De: Marc Forster. Com Halle Berry, Billy Bob Thornton, Heath Ledger e Peter Boyle. Drama, EUA, 2001, 111 minutos.
[ATENÇÃO: TEXTO COM SPOILERS]
A cena em que Sonny (Heath Ledger) tira a própria vida na frente do pai, o policial Hank (Billy Bob Thornton), e do avô Buck (Peter Boyle), em A Última Ceia (Monster's Ball) segue sendo uma das mais impactantes da história moderna do cinema. Ela acontece meio que do nada. Sem que esperássemos aquela solução extrema - mesmo que o jovem habitasse um lar totalmente disfuncional. E como se drama pouco fosse bobagem, instantes antes de dar um tiro no próprio peito, Sonny ainda inquire seu pai, perguntando a ele se, alguma vez, ele já o tinha amado. "Não, eu nunca te amei" é a resposta seca. Perturbado, o rapaz o retruca dizendo um "pois eu sempre te amei" para, segundos depois, restar apenas o corpo atirado por sobre a poltrona, com uma enorme mancha de sangue inundando a camiseta branca. Buck era um pai horrível, como ele mesmo admite em certa altura. Mas há tempo para que a rota seja recalculada? Para que, frente a tantas tragédias, os cacos sejam recolhidos?
A Última Ceia está completando 25 anos de lançamento neste mês e segue ressoando, com sua narrativa sobre racismo, misoginia e violência psicológica - e de como esses comportamentos se perpetuam de geração em geração. "Ele puxou a mãe dele", verbaliza, a respeito do neto, um frio Buck, um idoso decadente que mal consegue se movimentar direito em direção ao banheiro, mas nunca perde a capacidade de reafirmar seus preconceitos. "O que esses 'negros' fazem no meu quintal?", pergunta à Hank, em certa altura, referindo-se a uma dupla de adolescentes da vizinhança, que mantinha algum grau de amizade com Sonny. Hank aprende a ser um intolerante incorrigível daqueles do interior dos Estados Unidos - a ação se passa no Estado da Geórgia - e que, nos dias atuais, vestiria com orgulho o bonezinho Make America Great Again. Grandão de arma na mão. Incapaz de chorar a morte do próprio filho por suicídio. Ou de compreender, ao menos inicialmente, que é parte do problema.
E, é preciso que se diga, essa obra que segue pungente em um País tão dividido pelo ódio - reforçado por seu bizarro, alaranjado, virulento e tirânico presidente - nem sempre é de fácil depuração. Tanto que, muitas vezes, consideraremos as decisões dos personagens, quaisquer que sejam, no mínimo questionáveis. Estamos, afinal, falando do ser humano em toda a sua complexidade. Com seus medos, desejos, incertezas e incoerências. Há uma cena quase ao final em que Leticia (Halle Berry, que venceria o Oscar pelo papel) descobre, por meio de desenhos engavetados, que os algozes do seu marido preso há onze anos (Sean Combs, que Deus o tenha) e enviado para a cadeira elétrica por assassinato, são justamente Hank e o falecido Sonny, que também tentava emplacar uma carreira na delegacia local. Naquela altura do campeonato, Leticia já havia tido com Hank talvez o mais quente, acolhedor e carinhoso sexo em anos, vindo de um sujeito que, inclusive, tinha tentado salvar a vida de seu filho de apenas 10 anos Tyrell (Coronji Calhoun), que havia sido atropelado em uma noite chuvosa.
Esse é o momento em que Leticia, endividada e despejada previamente, senta na varanda e olha reflexiva para o quintal, onde jazem de forma suntuosa os corpos de ambos os filhos da dupla, mais o do pai de Hank. Ficam só os dois. Tentando recomeçar. Hank é gentil com ela, após uma saída noturna para buscar seu sorvete preferido. O mesmo homem racista de outrora, agora parece disposto a um relacionamento com uma mulher preta. E isso depois de anunciar a aposentadoria, comprar um posto de gasolina e tentar ainda uma aproximação do pai dos meninos enxotados de seu quintal, que trabalha como mecânico nas redondezas (papel pequeno, mas bonito, de Mos Def). Sim, hoje em dia as pessoas podem achar que é muita forçação um preconceituoso incorrigível se ajeitar na vida, depois de tanto levar porrada. Mas estamos falando de uma obra de 25 anos atrás, quando estes temas ainda surgiam, aqui e ali, como pequenos ensaios hollywoodianos sobre o tema (vale o mesmo para o sempre impactante A Outra História Americana, lançado três anos antes). Ao cabo, trata-se de uma obra robusta, com ótimas interpretações e que segue ressoando frente ao impacto dos acontecimentos.

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