segunda-feira, 1 de junho de 2026

Novidades em Streaming - A História do Som (The History of Sound)

De: Oliver Hermanus. Com Paul Mescal, Josh O'Connor e Chris Cooper. Drama / Romance, EUA / Reino Unido / Itália, 2025, 128 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

Vamos combinar que se o subgênero do "drama do gay triste" pode até não estar oficialmente formalizado, ainda que caminhe para isso. Até porque parece haver uma convenção meio incômoda de que narrativas queers necessitam, inevitavelmente, virem acompanhadas de sofrimento. De O Segredo de Brokeback Mountain (2005), passando pelo premiado Moonlight (2016) e, claro, por alternativos, como, Todos Nós Desconhecidos (2023), a impressão que se tem é a de que a experiência gay, especialmente a masculina - sempre carregada de uma tonelada a mais de preconceitos - parece ter de vir, invariavelmente, acompanhada de perda, de luto, de dor. Ou mesmo da impossibilidade da felicidade amorosa - como uma espécie de punição meio que natural, do ponto de vista conservador, para aquilo que é claramente desviante. Que foge da lógica ou das convenções. Meio que como a jovem depravada que é a primeira a morrer nos filmes de terror, guardadas todas as proporções.

E, é preciso que se diga que não há nenhum problema nesse estilo, que já nos brindou com grandes produções - como as citadas acima. Só que, às vezes, a impressão que se tem é que a mão pesa um tanto na abordagem desse sofrimento quase infinito, desesperançoso. O que piora quando a obra passa a impressão de ter potencial para explorar outras subtramas para além do "veja bem como esse homem sofre em silêncio e dentro do armário em tempos tão complicados" - e esse parece ser exatamente o caso de A História do Som (The History of Sound), do diretor Oliver Hermanus. Exibido em Cannes e estrelado por Paul Mescal e Josh O'Connor, esse é aquele tipo de filme elegante, de grande apuro técnico - da fotografia ao desenho de produção -, mas que quase se torna cansativo ao nos apresentar um romance secreto entre dois estudantes de um conservatório do começo do século passado que termina, claro, de forma trágica.

 


Quando a obra começa começa, uma narração em off nos apresenta uma ideia interessante e que meio que simplesmente desaparece alguns minutos depois: a de que algumas pessoas possuem uma habilidade única de perceber a música para além do som. Um dom. Como se o barulho - seja da natureza ou dos instrumentos - tivesse cor, sabor. E, sim, a gente sabe que isso pode acontecer, de associar uma canção a algo para além do abstrato e eu considerei isso tão bonito e essa parece ser justamente a capacidade do protagonista Lionel Worthing (Mescal), que eu achei um pecado isso ser ignorado, mais adiante. Claro, a música é justamente o que conectará Lionel - que tinha no falecido pai - com sua viola na varanda de sua pequena propriedade do interior do Kentucky uma referência -, à David White (O'Connor), que ele conhece em um pub de New England (ele toca justamente uma canção folclórica que era tocada por seu pai na juventude, num instante nostálgico, caloroso e bonito).

Após iniciaram um relacionamento às escondidas, David é convocado para a primeira guerra (o ano é 1917). Quando retorna do conflito, dois anos depois, a dupla se reaproxima para a execução de um inovador e simpático projeto universitário, que está no centro da melhor parte da narrativa (e que tenho a impressão que, por si só, renderia um filme à parte), e que envolve a captura de músicas folclóricas em cilindros de cera pela América rural. O que seriam, na realidade, os primórdios da gravação de sons, ainda de forma rudimentar. E, bom, se o filme poderia centrar mais a coisa na história do som, como sugere seu título original, não podemos esquecer que essa é a obra de gay sofrendo. E, por mais que a música tradicional, antiga, passada de geração a geração, se espalhe de forma fluída por cada fragmento da produção - de forma vagarosa, melancólica -, lá pelas tantas a dupla se separa, quando Lionel vai tentar a vida em Roma, cantando em um prestigioso coral. E o belo trecho em que aparece a antiga The Unquiet Grave - sobre um homem em luto que fica ao lado do caixão da esposa morta, não deixando-a descansar -, é a deixa, de forma alegórica, para os acontecimentos que virão mais adiante. Com o luto infinito percorrendo décadas.

Nota: 6,5 

 

Novidades em Streaming - Manas

De: Mariana Brennand. Com Jamilli Corrêa, Rômulo Braga, Dira Paes e Fátima Macedo. Drama, Brasil, 2024, 101 minutos.

"Não existe felicidade fora do projeto de Deus. Do projeto de Deus chamado família". Vamos combinar que a cena de uma pastora da igreja evangélica discursando em favor da família - enquanto que meio que todo o mundo sabe que grande parte da violência sofrida por crianças e adolescente da região de Marajó, no Pará, cenário do filme Manas, emerge do ambiente doméstico -, é só uma forma de evidenciar a hipocrisia não apenas daquelas pessoas, mas da nossa sociedade. "Tem coisa que não adianta tu querer mexer", alerta uma desalentada Danielle (Fátima Macedo), que está grávida de mais um filho do marido Marcílio (Rômulo Braga), enquanto trava uma luta interior para acobertar os abusos praticados pelo homem contra a sua filha Marcielli (Jamilli Corrêa), ao mesmo tempo em que parece sonhar, com o olhar duro, vulnerável e melancólico, com o fim do ciclo de violência.

Ao cabo, a obra da diretora Marianna Brennand nunca é fácil. E talvez por ser tão evidente - ainda que, paradoxalmente, sutil - em sua abordagem, o desconforto se amplie. O histórico de violência naquela localidade (aliás, no Brasil como um todo) não é novidade - inclusive com a pauta sendo apropriada politicamente pelas piores pessoas do planeta, em sua ignorância gritante, sempre acreditando que Deus pode ser a cura de tudo. Marcílio, Danielle e as filhas alternam os dias em um templo improvisado junto às águas, em que cantos evangélicos meio constrangedores ecoam, ao mesmo tempo em que sobrevivem colhendo açaí e camarão, que será comercializado, especialmente na balsa - local em que os moradores sabem que as violências sexuais se ampliam, com a presença de forasteiros, homens adultos, oferecendo dinheiro ou comida para as adolescentes. 

 


Quando o filme começa, meio que a ficha demora para cair para o espectador. Se a balsa parece suspeita, o ambiente doméstico soa parcialmente seguro - especialmente pela presença ensolarada de Marcílio, que alterna algum tipo de afeto rústico, com gestos disciplinadores de quem ensina desde cedo valores como trabalho. Mas é aí que reside o pulo do gato, já que a confiança no adulto também tende a burlar a identificação dos limites por parte da ponta mais vulnerável da equação. E, de fato, a coisa começa a ficar estranha quando a rede de Marcielle estraga e o pai a convida para deitar em sua cama. O que poderia ser apenas a sugestão de algo carinhoso, se torna mais evidentemente desprezível quando o sujeito convida a filha para uma caçada no mato. A primeira caçada - num simbolismo torpe e repulsivo do ato que ele está prestes a praticar. Ciente do que acontece, a jovem tenta forjar, em vão, uma carteira de identidade falsa no posto local, o que poderia lhe possibilitar uma espécie de fuga, assim como fez a sua irmã mais velha Cláudia que, aos 19 anos, foi embora dali para nunca mais voltar.

Naturalista e em estilo documental - aliás, Mariana Brennand é documentarista -, a obra, que esteve na nossa pré-lista do Oscar desse ano e recebeu dezenas de prêmios internacionais, tem uma fluidez própria, não tendo pressa em expor suas ideias. Tecnicamente bem executada, a produção é daquelas que utiliza os sons da natureza - o zumbido dos bichos repetitivo e letárgico, ou mesmo a ondulação constante das águas -, como forma de evidenciar ainda mais o caos interior e a moral abjeta das ocorrências locais. Um tipo de entorpecimento visto em outros filmes como A Febre (2019) ou mesmo nas obras do diretor Apichatpong Weerasethakul - guardadas as devidas proporções temáticas, claro. "Eu fui caçar sozinha com o pai", praticamente grita a protagonista à Jaci (Ingrid Trigueiri) uma exasperada comerciante local, que a lembra que isso não acontece só com ela. "Você tem que tentar a vida na cidade", a alerta. A presença da delegada Aretha (Dira Paes), uma funcionária do Estado que surge como figura de proteção, parece acender em Marcielle uma faísca que já estava pronta para queimar. Como se interrompe um ciclo de violência que se perpetua de geração em geração? Talvez a medida tenha de ser mais drástica. Alegórica ou não. É o recado que fica dessa experiência vigorosa e cheia de simbolismos, que vale ser conferida.

Nota: 9,0