De: Genki Kawamura. Com Kazunari Ninomiya, Yamato Kochi, Kotone Hanase e Naru Asanuma. Suspense / Drama, Japão, 2025, 95 minutos.
Vamos combinar que alegorias cinematográficas sobre a estagnação da vida, as dificuldades de seguir em frente ou o sentimento de seguir meio preso em uma mesma rotina não chegam a ser novidade. De obras divertidas como Feitiço do Tempo (1993), passando por experiências emocionais e sufocantes como O Show de Truman (1998) ou existencialistas como Sinédoque Nova York (2009), não foram poucas as produções que tornaram a repetição como um acontecimento ligado a outras travas - afetivas ou morais. E também há aqueles casos em que uma obra sobre pessoas enclausuradas em loopings temporais infinitos talvez sejam apenas um exercício de estilo, que leva o terror até o limite sem que haja uma grande explicação simbólica por trás. Onde a coisa ocorre apenas para nos deixar apreensivos, sem que haja um significado maior por trás - e, na cabeça me vem de imediato o clássico moderno cult Cubo (1997), que aterrorizou plateias da década de noventa, com os seus acontecimentos enigmáticos.
Talvez o curioso Exit 8 (8番出口) seja mais o estilo da segunda categoria. Ou talvez uma mescla das duas, especialmente pelas ocorrências do primeiro ato, chamado apenas de Homem Perdido (sendo este interpretado por Kazunari Ninomiya). Assim como faz, provavelmente, dia após dia, esse sujeito pega o metrô, se espreme entre as pessoas - com seus hábitos e estranhezas -, vai para o trabalho, almoça, volta, chega em casa, algumas horinhas de descanso, come, mija, assiste TV, dorme e volta no dia seguinte e novamente, para viver aquele dia repetidas vezes, por semanas, anos, décadas. Ao cabo, essa é a vida de qualquer pessoa. Rotina, tédio, vazio - e nem é preciso ser um grande conhecedor de metáforas para perceber que esses comportamentos mecânicos, cotidianos, quase como na música de mesmo nome de Chico Buarque (Todo o dia ela faz tudo sempre igual / Me sacode às seis horas da manhã) nos possibilitam identificação imediata.
Só que neste dia, em especial, o Homem Perdido recebe uma ligação de uma aparente ex-namorada, com uma notícia que lhe deixa em choque: ela está grávida. E, pior do que isso, como se abalo pouco fosse bobagem, ele ainda presencia um empresário irritado no metrô que, publicamente e sem nenhum constrangimento, apupa uma jovem mãe que, simplesmente, não consegue fazer com que seu bebê pare de chorar. Um assunto, queira ou não, se conecta ao outro: um filho que certamente representará um ponto de virada. Justamente antes de ele entrar em um longo corredor em L que se repete, se repete e se repete em uma infinidade de corredores em L que direcionam pra tal saída número oito. Apenas um outro sujeito sisudo passando. Cartazes espalhados pela parede. As mesmas portas e sistemas de ventilação. Placas com algumas informações e temos um sujeito preso em uma realidade embaralhada, dobrada, que se repete meio que sem explicação. E para fugir dali será necessário reconhecer pequenas anomalias do trajeto, mudando rotas que possam intervir nessa realidade paralela torta recém estabelecida.
Parece complexo e em alguma medida talvez seja. E, como eu disse, talvez tenhamos aqui uma excelente ferramenta simbólica de como notícias ou acontecimentos inesperados são capazes de nos tirar da zona de conforto ou do lugar a que estamos acostumados. Sendo necessários novos movimentos para que possamos ir adiante. A chegada de um filho talvez seja um exemplo óbvio de como as coisas mudam profundamente nas nossas vidas - e de como pode haver um apego a um passado que não mais retornará. Ou vai ver que Exit 8 é apenas um filme inspirado em um jogo de videogame indie (lançado em 2023 e eu só soube disso após ver a obra), que brinca com nossos medos, temores, indecisões e incertezas. Reforçadas por temas ligados à avanços tecnológicos, redes sociais, burocracias, distopias políticas, alienação urbana e vigilância estatal. Em uma obra assim há margem para uma serie de interpretações. Com as possibilidades se ampliando conforme outras personagens - O Caminhante e o Menino - entram na trama, no transcorrer da história. Curioso, excêntrico, moderno e com ótimo, ainda que simples, aparato técnico - do desenho de produção à trilha sonora - esse é aquele tipo de projeto que alude à exaustão do mundo, ao mesmo tempo em que olha com ternura para aqueles que simplesmente insistem em existir. Vale conferir.
Nota: 8,0

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