quinta-feira, 26 de maio de 2022

Foi Um Disco Que Passou Em Minha Vida - Foo Fighters (The Colour & the Shape)

Mil novecentos e noventa e sete. Se paramos pra pensar nas nossas próprias vidas muito provavelmente existirão alguns anos que são mais relevantes do que outros. Com acontecimentos marcantes - ou nem tanto, mas que pra nós têm significado. O ano da formatura, da carteira de motorista, do primeiro emprego. Do primeiro beijo, do primeiro namoro, da primeira transa. A primeira bebedeira, o primeiro porre para além dos limites da cidade de origem. De tudo um pouco em meio a risadas nas escadas do colégio católico. Mil novecentos e noventa e sete marca alguma coisa no meio do caminho pra esse jornalista que, hoje, aos 41 anos, vos "tecla". Com quinze para dezesseis anos a gente costuma ser uma espécie de nada descobrindo meio que tudo. No final dos anos 90 a tecnologia ainda se resumia a uns celulares em formato tijolão que os pais dos colegas mais playboys utilizavam. Ou um Super Nintendo com Top Gear torando. Era o ano de filmes como Homens de Preto ou Gênio Indomável que, a sua maneira, dialogavam com a moçada, enquanto as acirradas disputas entre os Berdinazi e os Mezenga agitavam o folhetim da noite.

E aí eu me lembro como se fosse hoje da primeira vez em que assisti ao clipe de Monkey Wrench do Foo Fighters, na antiga televisão de tubo da época. A TV a cabo era uma novidade, um luxo recém chegado - e minhas tardes passaram a ser regadas à programas como o Gás Total e o Disk, ambos da MTV. Ver a Sabrina Parlatore anunciando o vídeo da banda de Dave Grohl e companhia era uma espécie de prazer que se mesclava com outras coisas que costumam deleitar os adolescentes. E eu me tornei meio que obcecado por aquela banda. Tão ruidosa mas ao mesmo tempo tão "assobiável". O clipe tinha fúria e doçura na mesma medida - era algo completamente novo pra quem convivia apenas com o que tocava nas rádios ou com apresentações de bandas de pagode aleatórias em shows de auditório dominicais. E não seria por acaso que The Colour & The Shape, disco que completou 25 anos de vida na última semana, se tornaria o primeiro CD adquirido da minha história.

Sim, porque ouvir música em 1997 não era como hoje, onde basta dar play no Deezer ou no Spotify que temos praticamente qualquer música ao nosso alcance. Bendita tecnologia! Mas naquela época, encontrar um disco que nos apaixonava e, mais do que isso, conseguir o dinheiro para comprá-lo, era uma espécie de pequena epopeia, digna de um livro sobre cultura pop que mistura Nick Hornby com Haruki Murakami. Lembro bem que revirei a cidade de Lajeado para ver se encontrava o disquinho da capa azul. Por "revirar a cidade" leia-se ir nas duas ou três lojas que comercializavam discos (uma no shopping local, talvez duas no centro) na tentativa de encontrar o trabalho. Foi em vão, o que fez a missão migrar para outras cidades - e fui encontrar o álbum na vizinha Encantado onde, com o apoio do colega Luciano Girardi (hoje um renomado dentista do citado município), consegui uma edição. Foram meses de espera, é bom mencionar. Mas que valeram a pena.

Ter esse ou aquele CD em 1997 era quase uma conquista pessoal. Se fosse importado então, era uma espécie de vitória em relação aos demais mortais. The Colour & the Shape tinha edição nacional, mas a banda de Dave Grohl e do recém-falecido Taylor Hawkins ainda era um recorte embrionário do grupo gigante que, muito mais tarde, viria a se tornar. Mas na raiz de tudo estavam aquelas músicas - Everlong, Wind Up, My Hero, Up in Arms - uns rockões animados e furiosos, envolventes e porrudos. Ok, hoje em dia a música avançou de tal maneira que o FF quase se tornou uma espécie pálida em meio a profusão de estilos da modernidade. Muitos deles com uma aura mais roqueira que o próprio rock. Ao menos em matéria de atitude. Mas esse disco foi, pra mim, o começo de tudo. Que ampliou meus horizontes - para o britpop, para o grunge realizado anteriormente, para outras vertentes. Pra quem já tinha a paixão pelos Beatles no sangue, esse foi um passo meio que natural. E que foi muito transformador. Em partes, sou quem sou hoje, gosto do que gosto, também por causa do The Colour... E esse passado, eu não posso renegar jamais.


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