quinta-feira, 7 de maio de 2020

Grandes Cenas do Cinema - Em Busca do Ouro (The Gold Rush)

Cena: a famosa sequência da "dança dos pãezinhos".


Em Busca do Ouro (The Gold Rush) é mais um filme de Charles Chaplin que conta com uma verdadeira coleção de sequências inesquecíveis. Da cena inicial em que milhares de figurantes caminham junto a uma montanha gelada - um triunfo para um filme gravado a quase 100 anos atrás -, até o divertido ato final em que o famoso vagabundo e seu amigo Big Jim (Mack Swaim) lutam para sobreviver em um casebre que foi levado à beira de um precipício após uma tempestade, não são poucos os instantes em que drama e humor se misturam para ficar eternizados na mente dos cinéfilos. E talvez a cena que melhor resuma esse espírito seja aquela em que Chaplin faz um número improvisado na noite de Ano Novo, utilizando apenas pães e garfos. Nela, é feita uma espécie de "dança" com os pães, com o objetivo de impressionar um grupo de convidadas - entre elas o interesse romântico, vivido pela atriz Georgia Hale.

E acho que o que mais comove nessa sequência é o fato de toda ela não passar de fruto da imaginação do nosso adorável protagonista. Apaixonado por Georgia - na realidade uma garota de programa que trabalha em um bordel local e que ele conhece meio que por acaso -, Chaplin convida ela e suas amigas para um pomposo jantar na virada de ano. Na cena, ele se empenha em preparar uma mesa bonita ao mesmo tempo em que se ocupa em escaldar um belo frango assado que está no forno (é um tempo de "bonança improvisada", após ele fazer amizade com um sujeito amável, que mora perto das redondezas e que lhe deixa como guardião da casa, enquanto sai para o garimpo). As meninas, claro, não aparecem: o que iriam querer, afinal, com um pobretão que não tem nem um sapato para usar? Pior, debocham dele. Riem da cara dele. Mas em sua imaginação tudo sai a contento: e a dança dos pãezinhos integra esse cenário melancólico e divertido em igual medida.


É claro que, mais tarde, tudo dará certo: Big Jim encontrará uma boa quantidade de ouro e, por conta da lealdade do amigo, dividirá as riquezas com o seu amigo. E Georgia encontrará a sua redenção em mais um momento inesquecível quando, no último segundo do filme, defende o vagabundo de uma perseguição policial em um luxuoso barco (ela acredita que ele pudesse estar ali, clandestinamente). É o final feliz que todos desejávamos, após a dura trajetória do personagem durante o filme Trajetória essa que inclui mais uma sequência até hoje lembrada: aquela em que Chaplin cozinha o próprio calçado para servir a ele e a Big Jim, logo no começo do filme. Uma tempestade os isola, os deixando com fome, frio, solitários e ainda tendo de lidar com o vilão Black Larsen (Tom Murray). A cena do sapato, diz a história, é baseada em eventos reais ocorridos na Corrida do Ouro verdadeira (no final do Século XIX em Sierra Nevada). Sobre as botas consumidas por Big Jim e Chaplin? Eram feitas de alcaçuz por um confeiteiro especialmente contratado para a tarefa.

E foi essa capacidade de rir da própria desgraça e do absurdo das condições de pobreza da época, que tornam Em Busca do Ouro tão atemporal. A gente ri e se comove como em outras comédias de nossos tempos. Era o filme preferido do próprio Chaplin, que sempre desejou ser lembrado por ele, sendo a obra em que ele mais investiu em efeitos especiais (como na cena em que ele se "transforma" em um frango gigante) e em grandes locações (como as já citadas no começo desse texto). Não é por acaso que a obra até hoje, aparece em qualquer lista de melhores de todos os tempos, caso da relação dos 100 melhores filmes de todos os tempos do American Film Institute (AFI) - em 58º lugar na lista atualizada. Em livros como o dos  1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer a película também aparece em lugar de destaque. E nos corações de quem aprecia o bom cinema, a obra-prima está eternizada, seja pela sua envolvente narrativa (dinâmica, leve, ágil), seja por inesquecíveis sequências, como a da "dança dos pãezinhos".

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