aleatoriedade do inesperado que se junta à nossa eterna busca por conquistar outros espaços. Em Montevidéu, Chico conseguirá se aproximar de Elsa (Inés Bortagaray), numa fantasia existencial que vai no limite do realismo fantástico. Como num encontro entre Quero Ser John Malkovich (2000) e o cinema de Apichatpong Weerasethakul (especialmente na história que se passa no campo), aqui não haverá respostas fáceis, cabendo ao espectador a tarefa de montar o quebra-cabeças que possa dar alguma lógica à narrativa.


Sim, pode ser menos prazeroso que um filme hollywoodiano com começo, meio e fim bem definidos. Mas por ser tão instigante, o filme permite um mergulho para além daquilo que vemos nas aparências. Ao cabo os três personagens centrais das duas histórias parecem estar meio à margem: Chico é o trabalhador de um cruzeiro que não pode participar efetivamente da viagem (como se fosse um turista). Ele apenas está focado na mangueira que esguicha água e em seu ofício. Já Elsa, em meio a livros e doses de vinho, permanece em silêncio a maior parte do tempo, numa solitude que se confunde com a solidão. Ela é feliz? E ele? Como figuras errantes, eles se encontram inesperadamente como que numa espécie de limbo do espaço-tempo. E ali tem a oportunidade de conferirem algum significado as suas existências. Já a terceira pessoa, o camponês Noli (Noli Tobol) fica impactado com o surgimento da cabana, algo que ele acredita ser um castigo divino.

Há um quê, naturalmente, de complexidade no processo. Noli mobiliza a comunidade para sacrifícios que se converterão em ofertas: o componente religioso fala mais alto. Já para Elsa e Chico o que parece haver ali é algum tipo de inocência diante de um mundo muito maior do que sugere os seus próprios cubículos. É tudo achismo, mas isso é parte da diversão em uma obra que é extremamente bem acabada na parte técnica (e os cenários filipinos são não menos do que deslumbrantes, ao passo que a montagem é muito eficiente). Com poucos diálogos e completa ausência de trilha sonora, o trabalho avança para o seu final em que se obterão poucas respostas - ainda que haja instantes de catarse. "Para mim o cinema tem a possibilidade de ser radical e, mais do que isso, tem a obrigação de ser radical, intenso, permitindo a exploração lúdica dos materiais", resumiu Piperno em entrevista ao site Papo de Cinema. Ao fim, nesse abre e fecha de portas sempre haverá a oportunidade para novos campos de exploração. E para que as águas, finalmente, rolem.

Nota: 8,0


segunda-feira, 25 de julho de 2022

Pitaquinho Musical - Superorganism (World Wide Pop)

A capa (e o título) do segundo disco do Superorganism dão a dica: os indies também dançam, curtem, fazem festa! Maximalista, cheio de efeitos eletrônicos, barulhinhos bem encaixados e de refrãos envolventes, World Wild Pop é uma coleção de canções coloridas, vivas, como se estivessem sempre prontas à explodir para além dos limites da música. Ainda melhor do que o autointitulado trabalho de estreia, o presente registro surge mais homogêneo, como se tudo aquilo que o coletivo apresentou em 2018 fosse apenas um aperitivo para a miscelânea de possibilidades que se veria aqui - e que reflete as diversas nacionalidades dos integrantes. Musicalmente, o trabalho sugere um encontro entre o Passion Pit e sua eletrônica enérgica, efervescente, com o Neon Indian, e sua lisergia bem arranjada.

Um bom exemplo desse expediente pode ser conferido em canções como On & On, Solar System, Into the Sun e It's Raining, que se alternam em idas e vindas cheias de movimentos flutuantes, que vão no limite do extraterreno. E que farão emergir em suas letras comentários espertos sobre tecnologia, canais online, referências à cultura geek, festas que duram a noite inteira, relacionamentos na era moderna e o próprio ciclo da vida em si - como no caso do desejo de amadurecer, mas da dificuldade de, chegando lá, se adaptar. Outra que merece destaque é crushed.zip, com sua melodia sinuosa e versos melancólicos e divertidos (Estou preso em um seriado que nunca deveria ter sido lançado / E eu não entendo porque eles continuam renovando / Qual o ponto?). Quem for de coração aberto vai gostar.

Nota: 8,0


Novidades em Streaming - O Peso do Talento (The Unbearable Weight of Massive Talent)

De: Tom Gormican. Com Nicolas Cage, Pedro Pascal, Neil Patrick Harris, Sharon Horgan e Lily Sheen. Ação / Comédia, EUA, 2022, 107 minutos.

Vamos combinar que o que há de mais legal em O Peso do Talento (The Unbearable Weight of Massive Talent) é ver um filme com o Nicolas Cage em que ele, desavergonhadamente, avacalha de si próprio - após ter recusado várias vezes essa ideia. Com mais de 100 produções na sua ampla carreira, o astro é famoso pelos projetos recentes de gosto no mínimo duvidoso - e basta uma leitura superficial de sua filmografia pra perceber a quantidade de bombas que ele já protagonizou (ou, vá lá, fez alguma ponta). Bom, o fato é que todo mundo precisa pagar as contas - os boletos não param de chegar - e, na falta de trabalhos mais dignos, digno é trabalhar. E azar do Framboesa de Ouro! Na trama dessa produção que recém estreou para aluguel na Amazon e na Apple TV a graça toda parte justamente desse caráter prolífico do ator, que aparece bastante, mantém uma base de fãs fiel, mas é o terror dos críticos de cinema. A ideia é dar a volta por cima em uma produção mais relevante, argumenta ele no começo da narrativa com o seu agente (papel de Neil Patrick Harris).

Só que após algumas reuniões sem sucesso a coisa desanda. E, por mais que Cage esteja insatisfeito com essa mediocridade toda que ronda a sua carreira, o convite que aparece é, digamos, mais excêntrico: participar de um aniversário de um fã milionário (e meio misterioso) de nome Javi Gutierrez (Pedro Pascal), que reside em Mallorca. É claro que tudo não passa de uma grande desculpa pra uma série de piadas metalinguísticas, a replicação dos memes (como o do rosto que estampa produtos) e um sem fim de referências aos próprios filmes em que a estrela de 60 Segundos (2000) esteve envolvido. Inicialmente, Cage até se recusa a participar desse encontro. Mas as dívidas, resultado de uma vida de luxo, falam mais alto. Ah, e tem o US$ 1 milhão que Javi está oferecendo, claro. No combo todo há a relação familiar que não é das melhores - um clássico dos clichês, com direito a uma relação meio distante da filha Abby (Lily Sheen) e da falta de um melhor entendimento com a ex Olivia (Sharon Horgan).


Em terras espanholas, Cage será persuadido pelo fã, que deseja investir em um roteiro com a participação do astro. Mas não será tão simples quando uma dupla de agentes do FBI entrar na parada para alertar o protagonista de que Javi é um chefão de um cartel internacional de armas. E que disputas internas envolvendo outros grupos - com direito até a motivações políticas -, resultarão em um sequestro de uma jovem, que é filha de alguém importante. E quem será escalado, de forma meio involuntária, para salvar o dia? Cage em pessoa, claro, afinal, quantas vezes ele não fez isso nos seus filmes? E é justamente nesse contraste entre o Cage da vida real, um homem pacato, tranquilo, sem aquele ímpeto de heroísmo, e o ator de filmes de ação ou aventura - quase sempre uma persona mais nervosa, mais em ponto de ebulição - que resultará em algumas das melhores sequências.

Além disso, é preciso que se diga que a química com Pascal é absolutamente excelente - e mesmo piadinhas meia bomba de tiozão (como aquela em que a dupla tenta transpor com extrema dificuldade uma mureta de poucos metros) funcionam. No mais, o filme pode até ser considerado uma grande experiência para o fã raiz - eu mesmo, por não acompanhar Cage tão de perto, não peguei muitas das variadas referências à filmografia do astro. Mas isso não significa que não funcione como obra de ação genérica e bem humorada, que debocha das convenções e que premia o espectador com uma narrativa que se desenrola sem grandes complexidades. Tiroteios, perseguições, correrias, tomadas aéreas, trilha sonora alta e até pulo do penhasco. Quando Cage chega à Espanha a agente do FBI Vivian (Tiffany Haddish) tem a certeza de que aquilo não pode ser um evento aleatório. O que ele faria na Espanha? Oras, muito simples: salvaria o País dos bandidos, como o bom e velho Nic FUUUCKIN Cage. Para alegria dos fãs.

Nota: 7,0


sexta-feira, 22 de julho de 2022

Novidades em Streaming - Adeus, Idiotas (Adieu Les Cons)

De: Albert Dupontel. Com Virginie Efira, Albert Dupontel e Nicolas Marié. Comédia / Drama, França, 2020, 87 minutos.

A dedicatória à Terry Jones - ex-integrante do coletivo humorístico Monty Phyton, falecido em janeiro de 2020 - antes do começo do premiadíssimo Adeus, Idiotas (Adieu Les Cons) dá a pista: o que acompanharemos na obra dirigida e estrelada por Albert Dupontel será o tipo de comédia que, em partes, tornaria famosos os britânicos: imprevisível, cínica, iconoclasta, capaz de meter o dedo na ferida independente do assunto. Aqui, no caso, são várias as "feridas" porque os temas são variados - indo do suicídio até a gravidez na adolescência passando por oportunidades de trabalho para minorias e a solidão dos desajustados. E tudo vem em um formato meio que de enxurrada, com as situações inusitadas se descortinando à nossa frente como uma espécie de coleção de excentricidades. A gente nota que ali, no fundo no fundo, há uma crítica generalizada meio que a muitas coisas ao mesmo tempo, cabendo ao espectador o trabalho de organizar esse bolo.

O que, na realidade, trata-se de um processo mais ou menos simples, já que na trama acompanhamos três personagens que terão suas histórias entrelaçadas - e que precisarão unir forças, lá pelas tantas, para uma espécie de contra-ataque à morosidade do Estado, à sanha punitivista e ao sistema de trabalho que não hesitará em substituir um empregado apenas porque ele se tornou mais velho. Aliás, esse é o caso de Jean-Baptiste, o Monsieur Cuchas (Dupontel) que, aos cinquenta e tantos anos, à despeito de toda a sua competência no setor de TI da empresa que trabalha, é demitido. Em seu lugar entrará um jovem porque, enfim, esse é o fluxo da vida. Solitário e entristecido, ele está determinado a se suicidar - o que ele fará em seu próprio escritório, com direito a vídeo de despedida e tudo. Só que a coisa sai errado e ele erra o tiro que pretendia dar em si próprio com a sua gigantesca espingarda, atingindo um colega da sala ao lado. Todos se assustam. Inclusive Suze Trappet (Virginie Efira), que fica paralisada.


O caso é que Suze havia sido diagnosticada no mesmo dia com uma doença terminal que, muito provavelmente, é decorrente do abuso de laquês e sprays para cabelo do salão em que ela atua. Aliás, a forma caricata e pouco empática com que o médico dá a notícia à doente é digna das piores esquetes dos Pythons. O que faz lembrar também o tipo de humor que vemos em antigos filmes do Woody Allen, como no caso de A Última Noite de Boris Grushenko (1975) onde a finitude, naturalmente, é tratada com um deboche quase sem limites. Decidida a encontrar o filho que ela se viu forçada a abandonar na juventude, quando engravidou aos 15 anos, ela se unirá justamente com Cuchas: ela sabe o que aconteceu no escritório e poderá servir de testemunha para lhe limpar a barra com a polícia. A contrapartida do pretenso suicida: invadir sistemas de informática que lhe permitam encontrar alguma informação sobre o parto (e assim achar as pistas que lhe levem ao filho "perdido").

À eles se juntará um arquivista cego (Nicolas Marié) - e aqui entra mais uma daquelas piadinhas sobre pessoas com deficiência e o acesso ao mercado de trabalho. Não chega a ser trágico, mas também não é genuinamente cômico. Nesse rocambole de acontecimentos, o trio irá pra lá e pra cá enquanto foge das autoridades e faz um passo a passo na busca por informações do paradeiro do jovem - o que incluirá visita a um médico que sofre de Alzheimer. Em meio a tudo uma espiral de maluquices que vai no limite do nonsense e que flerta com o realismo mágico de Borges (como na sequência da escada em espiral infinita ou no momento em que elevadores sobem e descem alucinadamente). O que nos conduz ao terço final, que funciona como uma espécie de homenagem aos esquisitões (ou aos nerds de óculos e a sua completa incapacidade de socializar). É pouco? Bom, talvez seja. É histriônico? Sim, muito. Provoca gargalhada a partir da tragédia? Em partes. Traz uma ou outra discussão mais relevante? De alguma forma. Mas, vá lá, numa quinta à noite despretensiosa em só queria me divertir. Escolhi na plataforma Filme Filme uma obra aleatória. Cheia de aleatoriedades sobre a vida. E deu.

Nota: 7,5


quarta-feira, 20 de julho de 2022

Cinema - Boa Sorte, Leo Grande (Good Luck to You, Leo Grande)

De: Sophie Hyde. Com Emma Thompson, Daryl McCormack e Isabella Laughland. Drama / Comédia, Reino Unido, 2022, 97 minutos.

Existe uma frase atribuída ao escritor George Bernard Shaw que pode soar exagerada, mas que é inequivocadamente realista: "de todas as perversões sexuais, a castidade é a mais perigosa". E, vamos combinar, basta pensar no atual mundo em que vivemos - cheio de pessoas frustradas, individualistas, insatisfeitas - para percebermos que a sentença do autor de Pigmalião talvez continue mais verdadeira do que nunca. A meu ver é muito claro: o ser humano seria mais feliz se fosse melhor resolvido sexualmente. Se transasse mais. Se não tivesse tanta culpa católica - a castidade aqui como uma metáfora para o sexo apenas para a procriação -, que o impedisse de expressar seus desejos mais íntimos. Que o fizesse ter de esconder aquilo que lhe dá prazer. Não significa aqui ser meramente hedonista. E, sim, estar aberto para experiências. Deixar os tabus de lado. Dialogar sobre. Aceitar as diferenças e se aceitar também. Enfim, uma forma de evolução, quem sabe?

Bom, não é que Boa Sorte, Leo Grande (Good Luck to You, Leo Grande) proponha uma reflexão assim tão profunda sobre esse universo, mas o caso é que o filme dirigido por Sophie Hyde e estrelado por Emma Thompson e Daryl McCormack, que estreia nos cinemas nesta semana, utiliza a sua uma hora e meia de duração para uma franca conversa que coloca a vida sexual no centro do debate. Ela, uma mulher madura - uma viúva beirando os 60 anos que foi casada a vida toda com o mesmo homem. Ele, um jovem profissional do sexo, que acaba fazendo o papel de terapeuta meio involuntário do assunto - e que também tem dores relativas ao passado para expiar. Em um quarto de hotel eles terão três encontros que serão marcados não apenas pelas transas, mas também por uma série de diálogos que farão emergir inseguranças, desejos reprimidos, expectativas criadas (e nunca alcançadas), frustrações pelo tempo que passou e não volta mais, arrependimentos por decisões tomadas, entre outros.

Professora de religião aposentada, Nancy Stokes (Thompson) recebe Leo (McCormack) com uma timidez e uma ausência completa de autoestima - ao menos inicialmente - comoventes. O primeiro encontro é mais dolorido do que prazeroso: a protagonista revela nunca ter alcançado um orgasmo que fosse, na vida. Nem sozinha. Ao lado do marido, o sexo mecânico era o mesmo durante os 31 anos que estiveram juntos. Pouca paixão, tesão no piloto automático. Nada de posições variadas. Ou sexo oral. Nada que pudesse ferir o código de ética das "famílias de bem". Nada que fizesse sombra a um eventual pecado. Incomodada com um casamento que cozinhou em fogo brando rumo ao caos, Nancy era incapaz de lidar com suas alunas mais despojadas, mais abertas, mais bem resolvidas. Com a Bíblia embaixo do braço as reprimia, num moralismo abusivo, que dizia muito mais respeito às suas decepções do que as das meninas - certamente figuras vivas, levemente exibidas, com muito mais autonomia, como é próprio dos choques geracionais

Divertida, insinuante, cheia de diálogos espirituosos sobre possibilidade de mudanças independente da idade, a obra é pródiga ao naturalizar o sexo como algo que faz parte das nossas vidas - e não é por acaso que a tensão do comportamento de Nancy vai reduzindo conforme os encontros avançam, com ela se apresentando mais solta, eventualmente mais confiante e à vontade para comentar sobre o que deseja e como encara certas questões de sua vida (como o fato de ter filhos, e o quanto essa decisão modificaria seu futuro para sempre). Lá pelas tantas, enfeitiçada por Leo - e pelo seu olhar atento e disposto a um mergulho no universo de Nancy -, ela afirma que o acesso a satisfação sexual deveria ser uma espécie de serviço público, oferecido pelo Estado. "De preferência sem que os impostos fossem aumentados", brinca. "Quanto menos merda não haveria?", questiona. É impossível não concordar. Com ela, com Bernard Shaw, com outros teóricos. Ou mesmo com cronistas, como Luis Fernando Veríssimo, que afirmou que "todo o nosso corpo é um órgão sexual". "Bom, a exceção talvez sejam as clavículas", completaria ele. Talvez. Vai saber.

Nota: 8,0